Quando O Lobo Uivar

20 Capítulo vinte


Notas iniciais
Eu sei que eu sou um ser humano horrível, mas o próximo vai vir antes, eu juro! Estava viajando na primeira semana de férias, pro fim do mundo que eu sempre vou em feriados e dias que não tem aula. Enfim, espero que gostem desse. Tem tanta emoção, que eu não aceito poucos comentários.

Homens chegaram a Winterfell nos dias que se seguiram. Eram todos escuros e assustadores, como se os corvos retornassem ao seu ponto de partida na forma de homens. Eram ferozes e selvagens, mas isso apenas mascarava o fato de que estavam em menor número.

Eileen caminhou através dos homens que andavam de um lado para o outro. Viu o símbolo dos Glover, uma luva em punho. Viu o símbolo dos Umber e o inconfundível Grande-Jon. Ele era alto e mais largo que dois homens. Pelo menos ele estaria ao lado de Robb nos dias de guerra, e não contra.

“E quanto a mim?”, Eileen pensou.

Ela parou e olhou para todos os lados, buscando por Rickon, mas não conseguiu acha-lo. Conseguiria ela deixa-lo, deixar Bran, para ir atrás de Robb e protege-lo? Lutar não seria um problema. Mulheres podiam ser admitidas no exército. Havia a alta e bela Dacey Mormont, além da própria Maege Mormont.

Então Ellie viu uma garota de estatura mediana, mais alta do que a serva, entretanto, com cabelos castanhos escuros empurrar um homem bêbado que aproximara-se demais. Ela estava apoiada em uma parede perto de Mikken, que afiava uma espada longa e negra. Provavelmente era para ela.

Ellie, curiosa, aproximou-se. Buscou uma desculpa e perguntou para Mikken:

- Viu o pequeno senhor, Mikken?

- Ele estava com Meistre Luwin, tendo aulas no alto dos muros.

- Não este pequeno senhor. O outro.

- Rickon? – Eileen assentiu. – Este eu não vi. Mas alguns homens estavam procurando-o agora a pouco. O lobo dele sumiu das algemas.

Com a aproximação de Eileen, a garota erguera o rosto. Era afiado e áspero, austero, decorado com lábios finos. Não era doce como o de Dacey. Mas a espada que Mikken afiava era mais escura e maior que a da garota Mormont também. Os olhos eram verdes claríssimos e penetrantes.

Ela usava uma calça de couro e a parte de cima de uma armadura, com o inegável símbolo dos Greystark em seu peito. Era um fundo vermelho com um sombrio animal, e Ellie não saberia dizer se era um lobo gigante ou um gato-das-sombras, negro e em posição de ataque.

Eileen olhou-a fixamente por alguns segundos, e tomou sua decisão. Virou-se repentinamente e caminhou, obstinada, para dentro do castelo.

***

Robb tinha os olhos fixos no mapa à sua frente. Esforçava-se para gravar todas as falhas do terreno, todos os caminhos, os castelos e seus senhores. Queria com todas as forças que se lembrasse das lições antigas de seu pai. Era agora que precisava mais delas.

Com o punho fechado, socou a mesa de madeira. Tinha homens sob seu comando, homens que sabiam mais de guerras do que Robb saberia até os quarenta anos. Pelos deuses, ele só tinha dezesseis. Mas agora todo o dever recaía sob seus ombros, e tudo o que ele conseguia pensar era que estava perdido.

A porta do escritório de seu pai rangeu e uma minúscula figura entrou com pés ligeiros. Era Eileen. Robb abriu um sorriso cansado ao vê-la, mas ela manteve o rosto sério. Aparentemente não estava ali para conversas.

O vestido cinzento que usava era de lã pesada, e ela usava camisas por baixo. Mas nada poderia esconder o formato curvilíneo de seu corpo, a cintura fina e os quadris largos. Era um tanto quanto baixinha, mas isso só fazia com que parecesse mais ainda com uma boneca, ou a personificação da Donzela ela mesma.

