Quando O Lobo Uivar

13 Capítulo treze


Notas iniciais
Aí está o capítulo animado que eu prometi a vocês.

Eileen saíra da cozinha, tinha um prato com uma maçã em uma das mãos, e ouviu os gritos. Homens correram em disparada no pátio. Na outra mão, carregava a adaga de bronze, o presente de Jon. Tentou parar um, qualquer um, para perguntar o que acontecia, mas nenhum deles a ouvia.
Estava tentando gritar para um dos guardas quando sentiu mãos em seus ombros e virou-se rapidamente. Apenas para deparar-se com um Robb de olhos preocupados.
— Graças aos deuses. – ele disse. – Eu pensei que estivesse na biblioteca.
— O que houve? O que está acontecendo? Aonde vai?
— A torre da biblioteca está em fogo. Vou para lá ajudar os homens a apaga-lo. Por favor, cuide de minha mãe. Ela não estava bem quando a deixei sozinha.
— Está bem, cuidarei dela. – o senhor de Winterfell assentiu com a cabeça e voltou a correr em direção a biblioteca. – Tome cuidado você!
Então a serva virou-se e correu em direção a torre de Bran o tanto quanto podia segurando a adaga e o prato nas mãos. O lobo do garoto estava inquieto e pulava de um lado a outro quando a serva abriu a porta da torre. Sentiu um cheiro forte de estrume no caminho, mas não importou-se muito enquanto subia os degraus decididamente. Chegando ao topo da torre, abriu a porta e disse:
— Senhora Catelyn, trouxe frutas pa...
Um homem alto e louro segurava uma adaga contra o pescoço da senhora, que lutava para manter a lâmina longe de si com as mãos. Dos dedos até os pulsos escorria sangue, abundante e vermelho.
Sem hesitar, Eileen largou o prato no chão. Também não pensou muito e pulou sobre as costas do homem, mordendo-lhe a orelha com força. Infelizmente, ao deixar o prato cair, deixou cair também a adaga.
Por causa da mordida, o homem soltou a senhora, e caiu para trás. Eileen caiu ao seu lado, cuspindo sangue e um pedaço da orelha do homem. Os dentes doíam e estavam cheios de sangue. O sabor era de ferro e amargo.
— SUA... – ele gritou, com a mão na orelha e expressão de dor. Ellie tentou arrastar-se em direção a adaga, mas o homem foi mais rápido. Empurrou o baú que ficava aos pés da cama de Bran em cima do pé da garota, prendendo-a sob seu peso.
Quando tentou mover o pé, sentiu o peso deslocar o osso, e gritou de dor. O homem sentou-se em cima de seu tronco e puxou o seu cabelo até fazer o couro cabeludo sangrar, e arrancou uma mecha da franja. Pressionou a adaga contra o pescoço da serva, que segurou o botão do punhal. Mesmo assim, não foi rápida o suficiente para evitar que a lâmina beijasse o pescoço por um único segundo. – É misericórdia, moça. Ele já ‘tá morto.
Empurrou a lâmina mais para cima, para que se afastasse do pescoço. O homem pesou a adaga através de seu rosto, mas ela segurou a lâmina o suficiente apenas para cortar superficialmente. Ele moveu a adaga novamente para cima e tentou cortá-la de novo, desta vez na bochecha.
De algum modo, Ellie conseguiu morder a mão do homem, e mais uma vez os lábios encheram-se do sangue dele. Os dentes doíam, mas ela obrigou-se a continuar a morder até que ele a soltou. A dor no tornozelo era quase insuportável ao esgueirar-se para fora de seu abraço. Finalmente chegou a adaga, e pegou-a desesperadamente. Levantou-se apoiado o peso apenas no pé direito, já que o pé esquerdo estava machucado.
Eileen passou a mão livre na umidade do pescoço, e observou o buraco sangrento que um dia esteve a orelha do homem. Imaginou-se, despenteada e com os olhos agitados, com sangue em toda a boca, no pescoço e nas mãos, além do pé que logo ficaria roxo e inchado.
