Quando O Lobo Uivar
12 Capítulo doze
Notas iniciais
Catelyn não fazia ideia de que dia era. Sabia que já havia passado bastante tempo, e lembrava-se vagamente do sol nascendo e se pondo contra a janela. Seu Ned vinha visita-la de tempos em tempos, e Rickon também. Eileen nunca estava longe demais, ou ao lado da cama de Bran, ou no Bosque Sagrado rezando. Em alguns momentos, a garota sumia completamente, mas Cat não ligava.
A Rainha também veio visita-la algumas vezes. Dizia amenidades, comentava algo sobre Bran. Até mesmo contou uma história sobre seu filho natimorto, o único que teria cabelos negros. Catelyn desconfiava de todos os Lannisters depois da mensagem de Lysa, e por isso ficava apreensiva com qualquer palavra de Cersei.
Toda a família real deixou seu sincero pesar junto a Catelyn. Era ria internamente cada vez que um destes vinha. Como se já não tivesse pesar o suficiente.
Meistre Luwin vinha todos os dias visitar o menino, e dizia que o pior já havia passado. Se Bran fosse morrer, já teria morrido. Agora só restava esperar que um dia acordasse. Senão, permaneceria dormindo.
Seu Ned partiria para o Sul no dia seguinte a queda, mas os planos foram adiados por causa de Bran. A Rainha não parecera muito contente com isso, mas não teve escolha senão acatar a determinação de seu rei. Jaime Lannister gracejara algumas palavras, mas também manteve-se quieto. Aparentemente o Duende tinha algum compromisso em Porto Real que teria que ser adiado.
Ao lobo de Bran não era permitido ficar em seu quarto, por mais que o animal quisesse. Por isso, ficava uivando incansavelmente. O som fazia com que Cat sentisse os pensamentos derreterem-se em sua cabeça. Certa vez fechou a janela para abafar o som, e Bran tornou-se mais pálido e fraco. Eileen abrira as janelas imediatamente, dizendo que o lobo o dava forças, que eram enviados dos deuses antigos. Catelyn não teve resposta para a fé da selvagem. Que seus deuses antigos também ajudassem.
Em outra ocasião, a garota perguntara sobre os Sete deuses.
— Senhora, poderia falar para mim de seus deuses? De seus sete deuses? – ela começou, tímida, com as bochechas adoravelmente coradas.
— Por que gostaria de saber, Eileen? – Cat perguntou. Desconfiava da serva de todas as maneiras possíveis. – Já tem os seus deuses, com os rostos nas árvores.
— Gostaria de pedir ajuda a todos os deuses , senhora. Que protejam o pequenino. – ela corou ainda mais.
— Há apenas um único deus em nossa religião. Mas este tem sete aspectos: o Pai, a Mãe, a Donzela, o Ferreiro, o Guerreiro, a Velha e o Estranho. Cada um deles tem a sua função. – Cat inclinou-se para frente de sua cadeira, soltando o bordado em que trabalhava. – O Pai é justo, a Mãe é misericordiosa. A Donzela é evocada para proteger as virtudes das moças, o Guerreiro dá força a homens e protege-os na guerra, concedendo-lhes vitória. O Ferreiro conserta o que quer que esteja quebrado, a Velha sábia mostra o caminho. Já o Estranho é o desconhecido, a morte.
— E a qual deles oro por Bran? – a garota ainda estava em pé, mexendo no fogo da lareira com um pedaço longo e enferrujado de metal. Ela virou-se por apenas alguns segundos, e Cat viu seus olhos fitando o fogo. Ainda assim, parecia concentrada no que escutava.
— Isso é você que escolhe, querida. – Catelyn sorriu com a ingenuidade da moça.
— Acho que pelo Ferreiro. Bran não está morto, apenas quebrado. – ela ponderou. Então disse, mais para Catelyn do que para si mesma: — Ele não vai morrer, senhora. É sortudo. Foi beijado pelo fogo ao nascer.
— Beijado pelo fogo?
— Tem os cabelos vermelhos, como a senhora.
— Então eu também sou beijada pelo fogo? – Catelyn riu, pensando que não gostaria de ser beijada pelo fogo.
— Sim. – Eileen riu também, provavelmente interpretando erroneamente a risada da senhora. – Fogo é vida, minha senhora. Apenas o fogo queima a noite e ilumina os mortos. Apenas o fogo.
