Quando Tudo Passa: O Despertar
1 Livre, enfim
Notas iniciais
Mas se não quiser tudo bem...... fazer o que né....
Espero que gostem, estava há muito tempo pra escrever esta passagem
De repente, parou sua leitura.
Não que a história do livro não estivesse interessante, mas algo o fez estancar no meio da frase. Sem se mover, ele apenas olhou para a janela que ficava em frente à poltrona usada frequentemente para leitura, no quarto silencioso.
Sério, ele se lembrou que há muito tempo não sentia essa sensação de vertigem, e não era de forma alguma uma sensação boa.
Levantou-se vagarosamente, como se não quisesse acordar um recém-nascido, e andou por passos calmos pela casa como se tivesse sendo levado por aquele caminho.
Estava de noite e ventando um pouco, nada que pudesse dar frio, apesar de ser quase meia noite. Passando pelo quarto do filho de porta fechada, conseguia ouvir o barulho do video game e das risadas dos dois garotos lá dentro, todavia não era onde precisava ir no momento. Seus pés no assoalho gelado pareciam concordar com os calafrios que estava recebendo enquanto fazia o caminho até a varanda da sala, onde dava acesso à praia particular, e apesar do leve frio quando abriu a porta de vidro, não sentiu necessidade de buscar por uma blusa. A calça de pijama e a regata teriam de fazer o trabalho de manter seu corpo aquecido, embora essa não seja sua preocupação no momento.
Iori estava ali fora.
Alguns passos mais distante da casa e parado no meio na praia com os pés descalços na areia, ele estava virado para mar, bem à frente da lua cheia no céu negro sem estrelas. Até o mar parecia mais irritado naquela particular noite.
Kyo estava aflito e com o coração palpitando. Seus pés encontraram a areia após o pequeno degrau de madeira, mas ele não chamou pelo nome do seu amado. Caminhou para não muito perto analisando o homem em pé, parado, apenas com a camisa e calças brancas dançando conforme o vento ficava mais forte, e ainda com certa distancia se aproximou do mar a fim de tentar ver o rosto dele.
Yagami o olhou.
Seus olhos estavam vítreos, amarelos, em uma face torcida por ódio que há muito tempo já não exibia mais.
Ele não se moveu, e nem Kyo se moveu. Por longos minutos os dois se encararam, intimamente e seriamente. Há muito tempo ele não despertava e com certeza estaria incomodado com a pacata e feliz vida que o seu hospedeiro estava levando. E como sempre, Kusanagi podia pressentir a presença do espírito ruim.
Com o olhar o moreno desafiava, como se tivesse convidando a entidade a sair e encarar de uma vez seu destino, deixando Iori livre, nem que para isso o próprio Kyo tivesse que morrer.
O ruivo era apenas um receptáculo. A coisa era entre Kusanagi e o demônio.
–......Eu sabia que uma hora você ia me atormentar novamente...
–--
– Ughhhh.......
– Shio?! O que foi? — Izumi deu pause no game de corrida que estavam jogando assim que percebeu o outro passando mal. Estavam sentados na cama se divertindo como sempre, e de repente Shio sentiu uma imensa vontade de vomitar, tendo que colocar as mãos na boca e soltar o controle. — Você quer que eu traga um copo de água? — O loirinho se preocupou com seu parceiro e colocou as mãos em suas costas querendo ampará-lo, e sentiu que estava suando.
–..... Não..... – O belo rapaz sussurrou entre respirações pesadas recusando a oferta, mas sentia que não era um enjôo comum. -....Tá acontecendo alguma coisa.... — Tinha a certeza de que era um pressentimento ruim, mas não sabia definir direito.
– Ahn? Como assim?? — Ficou confuso ao ver Shio se levantando para sair do quarto e o acompanharia se não fosse impedido.
– Fique aqui.
– Não Shio! Espera! — Levantou-se da cama em um pulo, já o alcançando na porta do quarto, mas o outro se virou e falou mais firme, empurrando levemente seu peito.
– Fique aqui!!
E Izumi não retrucou apesar de totalmente perdido e preocupado sobre o que estava acontecendo com o namorado.
Shio sabia que estava sendo confuso, porem não sabia exatamente o porquê do mau pressentimento. Era bom não arriscar justo com sua pessoa amada.
