Quando Voltar a Te Ver
13 Segredo
Notas iniciais
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
— Carlos Drummond de Andrade
---XXX---
— Você tá com uma cara terrível. O que aconteceu? — perguntou Ichigo no almoço, colocando a comida na mesa enquanto me via bater o lápis, compassada, encarando a folha em branco no caderno.
— É o trabalho de artes… escrever uma música. Acabei pegando o estilo romântico e não sei o que escrever… — falei, desesperada.
— É só você falar o quanto gosta de um cara e quer beijar ele, oras…
— Só tem cenoura nessa cabeça, morango? — rebati, zangada.
— Mas é só isso que músicas românticas dizem… Tipo… desde que ele te salvou, notei que seus olhos brilham quando vê o pateta do Kaien. Por que não fala disso? “Ah! Kaien, apesar de pateta, te amo…” —
Meu rosto ficou vermelho e eu fiquei irritada. Muito irritada.
— Não entendo por que você tem tanta raiva dele. Ele é uma pessoa muito boa…
— Também não sei… Tem alguma coisa nele que me dá muita vontade de esganá—lo até ele gritar pela mãe…
— Deixa disso. E não me atrapalha, preciso terminar isso…
— Ok! Tá decidido: você vai dormir lá em casa hoje, e a gente faz isso junto.
— Como é? Tá louco? Por que na sua casa?
— Porque na sua nem tem como pensar em romance com o seu irmão por perto… e eu tenho violão.
Fui para a casa do Ichigo depois da escola e ficamos tentando compor a música no quarto dele. Quando finalmente conseguimos a melodia e tentamos cantar alguma coisa com o violão, escutei um ruído esquisito — e vi o pai do Ichigo pulando a janela, gritando:
— ICHIIIGOOO!!! EU SABIA QUE ESSE DIA CHEGARIA! FINALMENTE MEU FILHO SE MOSTROU HOMEM!!!
— CALA A BOCA, VELHO PERVERTIDO!
Caí na gargalhada com a briga dos dois. Já tinha passado das dez da noite e, fora a melodia, não tínhamos nada. Eu já estava com a mente completamente surtada. Ichigo me observou, se aproximou e me abraçou, dizendo:
— Relaxa, baixinha. A gente consegue. Vou ficar com você até conseguir. —
E sorriu pra mim.
Sim… aquele sorriso me deixava perdida. Neste mundo não existia nada mais perfeito. Era o tipo de coisa que poderia acabar com guerras e conflitos em qualquer lugar do mundo — principalmente dentro do meu coração. Todas as minhas frustrações foram embora.
Eu o abracei. Ele acariciou meu cabelo… e ficamos assim até adormecermos.
No dia seguinte, acordei meio perdida. Não sabia onde estava — só sabia que era confortável e caloroso. Me aconcheguei mais e escutei uma voz:
— Mais cinco minutos, mãe… É sábado…
Abri os olhos.
Eu estava deitada na cama do Ichigo, usando ele de travesseiro. Eram seis e meia da manhã. Em uma hora, tínhamos que ir pra escola.
Observei ele dormir um pouco, com aquele rosto meigo. Lembrei do sorriso… e já soube sobre o que escrever.
Sorri e peguei meu caderno.
Ichigo pegou o violão e começou a dedilhar a introdução da nossa música. A fumaça do gelo seco se dissipou, mostrando, para todos, nós dois — encarando um ao outro intensamente. Eu me via nos castanhos dele.
Meu coração, meu corpo, minha mente… tudo o que me definia como Kuchiki Rukia só percebia Kurosaki Ichigo e o ritmo do violão.
Comecei a cantar:
“Seus olhos parecem perfeitos pros meus
Sua boca parece que já percebeu
Vem, me conta um segredo”
Vergonha? O que é isso? Só me importava que estava com ele, ali, cantando, falando, confessando, conversando. Nós dois, apenas nós dois...