O rosto da serva pareceu um pouco mais compenetrado depois dessas palavras, mais sério. Catelyn deu a conversa por acabada e continuou a trabalhar com seus pontos. Quando já não se lembrava da presença da serva, ela disse:
— Além disso, Bran tem a benção dos deuses antigos. A ele foram enviados os lobos gigantes.
— Os vê como uma benção de seus deuses?
— De nossos deuses, senhora. – ela disse, depois de assentir com a cabeça.
— Não são meus deuses, jamais pertenci ao Norte.
— Pertence a Lorde Eddard, não pertence? É parte do Norte agora. E os meus deuses são os seus, os rostos entalhados nas árvores-coração, nas árvores-sentinela. São sagradas. E os deuses olham por todos nós.
— E os deuses olham por todos nós. – Catelyn repetiu, encarando seu bordado. Pena que não agem tanto por nós.
***
Jon depositou os olhos sobre Mikken, que tinha um sorriso feroz no rosto. Os olhos negros brilhavam de excitação quando ele estendeu os dois braços grossos e escuros na direção de Jon. Em suas grandes mãos estavam uma espada e uma adaga: a primeira era longa e fina, destinada a Arya. E a outra, bem menor e mais grossa, uma adaga de bronze com o punho de couro fervido, destinada a Eileen. Em volta de ambas estava um cinto de couro para prendê-las.
Sabia que não devia dar presentes daquele tipo para servas. Mas não era qualquer serva.
— O que achou? – Mikken sorria de orelha a orelha enquanto Jon observava criticamente as armas. – São meus melhores trabalhos, atrasei vários projetos para deixa-las prontas.
— Estão perfeitas, Mikken. – Jon sorriu. O ferreiro nem mesmo questionara a quem eram designadas suas obras primas. – Obrigado.
Jon virou-se e partiu, mas não atrás de Eileen. Antes, iria atrás de Arya.
***
Eileen evitava o máximo que podia encontrar Theon Greyjoy. O lábio dele ainda estava machucado, e ainda que ela abrisse um minúsculo sorrisinho de orgulho cada vez que o via, não podia deixar transparecer o sentimento.
Bran estava de cama, imóvel como uma pedra. A simples ideia de que o pequeno lorde jamais acordasse a assustava. Rezava todos os dias no Bosque Sagrado, exigindo que os deuses fizessem algo. Bran já tinha os ferimentos causados pela queda quase curados, mas permanecia dormindo.
Madame Windstone deu-lhe ordens expressas para que sua única função fosse cuidar de Bran, durante todo o dia. Às vezes dormia fora de casa, perto do garoto. Não fazia a menor questão de voltar para perto de Hal, com seu hálito forte e as discussões com a sua mãe.
Quando não estava cuidando de Bran, nos momentos em que Lady Catelyn a dispensava para cuidar do filho ela mesma, Eileen ocupava-se em procurar por Jon. Certo dia, desceu até as criptas para ver se ele se escondia dela embaixo das pedras de Winterfell. Ao chegar lá, tudo o que viu foi Lorde Eddard ajoelhado a estátua de uma jovem bonita, com olhar triste e uma coroa de rosas de inverno azuis nos cabelos.
— Desculpe, senhor. – ela disse ao vê-lo. – Sinto muito se o incomodei.
— Não há problema algum, criança. – o senhor respondeu, apressando-se em retirar a mão de alguma fissura escura aos pés da estátua.
— Vou me retirar. – ela fez uma pequena reverência e saiu, não sem antes dar uma olhadela discreta a fissura. Havia algo lá dentro, mas ela não poderia dizer ao certo o que era.
Depois daquela situação embaraçosa, desistira de encontrar Snow. Em todo o momento livre que tinha, dirigia-se ao Bosque Sagrado. Rezava fervorosamente aos deuses antigos, e tentava dizer algumas palavras aos Sete Deuses novos também, mesmo sem saber seus nomes nem seus rostos.
Ajoelhou-se em frente à árvore-coração, ergueu as mãos a sua casca e tocou os olhos que a fitavam. Não sabia dizer se era tristeza, raiva ou indiferença que via em suas orbes vazias. Sabia que parecia assombrada, e ouvia no movimento de suas folhas um sussurro suave que falava de um futuro negro.
