Quando Voltar a Te Ver
11 Perdão?
O choro lavou,
O vento secou,
O tempo cuidou,
A dor esfriou.
— Kuchiki Rukia
---XXX---
Levantei cedo da cama.
Rapidamente me ajeitei para ir à escola.
Estou me sentindo muito mais animada hoje.
Tomei um café da manhã bem satisfatório porque acordei cedo o suficiente para isso.
Tive bastante tempo para preparar um bom bento também e, pela primeira vez, numa manhã bem cedo, meus cabelos estão devidamente penteados e arrumados.
— Rukia.
Eu me virei.
— Sua disposição está… diferente hoje.
— Ohayou, nii-sama! Eu acordei você?
— Não. Mas sua animação é perceptível.
— Mo… exagero.
Ele me observou por alguns segundos.
— Faz tempo que não a vejo dessa forma.
Eu hesitei.
— Isso é ruim?
— Não.
Uma pausa curta.
— Apenas… incomum.
— Já tô indo.
— Vá.
Quando eu estava saindo:
— Rukia.
— Hm?
— Tome cuidado no caminho.
Saí de casa correndo e fui caminhando tranquilamente, pensando nas coisas que aconteceram até agora.
Toquei o pingente que estava em meu pescoço. Agora, de dia, percebi o quanto era lindo: brilhante e meio pesado.
Tinha o formato de coração e, na margem, havia em alto relevo um caminho de rosas em estilo tribal.
Dentro havia duas fotos: uma com Ichigo e eu abraçados no dia da peça — foi a primeira foto tirada aquele dia — e a outra foi quando eu fui passar um final de semana em sua casa; nela, eu estou lhe dando um beijo no rosto e ele estava todo vermelho.
Pensando bem, ele era bem fofo naquela época.
Não era à toa que a maioria das garotas gostava dele.
Ainda perdida nos pensamentos, trombo em alguém e recuo violentamente.
— Tá cego? Desgraçado!
— Só se for você, nanica, que não presta atenção! Faz horas que eu grito pra você parar! — era Ichigo.
Ele me mostrou que, logo atrás dele, havia um poste.
Ok. Ele me salvou de bater nele. Senhor mico evitado.
Mas essa trombada não iria tirar meu bom humor.
— E para onde você está indo? A escola é por ali — perguntei, vendo que ele vinha pelo caminho oposto.
— Eu estava indo à sua casa. Pegar você.
— E quem te deu permissão pra isso, hein, Moranguinho?
— Moranguinho é a avó, baixinha invocada. Vamos logo.
— E por que a pressa? É cedo!
— Ceddo? Esqueceu ontem?
— Ontem?…
Ah! Ontem…
Estávamos na aula de física, preparando uma miniatura de usina térmica. Usando o calor, faríamos um circuito com cinco lâmpadas pisca-pisca.
Eu fiquei com o aquecimento; ele, com a criação do circuito. Depois que ele aprontou sua parte, chegou a minha vez.
— Cuidado.
— Não enche.
Depois de dez minutos, o sistema começou a funcionar.
Era interessante ver as luzes funcionando.
Olhei para Ichigo e sorri. Ele me olhou confuso.
Eu virei o rosto e aumentei o aquecimento.
Depois de cinco minutos, uma das luzes explodiu.
— Ei, baixinha… é melhor diminuir a temperatura antes que exploda mais coisa.
— Não me chama de baixinha. E eu coloco na temperatura que eu quiser.
Aumentei ainda mais a temperatura e outra luz explodiu.
— Deixa de brincadeira, Rukia. Diminui logo isso.
— Não. Vou deixar do jeito que está.
— Deixa de ser criança.
Eu fiz que não.
Ele diminuiu por conta própria.
— Quem te falou pra fazer isso, hein, morango ET?
Segurei o braço dele, atrapalhando o ajuste. A máquina de aquecimento começou a apitar. Ele me puxou violentamente para perto de si e falou:
— Escuta, sua nanica…
Ele me encarou. Estávamos face a face.
Tão próximos que eu podia sentir sua respiração quente, com aroma de morango.
Ficamos algo como a eternidade assim, meus olhos fixos nos olhos castanhos dele, tão profundamente que eu podia ver a mim mesma neles.
Mas eu não recuava… nem ele.
— Antes que vocês comecem a tirar suas roupas, é bom lembrar que estão em um laboratório com mais 25 pessoas — falou o professor.
Senti o rosto queimar intensamente.
Quando nos separamos, desliguei o sistema da forma mais imprudente possível: Atirei o aquecedor no professor.
