Quando Sorrimos Juntas

1 Capítulo Único - Quando Sorrimos Juntas


Notas iniciais
E olha eu aqui de novo, com a parte III e final dessa história que eu confesso que amei escrever e agradeço à vocês pela motivação para me fazer continuar, mesmo se tratando de um assunto tão delicado. *-*
Particularmente essa foi a parte que eu mais amei escrever, foi a mais emocional e real de todas para mim e eu espero ter conseguido passar isso para vocês! ♥
O link das partes I e II estão no Disclaimer, caso alguém tenha chegado até aqui e decida ler. ;)

Ver Regina e Henry quase todos os dias se tornou fácil para Emma. Mary e David gostavam da amizade que havia se formado entre a filha e eles, pois viam Emma feliz, com força de vontade, vontade de recomeçar.

Regina sempre fora compreensiva com Emma a respeito de sua doença, que a loira nunca escondeu desde o início. A confiança mútua que se estabeleceu fez com que Regina também lhe contasse sobre sua vida, sobre a morte do pai de Henry e do quanto sofrera nos últimos anos, assim como Emma também enquanto esteve internada.

Sua vida voltara a correr de forma natural e se não fosse pelos remédios que Emma tinha de tomar todos os dias, já nem se lembraria mais do fato de que tinha esquizofrenia.

Mas foi em um fim de tarde que as coisas pareceram começar a tomar rumos diferentes. As duas estavam na varanda da casa de Regina conversando sobre coisas banais. A proximidade entre as duas havia aumentado aos poucos e já haviam se tornado grandes amigas.

— Henry gosta de ler as histórias daquele livro que você deu de presente a ele e ficar comparando os personagens com as pessoas que ele conhece.

— Ah é? – Emma sorriu ajeitando-se e ficando de frente para Regina. – E com quem ele disse que você se parece?

— Com ninguém. – sentiu a maça do rosto corar e desviou o olhar.

— Pra você ter ficado envergonhada, ou ele te comparou com uma personagem muito feia, ou você gostou muito da comparação e por isso não quer me falar.

— Emma. – a loira riu e continuou a fitando. Regina revirou os olhos antes de se voltar para ela novamente. – Ele disse que eu sou parecida com a Rainha.

— Bem... – respirou fundo e criou coragem para continuar. – Eu não acho que ele esteja errado.

— Não? – o sorriso no rosto de Regina era encantador. Emma não conseguia se lembrar de nada mais lindo que já tivesse visto em toda a sua vida. – Quero dizer, ela é a vilã da história.

— Mas é uma Rainha. – a mão lenta e delicadamente subiu e colocou uma mexa de cabelo morena atrás da orelha, os corpos quase se tocando. – Linda e nobre igual uma Rainha, é isso que você é.

Os lábios foram se aproximando com cuidado dos lábios de Regina que não fugiu ao toque. E quando se tocaram Regina percebeu o quanto havia ansiado por ele todo aquele tempo, chegava a acreditar que o desejara desde o dia em que conhecera a loira no parque. Mas para Emma fora o toque que precisava para sentir-se de fato viva. Fora o toque mais real que acontecera em sua vida desde que saíra da clínica, desde que recomeçara. Agora ela tinha certeza de que queria recomeçar ao lado de Regina e de Henry.

— Emma. – sussurrou com os olhos fechados após separarem os lábios. – Eu acho que eu queria esse beijo há algum tempo já.

Emma olhou dentro das íris castanhas e teve a certeza absoluta de que qualquer alucinação que já havia tido um dia passava longe do quão real aquela Regina era. Precisava se desfazer de tudo aquilo, precisava ser honesta por completo com Regina se queria começar uma vida junto com ela.

— Tem algo que eu preciso te contar, sobre quando eu estava internada. – Regina assentiu para que a loira continuasse e permaneceu onde estava, atenta a ela. – Você sabe que eu tinha alucinações, certo? – assentiu novamente. – Foi há bastante tempo atrás, quando eu ainda me recusava a fazer o tratamento. A vida que eu tinha era totalmente real e única para mim e eu não queria que mudasse. Nada. Principalmente porque eu tinha uma família.

— Uma família?