O vento gelado fez com que seus cabelos ricocheteassem em seu rosto, e ela tentou prende-los em um rabo mal-feito. Jurou ouvir o seu nome entre as folhas, e então pensou ter enlouquecido completamente quando ouviu outros nomes também. Ouvia sussurros, mas não conseguia distingui-los, não conseguia entendê-los... Até que ouviu um único com distinção.
“Bran”.
Tirou os olhos do rosto vermelho da árvore e procurou algo em que fixa-los, qualquer coisa que não fossem os deuses antigos. Acabou por fitar a lagoa de água negra, com a água quente que soltava vapor e tornava o ar abafado a sua volta. Imaginou se a lagoa teria fundo, e decidiu descobrir por si só.
Levantou-se e começou a tirar o vestido, até que ouviu um arquejar. Virou o rosto rapidamente, temendo que fosse Theon com uma piada pronta nos lábios, até que se deparou com as duas lagoas de água cinzentas que eram os olhos daquele que amava.
— Jon. – a única palavra que ela conseguiu articular.
***
- Jon. – Eileen disse, com uma das mãos sobre a manga do vestido. Ela estava prestes a tirá-lo, Jon percebeu de imediato. Apreensão subiu a sua garganta, e sentiu-a seca.
— Eileen. – ele não ousou chama-la de Ellie. Tinha que começar a se afastar. Especialmente agora. Pigarreou, passando a mão pelos cabelos. Lembrou-se da boa educação, e continuou: — Sinto muito pela intromissão, senhora. Vou deixa-la em paz agora.
— Não é necessário. – sua voz foi cortante e fria, toda a surpresa de alguns instantes atrás desaparecida. Ela colocou a manga do vestido no lugar, e alisou a saia suja de gordura.
Os dois se olharam por alguns segundos. Jon moveu-se desconfortavelmente sob seu olhar violeta.
— Tenho algo para você. – ele quebrou o silêncio. Tirou detrás das costas a adaga de Mikken.
— Uma faca. – ela aproximou-se rapidamente para analisar a arma de perto. Pegou-a com uma das mãos, e com a outra tocou em sua ponta. — É de bronze.
— Sim. Como as que os Primeiros Homens usavam. – Jon concordou, enquanto a garota colocou a lâmina mais perto dos olhos. Então ela ergueu os olhos para ele e riu:
— Cuidado para que eu não o espete com isso. – ele abriu um sorriso triste, observando-a com olhos atentos para qualquer traço, lutando para gravá-la em sua mente. – Você vai mesmo para a Muralha?
— Vou. – respondeu, olhando para o chão. Não tinha coragem de encará-la.
— Não pode.
— Posso, sim.
— Não, você não pode. – sua voz falhou.
Ela saiu andando, mas Jon segurou-a pelo pulso. A garota virou-se furiosamente e deu-lhe um tapa repentino no rosto. Ele segurou seu braço, e prendeu-o contra o tronco de uma árvore qualquer. Ela tentou bater nele com a outra mão, mas Jon também a segurou até deixa-la encurralada contra a árvore. Eileen olhou para um lado e para o outro, as lágrimas embaçando sua visão, mas não havia nada mais o que fazer. A não ser, é claro...
Seus lábios encontraram-se em um instante, ferozes e urgentes. Suas línguas se uniram em um beijo úmido, e o sabor de Eileen inundou a boca de Jon. Ele arfou, lembrando-se dos estábulos e sabia o que aconteceria em seguida. Por isso, obrigou-se a se afastar.
— Não.
— Eu sou sua e você é meu. Não pode ir embora. Não pode ir. – ela disse a última frase mais para si mesma do que para Jon. Então levantou a cabeça e fitou os olhos cinzentos. – Nós quase... Quase...
— Não houve nada. Sua honra está intacta. – Jon jamais se perdoaria se não estivesse assim.
— Mas...
— Não há nada que pode fazer, Eileen. – ele beijou seus lábios suavemente uma última vez. – Eu vou embora. Cuide-se.
— Eu te amo, Jon Snow.
— Essa é uma boa resposta.
— É claro que é, fui eu que dei. – ela riu, um último sorriso triste para Jon se lembrar nas noites frias além da Muralha. – Cuide-se você, na Muralha. Apenas o fogo pode queimar a noite e iluminar os mortos, é o que a minha mãe diz.