- Eileen, está tudo bem?

- Não. Não, Robb. Não está tudo bem. – ela aproximou-se, esfregando as mãos apreensivamente.

- Aconteceu algo com Rickon? Algo com Bran?

- Não. Eles estão bem. Eu apenas acho que... – ela mordeu o lábio. Robb conhecia-a bem o suficiente para saber que a garota estava tentando arranjar coragem para dizer algo. – Terei que me demitir.

- Demitir-se? – Robb quase gritou as palavras. Sua garganta ficou seca, os olhos arregalados. – Por que demitir-se?

Ela encarou o chão, apoiada como qualquer Senhora faria, com as mãos suavemente postas sobre o mapa. Uma mesa inteira, de madeira de mogno, separava-a dele. Robb agradeceu aos deuses por isso. Se estivesse mais perto, poderia agarrá-la ali mesmo.

- Podemos conseguir alojamentos melhor se esse for o problema. – ele buscava maneiras de fazê-la ficar, enquanto ela soltava-se de sua posição do outro lado da mesa e contornava-a lentamente. Robb enrijeceu o corpo, adiantando a súbita proximidade. — Não precisa demitir-se e ir embora. Pode ficar aqui. Bran vai...

Eileen riu e interrompeu-o em sua linha de pensamento. Robb também sorriu, pensamento que era apenas uma brincadeira de surpreendente mal gosto.

- Eu não vou me demitir por isso, Robb. – ela coçou a cicatriz mais recente, no pescoço, e colocou o cabelo sobre ela, na tentativa vã de escondê-la. – Eu quero ir com você. Para o Sul. Lutar por Lorde Eddard e... E por você.

- Está brincando, certo? – o sorriso do garoto morreu em seu rosto. – Está brincando.

- Não. Não estou. – os olhos violetas fitaram o chão, temerosos pela decisão de Robb. Então eles se ergueram, como se o desafiando a desafiá-la. – Eu vou para o Sul.

- Mas você nem mesmo sabe usar uma espada.

- Eu sei usar todas e quaisquer armas que forem necessárias. Minha mãe me ensinou, e ela aprendeu com meu pai, que era o melhor espadachim da Patrulha da Noite. Pelo menos foi isso o que ela me contou.

- Ah, foi? – Robb cruzou os braços sobre o peito, furioso e divertido ao mesmo tempo. – Você não parece saber muito bem.

- Como disse?

- Digo que você não usa tais armas com muita frequência. – ele falou, bem mais alto. Soltou os braços e puxou uma mecha de cabelo dela, para que saísse da frente do pescoço. Então tocou as cicatrizes: a mais recente do pescoço, a mais antiga do pescoço, e as horrendas e longas cicatrizes do rosto. Estas, contudo, estavam mais apagas e claras do que as outras, apenas uma sombra do atentado contra seu irmão alguns meses antes. – Uma, duas, três e quatro.

Ele pousou a mão contra o seu rosto por um segundo, e então a deixou no pescoço da garota, perdida no emaranhado de cachos negros.

- Você tem que cuidar de meus irmãos enquanto eu vou marchar contra o Sul.

- Eu marcho com você contra o Sul e nós dois cuidaremos de seus irmãos.

- Nunca pensei que você os deixaria assim, Ellie.

- Eu não estou deixando-os. Eles estarão em segurança, atrás das muralhas fortes de Winterfell. Nenhum mal os tocará.

- Minha mãe...

- Lady Catelyn me disse para cuidar de seus meninos. Seus meninos, Robb. Isso inclui você. E eu irei para o Sul para proteger você.

- Não, você não vai.

- Tente impedir-me. – ela deu um passo para trás e virou-se abruptamente, andando a passos largos e duros até a porta.

- Eu não a contratarei como uma espada ao meu serviço. – ele disse, fazendo com que Ellie parasse à porta do cômodo. – Boa sorte tentando encontrar um senhor que contrate uma mulher como soldado.

