Eu esperei todos se dispersarem para ir embora também. Vi quando Sophie e Enny consolaram Gabrielle e quando Nina saiu marchando para longe. Eu queria imintá-la, mas alguma coisa ainda me segurava ali. Depois meus pais se foram, abraçados, conversando sobre sei-lá-o-quê. Meu irmão estava lutando para conseguir adiar a conversar que teria com Amélie, mas ela estava disposta a ficar grudada nele o tempo que precisasse. Então depois de alguns minutos enrolando ali, ele aceitou a sua proposta de ir passear pelo jardim. Os dois saíram, ela quase saltitando, ele arrastando os pés, e me deixaram ali sozinho, mirando as portas que tinham acabado de se fechar.

Meus pés não queriam se mexer, eles se recusavam a sair dali. Eu estava cansado de tudo aquilo, essa era a verdade. Eu sentia como se estivesse tentando levantar a cabeça para respirar, mas toda vez que eu o fazia, não conseguia ar o suficiente antes de ter que mergulhar de novo.

E eu sabia que só tinha uma coisa que me deixaria melhor. Mas eu esperei mais alguns minutos, deixando minha cabeça entender o que tinha acabado de acontecer. Olhava para as portas, pensando em quem tinha ido embora, em toda a seleção. Era engraçado pensar que tudo aquilo tinha começado há três semanadas. Trinta e cinco meninas. Tinha começado com trinta e cinco. E agora eu tinha seis. Eu poderia ter ficado com mais, não tinha que ter acelerado aquilo. Eu poderia ter começado a Elite com dez, como era de costume. Poderia ter deixado Melody ficar, ou talvez Vanessa.

Eu não sabia me desapegar das coisas, não sabia destruir os sonhos de alguém. Eu realmente não era bom em ter que causar mal a alguém, não consciente disso. E o meu maior medo era não conseguir fazer o trabalho sujo quando precisasse. Ser rei não era fácil, eu não teria só coisas boas para fazer. Eu teria que fazer várias ruins, pensando em um bem maior. E eu temia não conseguir encarar esse tipo de decisão na hora em que precisasse.

Depois de ter curtido o adeus sozinho por um tempo, comecei meu caminho até o quarto de Gabrielle. Eu não queria brigar com ela, mas eu não queria ir para nenhum outro lugar. Eu precisava resolver o que fosse naquela hora, do jeito que fosse. E eu ainda tinha muito o que lhe falar.

Por coincidência cruel, eu estava para bater na porta dela, quando ouvi um barulho atrás de mim.

"Alteza," ouvi Beatriz dizer logo que me virei. "Está tudo bem?"

"Sim," disse, sorrindo, depois me virei de volta para a porta.

"Eu estava mesmo querendo falar com você," ela andou até o meu lado, me impedindo de bater. "Será que teria como nós conversarmos um pouco?"

Suas sobrancelhas estavam franzidas e ela me suplicava com os olhos.

Tive que engolir a seco, mas resisti.

"Pode ser daqui a pouco?" Perguntei, mas não era uma sugestão, pois bati na porta de Gabrielle antes que ela pudesse me contestar.

"Está bem," ela disse, desanimada, se virando e andando pelo corredor.

Gabrielle abriu a porta quando eu ainda estava olhando para Beatriz.

"Ei," falei, me virando para olhá-la.

"Ei," ela disse, mordendo o canto do lábio.

"Posso entrar?" Perguntei e ela concordou com a cabeça, abrindo a porta o suficiente para eu passar.

Suas janelas estavam todas abertas e o vento que entrava era bastante frio. Mas, de certo modo, aquilo me era reconfortante. Era como se sofrer de frio me fizesse imune ao resto. Me perguntei se era por isso que ela tinha preferido deixar o vento entrar.

"Eu precisava falar com você," disse, me virando para ela.

"É, eu também," ela se sentou na cama e eu fui até ela.

"Eu quero que você saiba que você é uma das mais importantes para mim," eu comecei, me sentando. "E eu nunca quis te fazer mal," disse, pensando que falar sobre o que quer que eu poderia ter feito só pioraria tudo. E tentar culpá-la também não ia ajudar muito.

