Notas iniciais
Desculpem a demora! :S
Espero que gostem.

Os ventos frios da Muralha eram selvagens e faziam com que o cabelo de Jon ricocheteassem em seu rosto. Os dias ali eram difíceis, tudo lhe lembrava de Eileen. Gostava de encarar os patrulheiros e imaginar qual deles era o pai dela. Qual deles traiu seus votos.
Ele deu mais alguns passos e chegou o mais perto do abismo quanto se permitia. A planície entendia-se a sua frente eternamente, com árvores assombradas saindo contorcidas da neve alva. Lá ao longe a lua brilhava com uma luz pálida e fantasmagórica, piorando os calafrios na espinha de Jon.
Aquele lugar era frio. Muito frio.
Ao seu lado estava Benjen Stark, quase tão frio quanto a noite, enrolado em seu manto negro e encarando, concentrado, o horizonte. No dia seguinte partiria com alguns patrulheiros atrás de um grupo que desapareceu havia alguns meses. Ia atrás de Sor Waymar Royce. Ia averiguar o desaparecimento dos selvagens. Ia partir para o Além-Muralha.
— Leve-me com você. – Jon respirou fundo e proferiu a frase rapidamente, como se a qualquer instante a sua coragem fosse acabar.
Ele encarou o chão pois temia o olhar do tio. Assim que pisaram em Castelo Negro, o comportamento do Primeiro Patrulheiro mudara drasticamente. Era mais frio e distante, como se fosse alguém completamente diferente na Patrulha da Noite. Não era mais o mesmo tio do qual Jon se lembrava.
— Não fale besteiras. – ele encarava-o, e Jon não teve coragem de responder ao comentário. – Aqui não conseguirá nada por causa de um nome, ou por seu sangue. Aqui ganhamos tudo por mérito. Tire ideias tolas de sua mente. Ainda é um rapaz verde de verão até que Sor Aliser Thorne diga-me o contrário e que faça o juramento.
— Mas eu posso ajuda-lo, tio. – Jon ergueu o olhar e encarou os olhos ácidos de Ben Stark.
— Não, não pode. – depois disso Jon não disse mais uma palavra.

***

Bran estava caindo de muito alto. O corvo de três olhos voava a sua volta, e o garoto conseguia ver o mundo de cima.
Jon Snow encolhia-se em uma cama fria na Muralha, enquanto a cor se esvaía de seu rosto e o gelo tomava-o por completo. As muralhas de Winterfell tornavam-se mais cinzentas, Eileen mancava carregando uma bacia de água enquanto Robb a observava de longe com olhos sonhadores. Sobre Eileen três sombras se passaram: uma em formato de um lobo, outra em formato irregular como se fossem chamas, e outra mais escura e sombria do que todas as anteriores. Mas depois a de lobo voltou e espantou-a para longe. Duas cicatrizes horríveis marcavam seu rosto, mas não estavam paradas: moviam-se como se vivas pelo rosto, desenhando arabescos em sua pele. Formavam rosas, cobras, chamas e dentes. Tampavam seus olhos e enrolavam-se em seu pescoço como caudas de dragões.
Mais ao leste, no mar perto de Porto Branco, sua mãe estava em uma cabine de navio, encarando uma adaga com olhos tristes. Sor Rodrik dobrava-se pela amurada da embarcação vomitando, com a pele em um estranho tom de verde.
As imagens corriam por sua mente em borrões coloridos que ele conseguia distinguir apenas com algum esforço.
Um gato das sombras se perdeu no Sul, enquanto um lobo ruivo uivava, triste, antes que o som cessasse repentinamente. Viu o pai enfiando a adaga neste lobo. Viu Arya guardando segredos no fundo de sua alma. Sombras se passaram pelo rosto da irmã mais nova, a primeira era mais alta e tinha olhos assustadores de um azul claríssimo. A próxima estava em formato de gato-das-sombras, mas transformou-se em um lobo em posição de ataque. Sansa chorava até dormir, mas um passarinho veio cantar suas tristezas para longe. Em algum lugar mais a oeste, em um castelo decadente, uma bela dama com conchas no vestido e cobras no cabelo também chorava, encarando um leão manco e uma águia de rapina.
— Voe! – o corvo tirou sua atenção da dama das conchas. As penas negras do animal largavam-no em pleno voo, e cegavam Bran para tudo que não fosse o chão.
— Eu não posso!
— Vamos logo, mexa os braços! Tem esses gravetos para quê? Voe!
— Eu não consigo! – Bran disse, mas mesmo assim começou a mexer os braços.
A queda parou bruscamente. “Graças aos deuses”, ele pensou. Estava a muitos poucos metros do chão. Sentiu-se leve e livre, o vento ricocheteando em seu rosto e as penas tornando escuridão tudo a sua volta. Não tinha medo da escuridão. Eram os cabelos de seu pai, os olhos de Jon Snow, e os cachos de Eileen.
— Olhe! – ele riu com o corvo. – Estou voando! Estou voando! O que faço agora?
— Agora você morre. – o corvo tirou-o do sonho com duras bicadas em sua testa, e agora a escuridão assustada Bran mais do que qualquer coisa. Sentiu frio, o gelo contra a pele vindo de todos os lados, onde quer que estivesse o ar.
Bran sentiu o chão frio e duro antes de acordar para a escuridão familiar de um quarto de torre. Sentou-se repentinamente, mas ainda via as penas do corvo. Mas essas penas transformaram-se nos cachos de uma garota com olhos de ametista. Essa garota... Era uma serva. Isso! Uma serva em Winterfell. Eileen. A sua favorita. Ela vivia em Winterfell, logo, ele também devia estar no castelo. Winterfell – casa, lar, paredes quentes com vida entre as pedras.
Ellie soltou um grito repentino e soltou a bacia de água quente, que estilhaçou-se aos seus pés. O lobo que vinha atrás dela subiu na cama de Bran e aproximou-se dele, os olhos dourados encarando-o. Bran sentiu um arrepio na espinha e o frio sumiu de seu corpo, enquanto ele descobria o nome do seu lobo. Verão.
— Verão. O nome dele é Verão. – ele disse para Eileen, que abriu um sorriso deslumbrante e mancou o mais rápido que pôde até sentar-se na cama ao lado dele.
— Bran! Você acordou! – ela pareceu lembrar-se de algo então. – Espere! Olhe, não volte a dormir. Vou chamar Robb e já volto.
Ela saiu, gritando “Ele está acordado! Ele está acordado! Ele está acordado!” para que toda Winterfell ouvisse, e correndo o máximo que podia.