***

Todas as tardes, conforme o sol se aproximava mais do horizonte e o ar esfriava, as lagoas de água quente do Bosque Sagrado soltavam mais e mais vapor, fazendo com que a temperatura do ar parado aumentasse. Era nesse momento que Eileen aproximava-se da margem, tirava as roupas e entrava no lago. Gostava de sentir o contraste do frio do lado de fora contra o calor da água contra a pele. Não importa o quanto se domasse dentro das muralhas de Winterfell, ainda tinha o sangue livre da mãe.

Um gato-das-sombras, ela pensou, rodeada por água escura.

Deixou-se afundar mais e mais na lagoa, imersa em água e em pensamentos. A luz tornou-se cada vez mais ínfima, os perturbadores raios de sol não podiam atrapalhar muito a calmaria da escuridão do fundo da lagoa. Bem, pelo menos do mais fundo que Eileen podia chegar. Ela não havia descoberto ainda se aquilo ali tinha um fundo de fato.

A água tornou-se mais gelada conforme ela afundava, mas ainda morna. Foi revigorante, e a serva fechou os olhos para aproveitar melhor o sentimento. Acabou lembrando-se do olhar grave e desaprovador de Robb. Ele simplesmente não conseguia entender que ela estava fazendo aquilo pelo seu bem, e pelo bem das crianças. Por algum motivo, seus pensamentos, quando vagos, andavam voltando-se sempre para o jovem senhor.

Ela abriu os olhos, obrigando-se a parar de pensar em Robb. Olhou para cima, e para baixo, e para a água ao seu redor. Sentia o pulmão começando a queimar, mas sabia que aguentaria mais um pouco. Não estava preparada ainda para voltar ao mundo real. Queria ficar mais ali, no silêncio infinito do seu lago.

Era onde sentia-se mais a vontade, mais próxima de seus deuses. Para ela, eles não eram antigos ou novos. Eram os únicos deuses nos quais acreditava, e os únicos que existiam. Sabia que, imersa como estava naquele lado, as raízes da árvore-coração estava apenas alguns metros a sua frente. O rosto na árvore, de orbes vazias e infinitas, que observavam-na e cuidavam dela.

Ficou imóvel o máximo que pôde, tentando ouvir o vento do lado de fora, e algo que a guiasse em sua decisão. Até que um som fez com que virasse o rosto repentinamente para cima. Foi no momento exato em que seus pulmões queimaram ainda mais e ela sabia que precisava sair daquele lago ou morreria afogada, e ninguém jamais saberia por que desaparecera.

Alguém pisara em galhos. Eileen emergiu na água escura, protegida pela neblina espessa. Silenciosa como uma sombra, ela aproximou-se da água onde estavam suas roupas. Vestiu-se rapidamente e escondeu-se atrás da árvore-coração. Segurava a adaga que Jon lhe dera. O bronze emitia um brilho claro contra o sol de fim de tarde.

Ela tinha pés pequenos e delicados, e já estava habituada a andar naquelas matas. Então, sem um único som, aproximou-se do invasor. Antes de ataca-lo, ela observou-o atentamente.

Não era invasor algum. Era apenas a garota guerreira, aquela Greystark.

Eileen abaixou a adaga, e nesse momento a Greystark virou-se assustada, com a espada longa e escura apontada para Eileen.

- Desculpe-me, serva. – a guerreira riu nervosa, e guardou a espada na longa bainha mais uma vez. – Eu não tinha visto você aí. Há homens demais nesse castelo, e poucos respeitam a privacidade de uma dama com armadura.

- Tem sorte que eu não te matei. – Eileen pôs a adaga, minúscula se comparada à espada, de volta da bainha decorada com folhas de árvore-coração que Jon lhe entregara o que parecia ter sido anos antes.

- Tenho? – a garota riu, provavelmente achando que Ellie jamais teria feito algo do tipo. Analisou-a dos pés a cabeça, e chegou a conclusão que Eileen era franzina e bonitinha demais para ser perigosa.