O homem atacou-a, irado e desconcentrado. Eileen facilmente fez com que tropeçasse, e logo ele estava no chão. Infelizmente, conseguiu fazer com que a garota caísse também. No chão, ele agarrou-a com os braços. Esta, por sua vez, esgueirou-se e arrastou-se para longe. Quando ele tentou segurá-la mais uma vez, chutou-o com toda força. Mas usou o pé machucado para isso, e cada chute era uma facada. Chutou várias vezes, no rosto e no pescoço. Apoiava-se no chão com os cotovelos para isso, e botava o máximo de força possível nos ataques.
Antes que ele pudesse revidar, jogou-se contra ele e enfiou a adaga em seu peito. Fez mais uma vez, e várias vezes mais. O sangue esguichou em seu rosto e sujou o seu vestido.
Afastou-se do corpo e empurrou o para o mais longe de si quanto podia. Apoiou-se contra a cama de Bran, e observou as próprias mãos. Sangue. Olhou ao redor, esquecendo-se de tudo que acontecia e sentindo apenas a dor no pé. Lembrou-se de Lady Catelyn e virou-se sentindo o rosto arder apenas para encontrar sua senhora com uma risada enlouquecida, sentada em um canto do cômodo, encolhida e ensanguentada.
Eileen olhou para ela, mas não conseguiu levantar-se de modo algum.
— Desculpe-me. Acho que ordenei algo para a senhora. Não foi minha intenção, eu apenas... Quis ajudar. Desculpe-me. Está bem, senhora Stark?
Lady Stark não deu-lhe atenção, e por isso apenas virou-se para o corpo e encolheu-se, abraçando os joelhos. Olhou para todo o sangue a sua frente, mas não conseguiu chorar. Cada centímetro de seu ser queria chorar, mas ela não conseguiu. Tinha os olhos secos e provavelmente assombrados mirando o chão. Ouviu um som nas escadas. Sangue escorreu perto de seus olhos em fios riscos vermelhos contra a pele de alabastro quando ergueu o rosto, e viu o lobo de Bran aproximar-se dela, com o pelo cinza eriçado.
Um calafrio percorreu sua espinha ao encarar aqueles olhos dourados. Sentiu algo diferente. “São os deuses”, ela pensou. O animal não tirou os olhos dos olhos dela enquanto aproximava-se. Lambeu todo o sangue das mãos da serva antes de impulsionar-se para cima da cama e deitar-se ao lado do dono.
Ao chegar, o que Robb viu foi um cenário desolado. A mãe estava com uma risada histérica no canto do cômodo. Um homem ensanguentado, sem uma das orelhas e morto estava estirado a frente da serva que amava. Nela faltava uma mecha de cabelo negro, e em seu lugar estava exposta a pele vermelha e inchada do couro cabeludo. Os olhos eram duas brilhantes ametistas em meio ao seu rosto de vermelho e branco. Havia dois longos cortes em seu rosto. Um ia de sua sobrancelha, atravessando seu nariz e acabando depois do lábio, superficial. Outro era um pouco mais profundo, linear, começando próximo ao cabelo e terminando no meio da bochecha.
— O que houve aqui? – perguntou o ruidoso Rodrik Cassel, entrando logo atrás de Robb.
— Chame Meistre Luwin, Sor Rodrik. E rápido. – Robb ordenou, e o homem saiu com uma última olhadela no cômodo.
O sangue sujava boca e os dentes de Ellie também, dando a ela uma aparência selvagem e sinistra quando disse:
— O homem tentou mata-lo. Ele tentou atacar Bran. – Seu rosto estava estranhamente frio, quase como se ela estivesse sonhando. – Eu... Tive que mata-lo. Ele atacou Lady Catelyn! Podia tê-la matado, podia... Ela está machucada.
Robb viu sua mãe encolhida no canto e andou até lá, levantando-a do chão. A mulher tinha as pernas trêmulas. O vestido azul estava sujo de sangue, e ela olhou com olhos assustados para a serva que fitava o chão aos pés da cama de Bran.
— Ela... Ela o matou. Ela o matou. – sorriu de um modo sádico, a risada ecoando por sua garganta, metade choro e metade rosnado. Uma truta Tully de Correrrio nunca deveria fazer um som tão parecido com os lobos gigantes Stark de Winterfell.