Isso nos rendeu o dever de limpar as salas e laboratórios todos os dias da semana — traduzindo: madrugar escola, sonhar ir pra casa.
Era dessa lembrança que ele falava.
A gente estava meia hora atrasado.
Fomos quase correndo para a escola e começamos a arrumar as salas. Graças a Deus, hoje não teríamos nenhuma aula nos laboratórios, o que vai facilitar nosso trabalho — pelo menos por hoje.
Enquanto eu ajeitava o material do quadro branco, ele estava retirando as cadeiras do lugar para varrermos depois.
Estávamos em silêncio… mas não era aquele silêncio de “não fale comigo”.
Era diferente: era incômodo.
Eu queria que ele falasse alguma coisa.
Eu queria falar alguma coisa.
Mas não sabia o quê.
E ele, com certeza, não falaria por achar que eu ainda estava com raiva dele.
Então decidi começar fazendo algo não muito Kuchiki Rukia:
— Foi mal.
falei sem olhar. Eu não conseguia encarar ele.
— Pelo quê?
— Por não ter dado chance de você se explicar.
— Não esquenta. Eu também vacilei.
— Não. Foi totalmente minha. Eu li a carta ontem… devia ter lido há muito tempo!
— Você leu, finalmente… Então, agora entende?
— Não. Sua carta era sem pé nem cabeça, pra ser sincera.
— Ei! Eu só tinha treze! Aquela porcaria me custou uma noite.
Corri até ele e o abracei com todas as forças que tinha.
Ele se assustou no início e depois retribuiu.
— Obrigada, Ichigo… pela lembrança. Amei muito.
— Então achou também o cordão.
— Sim.
Ficamos ali abraçados, durante centenas de batidas do coração dele.
Até que o barulho do lado de fora nos acordou.
Nos soltamos e voltamos a arrumar a sala — dessa vez correndo, porque estávamos completamente atrasados.
Mal terminamos, o pessoal entrou.
— Ohayou, Kia-chan… Ichi — falou Rangiku.
Acho que ainda vou demorar um pouco a me acostumar com eles assim.
— Ah! Kurosaki, você chegou cedo hoje. Kuchiki-san também… foram castigados ou algo assim? — disse Ishida.
— Há, há! Muito engraçado, Ishida. Muito engraçado — respondeu Ichigo.
Não demorou muito até todos chegarem, exceto Keigo, que está doente em casa. Parece que ele não é tão idiota assim… já que ficou doente.
De alguma forma já era a segunda aula.
Nem sei o que aconteceu na primeira.
— Ei, Rukia! Divide o livro comigo, esqueci o meu em casa.
— Tudo bem… mas… só se você me explicar isso. Não entendo que o professor diz.
Me aproximei mais dele e começamos a acompanhar a aula juntos.
— Hum! vejo coraçõezinhos no ar… — falou Rangiku.
Por que ela tinha que ficar justo atrás da gente?
Nem preciso dizer que minha pele esquentou, né?
— Ei, Ichi… se for beijar ela de novo, deixa o professor sair…
Ichigo se levantou furioso com Rangiku
— O que você—
— Kurosaki Ichigo! Volte para seu assento imediatamente — interrompeu o professor.
Ichigo sentou totalmente irritado.
Depois disso houve o intervalo, mas fiquei na sala com Ichigo estudando as equações que o professor havia passado.
Não é que o professor sejaruim ensinando — pelo contrário, ensina divinamente bem — mas eu sou osso duro de roer quando se trata de matemática.
Sempre preciso morrer de estudar para entender alguma coisa.
Graças a Deus, Ichigo é bom explicando essas coisas.
Assim eu posso compreender melhor e tentar tornar as coisas pacíficas outra vez.
Não vai ser como antes, mas pelo menos seremos amigos de novo.
Dois coelhos, uma gaiola. Eu não bato em Chappys.
— Kuchiki-san, como vai a formação da banda?
Na última aula, fui chamada pelo professor Ukitake.
O tempo passou tão rápido que nem notei que já esgotara o prazo de apresentar o grupo.
Começaram os ensaios da peça que será apresentada agora em novembro, os treinos do time de natação e o concurso de poesias…
Meu Deus, eu vou ficar louca!
— Gomen, sensei… ainda não achei o segundo vocalista. Te prometo que amanhã entregarei o nome do grupo.
— Por favor, apresse-se. O prazo é somente até depois de amanhã.
Após falar com o professor — o que levou quase toda a quinta aula discutindo a formação da banda —, fui ajudar Ichigo a arrumar a sala.