Então o soltou, por mais que doesse em seus ossos. Lágrimas umedeceram seus olhos e caíram por suas bochechas quando Jon caminhou em direção à saída do Bosque Sagrado. Tomando coragem, virou-se uma última vez para vê-la. O vento soprava e fazia seus cabelos chicotearem contra o rosto, e este estava marcado com lágrimas prateadas. Disse:
— Eu te amo, Eileen. Mais do que qualquer coisa.
— Não é verdade. – sua voz soou embargada e doída. – Se assim fosse, você não estaria indo embora.
— Duvide de tudo. Do sol, da lua, das nuvens, do vento e até mesmo dos deuses. Mas não duvide disso, Ellie. Eu te amo. – ele repetiu as palavras antes de virar-se de vez e ir embora.
***
Catelyn sentiu a raiva queimar profundamente quando o bastardo apareceu. Tinha o rosto marcado por lágrimas e olhos vermelhos. Pelo menos isso a satisfez: o garoto também estava infeliz. Ele parou ao lado da porta, como um espantalho com os cabelos bagunçados.
— Eu vim me despedir.
— Vá embora.
Ele não a ouviu e aproximou-se. Beijou a testa de Bran, sorriu minusculamente para o garoto antes de chorar copiosamente. Catelyn achou a cena deprimente, mas o que ela poderia dizer? Não havia nada mais deprimente do que ela prender-se daquele jeito a cama do filho.
— Eu vou para a Muralha, Bran. Defendê-la. Terei que deixa-lo sozinho, para cuidar de Robb. De Rickon. Para cuidar do pai, das meninas. E de Eileen também, não se esqueça dela.
Jon parou de falar e virou o rosto para Catelyn. Ela sentiu a raiva queimar ainda mais dentro de si. O pior é que o garoto era bonito. Lembrava um pouco o seu Ned no início do casamento. Os olhos cinzentos carregavam a mesma melancolia, a mesma frieza dos Stark de Winterfell. Ladrou:
— Eu quero que você vá embora.
Ele levantou-se e depositou mais um beijo na testa de Bran. “Na testa do seu filho.”, ela pensou.
— Jon. – Cat chamou-o uma última vez, mais próximo a porta. O garoto virou-se, com os olhos arregalados por ela ter usado o seu nome. – Era pra ter sido você. Quando estiver na Muralha, lembre-se disso. É um Snow, e não um Stark.
Ned apareceu na porta, com o rosto gelado. Os olhos encontraram os do filho quando Jon foi embora. Cat não aguentou fita-lo e inclinou-se sobre o colo, para continuar o bordado.
— Ele tem o meu sangue, Cat. E isso não é culpa dele. – Ned andou lentamente até ela e sentou-se na cama a sua frente, ao lado de Bran.
— Este é seu filho. Não Jon. – ela calou-se, encarando as mãos. – Não devia ir embora.
— Eu não tive escolha.
— Não teve escolha. – ela bufou e riu. Ainda assim, algumas lágrimas caíram de seus olhos. – É isso o que os homens dizem quando a honra os chamam. Eles partem em busca de glória, em busca de uma reparação em sua honra. E nunca voltam. Deixam as esposas chorando em casa.
— Não vai ser assim desta vez.
— Há dezesseis anos, você partiu para lutar as guerras de Robert Baratheon. Quando voltou, tinha um bebê de colo com você. Agora você volta a partir, para lutar as guerras mais sutis do mesmo Robert Baratheon, desta vez rei. O que acha que eu devo esperar? Posso perder até perder o meu Bran, não posso perder você também.
Ned, o senhor seu marido, segurou-a pelo pescoço e beijou-a suavemente, do jeito que faria com que corasse no início do casamento. No beijo, sentiu desejo e urgência, além de uma incômoda sensação de despedida. Quando seus lábios se separaram, seus rostos mantiveram-se juntos. Ele apoiou a sua testa na dela. Cat sentiu seu hálito quente quando ele disse:
— Não deixe que isso a destrua, Cat.
— Já me destruiu, Ned.
***
Jon saiu para o pátio ainda atordoado com as palavras de Lady Catelyn. Por que a mulher o odiava tanto? Nunca fizera nada a ela, a não ser ter nascido da amante de Eddard Stark. Quando no pátio, dirigiu-se aos estábulos e pegou uma sela, colocando-a sobre um dos ombros. Aproximou-se do cavalo, e ouviu:
— Snow. – era Robb. Sorriu para o meio-irmão, mas os olhos azuis permaneceram sérios. – Fique aqui. Não vá embora. Não tem que ir.