— Sim. – Emma sentiu um nó lhe apertar a garganta ao lembrar-se de tudo. – Eu tinha uma esposa e um filho. Claro, eles não eram reais, mas eu achava que eram.

— Você sente falta deles? – Regina se ajeitou no lugar sentindo uma pontada de uma emoção indefinida lhe invadir.

— Não, quero dizer, é estranho o quê eu vou te contar, e eu nem sei como isso é possível, mas quando eles iam me visitar... – Emma olhou para o horizonte e respirou fundo. – Eles eram você e o Henry. A minha esposa era idêntica a você e o meu filho era idêntico ao Henry, os nomes, tudo...

— O quê? – Regina sentiu o mundo a sua volta girar. – Emma, o quê isso significa?

— É, eu sei, é estranho. – a loira riu perante o pensamento, mas o sorriso se desfez de seu rosto quando percebeu que Regina chorava. – O quê houve? – tentou tocá-la, mas Regina recuou. – Regina, o quê está acontecendo?

— Emma, isso... isso é loucura. – as palavras atingiram Emma como se fossem tiros lhe dilacerando. Loucura. — Isso que você acabou de me dizer, é...

Emma deixou toda a dor que a consumia naquele momento sair de si em forma de lágrimas. Chorou como uma pequena criança e lembrou-se do quanto seus colegas a chamavam de louca por ter essa doença, no quanto desejou morrer para não ter que passar por tudo aquilo, o quanto desejou que fosse qualquer outra pessoa no mundo, mas não ela. Ouvir aquelas palavras escapando dos lábios de Regina, daquele que Emma acreditava ser seu recomeço, a levaram de volta ao zero, ao irreal, ao esconder-se do mundo.

— Regina...

— Você poderia ir embora, por favor? Eu quero ficar sozinha.

A loira assentiu e de cabeça baixa saiu andando em direção ao portão. Não olhou para trás, não podia mais sequer imaginar sua vida voltando ao que era antes, mas naquele momento Emma sentia que nunca havia deixado de ser.

Quando viu a loira sumir no horizonte, foi Regina quem chorou.

~~~

Emma não dormiu em casa. Essa era a frase que ecoava na mente de Regina enquanto dirigia desesperada para a casa de Mary e David.

Era manhã, Henry havia acabado de ir para a escola quando o telefone tocou e Mary chorava desesperada perguntando se ela sabia onde Emma estava. Porque Emma não dormiu em casa.

Sentia-se culpada, só nesse momento conseguia perceber o quanto havia sido dura com a loira, o quanto havia sido preconceituosa quanto a sua doença. Dissera coisas horríveis, que ela desejava jamais ter dito. Mas havia sido muito para ela, toda a história das alucinações, dela e de Henry, Regina não soube como agir e agiu da pior maneira possível.

Agora apenas queria encontrá-la e pedir desculpas, mesmo que isso não significasse nada, mesmo que fosse mínimo. Regina só não queria perdê-la.

— Regina. – David atendeu a porta e a morena entrou apressada indo em direção a sala onde Mary estava aos prantos.

— Vai ficar tudo bem. – abraçou a mulher. – A culpa é toda minha.

— O quê? – Mary sentou-se e foi acolhida pelos braços do marido que sentou-se ao seu lado.

— Emma e eu nos beijamos ontem e eu acho que isso mexeu com ela. – começou tentando encontrar as palavras certas. – E ela resolveu se abrir comigo e me contou sobre a família que ela tinha quando ainda estava internada.

— Você acha que ela teve uma recaída? Por isso ela fugiu? – Mary parou de chorar por um instante e alternou o olhar entre a morena e o marido.

— Não. – Regina tentou conter as lágrimas, mas não conseguiu. – Ela me disse que tinha uma esposa e um filho e que eles eram iguais a mim e ao Henry. Céus, isso foi informação de mais para que eu digerisse e eu acabei sendo a pior pessoa possível com ela.

— Vocês brigaram? – Mary perguntou e David levantou-se e foi pegar o celular que tocava.

— Não. – a dor lhe dilacerando o peito só de imaginar que Emma podia estar machucada, que Emma podia ter tentado contra sua vida. Jamais se perdoaria. – Eu disse que aquilo era loucura. Meu Deus, Mary. O quê eu fiz? – passou a mão nos cabelos desesperada.

— Foi por isso que ela não veio para casa, ela se isolou. – Mary chorava imaginando a dor que a filha deveria estar sentindo. Mas não poderia brigar com Regina. – Você é muito importante para ela, Regina, e pensar que você a via como uma louca, deve ter sido de mais.

— E se ela fez alguma coisa? Jamais irei me perdoar. – a mão de Mary alcançou a sua e a apertou.

— Emma está na praia, acabou de me ligar para que não ficássemos preocupados. Ela adormeceu lá. – David apareceu na sala com o semblante menos assustado.

— Eu vou até lá. – a morena levantou-se rapidamente e caminhou em direção a porta. – Eu sei que vocês são os pais dela, mas eu preciso me desculpar, eu preciso consertar isso.

— Regina... – Mary lentamente foi até ela e segurou suas mãos nas dela. – Eu sei que você agiu por impulso, mas a doença da Emma é real, e essa talvez não tenha sido a última crise que ela teve, talvez ela ainda tenha muitas outras. Não será uma vida fácil.

— Eu sei, e eu estou disposta a estar do lado dela a cada segundo, suportando cada crise, cada momento ruim, a trazendo de volta para a realidade.

— O quê você sente por ela, Regina?

— Eu amo a sua filha, Mary. Me deixa cuidar dela com o meu amor. – os olhos cheios de lágrimas brilhando.

— Só cuide bem da minha filha, por favor. – Mary pediu sentindo David abraçá-la.

—Eu prometo. – alternou seu olhar entre eles. – Eu prometo à vocês que vou cuidar da Emma cada segundo da minha vida. Mas agora eu só preciso que ela me perdoe.

— Vá. – Mary indicou a porta enquanto enxugava as lágrimas.

E Regina foi, deixando para trás, junto deles, a certeza de que podiam confiar nela. Só Mary e David sabiam o quanto era difícil, o quanto já haviam visto Emma sofrer na adolescência e tudo que eles mais queriam era que a filha encontrasse alguém que cuidasse dela, a aceitasse e respeitasse e a amasse. Eles, naquele momento, souberam que Regina era essa pessoa.