Também não sabia por que estava indo na direção da praia, o mesmo caminho que seu pai fez antes, mas sentia que estava sendo puxado para lá. Não queria exatamente ir. Era como se a morte estivesse se aproximando a cada passo que dava. De inicio ele não conseguia entender que aquilo vinha de seu próprio sangue.
Distante, conseguia ver seu pai em pé, de costas para si, e mais distante estava Iori agachado na areia. Vomitando.
O garoto correu um pouco, mas foi freando assim que viu que a areia estava sendo tingida por vermelho. Sua expressão era de total terror perante a situação surreal.
O que estava acontecendo com Iori? E porque seu pai estava estático, com uma expressão fria, vendo Iori sangrar e não fazendo nada?
Yagami estava com as mãos apoiadas na areia, praticamente debruçado sobre o mar de sangue que estava se criando. Não é como se estivesse vomitando sangue; ele simplesmente jorrava de seu corpo criando uma poça onde estava. Sua roupa já estava toda respingada longe do branco de antes, e sua pele estava ficando mais pálida ainda.
–.... Você quer matar um homem por hemorragia?.....Como sempre, um covarde...
Shio olhou para o pai e a princípio não entendeu as palavras provocativas, como se houvesse uma quarta pessoa naquele lugar. Logo que olhou para Iori, ele já estava olhando para si. O rapaz se hipnotizou com os olhos amarelos, e ainda mais com a expressão de raiva de Iori. A face suja de sangue só aumentava o seu terror, imóvel e sem forças para falar.
Sua memória voltou ate o tempo em que tinha 19 anos e seus pais lhe contaram sobre quem Iori mantinha em seu corpo. No começo parecia um conto de fadas, mas isso casava com a chama púrpura do pai adotivo. De qualquer forma, nunca se imagina que seria um acontecimento tão drástico como esse. E a teoria é sempre diferente da prática.
– Ao menos seja um demônio educado e venha conhecer meu filho.
Yagami de joelhos e ofegante mirou seus olhos em Shio que estremeceu com a encarada. Seu pai parecia estar jogando com a entidade e o rapaz começou a perceber que o que ele queria era o demônio fora de Iori. Shio pode não ter tanta experiência quanto o pai em questão de lutas e demônios, mas ainda era um Kusanagi, e coragem tinha de sobra.
Ao invés de mostrar medo, mostrou pena e descaso para os olhos amarelos, e isso enfureceu o mostro.
Não ter medo era uma afronta.
A risada que ele deu foi alta e amedrontadora.
Izumi estava sentado na cama e olhando para o chão, confabulando com seus botões sobre o que poderia ter acontecido com seu namorado para ele passar mal. Será que foi o lanche que fez a ele de tarde?
A estranha risada chegou aos seus ouvidos o tirando dos pensamentos de antes, e ele deu um pulo de susto. Reconhecia a voz de Iori, mas parecia distorcida e muito tenebrosa. Ouvindo isso do quarto em silencio, acabou não resistindo e foi para a sala bem quietinho, e não saiu da varanda. Próximo dela havia uma janela com cortinas grossas em cor bege a qual foi puxada o suficiente para espreitar o que estava acontecendo, e levou a mão à boca no minuto em que constatou a poça de sangue abaixo de Iori.
A risada malvada que ele havia acabado de dar ecoou no silencio da praia e o vento parou de soprar. Izumi conseguiu ver o ruivo se curvando para soltar mais sangue pela boca e nariz, e desse sangue algo começou a tomar forma.
O loirinho estava de olhos arregalados e mãos tapando a boca. Não sabia e se olhava a forma do sangue se formando, Iori cabisbaixo, ou Kyo e Shio sérios em prontidão esperando algum acontecimento.
O sangue começou a subir semelhante a uma cobra sendo hipnotizada pela flauta, e subia cada vez mais, tomando proporções até exageradas para a quantidade de sangue que havia saído. Aquilo era sobrenatural ao extremo.
Shio e Kyo estavam impassíveis. O mais novo estava nervoso por dentro, mas tentava se conter e deixar para entender as explicações absurdas daquele fato para depois.
A coisa disforme na frente começou a emanar uma energia de cor púrpura semelhante ao fogo de Iori, e de repente houve uma explosão desta energia que cegou todos e os lançou para trás. Izumi se escondeu atrás da janela com as duas mãos na cabeça, e rapidamente voltou para ver se Shio estava bem. A explosão fez alguns vasos e quadros da casa caírem, e por um momento as luzes piscaram e depois apagaram por completo.
