Quando Os Mortos Andam.
10 Um desconhecido se apresenta
Notas iniciais
Henri era seu filho mais velho, tinha 17 anos e sempre foi bom atleta na escola, iria conseguir uma bolsa de estudos para uma universidade em Nova York, era o sonho da família, pois eles não tinham muitas condições para pagar a faculdade que Henri sonhava. O dia que a carta de aceitação chegou sua sogra estava de visita e havia se estabelecido do quarto de “hospedes” que na verdade era o quarto dela, pois todo o mês por pelo menos uma semana sua sogra, Josephine, ficava com eles. Era uma senhora meio rigorosa, mas amorosa acima de tudo.
— Olhem o que chegou no correio da cidade! – Era Marta, sua esposa que acabara de vir de um passeio na cidade com sua mãe.
— É de uma universidade importante lá na Nova York. – O jeito caipira se sobressaia em sua fala.
— Universidade? – Roger perguntou sentado no sofá da casa.
Nesse momento ouviu-se um alvoroço no andar de cima e passos apressados descendo as escadas, Henri apareceu pulando de dois em dois degraus e puxando a carta da mão de sua mãe. Naquela carta estava escrito seu futuro, estava todas as chances de mudar de vida e sair daquele fim de mundo.
— Olha o respeito moleque! – A avó repreendeu.
Henri nem pareceu ouvir a avó materna, normalmente ele sempre foi um jovem educado e tudo mais, porém aquele momento não tinha como ser. Ele estava nervoso e precisava saber o que estava escrito. Rasgou a carta e leu. Algum tempo depois ele abaixou a carta e encarou a família que estava reunida na frente da mesa e ficou assim por um tempo sem falar nada.
— E então?! Desembucha logo! – Era o irmão mais novo.
— Eu... eu acho que passei.
— Como assim acha que passou? – Roger não entendeu o que o filho estava dizendo.
— Aqui diz que passei pela segunda chamada.
— Então quer dizer que passou, querendo ou não. – E a mãe foi e abraçou o filho.
— Marta, não estrangule o menino. – Era a avó Josephine falando. – Temos que comemorar então, vou preparar um jantar especial!
— Que tal jantarmos fora? – Sugeriu Roger. – Já que nunca fazemos isso?
— Isso é uma indireta que a minha comida é ruim? – Josephine se enfezava por qualquer coisa.
— Não sogrinha, não é uma indireta! – Roger odiava quando ela inventava coisa onde não tinha. – É só que quase nunca jantamos fora, e podemos fazer isso dessa vez.
O jantar foi ótimo, estavam todos animados com a novidade e muito felizes também. Roger ficou muito feliz pelo filho, ele teve uma oportunidade que ele próprio nunca tivera e queria dar toda a ajuda possível para o filho. Uma oportunidade dessas, ainda mais na família deles, cheia de problemas financeiros não poderia ser desperdiçada. No final Roger foi até o caixa pagar a conta e ela ultrapassou o dinheiro que ele tinha, e agora o que iria fazer? Não poderia falar isso para a família, seria vergonhoso e muito menos pedir dinheiro para sua sogra. Ele pediu para Walter, o dono do restaurante quebrar esse galho para ele e que em breve ele pagaria.
Faltavam apenas 1 mês para Henri se mudar para a faculdade, e desde que ele recebera a notícia que havia passado na faculdade estava trabalhando em uma loja de ferramentas na cidade, ele tinha que ter algum dinheiro guardado porque sabia que seus pais não lhe dariam tudo e mesmo a avó tendo prometido lhe dar um dinheiro não poderia depender só daquele dinheiro. As coisas passaram depressa e sem mais nem menos notícias curiosas começaram a surgir na televisão, sobre cidades infectadas com algum tipo de vírus e doença. Pessoas matando pessoas a torto e a direito, mortos surgindo à vida. A avó, Josephine, nunca tendo visto nada daquilo nos seus 73 anos de vida, ficou desesperada e se mudou definitivamente para a casa da filha. Ela dizia que Deus havia se rebelado contra a terra, que os mortos voltaram para perseguir aqueles que devem algo a eles. Ela havia ficado neurótica.
- Mãe, por favor não quero ir a escola! Um colega meu está internado, mãe, por favor! – John, o filho mais novo implorava.
- Dessa vez é melhor ele não ir, melhor não arriscar. Eu vou até a cidade, esta faltando algumas coisas na geladeira.
- Peça a Henri que vá com você e por favor, não demorem. – Marta esta desesperada.
Algum tempo depois Roger e Henri embarcaram no carro e seguiram a cidade para comprar algumas coisas no mercado. A televisão da sala estava ligada em um volumo muito baixo e a avó estava sentada numa poltrona com uma bíblia e um terço na mão.
