Quando a Chuva Cai - II

2 Chegada das Nuvens Negras - Parte II


As luzes do corredor estavam apagadas, o sol ainda não havia nascido por completo, eu não conseguia enxergar direito, o hotel não tinha janelas, e isso o deixava ainda mais estranho, fui na frente e verifiquei quarto por quarto, mas não tinha ninguém, assim como Wilson fez.

— Cara, desiste, tá abandonado isso aqui, sei lá, acho que ninguém para aqui, deve ser tão bosta que até a recepcionista se mandou. – Ligia se encostou na parede e pegou um cigarro do seu bolso.

— Vai fumar aqui? – Perguntou Raul olhando torto pra menina.

— Algum problema? Não tem ninguém. – Ligia olhava o rapaz com certo desprezo. Eu entrei na lavanderia e gritei por ajuda, mas não encontrei ninguém. Os gritos de Helaine estavam mais altos, parecia mesmo que ela estava morrendo, eu ficava preocupado cada vez mais. Saí da lavanderia e ouvi um estrondo vindo lá de fora, parecia barulho de um relâmpago. Corri para o final do corredor e fui até a saída, olhei para o céu e vi várias nuvens negras, os primeiros pingos de chuva começaram a cair, repentinamente, pois até quando olhei o céu estava limpo! O motorista e os outros dois correram de volta pro hotel, assim como os que estavam na parte de trás. Minutos depois todos os que subiram desceram, dizendo que não haviam encontrado ninguém. Estávamos na recepção, todos reunidos, Helaine chorava de dor e aquilo estava começando a me irritar, a chuva ficou forte, haviam vários raios, estava quase se tornando uma tempestade.

— Parece que estamos presos aqui (?) Mas pensem bem pessoal, ao menos estamos em um hotel.. – Wilson dizia isso olhando para todos mas ninguém parecia estar feliz.

— Precisamos levar ela pra um médico, ela parece pior! – Maria começou a chorar também, era típico dela, mas Helaine não parecia nada bem mesmo.

— Eu só preciso deitar, me levem até uma cama qualquer! – Helaine, ainda chorando e colocando a mão sobre sua barriga tentou se levantar mas Kátia a impediu.

— Alguém me ajude aqui. – Eu e Ishimura fomos ajudar a carregar Helaine, a levamos até o segundo quarto da direita do primeiro corredor e a colocamos sobre a cama.

— Alguém tem algum remédio pra dor aqui? Helaine, você tem alguma doença? Gastrite? Algo do tipo? – Kátia perguntou.

— Não, nada! Eu não tenho nada! – Helaine falava em um tom de voz alto, ela parecia muito doente mesmo pela sua expressão, as veias pareciam quase saltar do seu rosto.

— Eu tenho dramin (não era mentira Michel), se ela dormir, talvez melhore, é o que sempre me diziam. – Raul tirou do seu bolso uma cartela com 6 dramins.

— Por favor, qualquer coisa, preciso tomar qualquer coisa! – Todos estavam aglomerados naquele quarto, alguns no corredor e outros dentro, todos preocupados com Helaine. Kátia deu 2 dramins para a garota que os engoliu rapidamente. Alguns minutos se passaram e ela parecia não se contorcer tanto como antes. Saímos do quarto e a deixamos sozinha com Kátia, estávamos invadindo aquele hotel, o que me deixava desconfortável.

— Isso não é invasão? – Eu disse olhando para Juliana.

— Bem... pode se dizer que sim (?) — A garota também parecia não gostar de ficar por ali, mas o fato é que estava chovendo, o ônibus estava quebrado, não havia sinal de celular e Helaine estava morrendo, então não tínhamos escolha.

— O estranho é que todas as camas estão arrumadas! Então havia alguém aqui. Normalmente em um hotel tem camareiras, cozinheiras, limpadoras, recepcionista, enfim, umas 8 pessoas trabalham no mínimo, mas não tem ninguém! E sabe, ele parece que foi limpo hoje mesmo, está tudo meio que impecável, não é estranho? — Jeferson levantou um ponto, aquilo era um fato.

— Sim, é estranho, parece que fugiram de alguma coisa. – Renan estava sentado no sofá de braços cruzados pensando em algo.

— São 6:00 da manhã já! Devia ter alguém aqui! – Brunna gritou enquanto socava a parede, todos pareciam tensos, Kátia voltou do quarto e parecia um tanto aliviada.

— Ela melhorou, dormiu, a ideia do dramin foi boa.