Iori havia sido arremessado para uns 5 metros de distância, desacordado. Kyo levantava da areia junto com o filho, tentando acostumar sua visão novamente ao escuro, e quando viu Iori caído ao longe seu coração disparou. Todavia, não podia ir até ele agora.
Não com a criatura que estava bem na sua frente.
Era horrível.
Kyo Já tinha visto representações gráficas deste monstro nos livros de mitologia que seu pai lhe mostrava. Via uma criatura com corpo de cobra, com oito cabeças de cobra, e expressões malvadas, animalescas. Tinha medo dessa criatura quando pequeno, e teve vários pesadelos com cobras.
Não era bem assim. O formato era até parecido com uma cobra, visto que era cilíndrico, comprida e muito alta. Ao contrario das oito cabeças de cobra, eram oito cabeças supostamente humanas, extremamente deformadas em expressões de horror, grudadas no corpo redondo.
– Bléééargh!!!!!!....
Olhou para o lado e viu o filho cambaleando e vomitando. O cheiro era abominável, o choque grande demais para suportar e a energia negativa o fazia perder a força nas pernas.
Izumi estava debruçado ao chão da sala, vomitando e chorando com o choque. Perdeu suas forças de tanta agonia, e respirar era difícil demais com aquele cheiro.
Era como se a felicidade do mundo tivesse ido embora junto com aquela explosão.
“....... Kusaaaanaaagiiiiiiiiiiiiiii..!!........”
Kyo tinha que permanecer forte. Já esperava por algo assim, apesar de ter superado suas expectativas. Iori tinha constantes revoltas de sangue quando eram mais novos, mas o demônio nunca mostrou as caras dessa forma. Tinha que ser forte para acabar com isso de uma vez por todas. – Você é repulsivo.
“................. Ahahahahahahahahaha!!!!!................... “
A voz distorcida e sobrenatural ecoou novamente pelos arredores, e Kyo ponderava se os vizinhos poderiam ouvir.
Izumi estava ouvindo, petrificado, então provavelmente sim.
“O ódio desse homem me deixou assim... Orgulhoso?”
Kyo mantinha-se sério não levando em conta as alfinetadas da criatura. Eram palavras de um demônio afinal. – Claro que estou. O maior ódio que ele sentiu na vida não foi por mim. Foi por você.
“.... Foi tudo em vão, Kusanagi......”
– Cala a boca, seu mostro de merda!!! O que você fez até hoje??? O que você fez, senão atormentar uma pessoa?? Grande representação do mal é você!!! – Shio vociferou sentindo grande raiva de tudo, e parecia que a energia do monstro o deixava com mais mau humor do que estava, e influía o ódio nas pessoas.
Uma bola de energia foi lançada por uma das cabeças que abriu a boca de um jeito descomunal, e Shio conteve a bola a cortando no meio com seu braço em chamas. Seu pai lhe ensinou muitos movimentos com o fogo, e ele sabia artes marciais. Não era um lutador, mas era totalmente preparado.
“Matar dois ao mesmo tempo..... Hahahahaha! A vingança perfeita!”
Kyo vagou no tempo em que ele e Iori começaram a fingir, e se lembrou desta provocação feita pelo ruivo quando seu filho ainda nem tinha nascido... ‘Matar dois Kusanagis de uma vez’. Aquele monstro era maldito, e com certeza Iori seria uma pessoa sem ódio algum no coração se aquilo tivesse sido arrancado há muito tempo. Era ele quem o influenciava e o fazia ter pensamentos sobre morte. Se ao menos tivesse se dado conta disso antes...
O fogo de Shio lançado em direção ao mostro tirou Kyo de suas meditações, e viu o filho partir para o ataque.
Estava imóvel, mas não estava com medo. As coisas estavam acontecendo tão rápido que não tinha tempo para pensar, e queria bolar uma estratégia contra aquela criatura. Vendo o filho lutar, sentiu orgulho de sua criação.
Deixou a estratégia de lado e pensando em seu amor desfalecido a metros de distancia, juntou-se ao filho na batalha contra o mostro de altura colossal. Shio estava empenhado em ao menos tentar destruir as cabeças, nem que fosse uma por uma. Kyo dava ataques generalizados a fim de abalar a estrutura do mostro, e os dois formavam um ótimo par de combate. Os barulhos eram ensurdecedores, parecendo trovões, e por não estar acostumado à batalha e à energia negativa, Shio acabou se queimando um pouco.
