Quando O Vento Selvagem Sopra.
40 Quarenta
Notas iniciais
Se você me dissesse que eu estaria do jeito que estou apenas por amar, mais que fraternalmente, meu melhor amigo, eu lhe chamaria de idiota, porque isso não teria sentido algum. Mas a história é outra. A idiota da história sou eu.
Já faz quase três semanas que eu soube a verdade, mesmo que não por inteira, e isso mudou minha rotina. Do trabalho para casa, e de casa para o trabalho, como se eu fosse uma adolescente de castigo, que pudesse sair somente para ir à escola. Eu não falava muito durante esse tempo, já que andava distraída demais com meus próprios pensamentos.
É sexta-feira, a neve já não cai com tanta intensidade, apesar do vento ainda soprar selvagemente. Sento-me a frente da janela, observando os trouxas passarem pela rua, um andar abaixo, mantendo suas vidas no ritmo de sempre, enquanto tentam se proteger da fina chuva que caía.
—Você não pode ficar assim para sempre, sabia?
—Como entrou aqui? –pergunto, a voz baixa, sem me virar.
—Eu ainda sou um bruxo. –sinto ele caminhar até onde estou.
—Acho que sim. –comento.
—Hermione, você não pode se trancar aqui para sempre...
—Mas eu posso tentar. –digo, ainda ignorando seus olhos, que procuravam meu rosto.
—Hey –ele se senta ao meu lado, virando, carinhosamente, meu rosto para ele. Ainda assim não ergo o olhar. -, isso não foi nem um pouco sua culpa. Não tinha como saber que era uma...
—Armação? –interrompo, levantando os olhos. –Harry, eu te afastei de mim por dois anos. Dois anos, Harry!
—Eu sei, mas você não pode se culpar. No seu lugar eu faria o mesmo, Hermione.
Balanço a cabeça, virando-a para o outro lado.
—Tem noção de como eu me sinto estúpida agora? Eu não te deixei sequer me contar o que aconteceu. Para mim, bastava o que eu tinha visto, mas, no final, isso não era tudo, não é?! –sinto as lágrimas invadirem meus olhos, mas ainda não permito que elas caiam. –Isso não me passou pela cabeça, te escutar. Escutar como aconteceu para você, Harry. E você tentou! Não entendo como eu pude ser tão estúpida. –digo, abraçando as pernas, que estavam junto ao corpo, encolhidas no pequeno pufe.
—Hermione, não.
—Eu lhe culpei injustamente por dois anos. Te culpei por algo que você não era o culpado. Eu perdi dois anos sem você, Harry. E, antes de mais nada, perdi dois anos com meu melhor amigo. E eu não consigo me perdoar por isso. –sinto as lágrimas correrem pelo meu rosto, mas não as impeço. Deixo que caiam livremente, torcendo para que o sentimento horrível que me consome por dentro vá embora com elas.
Harry se abaixa em minha frente, levantando meu rosto, seus olhos verdes refletiam no castanho de meus olhos.
—Eu não queria que soubesse assim. –ele diz, beijando, suavemente, o topo de minha cabeça. –Mas, mesmo assim, quero que saiba que eu não te culpo por isso. A única culpada é Anges. E, bem, eu, por cair nessa, mas você não tem com o que se preocupar. Não, não fale nada. Eu espero o tempo que for preciso para que você se acalme, Mione. –ele acaricia meu rosto com os dedos e se levanta, acenando com a cabeça. –A propósito, tem uma pizza na sua cozinha. É melhor comer enquanto ainda está quente. –ele sorri fraco e aparata, me deixando estática, olhando para onde ele estava.
Demoro mais alguns minutos até decidir fazer alguma coisa. Levanto-me e caminho em direção ao banheiro, ligando o chuveiro na água quente. Deixo ela correr sobre mim por um longo tempo antes de voltar para o quarto, vestindo uma roupa quente e confortável. Calço minhas pantufas cinza, em forma de corujas, e desço para a cozinha, onde encontro a tal pizza em cima da ‘mesa’, escondendo parte de um bilhete.
Reconheço a caligrafia e sorrio ao ler, colocando o alimento em um forno micro-ondas. Apesar de ter a magia a minha disposição, eu gostava de alguns objetos dos trouxas, e, sempre que podia, usava-os, como uma maneira de lembrar dos meus pais, e da época que vivia com eles.
Leio o papel mais uma vez enquanto a pizza esquenta, e meu sorriso se torna cada ver maior.
‘’Espero que goste de pizza de queijo, mesmo não sabendo se foi feita do queijo do seu sonho. Caso tenha sido, sinto muito, não era minha intenção. O Queijo-Assassino parecia ser uma pessoa (queijo?) legal.
H.’’
Como calmamente, puxando alguns fios do queijo que insistiam em ficar grudados na fatia. Só percebo o tamanho da minha fome ao chegar no último pedaço da comida italiana, com queijo demais. Lavo os utensílios que sujei para comer e volto para o quarto, o bilhete em mãos. Deixo-o sobre a mesa ao lado da porta do meu quarto e calço botas de caminhada, preparando-me para sair. Pego minha bolsa e arrumo um lenço preto ao redor do pescoço, que contrasta com o casaco incrivelmente branco. Saio do quarto, fechando a porta atrás de mim, e desço a escada, em direção à sala.
Fecho a porta ao sair de casa, e caminho por entre as poucas pessoas que se encorajavam a sair naquela noite. A chuva havia parado, mas o vento frio era cortante. Cruzo os braços junto ao peito e caminho por mais alguns instantes, até chegar ao meu destino. Bato na porta, mas ninguém atende. Espero alguns minutos antes de bater mais uma vez, sendo recebida pela pessoa com quem queria falar.
—Hermione? –pergunta, parecendo surpresa.
—Olá, Anges. –cumprimento.
—Eu sabia que viria, mais cedo ou mais tarde. –ela se afasta um pouco. –Entra.
Respiro fundo antes de dar mais um passo em direção à verdade.
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