Abraçou-o e enterrou o rosto no ombro do filho, rindo contra o couro fervido de seu colete. O garoto segurou seus dedos, e ela mesma observou pela primeira vez o ferimento enquanto afastava-se dele. As cicatrizes eram profundas, a pele estava cortada até quase o osso. Com certeza perderia o movimento ao menos no mindinho da mão esquerda, e apenas naquele momento a dor a atingiu em seu nível mais violento.
— Cuide da garota. Ela me salvou, Robb. – Catelyn apontou com a cabeça para Eileen.
— Preciso chamar Meistre Luwin para cuidar de vocês, a senhora está com os dedos...
— Ela está pior. – ela observou enquanto o filho lhe dava as costas e andava em direção a Eileen.
Robb ajoelhou-se a frente de Ellie, e afastou o homem com a mão. Tirou uma mecha de cabelo de seu rosto, e o movimento fez com que um pouco mais de sangue caísse em seus olhos. Ela limpou-o o melhor que pôde, e encarou o garoto com olhos perdidos. Robb conhecia-a bem o suficiente para saber o que estava pensando. “Matei um homem. Pelos sete infernos, como fiz isso?”. Robb não teve escolha senão puxá-la para seus braços. Abraçou-a longamente, afagando seus cabelos. Afastou-se um pouco e beijou-lhe a bochecha, sujando a própria bochecha com um pouco de sangue.
— Eu o chutei com o pé, mas meu tornozelo dói tanto... Ele jogou um baú em mim. – ela apontou para o móvel tombado de lado. – E eu o matei com a adaga que Jon me deu. Esfaqueei-o... Várias vezes... Eu...
— Está tudo bem. – Robb silenciou-a. Ela parou e olhou-o com os grandes olhos amendoados, parecendo um cachorro manhoso. – Tente levantar-se, vamos.
Robb levantou-se ele mesmo e deu as mãos a ela, apenas para vê-la tentar levantar-se e cair. Segurou-a do melhor jeito que pôde, prendendo-a contra seu corpo. Teria sido o perfeito momento para beijá-la, se não houvesse sangue em seu rosto. Talvez nem mesmo isso tivesse sido um problema, mas sim a presença de Lady Catelyn no canto do cômodo.
— Eu o matei.
— Não. Não pense assim. – ele tirou outra mecha do cabelo dela de seu rosto e beijou-lhe a testa. Sentou-a na cama, tentando criar distância entre os dois. – Você salvou a vida da minha mãe e a do meu irmão. Foi isso o que fez.

***
Jon Snow ergueu-se um pouco mais em seu cavalo. No horizonte podia ver a imponente Muralha. Era muito mais alta do que algum dia poderia ter imaginado, mais colorida do que esperava devido a luz do sol que a pintava de lilás e rosa no gelo derretendo, e bem mais magnífica do que nas histórias que Ellie lhe contava.
O cavalo manteve-se quieto atrás do cavalo de Benjen Stark, e o tio virou para Jon e sorriu:
— Bem-vindo ao lar.
— Mas que lar acolhedor. – Tyrion Lannister fez um muxoxo ao lado de Jon.
O pequeno homenzinho usava uma sela diferente das demais, e parecia ligeiramente desconfortável no cavalo. Era baixo e feio, com uma testa protuberante e olhos desiguais, um verde e o outro negro. Mas havia se mostrado um ótimo amigo para Jon Snow.
E o meio-homem estava certo. Aos pés da Muralha uma disforme mancha negra destacava-se contra o gelo. Castelo Negro, o principal castelo de patrulheiros ao longo da Muralha. Antigamente estivera em melhor estado e com bem mais homens, Jon sabia disso, porém de jeito algum estava pronto para o que encontrou. Perguntou a si mesmo se ainda tinha tempo de dar meia-volta no cavalo e voltar, mas não podia. Já tinha ido longe demais, e teria vergonha de si mesmo para tudo e todos. Até para o tio e para o pai. Ninguém em Winterfell sorriria para ele. Nem mesmo Ellie.
O castelo estava em ruínas em algumas partes. Poucos homens moviam-se de um lado para o outro. Jon podia ver, mesmo a distância, que o castelo estava sujo e malcuidado.