"Independente disso," continuei, enquanto ela só me escutava, "eu quero muito que você fique. Muito mesmo. Sério, eu não sei o que seria de mim aqui sem você," dei uma risada para tentar deixar a atmosfera mais leve, mas não funcionou. "Eu realmente preciso de você aqui, Gabrielle," disse sério. "Mas a escolha é sua. Se você quiser ir embora, eu vou te liberar. Não quero te segurar aqui contra a sua vontade."

Ela levantou as sobrancelhas, surpresa, e levou uma mão à boca. Eu não sabia se aquilo era tudo que ela queria ouvir ou se ela estava assustada. Eu realmente esperava que ela só me negasse, me dissesse que não. E nos segundos em que ela ficou em silêncio, eu senti um impulso de retirar o que tinha dito, de falar que na verdade ela nunca poderia deixar o castelo, nem que eu a tivesse que amarrar à cama.

Mas me controlei, por sorte. No fim das contas, eu ainda queria deixá-la feliz. E eu já não suportava mais vê-la desanimada. Eu não queria que ela me visse daquele jeito, como algo que a derrubasse. Eu queria era levantá-la.

"Está bem," ela disse, depois dos segundos intermináveis sem falar.

"Está bem?" Perguntei, tentando entender o que aquilo significava. "Então você quer ir?"

Ela encontrou meus olhos e me sorriu, triste. "Eu não posso ir," disse, para a minha felicidade. "Mesmo que eu quisesse, eu não posso."

"Por que não?"

Seu sorriso deu lugar a uma torção de nariz e seus olhos buscaram outro ponto de foco à nossa volta.

"Eu não posso simplesmente ir embora depois de tudo isso, Charles," ela disse e suspirou. "Mesmo que eu odeie ficar, eu vou odiar ainda mais ir embora."

Todas aquelas palavras me pareciam tanto amargas quanto pareciam doces. Mas eu estava disposto a tirar o melhor proveito daquilo.

"Eu te prometo," falei, chegando mais perto dela, "que eu vou fazer o que eu puder para te deixar feliz. O que você quiser, é seu. Você só precisa me pedir. Eu faço o que precisar para você não odiar mais ficar aqui."

Não pude evitar, minhas mãos encontraram as suas e eu as segurei, tentando ajudar no meu pedido. Ela as segurou de volta, seu dedão fazendo carinho nas costas de uma mão minha, enquanto ela observava nosso toque, pensativa.

"O que eu quero," ela disse, depois de um tempo, "é que você seja sincero comigo. Se você quer me ver, me fala. Se não quiser também, não tem problema," seus olhos encontraram os meus e eu percebi que aquilo a incomodava. "Eu entendo que você tem outros compromissos, de verdade. Eu só preciso que você me conte as coisas, que me fale porque não pode me ver, porque não pode conversar comigo. Eu só queria que você confiasse em mim, na minha maturidade, para entender quando eu não sou prioridade. Eu não vou surtar toda vez que você tiver que passar algum tempo com outra menina. Eu só não quero que você me esconda nada. Não quero que tenha que mentir para mim. O que eu quero é que você saiba que pode confiar em mim, que eu estou aqui por você. Não só no mesmo sentido em que todas as outras estão. Mas eu estou aqui para te apoiar no que você precisar. Eu só preciso que fale comigo."

Suas palavras me deixar mudo por um tempo. Eu esperava qualquer coisa, menos aquilo. E o que ela me pedia era tão fácil, eu estava louco para começar o mais rápido que pudesse! Eu só não sabia por onde começar.

Até que me veio uma ideia.

Eu me inclinei em sua direção, acabando com o espaço que tinha entre nós, encostando meus lábios nos seus. Meu plano era só lhe dar um beijo rápido, meu jeito de falar que eu estava disposto a dar tudo que ela queria. Mas sua mão encontrou o meu rosto e a minha encontrou o dela. Sem pensar, nós estávamos nos ajoelhando em sua cama, tentando ficar cada vez mais perto um do outro. Minha mão desceu de sua nuca para as suas costas, e ela me abraçava com força, não me deixando me afastar nem um centímetro dela.