- Tem. E eu também. Teria sido uma pena matar você. Seu nome é Zoë Greystark, certo?

- Sim. Eu sou Zoë Greystark.

- Eu gostaria de falar com você. – Eileen deu um passo a frente e ajeitou sua coluna, postando-se o mais ereta possível contra a garota Greystark. Esta, por sua vez, apoiou o peso do corpo sobre uma perna e cruzou os braços, divertida e curiosa.

- E sobre o que seria isso?

- Gostaria que me empregasse, senhora. Como sua escudeira. Ou qualquer coisa do tipo.

- Empregasse?

- Empregasse. Deve ser no mínimo desconcertante trocar de armadura com a ajuda de homens e meninos. E praticamente impossível trocar de armaduras sozinha. Deixe-me te ajudar. Leve-me para o Sul com você, mas não me impeça de lutar pelo meu senhor.

- Um emprego. Como escudeira. Para lutar por seu senhor?

- Sim. Eu quero lutar por Robb Stark.

- Derramaria sangue por ele?

- Já derramei.

Zoë soltou uma risada, andando em círculos ao redor de Eileen. Estava analisando-a minuciosamente, observando cada detalhe, tentando decidir o que ganharia com aquilo. Se devia emprega-la.

- Senhora, gostaria de uma resposta rápida e direta, por favor. Quero começar a trabalhar o mais rápido possível. – Eileen virou-se para a senhora, os olhos faiscando. Zoë viu algo e seu violeta, algo de que gosto, e que lhe abriu um sorriso.

- O que você faria por mim?

- Eu lavaria e passaria suas roupas. Cuidaria de suas refeições. Limparia sua armadura, afiaria sua espada. Ajudaria a vestir sua armadura. Faria o que me pedisse. Exceto manter-me quieta quando houvesse batalha.

— E seu pagamento?

- Aceitaria uma armadura que coubesse e uma espada útil. Comida e abrigo. Apenas isso, nada mais seria necessário.

Uma pausa longa e pesada se passou. A cada segundo, o coração de Eileen batia mais rápido. Ela estava ansiosa, e preparada para ter seu pedido negado. Começou a indagar-se onde estaria Dacey Mormont. Ela e Maege seriam sua última chance...

- Então está certo. Você está contratada. É a mais nova escudeira Greystark. Se meu tio-avô concordar.

***

Alguns dias depois da contratação, os Karstark chegaram, em uma manhã cinzenta e mais fria do que as outras. Era um prelúdio para a guerra que viria, Eileen concluiu. Trezentos homens, parecidos com os outros, negros e taciturnos.

Em sua homenagem, Robb fez um banquete farto e maravilhoso. Os pratos favoritos dos senhores foram levados em consideração, assim como os do próprio Robb e os de Rickard Karstark.

Eileen nunca vira o Grande Salão de Winterfell tão cheio assim. Todas as mesas estavam ocupadas. Estas estavam organizadas verticalmente de modo com que coubessem mais mesas em um espaço menor. Os homens bebiam e comiam, felizes com o entusiasmo da guerra por vir.

Camille estava mais atolada de trabalho do que nunca, tentando atender a todos os pedidos dos homens ao mesmo tempo que fugia de seu assédio. Era uma bonita serva, e chamava os olhares para si devido a ausência de Ellie, que antes atraía-o todos para si.

Agora esta atraía apenas os dos nobres. Robb Stark principalmente, que encarava-a com os olhos azuis e traídos, observando com desgosto seu vestido como se desejasse tirá-lo de seu corpo, seja por desejo ou por mera raiva. O tecido negro pesado destacava suas formas esguias, mas sobre o peito estava costurado o símbolo, desta vez em vermelho, do lobo gigante em posição de ataque dos Greystark. Os cabelos, presos em uma trança que se desfazia, estavam desprovidos de rosa, enquanto ela cuidava das refeições de Lady Zoë Greystark, a herdeira de Toca do Lobo.