Em um movimento do mostro, o rapaz caiu e levou um impacto com a cauda, sendo lançado a alguns metros de distância.
O pai gritou seu nome o vendo passar com velocidade ao seu lado, e dessa vez foi Kyo quem recebeu o impacto, sendo lançado na parte rasa do mar.
A criatura riu gostosamente mais uma vez, enquanto os dois se recuperavam do baque. Não era uma luta qualquer. Fazia tempo que Kyo havia lutado, mas nem por isso perdeu o jeito, só que aquela luta era muito diferente, e a criatura tinha o poder de abalar a estrutura emocional e física da pessoa. Era como se ela tivesse o dom de fazer a atmosfera ficar em seu favor.
Pela primeira vez, teve receio de que poderia perder.
Estava lutando contra o sobrenatural, afinal de contas.
Em um brusco movimento com a cauda, a criatura virou seu corpo para trás. Com isso, Kyo e Shio do mesmo lugar foram levados a olhar na direção onde estava Iori.
Izumi estava lá, amparando o ruivo e desesperado, pois havia acabado de ser descoberto.
Sem demora, a criatura lançou uma bola de energia púrpura maior ainda, como se quisesse dizimar os dois seres que estava ali.
Izumi teve a reação relâmpago e intuitiva de se por à frente do corpo de Yagami, num ato protetor, e levou todo o impacto do poder malígno. Os Kusanagi estavam acostumados com o calor pelo seu dom de emanar o fogo, mas Izumi não era imune. Depois da explosão, sua camisa ficou em pedaços e chamuscada, seu abdome teve queimaduras graves e seus antebraços, postos na frente para cobrir o rosto, também se queimaram. Ele caiu com tudo em cima do corpo de Iori.
Kyo e Shio estavam estagnados. O mais novo perdeu seu chão.
O pai olhou para o filho distante e seu interior estava se quebrando de ver a expressão de infelicidade que tomou conta do rosto de seu bem mais precioso, que jurou proteger por toda a vida. Não podia acreditar que seu filho estava pagando o preço da linhagem, e não podia se conformar que fazia parte disso. Izumi estava morto porque Kyo nunca teve a capacidade de enfrentar algo que poderia tirar a vida de seu próprio amor.
Ele caiu de joelho na água rasa e agora o mundo pesava em suas costas, e jamais poderia encarar seu filho novamente.
O berro de Shio foi mais aterrorizador e mais alto do que a risada do monstro. Kyo o olhou de longe, assustado, e pôde ver seus olhos ficando incandescentes e a chama lhe consumindo por inteiro. Era uma chama muito forte e quente, vermelha, muito diferente da chama alaranjada que estavam acostumados. Ela queimou as roupas do rapaz, e a areia abaixo dele começou a formar uma depressão. Estava evaporando.
Kyo estava paralisado com a cena que nunca viu, e que nunca soube de nada que envolvesse seus ancestrais nesse fenômeno. Apenas ouviu dizer que o excesso de raiva poderia causar uma combustão exagerada, mas nada além disso.
Parecia que estava tudo em câmera lenta. Ele viu seu filho investindo velozmente contra a criatura, e quando ele passou por si, Kyo quase sentiu seus olhos queimarem pela energia do fogo. O calor era insuportável, parecia um segundo Sol. Fazia o fogo comum ficar morno.
A criatura deu um grito estridente quando o rapaz fechou seus punhos nela, a apertando e a obrigando a queimar naquele abraço e então o fogo se alastrou nela inteira. Shio largou e caiu sobre a areia, ainda possesso pela raiva, e agora o mostro em chamas investiu sobre ele.
O rapaz o agarrou e manteve o impacto para si, coisa que não conseguiu fazer antes, e o fogo se alastrou ainda mais. Parecia uma gigante fogueira vermelha que iluminou a noite escura, e Kyo demorou a notar que a água do mar estava virando vapor.
– Shio!!
Gritou o nome do seu filho com medo de que tudo fosse consumido pelas chamas negativas, mas o rapaz não lhe escutava.
Este deu um soco na criatura e ela rolou para o lado. A cauda tentou atingi-lo sem muito sucesso enquanto era alvo de socos.
– Você vai morrer!!!!! – Gritou em fúria, e suas chamas ficaram ainda mais quentes.
Kyo jamais teria pena de um monstro que quase levou a vida de Iori, mas os gritos altos dele eram semelhantes aos de um animal sendo torturado. Era extremamente traumatizante e penoso de se ouvir.
