Diário de Rorschach. 13 de setembro de 1985. Esta manhã, na rua principal, no meio de tantos rostos eu a vi... Nina Aguilar, a mulher que ela se tornou.

Algo antigo e esquecido despertou dentro de mim. Algo que eu pensei que já tivesse ido embora há muito tempo.

Nina parece bem, feliz! Tentei relembrar alguns momentos em que estive com ela, de todas as vezes em que ela me encontrou quando brincávamos de esconde – esconde. Muitas vezes.

Ela acabou de sair de uma lanchonete com um copo grande de café expresso. Seguiu por mais três quarteirões até virar uma esquina e entrar em um beco. O beco em que eu corri várias vezes para me livrar de valentões.

Nina cantarolava uma canção até que foi abordada por seis homens. Eram um bando de trogloditas, insensíveis e imundos que estavam prestes a atacar uma mulher indefesa. Nina tentou voltar por onde tinha vindo, mas os homens a cercaram de modo que não tinha como escapar. Ela jogou o café quente no rosto do suposto líder e chutou a virilha de outro,

empurrando um terceiro, correndo para longe deles o mais rápido que podia e conseguia com aqueles sapatos de salto alto. Um deles a alcançou puxando-a pelos cabelos e apalpando seu corpo enquanto a trazia de volta para os companheiros. Ela gritava e implorava por ajuda. Acho que já é hora de intervir.

Pulei em cima de dois daqueles homens, os brutamontes que Nina tinha agredido já haviam se recomposto e agora vinham na minha direção empunhando suas facas e apontando suas armas. Desviei da facada de um golpeando sua garganta logo em seguida, ele caiu inerte no chão. Morto. Outro atirava em mim, me esquivei das balas chegando perto o bastante para chutar – lhe a virilha, pegar a arma e explodir os miolos daquele desgraçado. Matei o resto da gangue a tiros. Estava com um pouco de pressa.

Nina assistiu a tudo sentada no chão boquiaberta.

— Você esta bem? — perguntei a mulher.

Ela não respondeu. Ficou ali, no chão, me olhando com os olhos arregalados e ofegando. Quando virei às costas para ir embora ela disse:

— No... Pensei que fosse real.

O novo tom de sua voz me causou calafrios. Uma voz sexy com um sotaque espanhol. Tentei não encarar o decote sutil de seu vestido enquanto me aproximava para ajuda-la a se levantar. Estendi minha mão e ela a segurou, passei um braço por sua cintura e a impulsionei para cima, então ela se ergueu.

— E eu não pensei que estivesse tão perto... Atrás de você.

No momento que ela olhou para trás eu sumi.

Tem mais pessoas que precisam de uma punição e eu não tenho tempo para ela.

Tão pouco tempo.