Deixei-te, não porque não te amava,

Mas porque não queria te amar.

Deixei-te, não por querer te deixar,

E sim por querer te esquecer.

— Kuchiki Rukia

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Ainda não consigo acreditar que isso aconteceu. É exatamente o que eu mais queria esquecer… mas é o que mais volta. Aquele dia ficou grudado na minha cabeça. Não sai. Atormenta-me o tempo todo.

Ele era meu melhor amigo. Pelo menos podia ter se despedido.

Desde aquele dia, minha vida mudou. E já se passaram dois anos.

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O dia amanheceu. Mais uma aula.

Acordei como sempre: disposta… ou quase. Cabelos eriçados, olhos pesados e uma vontade enorme de voltar pra cama. Tomei banho, arrumei minhas coisas e desci para a cozinha.

Merendei com meu irmão. Conversar com ele é meio unilateral — eu falo, ele escuta. Mas, apesar disso, somos unidos. Exceto quando o assunto é Kurosaki Ichigo.

Era incrível como o nome dele bastava para arrancar qualquer expressão do meu irmão. Qualquer mesmo.

Ah, sim. O nome do meu irmão é Byakuya. E o meu é Rukia.

Terminei o café e já estava saindo quando ele perguntou:

— Quer que eu te leve?

Ele trabalha numa escola próxima. Professor de educação física e capitão do time de natação — não entendo muito bem como isso funciona, mas é assim que chamam os treinadores lá.

— Não precisa. Vou pra casa do Ichigo e o pai dele leva a gente.

— Tsc.

Eu sorri. A reação era sempre a mesma.

Despedimo-nos, e fui andando. Minha casa fica praticamente na esquina da dele. É só procurar a casa mais barulhenta da rua.

— VELHO IDIOTA! O QUE VOCÊ PENSA QUE TÁ FAZENDO COM A MINHA CUECA?!

Viram? Doce voz do meu melhor amigo.

Todas as manhãs são assim. Eu fico encostada no poste esperando a guerra acabar, porque na rua eles tentam manter as aparências.

— JÁ CHEGA! VAMO LOGO QUE A RUKIA DEVE TÁ ESPERANDO!

— E aí, moranguinho… o que foi que Kurosaki-san fez dessa vez?

Ele ficou vermelho na mesma hora.

— Nada que te interessa, nanica.

Normalmente ele me conta tudo. Mas, pelo jeito e pelo grito que eu ouvi, resolvi deixar quieto. Nós não escondíamos nada um do outro… pelo menos, era o que eu pensava.

— OHAYOOOOOO, KUROSAKI-KUN!

Orihime.

Ela é nossa amiga. Quer dizer… minha amiga. O Ichigo tem uma queda por ela. Não, uma queda não. Um abismo.

Ela tem aquela voz melosa que ele odeia… exceto quando é com ela. Vai entender.

Orihime é meiga, fiel, sempre pronta pra ajudar. Meio lerda — tá, muito lerda — porque se fosse um pouco esperta já teria percebido o que ele sente.

Ela já tem um corpo que chama atenção, coisa que a maioria de nós ainda não tem. É linda. Irritantemente linda.

Depois tem a Tatsuki, a Tats. Cabelo curto, atlética, determinada. Ichigo que começou a chamar ela assim, Tats, e pegou. Até os professores usam.

Ela e Ichigo vivem competindo. Não tanto quanto ele compete comigo, claro.

— Ei, Ichigo! Aposto que você não me vence hoje!

Hoje tinha educação física.

— Huh! Duvido!

— Já sabe o que vai ser?

— Não.

— Como pensei.

— ICHIGOOO!

Keigo. Sempre escandaloso. Sempre levando um golpe do Ichigo.

As aulas passaram como sempre: Português, Matemática, Arte e Educação pela manhã. À tarde, Química, Geografia e Educação Física.

Eu adoro Arte.

O professor Kyoraku é incrível. Não sei o nome completo dele — sou péssima com nomes. Depois pergunto pro Ichigo.

Eu amo criar. Músicas, poesias… cantar. E o Ichigo adora tocar. Formamos uma dupla imbatível.

Mas o melhor da aula de música não era isso.

Era ele.

O monitor da sala.

O garoto mais bonito da escola.

Shiba Kaien.

Ele é um ano mais velho. Catorze anos. Outra série. Isso significa que só o vejo uma vez por semana. Quarta-feira. E eu nunca falto.

Comecei a gostar dele no ano passado. Teve uma competição de natação. Revezamento. O Ichigo estava doente, então eu virei líder da equipe.

Na hora do meu mergulho, torci o pé e caí na água errada. Afundei. Desesperei.

Quando já estava quase apagando, vi alguém vindo pela luz.

Abri os olhos achando que era Ichigo — porque ele sempre aparece quando eu preciso.

Mas não era.

Era Kaien.

Desde aquele dia ficamos amigos.

E, sem perceber, eu me apaixonei.

Ele tem cabelo negro, olhos escuros que parecem noite. Quando sorri, parece que o mundo dá uma pausa.

Mas… se estou sendo sincera?

O sorriso mais bonito que eu já vi não é o dele.

É o do Ichigo.

Só que ninguém sabe disso. Porque Ichigo quase nunca sorri. E, quando sorri… é daquele jeito que faz o mundo parecer seguro.

E, pelo que eu sei, só eu já vi.



Educação Física era sempre um caos.

O professor Zaraki gritava como se estivesse numa guerra.

— MUITO BEM, SEUS PATIFES! HOJE É DIA DE NATAÇÃO!

Ichigo ganhou no jan-ken-pô.

— Baixinha, você vem pro meu time.

— BAIXINHA É A VÓ! GIRAFA TINGIDA… MORANGO ATÔMICO!

Erro meu.

Ele me perseguiu. Me alcançou. Me jogou na piscina.

Depois pulou atrás.

A gente começou a brigar, rir, se afogar de mentira. Sempre assim.

— Eu não sei se vocês se amam ou se se odeiam — comentou Ishida, ajeitando os óculos.

Ichigo passou o braço pelo meu ombro. Eu o abracei pela cintura.

Sorrimos.

— NOS AMAMOS!

A competição começou.

Eu era a primeira do revezamento.

Posição.

Respira.

Apito.

Na hora do mergulho, escorreguei.

De novo.

A água me puxou.

Escutei alguém gritar meu nome.

“Por favor… Kaien…”

Algo me empurrou.

Um impacto.

Silêncio.

Eu me virei.

A água estava vermelha.

Muito vermelha.

Laranja.

Azul.

Girando.

Não eram cores.

Era…

— Ichi…

O mundo parou.

— ICHIGOOOOOOOOOOOOOOOO!!!