“Seu sorriso me faz esquecer onde estou
Se acordo sozinha já não sei quem sou
Vem, me abraça um segundo
E prometa ficar”
Mais uma onda de lembranças me inundou, das vezes que tocamos juntos na escola, das vezes que a galera colocava a gente para cantar as músicas românticas em duetos, desde que a gente cantou essa música na apresentação da escola a pedido do professor Kyouraku...
“Seus olhos me prendem e só você sabe
Sua boca desmonta todo esse disfarce
Você é o segredo que eu quero gritar”
Quando Ichigo começou a cantar também, uma ovação tamanha tomou o estádio.
Foi como se tudo tremesse, como uma torcida que comemorava o gol de sua seleção na copa do mundo e, de repente, todos silenciam e começam a acompanhar com palmas.
E eu, só sei disso porque o show todo estava gravado, se não, não saberia, pois só tinha Ichigo na minha frente e nada mais, só seu violão tocando e isso era tudo que eu precisava e queria ouvir, além de sua voz...
“Você vira o meu mundo de ponta cabeça
Vou dizer antes que eu esqueça
Você foi o melhor que me aconteceu
E agora nada é igual
Nada importa no mundo quando você me beija
Essa é minha única certeza
Quando tudo em volta parece mudar
Pra mim devemos ficar pra sempre assim”
Passaram-se dois minutos desde que terminamos a música, Ichigo sorria para mim e eu para ele, foi nesse momento que toda a plateia estrondou em aplausos e ovações, nos viramos e agradecemos, toda a galera juntou-se e agradeceu toda a ovação recebida, saímos do palco com o grito de “mais um, mais um” ecoando por todo o estádio.
— Gente, vocês viram o mesmo que eu? Que espetáculoooooo!!!! — Se escutava o apresentador comentar no palco, nós entramos para o espaço interno para ajeitar as coisas e partir.
Quando finalmente entramos na sala reservada para nós que finalmente pude me acalmar por completo e respirar de forma normal, Ichigo, ao meu lado, parecia perceber agora, também, tudo o que tinha acontecido e estava se recuperando também. Todo mundo, então, começa a olhar para a gente...
— Que química foi essa? Nunca vi nada igual! Ichi, Kia, vocês arrasaram! – disse Rangiku
— Sim, foi tão emocionante! Pensei que ia até sair beijo... – comenta Orihime, mas ela não tinha a mesma alegria que Rangiku ao comentar, parecia meio emocionada, chocada, desanimada.
Ichigo coça o cabelo com o indicador, olhando para o nada, sinal de que está sem jeito e comenta.
— Foi uma música que, meio que compomos juntos, então... me deixei levar...
— Uhum! – concordei – não imaginava que uma música feita quando a gente tinha nove anos poderia sair assim...
— Sim! Sim! Sim! Meus planos com certeza vão funcionar! Agora tenho certeza! – Rangiku fala, e juro para vocês que eu podia ver um cifrão em cada olho, no lugar de suas pupilas – Agora, vamos pra casa que amanhã temos que devolver o equipamento da escola – falou já pegando uma parte do material e carregando.
— Sim! – falou Orihime, correndo para acompanhar Rangiku, com outra leva de equipamento, Tatsuki e Keigo também saem com uma parte e Ishida, enquanto ia saindo, vira o rosto para nós e pergunta:
— E, vocês, já decidiram parar de se pegar para ajudar, ou vão continuar aí?
— Hã? Como é? – perguntamos Ichigo e eu ao mesmo tempo
— Ah! Esquece, quando terminarem tragam a parte de vocês, vamos estar esperando...
Encaro Ichigo que, também, olha para mim sem entender nada.
Depois decidimos ir pegar nossa parte e, foi aí que entendi o que o nerd disse.
No momento que nos movemos foi como uma mola nos puxando de volta e isso porque simplesmente, esse tempo todo, estávamos de mãos dadas.
Com os dedos entrelaçados e bem firmes que não permitia passar nem vento.
Minha pele esquentou.
Acompanhamos o restante da turma, fingindo que não tinha acontecido nada.
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