— Parece que idiotas servem pra algo de vez em quando – Ishimura e Raul viviam trocando provocações, parecia um casal.

— Gente, cadê o motorista? Ele tava aqui até agora a pouco não? – Mirela perguntou.

— Não vejo ele faz tempo meu, esse cara deve tá tentando achar sinal no celular de novo! – Carlão balançou a cabeça negativamente.

— Enfim, vamos todos andar pelo hotel pra ver se tem sinal em algum lugar, precisamos chamar ajuda, tanto pro ônibus como pra Helaine. – Ishimura disse enquanto todos se surpreendiam por ele estar levando algo a sério.

— Isso é bem estranho mesmo, parece coisa de filme de terror barato. Por que o telefone não pega? Cadê todo mundo daqui? Não é suspeito Kátia? – Perguntei para a mulher que apenas olhava para baixo.

— Claro que é.... – Brunna interrompeu a relfexão da professora.

— Kátia! Eu tenho um termômetro em minha bolsa, não acha melhor medir a febre da Helaine.

— Não creio eu que seja febre, mas pode ser bom. – Brunna, antes de ir até o quarto de Helaine, me arrastou com ela segurando em seu braço, todos viram aquilo como algo suspeito e Wilson ficou gritando algumas interjeições de ‘não sei não hein’.

— Ei, qual o problema? — Me soltei da menina e olhei em seus olhos.

— Você é idiota, não é? Isso eu sempre soube, mas parece que não tem salvação. – Não entendi o que Brunna estava dizendo, estávamos na frente do quarto onde Helaine estava deitada.

— O que eu fiz? – Fitei os olhos azuis da menina com estranheza.

— Não percebeu nunca que a Helaine sempre teve uma queda por você? – Aquelas palavras me impactaram como um tiro certeiro no peito.

— Oi? Queda por mim? Que piada é essa?

— Pare de se fazer de idiota! É isso mesmo, ela sempre gostou de você, cara, a uns dois anos mais ou menos, mas nunca tinha coragem de falar porque ela sabe que você ama a Carmen... ela é uma idiota por gostar de um cara que não percebe as coisas! – Eu não sabia o que dizer para Brunna, aquilo havia me pegado de surpresa, além disso, como assim ela sabia que eu era afim da Carmen? Será que eu não sei transparecer meus sentimentos?

— Bom mas, mesmo assim, por que me puxou até aqui?

— Ela te ver pode fazê-la melhorar, sei lá, é uma hipótese.

— Eu não acho que tenho esse poder de cura não, viu. – Paramos de jogar conversa fora, coloquei a mão na maçaneta da porta e tentei abri-la, mas de forma misteriosa, ela estava trancada.

— Será que ela trancou? Helaine? Você tá acordada? – Brunna bateu duas vezes contra a porta chamando a garota.

— Acho que ela dormiu, ela deve ter trancado pra ninguém encher, assim é melhor, deixa ela descansar. – Eu disse isso me afastando de Brunna, mas ela me segurou pela manga da camiseta novamente.

— Vê se considera um pouco mais o que ela sente, tá? – A garota olhou pra mim com um olhar que eu nunca havia visto antes em seu rosto, ela parecia bem... fofa.

Alguns minutos se passaram, a chuva havia apertado, todos andavam pelo hotel tentando pegar sinal de alguma operadora de celular, mas com essa chuva e no lugar onde estávamos era quase impossível, considerando que as operadoras brasileiras, mesmo em condições e locais bons, já são uma merda.

— Cara, não vai aparecer ninguém aqui mesmo? Isso é bem estranho! – Wilson começou a gritar novamente para ver se alguém do hotel aparecia, era muito suspeito mesmo aquele local vazio, será que eles foram assaltados e levados como refém?

— E se eles foram assassinados? – Juliana segurou no braço de seu namorado enquanto profetizou essas palavras mórbidas que foram desaprovadas por Carmen.

— Você é tonta? Olha as coisas que fala, não tem como! – Disse a menina virando seu rosto e fechando os olhos.

— Pensando de maneira lógica, creio eu que o hotel, hoje, não funciona, é a única explicação, ontem a recepcionista o deixou aberto sem querer, ou então ele ainda não foi aberto, tem hotéis na estrada que só funcionam depois do meio dia, ainda mais em lugares remotos assim, então pode ser que esteja cedo ainda, a porta aberta foi só um descuido, então acho que não devíamos ficar entrando nos quartos ou mexendo nas coisas por aí, estamos meio que invadindo. – Ligia, encostada na parede, fez uma colocação que todos podiam considerar, ela era sempre lógica, não acreditava em nada que não pudesse ser provado pela ciência.