— Não vamos mais falar disso. – Jon sorriu, um sorriso fraco e não convincente. – Na próxima vez que nos virmos, eu estarei usando o negro.
Robb não sorriu, olhando para o irmão com as sobrancelhas franzidas. Jon pôs uma das mãos e sorriu, desta vez conseguiu ser um pouco mais convincente.
— Não é culpa sua. Esquecerei Eileen assim que ficar três dias na Muralha. – ele mentiu. Assentiu com a cabeça. – Ficarei bem. E Bran também.
— Ele não vai morrer.
— Stark são duros de matar.
— Minha mãe? – o meio irmão de Jon franziu as sobrancelhas.
— Foi doce como mel.
— Que bom. Da próxima vez que o vir, estará usando o negro.
— Eileen sempre disse que era a minha cor.
Robb riu desta vez, e os dois se abraçaram brevemente.
— Cuide-se, Snow.
— Cuide-se, Stark. Adeus.
Jon subiu no cavalo e viu Robb afastando-se até perto de Eileen, que observava Jon com uma expressão rígida. O garoto então virou o cavalo rispidamente e seguiu o tio. Virou para trás uma última vez, apenas para a ver uma última vez. Em sua mão estava a adaga, e ela deu o mais frágil dos sorrisos para o bastardo. Robb aproximou-se dela, ao seu lado. Virou-se para Jon e assentiu com a cabeça. O vento ricocheteou em seus cabelos furiosamente.
Jon olhou bem dentro dos olhos da serva antes de virar-se e continuar a cavalgar, gravando-os em sua mente. Olhos que, de tão azuis, se tornavam violetas. Olhos que o assombrariam para sempre.
***
Eileen abriu a porta de casa no exato momento em que as lágrimas pareciam sair de controle. Fechou-a com um estrondo e sentou-se no chão. Ele era um idiota, apenas um idiota. Nunca a amou. Que o esquecesse, ele ia sofrer o frio da Muralha e viver com homens a sua volta. Não deveria chorar, por ninguém. Sua mãe a ensinara isso. Por ninguém, nem por si mesma. Por que, então, estava fazendo exatamente aquilo?
Estava escuro do lado de fora, a lua alta no céu, mas estava ainda mais escuro dentro de casa. A lareira não estava acesa. Lutou para cambalear até o outro lado da sala, onde julgava estar o fogo, e tentou acendê-lo. Tateou até encontrar as duas pedras que estavam ali em algum lugar e usou-as até conseguir uma fagulha. Contra a madeira seca o fogo logo pegou, e conseguiu jogar alguma luz no aposento.
Quando virou-se, notou a porta do quarto de sua mãe entreaberta, com uma respiração pesada vindo de dentro. Sentiu o coração acelerar, temendo o que quer que estivesse ali. Forçou um pé a mover-se, e depois e outro, e mais uma vez, até que deu três passos e chegou a porta. Moveu-a ligeiramente, apenas para espiar dentro do cômodo, pronta para virar-se e fugir dali em menos de alguns segundos.
Parou bruscamente quando viu que era apenas Hal, bêbado de novo, deitado na cama. Abriu a porta rapidamente então, e pôs as mãos na cintura. Adotou uma posição desafiadora, e com a voz mais segura que pôde, perguntou:
— Onde está minha mãe?
— A vagabunda.
— E o corvo disse que a gralha era preta. – ela zombou. Os olhos leitosos de Hal viraram-se para ela, mas a garota não teve medo. Agora tinha uma adaga. – Onde está minha mãe?
— Protege-a tanto. Não faz ideia do que ela faz. – ele deu uma pausa. Encarou o teto mais uma vez. – Do que ela fez.
— O que fez, então? – sentiu-se uma mãe tendo que lidar com as brigas infantis de duas crianças pequenas.
— Fugiu. – Ellie prendeu a respiração e sentiu o coração gelar.
— O que disse?
— Eu disse que a VAGABUNDA FUGIU.¬ – ele gritou a última parte. – Fugiu com algum cavaleiro menor qualquer da horda do rei.
— Fugiu?