Iori acordou com o calor e com os gritos. Distante, ele levantou sua cabeça e não conseguia entender nada, apesar de ter noção do que havia passado. Seu corpo estava fraco e pesado, e demorou alguns segundos para constatar Izumi desfalecido em cima de si. A visão do corpo parcialmente queimado e o sangue pelo rosto lhe quebrou o coração e ainda não sabia o que havia acontecido para que ele ficasse assim.
O que tinha que fazer era juntar o máximo de forças e primeiro pensar em tirá-lo dali.
Estava muito calor. Estava muito enjoado e dolorido. A única coisa que conseguiu foi abraçar Izumi entre suas pernas e ver de olhos arregalados a cena que acontecia.
Demorou a perceber que era Shio o responsável por aquilo. Somente quando o rapaz parou de pegar fogo e ficou assistindo friamente a criatura se debatendo, é que viu que o mais novo estava batalhando contra seu monstro interior. Tanto sangue espalhado, tanto desespero em um só ambiente. Só podia ser seu monstro.
Porém... Nunca tinha visto sua forma. Era a primeira vez para ele também.
– Kyo....... – O nome saiu rouco, fraco, quando ele viu seu amante na beira da praia de joelhos, paralisado ante a cena que ocorria. Parecia um pesadelo sem fim.
O vermelho foi dando lugar novamente à escuridão e os gemidos da criatura não mais eram ouvidos, além do som da areia sendo revirada por sua exaustiva contorção. Aos poucos, a temperatura do ambiente voltava ao normal e o ambiente de morte dissipava. Ela parou pouco tempo depois, totalmente carbonizada, e se desfez ao vento como se estivesse sendo corroída de fora para dentro.
A batalha durou bastante tempo, mas naquela hora parecia que havia durado pouco. O seu fim havia chegado, e talvez ela nem tivesse tido tempo para mais uma provocação ou um golpe. O fogo de Shio foi definitivo.
Os três finalmente se viram, e Kyo finalmente recuperou as forças quando viu que a atmosfera de terror havia passado.
– Iori!! – Chamou, e levantou-se correndo e cambaleando enquanto seu filho já corria nesta direção.
O ruivo olhou para os dois com os olhos ardendo, e depois olhou para baixo onde o loirinho estava.
– Izumi! Izumi!!!!!!!! – Shio ajelhou na areia o pegando de seus braços e o forçando a responder, sem sucesso.
Kyo apressado pegou no pescoço do rapaz e constatou que pulsava fracamente. – Hospital! – Resumiu o que tinham que fazer, e ajudou Iori a se levantar, pois era outro que precisava de cuidados médicos. A hemorragia foi muito intensa.
– O que... aconteceu?...- perguntava sendo amparado por Kyo, enquanto Shio corria com Izumi carregado no colo.
– Izumi te protegeu.
O ruivo ficou sem palavras, comovido pela atitude. Lamentava por não estar acordado e ajudar.
O rapaz praticamente enfiou o loiro no carro, e só voltou correndo para o quarto para colocar uma bermuda e uma camiseta, pois não tinha como entrar no hospital praticamente nu como estava.
Ele voltou, e saiu em disparada com o veículo quase batendo nos portões.
Depois, Kyo levou Iori em seu carro e se encontraram no mesmo hospital.
–---------
Quando acordou, estava um pouco difícil de respirar. Lágrimas caíram pelo rosto, libertadas pelos olhos fechados por muito tempo. O lugar estava parcialmente escuro, e nada que visse turvamente identificava como sendo algum objeto do quarto de Shio. Não era o quarto de Shio.
O pescoço virou pouco para o lado esquerdo, o lado da janela, e pela iluminação de fora deveriam ser quase 7 horas da noite. O varal de soro, o marca passo.... lentamente as memórias tomavam sua mente, e por ter acordado, parecia que tinha acordado de um pesadelo.
Mas se fosse um pesadelo, não estaria em uma maca de hospital. Tudo aconteceu. E estava vivo para contar a história. Que bom.
Um sorriso foi estampado na face. Ainda passaria muito tempo com seu amado Shio.
Virou seu pescoço para o outro lado, e viu a figura de Iori sentado na poltrona bem ao seu lado, cochilando. Não havia mais ninguém no quarto, mas sabia que não precisava se preocupar.