— Então vamos esperar, quando a chuva passar vamos na beira da estrada pedir carona pra alguém pra ir na cidade mais próxima chamar um mecânico, já que nenhum celular ou telefone pega aqui. – Disse Kátia procurando o motorista. – Aliás, cadê o motorista?

— Eu não o vejo a vários minutos, ele saiu pra procurar sinal lá em cima mas até agora não voltou... – Mirela disse enquanto mexia em seu celular.

— Que estranho, será que ele ficou com dor de barriga? – Kátia fez uma expressão nada agradável naquele momento.

— Ei, Michel, vamos ver se a Helaine tá bem. – Brunna me chamou novamente.

— Mas deixa ela dormir! A menina tá com dor, não é o melhor a se fazer? – Eu retruquei um pouco nervoso pelo fato da menina querer encher Helaine o tempo todo.

— Mas eu estou sentindo algo estranho! Precisamos vê-la, mesmo que tenhamos que acordá-la. – Eu não entendia onde a garota queria chegar, mas a acompanhei, Kátia nos seguiu.

— Ela trancou a porta? – Perguntou a professora.

— Sim... acho que ela não queria que incomodassem. – Brunna estava pálida, ela realmente não parecia normal enquanto dizia isso para Kátia.

Novamente tentamos abrir a porta mas continuava trancada, eu resolvi então bater e chamar por Helaine.

— Helaine? Helaine! – Eu bati cinco vezes bem forte contra a porta, mas a garota não deu sinal.

— Isso tá me preocupando já! – Brunna começou a tremer.

— O dramin tem esse efeito mesmo, calma, ela deve ter o sono pesado. – Kátia segurou nos ombros da menina que parecia lacrimejar.

— Professora, precisamos entrar, eu também to com uma sensação estranha. – Eu não sei o que senti naquele momento, mas foi como um frio na espinha. Se a porta não queria abrir, não podíamos fazer nada além de arromba-la. – Ei, Raul, Ishi, venham aqui, precisamos arrombar a porta. – Os dois olharam para mim e se aproximaram rapidamente.

— Ela se trancou? – Perguntou Ishimura com uma cara de abobado.

— O dono do hotel vai comer nosso cu, mas que se foda. – Raul e eu fomos os primeiros a ir contra a porta, em seguida, Ishimura deu uma jogada de corpo contra a mesma, mas só na segunda tentativa minha e de Raul a porta se abriu, nos jogando para frente, eu quase caí na cama que ficava a poucos centímetros da porta, aquele era um quarto pequeno, só com uma tv, banheiro, frigobar e ventilador, devia ser a suíte mais barata por ali, Helaine estava deitada na cama de barriga para cima, parecia bem tranquila.

— Ela parece bem. – Disse Ishimura entrando no quarto.

— Laine? Laine, acorda, hei. – Brunna se aproximou da garota deitada e começou a chacoalha-la.

— Será que o efeito do dramin foi tão forte assim? Bem, foram dois né. – Raul dizia isso mas eu via em seus olhos o medo.

— Professora! Ela não acorda! – Brunna começou a respirar ofegante, eu também comecei a tremer, meu coração acelerou no mesmo instante em que Brunna puxou o lençol que cobria a menina. Todos se espantaram ao verem uma faca cravada em seu peito, ela foi colocada na horizontal, permitindo que a faca ficasse quase deitada sobre seu corpo, bem no meio dos seios da garota, havia muito sangue ao redor da cama, não podíamos ver pois o quarto estava escuro e o lençol preto também não ajudava, eu senti uma enorme ânsia de vômito, ao contrário de mim que só sentiu a ânsia, Raul vomitou no corredor enquanto Kátia e Brunna gritavam desesperadas, em poucos segundos todos já estavam ao redor do quarto querendo saber o que aconteceu, eu estava com tontura, saí do quarto e caí de joelhos no chão, Renan se abaixou e segurou meus braços.

— O que foi? – Antes que eu pudesse responder, Mirela saiu do quarto cambaleando.

— Ela morreu... – A menina desmaiou e foi de cara no chão, Ronaldo e Juliana foram ajuda-la. A gritaria não parou até que Carlão e Ishimura fez com que todos saíssem do quarto, era uma cena do crime ali, não poderíamos ficar, eu não entendi ainda o que estava acontecendo, Helaine morreu? Como assim? Que diabos era isso? Quem a mataria?

