Quando a Chuva Encontra o Mar: Uma Nova Seleção
73 Capítulo 73: POV Enny Knout
Eu saí do meu quarto usando um vestido cinza claro e bem simples perto do que as outras selecionadas tinham escolhido para o Jornal Oficial. Eu já tinha desanimado da seleção, de verdade. Eu não sabia como ir atrás do príncipe ou o que esperar dele. Eu só sabia esperar. E toda vez que eu me pegava imaginando como seria nosso próximo encontro, eu me afogava em vergonha por tudo que eu tinha contado para ele da última vez.
Tudo sobre o meu pai. Era muito estranho pensar que ele sabia da história. Era como se eu o tivesse convidado para uma parte muito íntima de mim. E eu só fiz isso porque meu irmão vir para a festa de Sebastian tinha me lembrado do seu conselho. Que eu deveria me abrir e não me fechar para o mundo.Mas o problema de me abrir era que eu não era boa naquilo. Pelo contrário, era péssima! E eu passei todos os dias daquela semana repassando na minha cabeça tudo que Charles tinha me dito, todo o seu jeito de reagir. E eu não conseguia pensar em nada que ele poderia ter feito melhor, sério. Ele era compreensivo e carinhoso e me fez me sentir tão à vontade para lhe contar tudo, que eu nem podia reclamar disso. Esse não era o problema, nem de longe.O problema era que eu não estava acostumada com tanta vulnerabilidade. E toda vez que eu lembrava que eu tinha praticamente chorado na frente dele, eu só me odiava mais! Eu não queria parecer fraca, eu não queria ser a menininha que tinha uma bagagem enorme. Não gostava nem de pensar que alguém sabia que eu já tinha sentido alguma coisa.Eu sabia que parecia besteira, até me falava isso. Mas tudo em mim lutava contra a ideia de me deixar abrir assim, me deixar parecer frágil. Sentimentos são as fraquezas das pessoas. São o que as fazem fracas. Se eu tivesse que derrubar alguém, seria neles que eu miraria. E eu não queria ser o tipo de pessoa que poderia ser derrubada.Nem queria parecer ser esse tipo de pessoa.Então eu não gostava nem de lembrar que tinha passado por aquilo. E nem queria muito ver Charles de novo, porque todo café da manhã, toda vez que ele passava por mim, eu só conseguia lembrar que ele conseguiria me derrubar se quisesse. Ele tinha esse poder. Então já era natural para mim querer desistir nesse ponto ao invés de tentar levar essa ligação que eu tinha com ele para mais longe.Por isso mesmo eu estava me vestindo mais simples, mas normal. Não queria chamar atenção. Pelo contrário, queria que ele me esquecesse.Eu andei até o Grande Salão, onde a maioria das meninas já se encontrava, e me sentei no meu lugar. Ainda éramos muitas e aquilo não ajudava com o meu nervosismo. Não queria nem imaginar que ele poderia contar minhas fraquezas para qualquer uma delas e que ele poderia muito bem usá-las contra mim. Eu realmente tinha contado aquilo para um cara que ainda nem tinha me escolhido."Enny?" Ouvi atrás de mim e me virei para encontra Abbie me olhando nervosa."Oi?" Perguntei, desconfiada.Ela sorriu para mim, como se estivesse prestes a me pedir o maior favor do universo e eu já fiquei com um pé atrás. Antes de falar mais alguma coisa, ela se levantou e sentou na cadeira do meu lado, que estava vazia."Você não tinha um irmão que veio para cá?" Perguntou, sem me olhar."Tenho," falei, ainda estranhando tudo aquilo. "Por quê?""Nada," ela disse, dando de ombros. "É só que eu não vi você falando com ele durante essa semana. Achei que os familiares podiam ficar aqui mais esses dias.""É," eu olhei para as cadeiras das poucas pessoas que ainda estavam visitando. A grande maioria ainda era da realeza de outros países. "Ele não podia ficar, ele tinha que cuidar do nosso hotel.""Ah, vocês tem um hotel, é?" Ela perguntou, tentando parecer desinteressada."Sim," falei, observando como ela estava apoiada nos joelhos, olhando em volta de nós.Não estava entendendo bem porque de tudo aquilo, ela que tinha ido até ali, ela que tinha me chamado. Não entendi direito qual era seu objetivo.Até que caiu a ficha."Abbie, o que você quer saber do meu irmão?" Perguntei, fazendo-a se virar para mim de olhos arregalados."Eu? Por que eu iria querer saber alguma coisa?" Ela soou ofendida demais para alguém que não quisesse de verdade."Não sei," falei, tentando amaciá-la. "Depois do jeito que você falou com ele, pensei que tivessem ficado amigos."Ela torceu o nariz de leve, pensando naquilo."É, acho que a gente virou amigo sim," disse, um pouco incomodada com alguma coisa. "Não sei direito.""Abbie?""Oi?" Ela levantou seus olhos para mim e eles brilhavam de um jeito meio encantado, meio triste.Foram eles que me fizeram entender o que estava acontecendo. E até fiquei com um pouco de dó dela quando percebi porque ela estava agindo daquele jeito."Se eu fosse você," falei baixinho, "eu nem pensava nisso.""Nisso o quê?" Perguntou, mas parecia ainda mais desanimada, o que me falava que ela tinha entendido."Meu irmão sai com todas as meninas que ele pode," falei. "Ele pode parecer bem incrível no começo, mas esse é o jogo dele. Ele te conquista, depois te larga e nem lembra o seu nome."
Ela deu de ombros, mas estava tão nervosa que pareceu ainda mais incomodada. "Não estava pensando em nada," disse."Melhor assim," falei. "É sério, você seria boa demais para ele. Ele não se apaixona, ele só gosta de deixar meninas apaixonadas.""Enny," ela se virou para mim, séria. "Eu não o quero, não se preocupe. Eu quero o Charles," ela disse, olhando por cima do ombro para onde a família real estava sentada. "Eu nunca pensaria no Duck desse jeito, não se preocupe.""Está bem," falei, e ela se levantou da cadeira, indo para a que estava atrás de mim de novo.Dei uma olhada por cima do ombro, só para vê-la sentada ali, queixo para cima, completamente recomposta. Nem parecia direito a mesma pessoa, nem parecia que tinha acabado de ouvir que o cara que ela queria era mulherengo demais para levá-la a sério.Ou talvez ela não o quisesse de verdade, e eu que estava imaginando aquilo. Às vezes eu tinha entendido errado.Não, não achava que era isso. Duck tinha me feito ter aquela conversa com várias amigas minhas durante a minha vida inteira, e era normalmente daquele jeito que sempre acontecia. Eu já tinha passado por aquilo mil vezes para não reconhecer quando aparecia na minha frente. Ele continuava soltando seu feitiço pelo seu caminho, derrubando todas as meninas que podia. E eu mal podia esperar para lhe escrever e contar que mais uma tinha sido fisgada.
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