Ao lado de Robb estava deitado o seu lobo, Vento Cinzento, que crescia a cada dia. Seu pelo também escurecia, tornando-se mais próximo do cinza-escuro.

Na cadeira à direita estava Torrhen Greystark, o tio-avô de Zoë, e atual Senhor de Toca do Lobo. A fortaleza, considerada uma das mais belas do Norte, era responsável pela região do delta do rio Faca Branca, e competia com outras casas pelo título de mais rica do Norte. Mas o título era inegável. Além disso, os Greystark tinham o sangue de várias casas sulistas misturadas ao seu, em acordos passados pelos pedágios no rio, o principal rio de comércio em todo o inóspito Norte. Havia o sangue Arryn, sangue Dayne, sangue Baratheon, Lannister e até mesmo da dinastia Targaryen, ainda que os Stark sejam os mais influentes. Mas ainda dizem que alguns Greystark nascem com cabelos prateados que escurecem conforme crescem.

Torrhen poderia ser considerado um desses, se levado em conta seu cabelo negro marcado por fios prateados. Ainda tinha cerca de cinquenta anos, cinco filhos, todos mortos ou deserdados. Sua esposa, Loraine Manderly, morrera a um ano no parto de sua filha última natimorta. A herdeira era a filha de seu irmão mais novo, Theon Greystark, marido de Tessa Hornwood. Portanto, era sua sobrinha. Tinha uma única neta, Bea Snow, bastarda de sua filha mais velha e uma guerreira morta na Rebelião Greyjoy, Kathryn. Os rumores dizem que a criança é filha do próprio rei, mas não há confirmação.

Ao lado de Torrhen a herdeira senta-se e Eileen a serve. Do outro lado de Robb está o homenageado, Rickard Karstark. Seu filho mais velho está ao seu lado, e do lado do homem está Bran e Theon. De um jeito estranho e distorcido, a Casa Stark e suas ramificações estavam ali.

E Theon, é claro. O garoto estava divertindo-se bastante com a situação em que Robb e Eileen encontravam-se, observando os dois o tempo todo. Também estava divertindo-se vendo o modo com que Robb lidava com as exigências de Grande Jon. O grande e assustador homem dizia, sentado em sua cadeira à outra cabeceira da mesa, exatamente à frente de seu anfitrião e mais novo senhor.

- Por trinta anos tenho feito cadáveres de homens, garoto. Sou o homem que você quer liderando a vanguarda. – ele, com sua barba e os olhos faiscantes, estendia as mãos e mostrava-as a Robb, como se assim fosse mostrar como era grande e como realmente queria dizer o que falava. Sua voz era áspera, grave e naturalmente alta, como se ele tivesse nascido para comandar homens em batalha. Mas também soava condescendente e risonha, como se estivesse dirigindo-se a uma criança.

- Garbart Glover comandará a vanguarda. – Robb respondeu, rápido e frio, como se não tivesse humor nem paciência para discutir aquilo mais uma vez. Parecia estranhamente mais senhorial do que nunca escondido embaixo de seus grossos casacos de peles.

- Galbart Glover?! – Grande-Jon irritou-se. Robb, como se preparando-se para suas palavras, pôs os cotovelos sobre a mesa e apoiou o rosto nas mãos, provavelmente pensando em um acordo para fazer com o Umber. – A maldita Muralha derreterá antes que um Umber marche atrás de um Glover em um exército. Eu me recuso a ir a guerra assim. Eu liderarei a vanguarda, ou pegarei meus homens e marcharei com eles para casa.

As últimas palavras foram proferidas com lenta determinação, em um óbvio desafio a palavra de Robb. Eileen quase riu, perguntando-se se Grande-Jon havia pensado errado de Robb, tomando-o como um sulista suave. Ela precipitou-se na direção do senhor, temendo que seu lado nortenho fizesse algo de que se arrependeria mais tarde. Ela conhecia-o bem demais, e por isso soube que, quando Robb ergueu os olhos em um ácido olhar na direção de Grande-Jon, o garoto não se contentaria em fazer um acordo com o Umber.