Mas eu não sabia se continuava beijando-a ou se parava para olhá-la. Eu queria os dois, eu queria poder saborear que eu estava ali com ela, que era ela que retornava meus beijos. Era ela que me abraçava, era ela que brincava com o cabelo na minha nuca, que arranhava meus ombros de leve quando se apoiava em mim. E eu queria olhar nos seus olhos, eu queria ver nela tudo aquilo eu estava sentindo no peito.

Mas eu queria mais do que aquilo. Eu queria explorar cada centímetro dela, tentando guardar em mim cada pedacinho dela. A única certeza de que eu tinha era que eu a tinha ali comigo, naquele momento. E eu precisava aproveitar o máximo que podia. Fui baixando meus lábios para o seu pescoço e ela levantou o rosto, me deixando descer até seu ombro. Eu afastei a alça de seu vestido, deixando-a cair de lado, beijando seu ombro enquanto a segurava firme pela cintura.

Ela logo se abaixou para mim, segurando meu rosto com as duas mãos. Ela me trouxe de volta para perto dela. Dessa vez ela não só retribuiu meu beijo, ela que encostou seus lábios nos meus, ela que me trouxe para ela. E ela foi se inclinando para trás, sem me deixar soltá-la, até que nós dois estávamos deitados, eu em cima dela.

Eu pude brincar com os seus sentidos por mais um pouco, enquanto todas as dúvidas que eu tinha sobre ela me querer desapareciam da minha cabeça. Mas fui sentindo que se eu continuasse, eu não conseguiria parar. Então fui diminuindo nossos beijos, me afastando devagar dela. Mas não era fácil, e toda vez que eu me distanciava e olhava para ela, eu sentia uma vontade enorme de beijá-la de novo. E eu não hesitava, eu não me questionava. Meus lábios encontravam os dela sem que eu pudesse impedi-los.

Tive que acabar me separando dela, me desculpando e explicando que não era fácil para mim ter que me segurar. Mas que eu queria que ela soubesse que era importante para mim.

Saí de lá pronto para correr uma maratona, precisando loucamente descarregar a energia que seus lábios me tinham passado. Mas eu nem pensei em ir para o quarto de Beatriz, fui direto para o meu, onde eu fiquei andando de um lado para o outro, repassando na minha cabeça cada segundo que eu tinha passado do lado dela.

Na terça-feira de manhã, eu tinha algumas coisas para fazer. Naquela noite seria a festa de Halloween e as meninas passariam o dia inteiro se arrumando. Eu mesmo já tinha minha fantasia pronta fazia algum tempo. Estava planejando me vestir de Napoleão. Seria perfeito. Ele tinha sido imperador. E francês. Está bem que ele não seria o par perfeito para a fantasia de Gabrielle (que eu sabia que seria da Marie Antoinette), mas ainda era francês. Ainda era claro que era por ela. E eu poderia fingir que era sem querer, já que nem era para eu saber antes qual seria a fantasia de quem. Tive que contar com Marlee para isso.

A primeira coisa que eu tinha que fazer depois do café da manhã era ir até o quarto de Nina, para as fotos. O vestido dela estava quase pronto, já pendurado no manequim, só precisando de alguns ajustes. Mas nós posamos para as fotos, olhando os desenhos, segurando tecidos no ar. Sorrimos e sorrimos, até que o fotógrafo estava satisfeito. Ele disse que precisava descarregar as fotos, então eu combinei de encontrá-lo no quarto da Arya em dez minutos.

As criadas de Nina tiveram que sair, levando o vestido com elas. E logo eu estava sozinho com ela, pela primeira vez desde que eu tinha descoberto os sentimentos do meu irmão.

"Está animada para a festa?" Perguntei, tentando quebrar o clima esquisito que estava sobre nós, enquanto eu fingia analisar os desenhos que estavam em cima da sua mesa.

Eu não podia falar o que estava pensando, eu tinha prometido para o meu irmão que não iria estragar tudo. O problema era que eu também não poderia dar a entender que eu ainda a considerava parte da seleção.

"Estou," ela falou, mas deu de ombros.

"Eu podia jurar mesmo que você escolheria se vestir como a Jane Austen."