— O que quer dizer, Duende? – tio Benjen tinha um tom desafiador quando perguntou. Não gostava de Tyrion nem um pouco. Havia se mantido distante do meio-homem desde o início da viagem.
— Nada, de modo algum, Primeiro Patrulheiro. – Tyrion também não era fácil.
Benjen deu uma última olhadela carrancuda para Jon antes de impulsionar o cavalo para frente e coloca-lo em galope rápido. Os outros homens o seguiram, mas Jon não se moveu, nem Tyrion. Quando todos já estavam distantes o suficiente, o bastardo disse:
— Não devia implicar tanto com meu tio, Lannister.
— Estou cagando para o seu tio. Ele é que não devia ser tão mal-humorado, Snow. O gelo da Muralha entranhou-se em seus ossos, penso eu. Pergunto-me quanto tempo demorará para acontecer o mesmo com você.
Jon não respondeu, mas perguntava-se a mesma coisa.

***

— Gatinha? Gatinha? Você tinha me prometido. Prometeu-me que não choraria mais. Por que está chorando, Gatinha-das-sombras?
A voz da mãe ecoou nos pensamentos de Eileen. Podia ver seu rosto, mas estava desfocado por uma névoa em frente aos seus olhos. Enxergava nitidamente o brilho de seus olhos azuis, e a mancha avermelhada que eram seus lábios. Então a imagem ganhou foco e Ellie viu a si mesma agarrada à perna da mãe, que tentava convencê-la a larga-la. Estavam em pé no pátio de Winterfell, com servos e servas andando de um lado ao outro.
— Vamos, solte-me, gatinha-das-sombras. O senhor veio nos ver. Ele vai deixar que nós fiquemos aqui. Não vai gostar? Pode ir rezar aos deuses antigos todas as vezes que quiser.
O apelido era antigo. Eileen nem mais se lembrava dele. A mãe, quando ainda morava Além-da-Muralha e sem nem mesmo conhecer o pai de Eileen, costumava usar uma pele de gato-das-sombras, ela também lembrou-se repentinamente. Era uma feiticeira dos bosques, e por isso tinha o respeito dos outros selvagens.
— Eu não quero rezar aos deuses antigos. Eu quero ir para casa. – Ellie tinha o rosto enfiado na coxa da mãe, e o cabelo negro era longo e desfiado. Parecia ter apenas dois ou três anos, mas já era difícil. – Eu quero o papai.
— Qual é o nome dela? – Eileen surpreendeu-se ao ouvir a voz de um Lorde Eddard mais novo, recém-chegado da guerra havia apenas dois anos.
— Senhor, ela ainda não tem nome. – Moyra franziu as sobrancelhas para Ned. – Não se dá nomes a crianças antes de que atinjam, no mínimo, dois anos. Dá má sorte. Mas precisava de algo para chama-la, por isso a chamo de Gata-das-Sombras.
— Eu não quero o senhor, eu quero o papai. O papai!
Moyra enrijeceu a expressão do rosto e agachou-se ao lado da filha, segurando-a pelo braço. Quando viu as lágrimas da garota, desistiu de repreendê-la. Beijou-a na bochecha e sorriu ternamente.
— O papai não está mais aqui. Ele não vai mais voltar. Ele está na Muralha, e nos abandonou. Ele se foi, por causa de seu dever para com o reino. E quem somos nós, — ela disse, com um dar de ombros. – para nos metermos entre um homem e seu dever?
— Mas eu...
— Não há nada mais para dizer, gatinha. – a mulher levantou-se e se dirigiu ao senhor. – Ela já tem dois anos, senhor. Está na hora de arrumar-lhe um nome. Mas não sei qual... O pai queria dar a ela um nome sulista, mas eu não conheço nenhum.
— Que nome ele queria dar?
— Um nome sulista qualquer. Elayne, Elenya, Elinor... Eileen. Eileen é o nome. Acha que é um bom nome para a gatinha? – Moyra afagou os cabelos da filha, que tinha a cabeça erguida para encarar bem os olhos do senhor, com os próprios olhos violetas enormes.
— É um ótimo nome. – e depois disso o senhor desaparece, tudo desaparece. A única coisa que consegue ver é o rosto da mãe.