~~~

A água do mar estava calma, a brisa fria e leve da manhã fazia as madeixas loiras voarem delicadamente batendo no rosto de Emma que tinha o olhar fixo no horizonte. Lembrava-se de ter chorado a noite toda até adormecer ali na areia da praia.

Regina estacionou e desceu do carro. A figura da loira sentada próxima ao mar lhe fez ter a certeza de que estava onde deveria estar, com quem deveria estar. Retirou os sapatos e os deixou na calçada mesmo. Sentiu a areia fria sob seus pés e caminhou deixando a brisa fria fazer sua pele arrepiar.

Chegou ao lado da loira e em silêncio se sentou. Olhou para Emma e viu o rosto vermelho e a alguns grãos de areia colados nele e agradeceu por ela estar bem, mas a loira não a olhou de volta. Regina deixou que o silêncio preenchesse o vazio que havia entre elas naquele momento, enquanto escolhia as palavras para começar.

— Eu era adolescente quando me diagnosticaram. – Emma começou com o olhar fixo no mar e quebrando o silêncio. Regina voltou seu olhar para ela. – Era como se minha vida de repente tivesse mudado por completo e que toda a cor que havia nele tivesse se tornado cinza. Eu passei a me isolar com medo de que descobrissem e rissem de mim, me chamassem de louca, mas minha mãe teve de contar para as professoras, porque eu conversava sozinha pelos corredores, mas na realidade eu conversava com meus amigos. – ela baixou a cabeça, respirou e a ergueu novamente voltando a olhar o mar. Regina chorava a cada palavra que a loira pronunciava. – Então eles descobriram e eu tive que ter aulas particulares, porque eu sofria bullying. Foi horrível, cada segundo da minha vida, olhar para as pessoas e imaginarem que elas me viam como uma louca, como um perigo, uma anormal.

— Emma... – a voz inaudível da morena fez a loira voltar seu olhar para ela.

— Mas eu não posso te culpar, você deve ter ficado assustada ontem e você não merece uma louca do seu lado... – os dedos de Regina pararam sobre os lábios de Emma e as lágrimas rolaram pela face da loira.