— Lenta. – ele levantou-se de um pulo e agarrou pelos braços. Ellie pensou em usar a adaga, mas estava estupefata demais para se mexer. – Sua mãe a largou sozinha aqui com o monstro. Com o marido terrível. Ela FUGIU. FOI EMBORA. FOI-SE. Dê o nome que quiser, não vai voltar mais.
— Como sabe disso? Está brincando. Está zombando de mim. Minha mãe jamais faria isso.
— Ah, sim, faria. Você sabe que Moyra faria qualquer coisa por sua pele. Até casar-se comigo. – Hal largou-a e pegou um copo de cerveja amarga de cima da cama para engolir um grande gole. – A dona do bordel me contou. Viu-a gracejando com um homem de armas e depois indo-se embora com ele.
Ellie encarou o chão, tentando absorver as palavras dele. Moyra havia ido embora. Simples assim. Impediu as lágrimas de caíram o máximo que pôde, e surpreendeu-se quando conseguiu. Estava chorando demais naquele dia. Jurou a si mesma que não choraria mais.
Ergueu o queixo o mais alto que pôde, e disse, com a voz segura e ameaçadora:
— Não tenho outro lugar para ir. Vou continuar aqui. Terei minha própria comida, dormirei na sala como sempre faço, e te darei algum dinheiro para gastar... Do jeito que quiser. – ela obrigou-se a dizer, e o sorriso malicioso de Hal a deu vontade de estapeá-lo. – Não dirija-se a mim, mal me verá, e de modo algum, toque em mim.
— São regras demais para uma pedinte. – o homem ergueu a mão para tocá-la no ombro, mas ela o segurou e virou o pulso, quase quebrando-lhe a mão. Ergueu a adaga que tinha ganhado, e apontou-a contra a garganta de Hal.
— Toque-me mais uma vez e será a última vez que usará suas mãos. Tente de novo, e não mais respirará. Entendeu? – ela pressionou a lâmina um pouco mais.
— Sim. – ele arquejou, mas ela pressionou a adaga com mais força. Um pouco de sangue caiu do ferimento.
— Quem é o pedinte agora? – então retirou a lâmina e empurrou-o contra a cama, virando-se rapidamente, antes que ele tentasse mata-la. Fechou a porta com um baque e soltou a adaga, para não notar o modo tão irritante com o qual sua mão tremia.
***
Robb seguiu para a torre do irmão, como fazia todos os finais de tarde. Ia para lá e fazia companhia para a mãe e para Eileen. Bran não havia acordado, e já fazia alguns dias que o pai partira. E Jon também. Robb já era Senhor de Winterfell, e nada o assustava mais. Quando não fazia ideia do que fazer, Meistre Luwin perguntando sobre a mãe, e Rodrik Cassel também, lembrava-se das palavras de Eileen: “Você nasceu para governar. Para ser o senhor de Winterfell, para ser um rei”.
Pulou os degraus de dois em dois. Rapidamente chegou ao topo da torre e ouviu um grito da mãe. Então a porta abriu-se repentinamente e Ellie saiu de lá, parecendo um pouco desnorteada e assustada. Ela sorriu para ele fracamente, e a rosa azul que tinha no cabelo caiu. Pegou-a rapidamente e botou-a de volta no lugar.
— O que houve?
— Meistre Luwin está aí. Ele fez algumas perguntas à Lady Catelyn, mas ela não pôde responde-lo.
— Ela está nervosa?
— Sim. Ralhou comigo quando tentei abrir as janelas. – Ellie contou para seus próprios pés. – O som dos lobos a assusta, mas eles protegem o garoto. Tornam-no mais forte. Se puder dizer isso a ela...
— Direi. Aonde vai agora?
— Ela mandou-me embora. Trazer um livro para que ela lesse, ou algo para que comesse.
— Então vá. Não gostaria de atrasá-la.
— Sim, senhor. – ela fez uma minúscula reverência, e riu de um jeito leve. Do jeito que não fazia desde que Jon fora embora. – Lorde Robb Stark. Lorde de Winterfell.
— Não se reverencia lordes, apenas reis. – ele sorriu para ela.
— Como eu saberia disso? — a garota deu de ombros. Abriu um sorrisinho cúmplice. — De qualquer jeito, adeus, senhor.
Ainda ouvindo os passos dela ecoarem atrás de si, Robb abriu a porta.