“Gatinha? Minha gatinha... Não me prometeu que não mais choraria? Minha gatinha-das-sombras...”.
O rosto tornou-se distorcido, e toma a forma de um leão negro rugindo, com sangue escorrendo de seus olhos até que...
Eileen acorda, agitada, com um grito assustado. Percebe o sabor salgado de lágrimas em sua boca e enxuga-as raivosamente. Havia prometido a si mesma que nunca mais choraria, e cumpriria essa promessa. Alguém tem que cumprir promessas. Há duas faixas de linho envoltas em seu rosto, uma passando por seu olho e a outra por sua bochecha. Ambas insistem em coçar. Há também um pedaço de pano em seu pescoço.
Ellie estica-se na cadeira desconfortável na qual está sentada ao lado da cama de Bran, sentindo as costas doerem e estalarem. Estivera dormindo ao lado do garoto, apoiando o rosto nas peles e segurando a sua mão, desde que ele foi atacado. Quatro dias se passaram sem que visse Lady Catelyn, mas soube por Robb que ela estava dormindo.
Robb vinha toda tarde fazer companhia para Ellie e Bran. Ficava durante toda a noite conversando com a garota sobre qualquer coisa. Quando esta estava dormindo, cansada demais pelo dia, trazia consigo o livro de contabilidades para adiantar o trabalho do dia seguinte ou algum pergaminho sobre guerras para ler.
Rickon tinha as lições com o meistre durante a tarde, e durante o resto do dia ficava no quarto de Bran. Ellie brincava com ele e com os lobos, cantava canções, brincava de alguma coisa que não envolvesse andar.
O pé esquerdo também estava enfaixado, mas era possível vê-lo inchado e roxo. Doía cada vez que Ellie o movia, e por isso não podia andar sem se apoiar em alguma coisa. Não podia apoiar seu peso nele.
A garota sente o olho coçar um pouco mais e o coça, sentindo a pele um pouco dolorida. Logo ela perde a paciência e decide tirar a faixa. Começa a desenrolá-la rapidamente, e logo a coceira para. A garota toca no ferimento e sente-o úmido e quente. Agora os dois ferimentos estão descobertos, assim como o olho direito. Ela abre-o lentamente, e a visão inicialmente é embaçada. Após algumas piscadas, entretanto, a visão ganha foco e o que vê é um Robb de olhos preocupados entrar no quarto.
— Não devia ter tirado a faixa de seus olhos! – ele aproxima-se dela com um passo apressado. Segura suas mãos, para que parasse de tocar na ferida. – O sangramento pode recomeçar, meistre Luwin já disse isso.
— Desculpe! – ela riu com a preocupação dele. Deu de ombros. – É que estava coçando muito. Eu nem sei como ficou o meu rosto. Onde estão as cicatrizes? São muito grandes? Imagino que esteja horrível.
Robb franziu os lábios, pensando que ela estava exatamente o contrário. Não queria mostrar a ela as cicatrizes, mas obrigou-se a tocar no início de uma, um pouco acima da sobrancelha.
— Uma começa aqui, — ele acompanhou os rastros do caminho sinuoso que a adaga traçou até um pouco abaixo do lábio. – e termina aqui. A outra começa aqui e termina aqui.
O segundo caminho traçado era mais linear, começava perto da orelha e terminava no meio da bochecha em um ângulo decrescente. O rosto dela permaneceu impassível por alguns segundos depois que Robb parou de falar, mas ela logo baixou o olhar e tampou o rosto com as mãos, ignorando todos os avisos do garoto.
— Eu estou horrível! – ela riu.
— Não, não está. – Robb riu também, tanto por causa da ironia quanto pela reação dela. – Minha mãe acordou.
— E como ela está? – a garota espiou por entre os dedos, uma cena quase engraçada.
— Quer falar com você. Mas, antes. — ele pegou a rosa que estava segurando desde que chegou e colocou no cabelo dela. – Pronto.
— Agora não estou tão horrível. – ela agradeceu, e levantou-se de um pulo. Provavelmente havia esquecido do pé, e fez uma careta por causa da dor. – Ai. Talvez não esteja com tanta pressa assim.