"Elizabeth Bennet," ela me corrigiu, mas sorriu. "É, não existe ninguém do mundo com quem eu gostaria de trocar de lugar, só ela."

Eu ri comigo mesmo daquilo, me perguntando se ainda tinha tempo para eu falar para Sebastian se vestir de Sr. Darcy.

"E você?" Ela perguntou, me fazendo olhar de novo para ela.

"Eu o quê?"

"Se pudesse trocar de lugar com alguém, quem seria?" Ela perguntou, apesar de eu ter rezado na minha cabeça para ela só querer saber do que eu iria me fantasiar.

Mas se eu pudesse ser qualquer outra pessoa, quem eu seria? Eu não tinha a menor ideia. Eu não sabia nem por onde começar a pensar.

"Acho que eu mesmo," falei depois de um tempo, dando de ombros.

"Não, vai, escolhe alguém," ela insistiu. "Qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo. Mesmo alguém que não exista de verdade, tipo a Elizabeth. Você pode ser quem você quiser, quem você é?"

Eu não queria brincar daquilo, eu nunca tinha me dado o luxo de imaginar uma vida diferente daquela que eu vivia. Até mesmo nos momentos em que eu desejava ser outra pessoa, nunca era alguém específico. Eu sempre só pensava em coisas que mudaria, nunca em realmente ser outro cara, em outra vida.

Mas eu senti como se devesse à Nina pelo menos tentar pensar em alguém. Se eu não chegasse a lugar nenhum, poderia terminar falando que seria então o Napoleão.

Meus olhos desceram do seu e depois miraram fora da janela, enquanto eu pensava. Quem eu seria? O que eu mais queria na vida? Quem tinha o que eu mais queria?

Eu tinha. Era eu quem tinha o que eu mais queria. Eu é que tinha beijado Gabrielle no dia anterior, ela estava ali por mim. Eu era quem ela queria que confiasse nela. Eu que podia abraçá-la, eu que podia correr para ela naquele momento e tê-la em meus braços. Como eu poderia querer trocar de vida com outra pessoa assim? E logo outra pessoa que não tinha o que eu tinha, que era o que eu tanto queria.

"Napoleão," eu disse, me virando para Nina. "Mas só se eu tivesse mesmo que escolher outra pessoa."

"Por que ele?" Ela insistiu.

Pensei que fosse difícil inventar uma razão, mas foi bem fácil.

"Ele era mais do que imperador, sabe?" Expliquei. "Ele se desgastava como desse para conseguir levar seu país para a frente. Ele lutava junto com o exército. Não me entenda mal, ele ainda se achava superior. Por isso mesmo ainda continuava com aquele memorial enorme dele em Paris. Mas mesmo se achando mais importante do que qualquer outra pessoa no mundo, ele não conseguia só ficar sentado no palácio, deixando os outros arriscarem a sua vida. Ele enfrentava, mesmo na sua loucura. E eu acho isso legal."

Nina ficou satisfeita, seu sorriso crescendo conforme eu falava. Nós dois estávamos tão longe um do outro, me perguntei se ela também sentia aquele clima estranho que tinha entre nós.

De repente, eu me lembrei da minha promessa para Gabrielle. Eu queria contar para ela que ela tinha uma competidora a menos, que Nina só estava ali por causa do meu irmão. Eu queria mostrar boa fé, queria que ela visse que eu estava disposto a compartilhar coisas com ela que ela teria que guardar para si mesma.

Sorri de volta para Nina e disse que precisava ir. Ela entendeu e não se importou, voltando a sentar-se na frente da mesa, do mesmo jeito que eu a tinha encontrado. Antes de fechar a porta atrás de mim, olhei por cima do ombro para ela, que desenhava com sua aquarela, perdida em seus próprios pensamentos.

E eu pensei comigo mesmo que eu queria muito que ela não se importasse comigo, que ela quisesse meu irmão de volta. Tudo aquilo estava indo bem demais até aquela hora, mas poderia muito bem explodir na nossa cara se nós continuássemos contando com ela se apaixonando pelo meu irmão, quando ela ainda estava pensando em mim.

Eu precisava pensar em jeitos de me afastar dela e de tentar empurrá-la para ele.