— ...Poole partiu com Lorde Eddard para Porto Real, senhora. Precisamos de um novo camareiro, e há vários outros compromissos que exigem nossa atenção imediata.
— Não me importo com eles! Não quero saber, resolva sozinho.
— Eu cuidarei de tais compromissos. – Robb fez com que os dois notassem a sua presença. A mãe tinha olhos inchados e parecia frágil em um vestido azul que realçava a cor de seus olhos. – Falaremos sobre isso amanhã cedo.
— Muito bem, senhor. – Meistre Luwin silenciou-se, fitando Robb, que inclinou a cabeça levemente em direção a porta. Felizmente, o meistre entendeu a mensagem, e fez uma pequena reverência a Lady Catelyn. – Senhora.
O cinzento meistre deixou o quarto, e Robb andou até a janela. Lembrou-se das palavras de Eileen e abriu-a, ouvindo o uivo incessante do lobo de Bran. Respirou fundo e tomou coragem para dizer para a mãe;
— Quando foi a última vez que deixou este quarto?
— Não posso sair daqui enquanto Bran não acordar.
— Bran não vai morrer. Meistre Luwin já nos assegurou disso.
— O homem pode estar errado. Bran precisa de mim.
— Rickon precisa da senhora. Ele tem quase três anos. Não faz ideia do que está acontecendo. Segue-me o dia inteiro, isso quando não fica seguindo Ellie, segurando as nossas pernas, e chorando, perguntando de Jon, da senhora, do pai, de Bran...
— Feche as janelas! – Catelyn levantou-se para fechá-las ela mesma, mas sentiu as pernas amolecerem e os uivos penetrarem novamente seus ouvidos bem mais do que ela gostaria. Robb segurou-a com braços firmes, e a mulher perguntou a si mesma quando que o filho ficara tão forte assim. – Faça com que eles parem. Por favor, apenas que eles parem...
— Os lobos jamais machucariam-na, mãe. – Robb sentou-a gentilmente na cama ao lado de Bran, apenas para abraça-la por alguns segundos e chegar novamente para perto da janela. – Eles são nossos protetores.
— Aquela serva já fez a sua cabeça também? – a voz da mãe era amarga.
— Se prestar atenção, — Robb a ignorou. – Pode diferenciar os lobos. Este é o lobo de Bran. Agora há também Cão Felpudo, de Rickon. E... Vento Cinzento?
Robb perscrutou pela escuridão da noite do lado de fora da janela, e notou um brilho alaranjado vindo de um dos prédios. De uma torre, para ser exato. Era... A torre da biblioteca, e estava em fogo.
— Fogo. Fogo!
— Fogo? – Cat levantou-se da cama de um pulo, as pernas novamente fortes. – Ajude-me a leva-lo daqui, vamos.
— Não. É na biblioteca, jamais será aqui. Fique aqui, eu voltarei logo. Não saia daqui.
Robb saiu em disparada, pensando apenas em uma coisa: “Ela ia buscar um livro, não ia?”.
Assim que o filho partiu, Catelyn aproximou-se da janela para assistir ao incêndio. Homens debaixo da torre corriam desesperados com baldes de água, e viu o filho gritar ordens com uma voz régia. Lembrou-se de quando ele, Jon Snow e Eileen subiam em cima das torres para gritar ordens uns aos outros através dos pátios, quando a garota ainda não trabalhava no castelo.
Ouviu passos e sentiu um cheiro desagradável atrás de si, e pensou que talvez fosse a serva retornando. Porém, quando virou-se, o que viu foi um homem alto com um capuz sobre o rosto. Rapidamente ele o tirou, e revelou um rosto de feições duras e olhos escuros, com cabelo de palha embaraçada.
— Você tão devia tar aqui. Ninguém devia tar aqui. – sua voz era rouca e grave. Em uma de suas mãos, carregava uma ornamentada adaga. Catelyn sentiu um calafrio quando percebeu o que o homem queria fazer. Jogou-se para perto da cama de Bran, e disse:
— Não. Não pode, por favor.
— Ele já tá morto. É misericórdia.
— Não, por favor.
— Mas você não devia tar aqui. – E Cat encolheu os ombros enquanto o homem aproximava-se.
Notas finais
Queria saber o que acharam. E sim, isso inclui vocês, leitores fantasmas. LEITORES ANÔNIMOS, ANUNCIEM-SE!
Beijos,
LylaM.
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