— Você não é louca. Eu sou uma idiota. – Regina olhou dentro das íris verdes. – Ontem eu fui a pior pessoa desse mundo. Você abriu seu coração para mim e eu disse coisas horríveis.

— Eu só queria que você soubesse que você trouxe as cores de volta para minha vida. – a voz embargada, Emma não conseguia encará-la, mas Regina ergueu seu queixo a fazendo olhar para ela.

— Me perdoa? Eu fui preconceituosa, eu fui impulsiva e mesmo assim isso não justifica o que eu fiz, as coisas que eu lhe disse. Você é a pessoa mais incrível que eu já conheci em toda a minha vida Emma, e se ser louca for ser assim, como você é, eu também quero ser louca. – a voz falhando em cada palavra pronunciada. A mão escorregou e segurou firme na de Emma. – Pode me contar o quê você quiser do seu passado, eu só não quero que você pense mais que a sua família são aquela Regina e aquele Henry, eu te peço, que deixe a mim e ao Henry sermos a sua família agora. Eu prometi para os seus pais e vou prometer para você também. Eu vou cuidar de você cada segundo, em cada momento bom, em cada momento ruim. Eu vou ficar do seu lado enquanto tudo for cores e quando tudo for cinza também.

Emma a puxou para um abraço apertado e as duas choraram juntas. A loira sempre soube que não seria fácil, assim como Regina nesse momento também sabia que não seria, mas se estiverem juntas, nada será tão difícil assim. Separaram-se após longos minutos e fixaram seus olhares.

— Você me perdoa? Sei que talvez não tenha perdão, mas é tudo que eu posso te pedir nesse momento. Eu te aceito como você é, com todas as suas imperfeições e as suas perfeições que para mim são muitas. – sorriu acariciando o rosto da loira. – Emma, eu não mudaria nada, eu queria que você fosse exatamente quem você é, porque foi por essa Emma que eu me apaixonei perdidamente aquele dia no parque e é essa Emma que vem alegrando a minha vida e a do Henry desde então e eu não consigo imaginar minha vida sem você. Quando sua mãe me ligou essa manhã desesperada dizendo que você não havia dormido em casa, eu me senti horrível e doeu de mais pensar que tinha acontecido algo com você. – mergulhada em lágrimas a morena colocava todos os seus sentimentos para fora. – Emma, eu não quero te perder.

— Eu te perdôo. – acariciou o rosto de Regina que fechou os olhos sentindo o toque. – Eu tinha medo de perder você justamente por ser quem eu sou, mas agora... – sorriu de maneira sincera. – Agora eu vejo que era eu mesma quem estava perdida e quando eu encontrei você Regina, eu me encontrei de novo.

— Emma... – colou seu corpo ao da loira e sua testa na dela ao passo que se ajoelhavam. – Eu te amo!

E o beijo da noite passada se tornou mínimo perto do beijo que partilharam naquele momento, ajoelhadas na areia da praia. Regina com os braços envolta do pescoço de Emma e a loira com os braços em volta da cintura da morena. Fora um beijo cheio de cuidados, de compreensão, aceitação, respeito e mais do que qualquer outra coisa, fora cheio de amor.

— Eu te amo, Emma! – repetiu quando separaram seus lábios.

— Eu te amo, Regina, você é a única realidade que eu quero! Você e o Henry. – e sorriram juntas antes de se beijarem de novo.

E beijaram-se diversas vezes mais, deitaram-se sem se importar se a areia da praia encheria seus corpos e suas roupas. E depois juntas, de mãos dadas, foram embora, afinal Mary e David queriam ver a filha e Henry precisava saber que agora formavam uma família. E desse momento em diante todo o sofrimento que já haviam passado, em especial Emma, fora deixado nos grãos de areia que o vento levaria embora. Emma naquele instante percebeu que quando sorriam juntas a vida se tornava mais vida.

Notas finais
VAMOS CHORAR TODOS JUNTOS. Eu fiquei muito emocionada quando escrevi os diálogos delas na praia. Coloquei emoção e sinceridade neles sim, e quando se trata das duas, eu nem preciso colocar amor, ele flui sozinho. ♥ Muito Obrigada por terem me acompanhando! ♥ Me digam tudo, tudo rsrsrs que eu quero saber. *-* Deixem reviews! ;D
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!