***
Catelyn sentou-se em uma mesa ao lado de sua cama, encarando faminta o pão e o mel postos a sua frente. Ainda que com as mãos enfaixadas, conseguiu pegar um pão e mordê-lo. Já estava comendo fazia algum tempo quando alguém bateu na porta.
— Entre. – ela gritou depois de alguns segundos para engolir o pão.
A porta abriu-se com um rangido e o filho mais velho entrou, com olheiras suaves emoldurando os olhos azuis. Atrás dele estava a serva com o tornozelo machucado, apoiando-se em Robb para andar. Fazia uma careta a cada passo, mas obrigou-se a colocar o pé no chão para dobrar os joelhos e reverenciar a sua senhora.
Theon Greyjoy estava atrás dela, por sua vez, como era costume. Abriu um sorrisinho ao ver Catelyn, e saudou-a cordialmente com uma reverência. Depois vieram Meistre Luwin, Rodrik Cassel e Hallis Mollen, o novo capitão da guarda.
— Quem era ele? – perguntou ela.
— Ninguém sabe ao certo, milady. Não era de Winterfell, isso sabe-se com certeza. – Hal Mollen respondeu.
— E onde ele escondeu-se?
— Nos estábulos, senhora. Percebe-se pelo cheiro. – Theon franziu o nariz.
— E como ele estava nos estábulos?
Hal enrubesceu, mas não respondeu. Encarou o chão agora para continuar a dizer:
— Encontramos o lugar onde ele dormia, com vários veados de prata.
— Que bom. A vida de meu filho não foi vendida barato.
— Espere. Está insinuando que... – Robb pareceu confuso.
— Que mandaram matar Bran? Mas por... — Ellie perguntou, com um pouco de raiva na voz. Por um segundo pareceu desnorteada, mas Cat ficou satisfeita ao constatar que logo a garota concluiu o mesmo que ela.
— Isso é loucura. – Theon não fora tão rápido quanto à serva, entretanto.
— Ele ficava resmungando que eu não devia estar ali. Atacou-me apenas porque eu tentei impedi-lo.
— O homem disse para mim “É misericórdia, moça. Ele já ‘tá morto”. – a serva pareceu imersa em pensamentos enquanto acariciava o linho do pescoço.
— Por que alguém mandaria matar uma criança indefesa, dormindo em sua cama? – Robb ainda estava inconformado com a ideia.
— Se quer governar o Robb, deve conseguir resolver essa questão. Analise até o fim. – Catelyn sabia que havia apreensão em seus olhos. Eileen também virou os olhos para ele, e mordeu o lábio.
— Ele nunca caiu antes... Ele nunca cairia sozinho. Mas é claro que não! – Robb pôs a mão sobre o rosto quando percebeu a verdade. Então mostrou-se indignado. – Alguém tem medo que Bran acorde, do que ele pode fazer ou dizer. Alguém tem medo do que ele sabe.
— O garoto nunca cairia. Sabe escalar como ninguém. Sempre teve o pé firme. – Eileen completou. – Foi empurrado. E contrataram outra pessoa para terminar o serviço quando o boato que ele sobreviveria se espalhou.
— Então temos que mantê-lo a salvo. – o atual Senhor de Winterfell continuou, com a voz régia em comando. – Hal, mantenha um homem dentro do quarto, um na porta e dois na porta dos fundos. Tentaram duas vezes, podem tentar mais uma vez. Ninguém pode ver meu irmão, a não ser que esteja autorizado por mim, ou por minha mãe. Deixe o lobo dele dentro do quarto o tempo todo.
— Sim, senhor. – Hal fez uma reverência e saiu do quarto sem mais uma palavra. Eileen perguntou a si mesma se deveria sair, e fez uma menção de virar-se.
— Fique, garota.
— Desculpe-me, senhora. – desculpou-se, e Theon abriu um pequeno sorriso malicioso. A garota, em resposta, fuzilou-o com o olhar.
— Senhora Stark, reparou no punhal usado para tentar assassinar Bran? – Sor Rodrik começou.
— Não. Estava encharcado demais com o meu sangue.