Ergueu uma de suas mãos e aí reparou nos enfaixamentos. Não estava sentindo dor, mas sabia do estrago em seu corpo, mas isso também não o preocupava. Esta mesma mão foi, com lentidão, pousada no ombro do maior, que abriu vagarosamente os olhos.
Depois da surpresa, ele se levantou às pressas segurando na mão do acamado e sorrindo singelamente.
Izumi o olhou nos olhos por longos segundos e também sorriu ao homem que lhe amedrontava quando era pequeno, mas que desde então se tornou uma pessoa muito importante em sua vida. Ás vezes Shio lhe contava sobre a lenda dos Yagami e Kusanagi, tentando explicar ao loirinho o fenômeno da chama, e o porquê da chama de Iori ser diferente.
Tudo em Iori era diferente; seu semblante, sua beleza, sua chama e seus olhos vermelhos. Nada disso fazia Izumi ter medo, muito pelo contrário. Apesar de ser amaldiçoado, Iori era uma das pessoas em que mais se espelhava para se tornar um adulto, e adorava o jeito daquele ruivo o qual tomou para si como um pai também. O amor que sentia por ele era muito grande para apenas ser o pai do seu namorado. Izumi gostava dele, e de Kyo, por toda a vida.
Sendo assim.... Foi impossível não iniciar um pequeno choro contido de emoção e felicidade.
Iori estava com os olhos azuis.
O loiro tampou a boca tentando não soluçar e o ruivo se inclinou para abraçá-lo em um agradecimento por ter se preocupado com sua vida, e lhe afagou os lisos cabelos dourados.
– ....Como são lindos..... Os seus olhos.... – O mais novo falou entre leves soluços, lutando contra a pequena ardência de seus ferimentos para abraçar o maior, e Iori sentiu a certeza de amar uma outra pessoa como filho.
Seus olhos eram de um azul ainda mais claro que os de Shio e izumi. Eram calmos, diferentes dos afiados rubis que foram levados juntos com sua maldição.
Izumi ficou em coma induzido por três semanas e meia. Suas queimaduras eram mais graves do que imaginavam, mas agora já estavam tratadas e fora de infecção. As queimaduras no antebraço já estavam com cascas, e poucas partes do abdome ainda estavam expostas. Dor já não tinha, apenas incômodos, porém precisaria ficar no hospital um pouco mais para evitar febre e contato com sujeira.
Kyo e Shio entraram logo após o abraço dos dois no quarto. Tinham ido jantar enquanto Iori ficou no quarto, pois já havia comido. O Kusanagi mais novo não saía de jeito nenhum do lado de Izumi, mas quando um dos pais estavam juntos, ele acabava indo para casa buscar mais roupas, tomar banho ou comer.
E foi outro que o abraçou forte como um urso, chorando após notar os olhos de seu pai adotivo
Iori se afastou e deixou os dois menores curtirem o momento juntos, e Shio parece nunca ter ficado tão feliz na vida, passado o medo de perder o amigo de infância, agora amado.
Kyo também deu um abraço no loiro, e depois de algumas conversas eles saíram do quarto deixando Shio e Izumi a sós.
– Eu nem acredito que finalmente tudo voltou a ser como antes. – Kyo aliviado por Izumi finalmente ter acordado. Jamais se perdoaria caso o contrário não acontecesse.
– Finalmente........ – Iori disse vagamente, parecendo ter deixado a frase no ar, e Kyo parou um pouco de andar pelo corredor do calmo hospital, ficando de frente com o ruivo.
– Finalmente você está livre, de verdade. Sem preocupações. – Roçou com carinho a mão pelo rosto do outro, mirando em seus belos novos olhos e sorrindo com o mesmo carinho crescente que lhe mostrava a cada despertar do dia.
Yagami pegou singelamente na mão do rapaz moreno que parecia não envelhecer em plenos 50 anos, tamanha era sua beleza e seu aspecto físico, e pensou que estar com uma pessoa que emana vitalidade era algo totalmente o contrário do que queria há muito tempo. O ruivo é e sempre será apaixonado por ele, e pelo menos em uma coisa ele sempre teve razão: que teria a vida de Kyo Kusanagi para si.
– .... Perto de você, eu sempre me senti livre.
Notas finais
Bonus: Achei um fanart meu há muito tempo perdido do Kyo e do Shio quando pequeno.
http://yaoifighters.net23.net/fanart/ShioeKyo.jpg
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