Quando cheguei lá, vi uma garota desconhecida na porta. Conversava muito animada com alguém.
No pouco que pude observar, era extremamente linda.
Possuía um corpo tão lindo quanto o de Orihime: seios fartos, pernas torneadas, pele bronzeada… tudo encaixado em uma silhueta tipo violão que tornava tudo proporcional.
A peculiaridade estava em seus cabelos: eram verdes claros.
Achei que era alguma punk de outra escola, pois nunca a tinha visto por aqui.
Quando saiu, parecia que havia ganhado na loteria. Estava festejando que nem uma louca.
Mais uma novata na escola? Acho que não… Até onde sei, somente Yasutora e Ichigo foram transferidos no meio do ano pra cá.
Cheguei à porta e reparei que somente Ichigo estava lá. Ele já havia ajeitado boa parte da sala, então só o ajudei a finalizar.
Depois de deixarmos tudo pronto para as aulas da tarde, fui procurar um lugar no refeitório para almoçar, mas notei que Ichigo ia para outro lugar diferente.
— Ei! Ichigo, o refeitório é pra lá!
— Ah! Eu não trouxe meu bento, então estou indo comprar.
Eu não contei ainda, mas em minha escola (e em outras da região) não é servido almoço. É tradicional você trazer de casa seu almoço — o que aqui é chamado de bento — ou comprar em um restaurante.
— Eu fiz muito, então dá pra dividir pra nós dois.
— Kuchiki Rukia? Cadê a nanica que só quer me ferrar?
— Tudo bem. Se o morango geneticamente modificado não quer, eu divido com outra pessoa.
— Há! Há! Como se eu fosse perder essa chance!
— Poxa, eu aqui, com tão boa vontade e você…
Falei, imitando uma voz melosa chorando.
Parece que isso ainda o irrita muito.
— Tudo bem… onde vamos comer?
— Me siga. Conheço um lugar onde ninguém vai nos incomodar.
Ficamos atrás de uma árvore na parte de trás da escola.
Mesmo lugar onde me confessei para Kaien.
Não que importasse a opinião dele, mas esse bento eu caprichei nele, e mesmo esse rabugento vai mostrar uma cara de espanto diante do sabor. Só esperem para ver.
Abri o bento. Ele olhou para dentro e fez a cara mais rabugenta que já vi na vida.
— Tá de sacanagem, né? — perguntou.
Olhei para dentro da vasilha e acho que fiquei tão vermelha quanto o que tinha dentro daquela marmita.
Simplesmente: onde era para estarem quatro pedaços de bife acebolado, batatas fritas e arroz com ervilhas… havia somente morangos.
A vasilha estava cheia até a borda de morangos, todos bem vermelhos, do tipo que raramente você encontra no mercado comum.
Esses foram dados de presente por um amigo do meu irmão.
Eram os mais gostosos que já havia provado… mas isso não vem ao caso.
O que importa é que eles me fizeram pagar um mico.
Passei uma eternidade discutindo com ele, alegando minha inocência.
Ele demorou a se convencer, mas depois de certo tempo decidiu que eu era inocente.
E fomos para o restaurante da escola comprar nosso almoço.
Ele pagou o meu — contra a minha vontade, claro. Ele disse que da próxima eu pagaria o dele, mas eu sabia que aquilo era mentira. Ele não aceitaria isso jamais.
Mesmo depois de tanto tempo separados, suas manias não mudaram muito.
Acho mesmo que ele só ficou mais carrancudo.
Se eu o perdoei fácil assim?
Não.
Eu não o perdoei.
Ainda dói um pouco eu ter ficado nas trevas sobre sua partida por dois anos… mas acredito que não existiu, desde o início, motivo para ele ter de me pedir desculpas.
Da mesma forma que ele fez, eu teria feito com ele. Eu não iria querer vê-lo sofrer.
Ele mudou minha vida uma vez, e hoje percebi que aquele vazio que eu sentia finalmente estava sendo fechado de novo.
Mais uma vez, ele está mudando minha vida.
Não acho mais que ele tenha sido um carma ruim.
Acho que ele continua como a luz que sempre me tira do fim do túnel.
Aquele que sempre estava ao meu lado… nunca saiu dele.
Pois, mesmo longe, sempre esteve pensando no meu bem.
Por isso acho que ele não precisa de perdão.
Ele nunca me esqueceu. Isso que importa.
Ichigo continua Ichigo…
E sinto que as coisas serão como nunca foram antes.
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