Theon Greyjoy largou o garfo a poucos centímetros da boca, e virou virando sua cabeça de um lado a outro, de Robb a Grande-Jon. Bran também assustou-se, mas fixou seu olhar em Eileen, que carregava um jarro de vinho. Ela pôs um dos dedos sobre os lábios e enrijeceu as costas, de um modo bem parecido com o que Robb fizera. Obrigou-se a permanecer calma e fria, e o fez com a naturalidade comum a si, olhando com olhos curiosos o desenrolar da situação. Do jeito que estava, inspirou Bran a fazer o mesmo.

- É bem-vindo para fazê-lo, Lorde Umber. – Robb cuspiu as palavras, usando o tom de voz frio que aprendera com Eileen. Então abriu um sorriso sarcástico e condescendente, sentado e em paz. – E quando eu terminar com os Lannister, marcharei de volta para o Norte, arrancarei você de sua fortaleza, e enforcarei você por perjúrio.

A voz de Robb foi calma e baixa, algo como o modo com o qual Roose Bolton falava. Isso fez com que todos os homens no salão se calassem e encarassem o Senhor, que casualmente cortou um pedaço de porco e levou-o a boca. Vento Cinzento, entretanto, irritou-se mais visivelmente que seu dono. Levantou-se de um pulo e enrijeceu as pernas, rosnando baixinho, mas Eileen pôs uma mão sobre sua cabeça. Era um aviso, para que se acalmasse. Ou para que apenas esperasse. Robb notou o movimento e, por isso, começou a fita-la enquanto Lorde Umber resfolegava com descrença do outro lado da mesa. Ela também virou os olhos para o senhor, silenciosa como uma sombra.

- Perjúrio, é? – ele gritou, empurrando seu prato e fazendo com que se chocasse na mesa seguinte e quase batesse em um soldado. Umber levantou-se com um estrondo, empurrando a cadeira e fazendo com que esta caísse ao chão.

Robb não virou-se para ele. Continuava fitando Eileen. Mas a serva quebrou o contato visual, sentindo arrepios em sua pele, e algo estranho em sua barriga. Apenas então o mais velho dos Stark dignou-se a olhar para Grande-Jon e levantou-se tranquilamente apenas para imitar o seu interlocutor. Era mais de uma cabeça mais baixo que Grande-Jon, e possivelmente tinha as pernas tremendo de medo. Não deixou seus sentimentos visíveis, entretanto, mantendo-se gelado como a Muralha.

Quando o Senhor Stark levantou-se, alguns outros homens também, incluindo Zoë Greystark e Theon Greyjoy. Ellie já estava em pé, e por isso apenas empinou o nariz em desprezo. Era um teste, apenas um teste de Grande-Jon.

- Eu não sentarei aqui e engolirei insultos de um garoto tão verde que mija grama! – com um grito que ressoou por todo o salão em ecos infindáveis, Grande-Jon segurou sua espada com um som irritante de metal tilintando. Theon também desembainhou a sua, assim como Zoë, mas antes que eles fizessem alguma coisa, Eileen fez seu movimento.

Ela retirou a mão de cima da cabeça do lobo.

Vento Cinzento pulou, já mais alto que um lobo normal. Correu por toda a extensão da mesa, pisoteando pratos e taças. Antes que Lorde Umber julgasse possível, o animal pulou sobre ele e atacou-o com seus dentes afiados e longos, arrancando dois de seus dedos da mão esquerda. O homem jogou-se ao chão e gritou de dor.

Antes que o lobo pudesse fazer mais alguma coisa, Robb disse:

- É o suficiente. – o animal parou e virou-se para o dono, tendo as orelhas eretas e atentas. Robb continuou, com a voz casual: — O senhor meu pai me ensinou que a morte vem a quem ameaça seu soberano... Mas eu sei que sem dúvida alguma Grande-Jon queria apenas cortar a minha carne para mim.

