Eu não sabia se tinha dado certo ter respondido o bilhete de Charles como Gabrielle. Não era como se eu pudesse simplesmente ir até ele e perguntar. Ela continuava andando pelo castelo toda feliz, olhando para o nada, sonhando acordada. E aquilo me irritava. Eu que deveria estar assim. E ela olhava para nós como se já tivesse ganhado.

Mas ela não tinha ganhado. E se dependesse de mim, ela não ganharia.

Eu ainda tinha uma carta na manga.

O problema era que Charles só tinha sido rejeitado. Só isso. E na hora, isso parecia algo tão grande, tão malévolo. Mas, pensando bem, era até meio tonto. Eu precisava dar um passo adiante.

Não foi fácil. Meu plano era claro, mas toda a execução foi um pouco mais complicada do que eu estava esperando.

A primeira coisa que eu tinha que fazer era ir até o quarto de Charles. E isso não era fácil. Quando achei que ele estava lá, me preparei emocionalmente e bati à porta. Os guardas do meu lado não falaram nada, nem se mexeram. Eu super aceitaria saber o que eles estavam pensando.

Logo eu descobri. Charles não abriu a porta. Então eu tentei o escritório do rei. Lá, um guarda entrou para avisar a minha presença, enquanto eu ficava para trás e pensava que o que eu queria fazer seria mil vezes mais difícil lá.

Eu entrei e todos me olharam como se eu estivesse interrompendo uma reunião sobre uma próxima guerra. Os guardas se endireitaram, Rei Maxon se levantou e Charles só me olhou por cima do ombro, sentado em sua poltrona.

"Lady Beatriz, o que podemos fazer por você?" O rei perguntou e eu engoli em seco.

Não sabia se podia simplesmente falar o que eu queria. Até que me veio uma ideia à cabeça.

"Desculpa incomodá-lo, Majestade," falei, fazendo uma pequena reverência. "Se não for inapropriado da minha parte, eu gostaria de perguntar se vocês estão perto de acabarem com a casta Cinco."

O rei pareceu surpreso, levantando as sobrancelhas. Mas logo as abaixou, relaxado, e me abriu um sorriso.

"Em menos de um mês, nós começaremos o processo de acabar com a casta cinco," ele disse, satisfeito.

Droga, pensei. Agora eu não tinha mais nada para falar.

"Que ótimo!" Soltei, animada, apesar de estar me sentindo um pouco enjoada por dentro. Mas aí meus olhos caíram em sua mesa. "Será que eu poderia pegar uma folha e uma caneta emprestada?" Perguntei, e ele fez uma expressão ainda mais surpresa. "É que eu gostaria de escrever uma carta para os meus pais. E eu não quero ter que esperar até chegar no meu quarto, que é tão longe!" Eu ri de leve, querendo deixar o clima mais leve.

Mas ele não estava leve. Estava um pouco pesado. Eu era a louca que queria pegar uma caneta emprestada do rei. Ele e Charles trocaram olhares confusos, apesar de sorrirem para mim. Imaginei que estivessem pensando que era melhor não contrariar a esquisita.

Rei Maxon se esticou um pouco e pegou uma caneta à sua frente, me oferecendo-a. Eu peguei primeiro um dos papéis numa pilha na mesa, um bem pequeno até.

"Não quer um maior?" Ele perguntou, enquanto eu pegava a caneta.

"Não, só quero poder dar as boas novas," falei e sorri de novo.

Depois me virei rapidamente e estava quase saindo do escritório, quando lembrei das minhas boas maneiras.

"Obrigada, Majestade," falei, me virando de volta e fazendo a melhor reverência que conseguia na minha pressa.

Pronto, pensei quando finalmente saí de lá. Primeira parte do plano, cumprida. Não parei de andar por um segundo até chegar no meu quarto. Aí dispensei minhas criadas e fui até a mesa. Não tinha ainda pensado no que eu escreveria. Precisava ser alguma coisa que não fizesse Gabrielle contar para outras meninas. E ela era fofoqueira, então seria bem difícil. E também precisava ser uma coisa que não fosse no castelo, alguma coisa que a deixasse bem longe de nós o dia inteiro.

Ah! E poderia ser de noite. Sim, porque a escuridão pode parecer bem romântica a dois, mas bem assustadora sozinha. E ela ficaria lá, nervosa e ansiosa, esperando por ele por horas. Até que decidisse voltar, arrasada e destruída para o seu quarto, onde choraria a noite inteira. E ele a evitaria porque ela o tinha rejeitado. E ela não iria atrás dele, porque ele a tinha deixado esperando e nem tinha mandado ninguém atrás dela.

O que poderia fazer tudo isso acontecer? Eu queria mandá-la para a floresta. Ia ser bem assustador ficar lá de noite. Poderia escrever para ela levar um lampião, só para ela assistir a chama se apagando junto com a sua esperança.

"Querida Gabrielle," escrevi, já imaginando a sua cara ao ler. "Gostaria muito de vê-la esta noite. Quando der meia noite, desça até o jardim e me encontre no primeiro banco de pedra da floresta. Peço que não conte para ninguém, pois não é exatamente um coisa que deveríamos fazer a essa hora. Me dê essa segunda chance para um encontro perfeito," me lembrei do próprio bilhete dele. "Charles," assinei, rezando para ela não reconhecer a minha letra.

Ou a dele, até.

Fechei o bilhete e fui até a porta, abrindo-a com cuidado e olhando para os dois lados antes de sair. Por sorte, meu vestido tinha a saia de tule e dava para eu esconder a minha mão dentro dele. Sorri para uma criada que passou por mim e bati na porta de Victoria enquanto ela estava por lá.

Victoria não respondeu, como eu estava esperando. Ela estava com sua irmã no Salão das Mulheres. Mas foi um álibi bom o suficiente para a criada, que logo desapareceu. Eu deixei o bilhete que tinha escrito embaixo da porta de Gabrielle, mas deixei uma boa parte para fora.

Não era minha intenção, mas eu ouvi outra pessoa vindo e larguei do jeito que estava. Corri de volta para o outro lado do corredor, diminuindo o passo quando cheguei perto da escada. E por coincidência do destino, era Gabrielle. Ela vinha toda alegre subindo os degraus, e sorriu para mim quando me viu.

"Lady Beatriz," ela disse, praticamente cantando com seu erre puxado.

"Lady Gabrielle," falei para ela do jeito mais educado que podia.

Mas me irritava aquilo! Tudo bem que ela não sabia o que eu tinha feito para ela. Ela não podia nem imaginar. Mas como é que ela podia nem se incomodar comigo? Ela não sabia que eu tinha sido o primeiro encontro de Charles? Que eu tinha passado a festa toda de Sebastian com ele? Ela não lembrava do momento em que tinha visto a gente se beijando? Não sabia que eu tinha praticamente passado a noite dormindo do lado dele?

Como é que tudo aquilo não incomodava a ponto de ela nem conseguir ser legal comigo? Eu nem conseguia ser legal com ela, esperava que o sentimento fosse recíproco.

Até que me ocorreu uma coisa. E se ela já tivesse feito até mais? E se tudo aquilo que eu tinha como garantia de que Charles gostava de mim fosse pouco perto da sua? E se ela estivesse mesmo ganhando?

Virei o corredor, mas voltei só o suficiente para olhá-la. Ela estava lendo o bilhete, do outro lado do andar, sorrindo de orelha à orelha, seus olhos brilhavam tanto que eu podia ver mesmo a tantos metros de distância.

Vai sorrindo, pensei, voltando a andar para o meu quarto. Pode ir sorrindo, que essa felicidade não vai durar muito.