— Mas é bem afiado, admito. – Ellie murmurou com um sorriso triste, encarando o chão e provavelmente lembrado de seu beijo frio pelo modo com o qual acariciou o rosto.
— É uma arma boa demais para um homem como aqueles. É de aço valiriano e cabo de osso de dragão. Apenas aço valiriano para deixar marcas assim. – ele apontou para o rosto de Eileen, e ela pareceu um pouco mais triste depois daquilo. – Acredito que quem quer tenha mandado o assassinato deu esta arma a ele.
Catelyn parou de falar por algum segundo e observou os rostos de todos os homens ao seu redor, além de Eileen. Ponderou se deveria contar suas suspeitas ou não. Decidiu-se pelo sim. Fitou cada um dos rostos e abriu a boca para falar, mas fechou-a novamente. Robb notou sua hesitação e fechou a porta do quarto.
— O que estou preste a dizer não deve sair deste quarto. De modo algum. Uma palavra sussurrada no ouvido errado e vidas serão perdidas. Entendem? Quero que jurem.
— Eu juro, senhora. – disse Rodrik Cassel. – Pelos deuses, antigos e novos.
— Eu juro, senhora. Pelo nome de minha Casa. – Theon pareceu sério pela primeira vez na vida.
— Sabe que tem minha lealdade, senhora. Eu juro. – Meistre Luwin recitou, com curiosos olhos cinzentos fitando-a.
— Tem minha palavra, senhora. – a pequenina serva assentiu, parecendo pequena demais entre os altos Robb e Theon. Tinha o rosto sério demais para feições tão bonitas, ainda que cortadas pelas duas horrendas feridas.
— Robb? – Cat perguntou, e o filho anuiu. Continuou, após uma pausa e um suspiro: — Minha irmã Lysa acredita que os Lannister assassinaram o senhor seu marido, Lorde Jon Arryn, a Mão do Rei. Jaime Lannister não estava presente no dia da caçada, no dia que Bran caiu. Acredito que foi ele que empurrou o meu Bran pela janela.
— Deuses. – Robb pareceu ainda mais indignado, e desembainhou a espada de aço. O movimento fez com que Eileen pulasse ao seu lado, chegando mais perto de Theon. – Se isso for verdade, eu mesmo o matarei!
— Guarde seu aço, garoto. Os Lannister estão a cem léguas daqui. – Sor Rodrik perdeu a paciência com Robb, e o garoto guardou a espada com um corar de bochechas.
— Agora ele usa aço? – Meistre Luwin pareceu surpreso.
— Achei que era tempo. – o mestre de armas respondeu.
— É bom que ofereça sua espada. Logo Winterfell pode precisar de todas. – Catelyn não queria ter soado tão sombria quanto soou.
— Se chegar a isso, senhora, minha Casa tem uma dívida eterna para com a sua. Ficaremos do seu lado. – Theon deu um passo a frente. Escuro e esguio, ela se perguntou se deveria acreditar nele.
— Temos apenas teorias. – Eileen tinha ficado quieta o tempo todo. – Sei que é verdade, mas estamos acusando o irmão do rei.
— Da rainha. – Theon corrigiu-a.
— Esse aí. – ela deu de ombros, obviamente constrangida. – Quero dizer, precisamos de provas. Isso, ou não denunciaremos o crime.
— Temos o punhal como prova. – Sor Rodrik disse. – O armeiro de Porto Real deve saber a quem pertence.
— Sor Aron Santangar deve saber. – Catelyn disse.
— Que homem ordenaria um assassinato e daria seu próprio punhal para o assassino? – Ellie parecia convicta quando disse. – Eu diria que, mesmo descobrindo quem é o dono do punhal, não saberíamos com certeza o assassino.
— De qualquer jeito, é tudo que temos. – Catelyn fitou-a, mesmo pensando que ela tinha razão. – Alguém tem que ir a Porto Real.
— Eu vou. – Robb disse.
— Eu vou com ele. – Theon olhou para o amigo. Eileen estava prestes a dizer algo quando Catelyn interrompeu a todos:
— Eu vou. Deve sempre haver um Stark em Winterfell. – sua voz não admitia discussões. O filho percebeu isso. Os outros não.