— Tá, calma pessoal, isso é grave, alguém daqui matou ela! QUEM FOI PORRA? – Carlão parecia o mais irritado ali, ele deu um chute na porta do quarto na frente do de Helaine olhando para todos.

— Ele tem razão, um de nós é um assassino! – Maria começou a chorar enquanto abraçava Brunna, as duas choravam feito bebês, eu estava tão em choque que nem podia chorar, Raul se sentou longe dali depois de ter vomitado, ele parecia bem mal.

— Espera, quem foi a última pessoa que entrou no quarto dela? – Perguntou Wilson olhando para Kátia com raiva em seus olhos.

— O que? Acham que fui eu? Que absurdo! Ela é minha aluna!

— Professora, desculpa mas você foi a última que entrou no quarto. – Ronaldo olhou para Kátia suspeitando da mesma também.

— Espere, tem que ter outra explicação, eu jamais faria isso – Kátia gritava enquanto derramava lágrimas sem parar.

— O quarto estava trancado por dentro, vocês não viram porra? – Jeferson entrou novamente no quarto e viu a chave colocada na porta pelo lado de dentro da fechadura.

— C-como assim? Então alguém matou ela e saiu pela janela? – Maria soluçava enquanto tentava falar.

— Não, a janela tá trancada também! – Jeferson foi até a janela e verificou a mesma, ela não abria.

— Ei, você pode ter inventado isso da chave! Quem garante que ela estava do lado de dentro? – Brunna perguntou fitando Jeferson com raiva.

— Eu vi também, quando entrei a chave estava lá. – Raul se aproximou da gente, ele parecia bem mal.

— Mas o Jeferson pode ter trancado a janela agora... – Brunna abaixou sua cabeça enquanto o garoto saía para fora do quarto.

— Mas com o que? Ela está com cadeado, pode me revistar, eu não tenho a chave! – Jeferson abriu seus braços na frente de Brunna que sem pensar, o revistou por completo ainda chorando.

— Então como isso aconteceu? Ela se matou? De onde saiu essa faca? Quando levamos Helaine pro quarto, ela não estava nem com a bolsa dela, aliás, não tem bolsa alguma no quarto, e não tem porque ter uma faca de cozinha em um quarto de hotel. – Ligia olhava para todos tentando procurar algum suspeito.

— Isso é um quarto fechado, mas que porra é essa! – Eu não aguentei, aquilo era insano, Helaine estava mesmo morta, e isso depois de saber que ela gostava de mim.

— Precisamos procurar o motorista e ir até a polícia, isso não pode esperar, vamos na beira da estrada, vem comigo Carlão, nós vamos parar o primeiro carro que passar. – Renan chamou Carlão para subir até o andar da esquerda para procurar o motorista, mas Carmen os interrompeu.

— Pessoal, aquela porta ali estava aberta antes? Não me lembro de estar! – Carmen apontou para a porta da lavanderia, onde só eu havia entrado antes, mas me lembro de tê-la fechado.

— Eu entrei ali mas fechei ela, mas agora tá aberta. – Todos fomos até a lavanderia, eu fui na frente, quando entrei, ao acender a luz, meus olhos pararam. Aquilo estava mesmo acontecendo?

— Isso é mentira né? – Carmen caiu de joelhos com os olhos arregalados, em seguida, foi a vez de Mirela gritar e Ishimura dar um pulo para trás ao ver o corpo do motorista pendurado em uma corda no final da lavanderia. Ele balançava, já morto, a língua estava para fora da boca, seu pescoço todo vermelho com as veias saltadas, eu apenas fiquei olhando aquela imagem sem conseguir me mover.

— “Bem vindos meus queridos colegas! No nosso primeiro dia, já foram duas pessoas, mas essa situação é atípica, não se preocupem, porque vocês agora terão 15 dias pela frente, onde a cada dia, uma pessoa vai morrer, até vocês descobrirem o pecado fatal que os trouxe até aqui, mas não é só descobrir o pecado, vocês também tem que fazer alguma coisa para se redimirem, só assim, então, poderão ir para sua excursão tão esperada. E esqueci de falar, há 17 quartos nesse hotel, cada um deles, destinado a uma pessoa aqui, mesmo que seja para seus corpos sem vida, então aproveitem a estadia!” – Uma voz ecoou por toda lavanderia, lá haviam vários autofalantes, a voz havia vindo de lá, foi então que percebi, que essa excursão seria uma viagem de ida para o inferno.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.