- Mãe, a senhora nunca foi muito religiosa. – Marta disse ao entrar na sala.
- Sempre acreditei em Deus querida, e está na hora de pagar os pecados. – Ela abaixou a cabeça e continuou a rezar baixo.
Marta sentou-se na frente da televisão e aumentou um pouco o volume, o noticiário de Washington falava sobre a morte do presidente e algo sobre o primeiro ministro. Parecia um mundo paralelo, um lugar perdido, um novo mundo terrível. Marta mudou para o noticiário local, que falava quase a mesma coisa e mostrava alguns casos na cidade vizinha, o hospital da cidade abrigava algumas pessoas, mas não estava resolvendo. Ninguém sabia ao certo o que estava causando aquilo. Algum tempo depois John veio e se sentou ao lado de Marta e disse com voz manhosa:
- Essas coisas não vão acontecer aqui não é mesmo? Estamos bem né mamãe?
- Filho, eu realmente não sei o que vai acontecer, mas vou dar tudo pra proteger você e seu irmão está bem?
- Será que o Gus vai voltar?
Gus... Aquilo cortou o coração de Marta e na mesma hora Josephine levantou os olhos da Bíblia e encarou o neto. Gus morreu fazia quase um ano, era o filho do meio e morreu ao bater a cabeça em um acidente na escola. Marta e Roger não puderam fazer nada para salvar seu filho, Gus tinha apenas 14 anos e embora fosse um menino tímido era muito inteligente, teria um futuro maravilhoso, seria aceito em alguma universidade de nome assim como Henri fora aceito.
- Voltar? Mas ele está morto John, e você sabe disso. – Josephine sabia que a filha não conseguiria dar uma resposta ao filho.
- Eu sei que ele morreu, mas a televisão e a internet dizem que os mortos estão voltando. Será que Gus sentiu nossa falta e voltou para nos visitar? – John tinha 11 anos, nunca aceitou a morte do irmão, muito menos Henri que se culpava de não ter ajudado o irmão mesmo não podendo fazer nada para salva-lo.
- Essa situação é diferente. Aqueles mortos estão doentes. – Ao terminar de dizer isso Marta saiu da sala deixando John e Josephine sozinhos, logo ela voltou a rezar.
Uma hora depois Roger e Henri chegaram da cidade, trouxeram muitas compras.
- Para que tantas coisas? – Marta perguntou ajudando a descarregar o carro.
- Você não sabe como aquela cidade esta uma loucura, o mercado nem se fale. Acho que as pessoas estão comprando comida extra para não terem que sair de casa. – Roger estava todo suado.
- Há muitas lojas fechadas e o pior: muitas delas fechadas e saqueadas. – Comentou Henri sentando-se na meda. – Mãe, o que vou fazer agora?
- Como assim? – Ela estava na frente da geladeira guardando algumas coisas. – Vamos todos ficar em casa, vou ligar para o Sr. Miguel e dizer que você não vai trabalhar.
- Eu já falei com ele, a loja vai ficar fechada, mas eu estou dizendo sobre a faculdade. Começa daqui á 3 semanas.
- Eu tenho certeza que a faculdade irá abrir depois ou algo assim, prolongar as férias com essa loucura. Não seria melhor você ligar e perguntar?
- Verdade. – Henri levantou-se e foi para seu quarto.
- 4 mortos. – Roger disse empilhando algumas latas e sacos de arroz em cima da mesa.
- Como?
- 4 pessoas da cidade estão infectadas e mais uma está no hospital com febre.
- Você acha que essa comida vai dar? – Marta perguntou colocando uma sacola plástica dentro da outra.
- Eu não tenho certeza. – Roger estava sério encarando a comida empilhada.
- Acho que ele está acordando! –
A cabeça doía de mais, os lábios rachados não conseguiam se mexer e sua perna... sua perna doía de mais.
- M-minha perna... ela dói.
- Está quebrada, tentei fazer o melhor com o que eu tinha. – A mulher loira respondeu dando as costas e indo até a cômoda ao lado da cama, ele não conseguia ver o rosto da mulher.
- Água...
- Calma, já vou lhe dar e um remédio para dor também. – A mulher se aproximou dele e colocou uma pílula em sua boca e em seguida o fez engolir água, sem nem pensar ele tomou tudo e tossiu. Suas costelas doíam.
- Como é seu nome? – A mulher loira se aproximou dele e estava vestindo uma camisa branca e uma calça bem clara.
- Você é enfermeira?
- Pediatra, ou era pelo menos.
- Como...?
- Qual seu nome?
- Roger...
Ele fechou os olhos, respirou fundo e desmaiou.
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