Todos no salão ficaram em silêncio. Bran estava apavorado, fitando Eileen e Robb em busca de um apoio ou direção. A menina apontou a cabeça para Grande-Jon e sorriu, para acalmar Bran.

Para a surpresa de todos, Lorde Umber levantou-se lentamente, segurando a mão da qual faltavam dois dedos. Ele tinha o cenho franzido, o rosto sério e grave. Abriu a boca e fechou-a novamente, como se ponderasse o que fosse dizer. Fitou o chão por um momento, antes de virar-se para Robb e anuir com a cabeça, resoluto.

- A sua carne... É bem dura.

E então uma risada rugiu de dentro de sua garganta, meio rosnado e meio gargalhada. Robb abriu um sorriso deslumbrante e também começou a gargalhar. Theon Greyjoy dignou-se a abrir um meio sorriso e rir também. Bran abriu um sorriso falso, completamente perdido em meio aos nortenhos. Acalmou-se um pouco, contudo, quando viu o sorriso de Ellie e o modo com o qual ela começou a gargalhar audivelmente. Era o tilintar de sinos, ele pensou.

***

Algum tempo depois do ocorrido, os olhos de Bran tornaram-se sonolentos. Robb notou, e decidiu chamar Hodor. Prometendo voltar dali a pouco, ele despediu-se dos lordes para levar seu irmão para cama.

Agradeceu a Hodor por não ter que subir novamente todas aquelas escadas com seu irmão no colo. O simplório cavalariço pôs o irmão mais novo sobre a cama e deixou-os, murmurando algumas vezes Hodor.

Robb sentou-se ao lado de Bran, e riu um pouquinho, confessando ao irmão:

- Quando Grande-Jon levantou-se, eu pensei que ele fosse me matar.

- Eileen está trabalhando para Zoë Greystark agora?

- Está. – Robb fechou a cara imediatamente.

- Ela não gosta mais de nós?

- Sabe que gosta. Mas ela quer lutar agora. – Robb beijou a testa do irmão e levantou-se. Não queria conversar sobre Ellie. – Durma bem, irmão.

Deixou-o sem olhar para trás. Foi até o Grande Salão, e lá ficou até tarde da noite. Seus senhores pareciam ter assunto para muitas noites mais. Robb gostou de ficar com eles, bebendo, conversando e rindo. Eileen também ria de algumas piadas. Ela estava ali o tempo todo, ouvindo, conversando baixinho com Zoë e rindo. Deuses, ela tinha que rir tanto. Robb acabava perdendo a concentração.

Estava bêbado e feliz. Via os lábios de Ellie, via sua pele alva, seus olhos ametistas, e queria tê-la para si. Com todo seu corpo e seu coração, queria tê-la para si. Inteiramente. Para sempre.

No final da noite, perto da meia-noite, quando a lua estava a pico, Ellie pareceu ficar entediada da agitação do Grande Salão. Ela saiu sorrateiramente, depois de pedir licença à Lady Greystark. Robb hesitou e enrolou. Ficou cinco minutos em silêncio, apoiado em uma das mãos e encarando a porta. Até que não conseguiu mais evitar.

Levantou-se tão sorrateiramente quanto Eileen e saiu pela porta, através do pátio e para dentro do Bosque Sagrado, atrás dela.

Notas finais
E então! O que acham que vai acontecer agora? Devo dizer que, de agora em diante é que a história deslancha mesmo. Leitores anônimos, anunciem-se! Nem que seja um "Oi."
Ah, por favor, recomendem para seus amigos! Ou escrevam recomendações mesmo. Eu não tenho nada contra... (sorrisinho no rosto).
Para fazê-los comentar logo para que eu poste o próximo capítulo logo, digo que o próximo vai ser muitooo animado.