Ranna

A noite era fria e o vento cortante sibilava pelas ruas desertas, trazendo consigo um silêncio esmagador. Ranna corria sem destino, seus pés descalços tocando o chão duro e gelado, o frio cortando sua pele, mas ela não sentia. O único som que preenchia sua mente era o batimento acelerado de seu coração, que parecia prestes a explodir.

As palavras ainda ecoavam em sua cabeça, cortantes e cruéis: "Ela nunca deveria ter existido..."

O que isso significava? Por que seu pai e sua tia haviam falado dela dessa maneira? Ela não queria ouvir mais, não queria entender. As lágrimas escorriam, mas não havia tempo para se perder nelas. Ela precisava fugir, encontrar um lugar onde pudesse esquecer, onde pudesse se perder de si mesma.

Correndo pela noite, tropeçou em uma pedra e caiu, os joelhos e cotovelos arranhando-se contra o chão áspero. Gemendo de dor, virou-se de costas, os olhos se fixando nas estrelas que brilhavam acima, como faróis distantes em um mar de escuridão. A vastidão do céu fez sua existência parecer ainda menor, como se ela fosse nada mais do que uma gota em um oceano infinito.

"Eu não aguento mais..." sussurrou, a voz embargada pelo choro.

"Eu só quero... encontrar meu caminho."

Fechou os olhos, um desejo profundo surgindo em seu peito. Um desejo de escapar daquela dor, de ser livre.

Quando os abriu novamente, o mundo havia desaparecido. O chão de pedras e o ar gélido foram substituídos por algo surreal. Raízes gigantescas, como veias pulsando no ar, se espalhavam ao seu redor. Uma luz etérea emanava de todos os lados, envolvendo-a em uma sensação de imensidão.

"Onde... estou?" sussurrou, a confusão tomando conta de sua mente.

Foi então que o viu.

Eren

Ele estava de joelhos, seus ombros curvados, como se carregasse o peso de um mundo inteiro. Seus olhos estavam vazios, perdidos em pensamentos que pareciam nunca ter fim. Imagens de suas escolhas, de seu passado, se repetiam incessantemente em sua mente. As perdas, a culpa, a dor... tudo o consumia. Mas ali, no vazio, ele não sabia mais quem era, nem o que fazia.

E então, ele sentiu algo. Uma presença.

Antes que pudesse reagir, uma mão tocou seu ombro, interrompendo seus pensamentos sombrios.

Eren virou-se bruscamente, os olhos arregalados ao ver a garota. Ela parecia tão jovem, mas seus olhos... seus olhos eram profundos, como se carregassem um universo inteiro dentro deles. Algo nela parecia familiar, mas ele não conseguia entender o quê.

Ranna o encarou, sentindo uma onda de emoções que não conseguia controlar. No instante em que seus dedos tocaram o ombro dele, flashes de memórias e sentimentos invadiram sua mente — dor, perda, culpa... tudo emanava dele.

"Você... está bem?" perguntou, a voz trêmula, mas cheia de preocupação.

Eren não conseguiu responder. Algo nele reagia à presença dela, uma conexão que não podia ser explicada. Era como se, em algum lugar profundo de sua alma, ela fosse a chave para algo que ele nem mesmo sabia o que era.

Antes que ambos pudessem falar mais alguma coisa, uma luz intensa os envolveu, cegando-os momentaneamente.

Ranna

Quando abriu os olhos novamente, percebeu que algo estava terrivelmente errado. O ar tinha um cheiro diferente, algo denso e desconhecido. As construções ao redor eram de pedra e madeira, e o que mais lhe chamou a atenção foi o fato de tudo ser tão... antigo. Ela olhou para suas mãos, pequenas e machucadas, como as de uma criança, e um pânico crescente a envolveu.

"Isso... não é o meu mundo." Sua voz soou fraca, como se ela mal conseguisse acreditar nas palavras que saíam de sua boca. "Onde... onde estou?"

Tudo ao redor era desconhecido, e o medo apertava seu peito com força. Ela estava sozinha, em um lugar sem explicação, sem qualquer pista do que havia acontecido.

Eren

Enquanto isso, em outro lugar, o som das batidas do seu coração ressoava alto em seus ouvidos. Ele corria pelas ruas de Shiganshina, uma cidade que já conhecia tão bem, com cada detalhe gravado em sua mente. Cada esquina, cada pedaço de rua, estava marcado por lembranças do que acontecera ali — um dia que mudaria tudo.

Mas, dessa vez, ele estava determinado. Ele não era mais aquele garoto impotente que havia assistido a tudo sem poder fazer nada. Ele estava pronto para lutar, para mudar o destino. E, mesmo que isso significasse tomar as rédeas de seu próprio futuro, ele sabia que não poderia fazer isso sozinho. Algo — ou alguém — o faria agir. Ele só precisava descobrir o quê.

Com uma respiração pesada, ele parou, sentindo a presença de algo, alguém... e então, olhou para o céu, tentando compreender o que estava por vir.


Notas finais
Espero que tenham gostado do primeiro capítulo e até a próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!