— Senhora, como fará isso? Sua chegada será avisada? Se não, os Lannister encararão isso com suspeita.
— E Bran? – Eileen perguntou.
— A Estrada do Rei é perigosa demais para uma mulher sozinha. – Sor Rodrik foi categórico ao afirmar.
— Posso enviar Hal com um pelotão para escolta-la. – Robb propôs.
— Não. Uma comitiva assim atrairia atenções indesejadas. – Catelyn protestou. – Vou sozinha. E não vou pela Estrada do Rei. Vou cavalgar até a Faca Branca, e lá pegarei um barco até Porto Real. Chegarei antes dos Lannister, se os ventos e os deuses forem bons.
— Deixe-me ao menos acompanha-la, minha senhora. – Sor Rodrik pediu. A mulher sorriu com a ideia, e anuiu.
— Sua presença será muito bem-vinda, meu bom sor.
— Vai deixar Bran, senhora? – Eileen disse com uma voz baixinha, como se temesse ser ouvida.
— Fiz por Bran tudo que podia. Agora devo descobrir quem fez isso a ele. Para protege-lo.
— Sim, senhora. – a serva assentiu e encarou o chão mais uma vez. Meistre Luwin pareceu ter finalmente notado a falta dos linhos envolta do rosto dela, pois ralhou:
— Eileen! Você tirou a faixa de seus olhos! O sangramento pode recomeçar.
— Desculpe-me, meistre. – Eileen riu. – Estava coçando, eu não aguentava mais aquilo.
— Refarei os curativos.
— Não é necessário. – ela protestou.
— É, sim. – Robb a interrompeu. A garota o encarou, contrariada. – O sangramento pode recomeçar, ele diz.
Depois disso ela silenciou-se, e Catelyn lembrou-se que precisava fazer algo com ela. Para agradecê-la.
— Deixem-me, agora. Preciso descansar para a viagem. – todos viraram-se para ir embora, mas ela apontou para Eileen. – Você não.
Robb foi o último a sair, encarando a mãe e a serva com olhos curiosos.
— Sim, senhora? – a garota perguntou, depois que todos foram embora.
— Não quero mais que sirva Madame Windstone. Nem que trabalhe como serva. – Eileen enrijeceu o queixo com as palavras, mas manteve-se em silêncio e inerte. Catelyn continuou: — Quero que ocupe-se apenas em cuidar de Bran e Rickon. Acompanhá-los nas lições. Protegê-los. Pelo menos enquanto eu estiver fora. Não confio meus meninos a ninguém mais, além de você. Se aceita-los, é claro.
— Senhora, eu... É claro que aceito! Adoraria. – ela sorriu, suspirando com alívio aparente. – Seria uma honra.
— Madame Windstone com certeza arranjará um quarto para você no alojamento das servas. Receberá vestidos novos. Algo um pouco mais quente. Lã, com certeza. Por morar aqui, posso conversar com a sua mãe, se necessário.
— Não, não será necessário. Minha mãe não se importará.
— É claro que sim! Eu me importaria se minha filha saísse de casa para morar em algum outro lugar...
— Não a minha mãe. – Catelyn estreitou os olhos enquanto tentava ler o que se passava na mente da menina.
— O que houve com sua mãe?
— Ela não está mais aqui.
— E onde ela está?
— Já deve estar em Porto Real por agora. – Eileen não demonstrou emoção alguma ao pronunciar as palavras, o que muito surpreendeu a Senhora Stark.
— Hmm. – ela lutou para pensar em palavras. – Então está bem. Seu padrasto?
— Ele não se importará.
— Então falarei com Madame Windstone.
— Obrigada, senhora. – a garota fez uma última reverência antes de sair do quarto mancando e com certa dificuldade.
“E por meninos”, Catelyn pensou, “acho que incluo Robb também”.

Notas finais
Eu quero comentários de TODOS(AS) vocês. E sim, eu sei exatamente quantos(as) vocês são.
Fala sério, dessa vez eu caprichei! Tipo, sete dias pra escrever isso.
Obs: tem uma fic da Menta chamada Salley Gardens. É muito linda e eu recomendo de verdade que vocês leiam.
Obs 2: E então, Silver024? Vale uma recomendação?