***

Jon limpou um pouco de suor da testa enquanto colocava sua espada junto com as outras. “Não há nada pior que suor congelado”, ele pensou, suavemente enojado.
Um pigarreio chamou-lhe atenção do outro lado do aposento. Era Grenn, com o nariz sangrando, provavelmente quebrado, Pypar com suas orelhas grandes e mais um que Jon não sabia o nome. A posição intimidadora dos três fez com que Jon risse e continuasse a guardar as espadas.
— Ei, Bastardo. – Grenn o chamou.
Green era alto e musculoso, largo demais para um garoto de sua idade. Aliser Thorne deu a ele o apelido de Auroque, que combinava muito bem com seu pescoço largo.
Jon ignorou-o.
— Bastardo. Quebrou meu nariz.
— Devia me agradecer. – Snow nem mesmo virara-se para os três. – Ficou bem mais bonito assim.
Irritado e vermelho, Pypar e o outro seguraram Jon pelos braços e cupiram em seu rosto. Grenn aproximou-se com uma espada de treino e a pôs sobre o pescoço do bastardo. Estavam prestes a feri-lo de verdade quando a porta rangeu e alguém entrou.
— Hm. – era uma voz desconhecida. Grenn e Pypar viraram-se apenas para ver um homem alto e vestido de negro encarando-os soturnamente. Ao seu lado estava o engraçado Tyrion Lannister, parcialmente desaparecido entre suas peles grossas. – O que acha destes, Tyrion?
— Gostei. Me parecem aceitáveis. Menos o do meio. Temos que deixar o nariz cicatrizar antes.
— Saia daqui, Meio Homem. E você também. – o garoto cujo nome Jon desconhecia começou.
— Meio Homem? – o homem alto disse. — Fala assim com nosso convidado?
— Para que somos aceitáveis? – perguntou Pyp.
— Minha irmã está procurando cabeças para pôr em espigões do lado de fora da Fortaleza Vermelha. Tenho certeza que a Patrulha da Noite não se importará em doar alguns de seus jovens para essa finalidade, certo?
— De maneira alguma nos importaremos, Tyrion. – o alto respondeu.
O garoto enrijeceu a postura e corou até a raiz do cabelo quando percebeu que o homem era um Patrulheiro da Noite. Todos soltaram Jon imediatamente e deram um passo para ganhar distância.
— Desculpe-me, senhor. – Grenn fez uma reverência desajeitada para Tyrion Lannister.
Jon observou mais uma vez o alto, desta vez com mais atenção. Os cabelos eram negros e cacheados, e olhos muito azuis fitavam-no gélidos. O rosto era austero e rígido, como os de homens da Patrulha da Noite.
— Deixem as brigas para os pátios de lutas. Aqui não. Donnal Noye não gosta de baderna por aqui. Se fizerem de novo, ele vai tornar a baderna de vocês em deles, e não vão gostar muito disso. O homem é maneta, mas tão perigoso quanto um Homem de Ferro.
— Ele quebrou o meu nariz.
— Ele nos humilhou.
— Eles me atacaram! – Jon se defendeu.
— Não me importo com o que ele fez ou deixou de fazer. Quase já não são crianças. Vão se tornar homens da Patrulha da Noite. Pelos deuses, comecem a agir de acordo.
Ele os encarou ainda por alguns segundos, então continuou:
— Agora saiam daqui. Todos vocês, vão. – os garotos passaram em uma onda para fora da sala de armas, mas o homem segurou Jon Snow. – Menos você. Termine o seu trabalho. E, Tyrion, conte para ele.
Sem mais uma palavra, ele vai embora e deixa Jon apenas com Tyrion Lannister. O pequeno homem encarava o bastardo com uma expressão interessada, ainda que em silêncio.
— Eles me atacaram. Não gostam de mim.
— Você os maltrata.
— Não os maltrato! Eu sou melhor que eles.
— Eles te odeiam porque você acha que é melhor do que eles. Humilha-os todos os dias no pátio de lutas. Com você não há treino, não há misericórdia.
— Eles são mais velhos que eu.
— Eles nunca tocaram em uma espada antes de virem aqui e ganharem-nas do gentil Sor Aliser Thorne. Sim, eles não são exatamente espadachins, agora vai culpa-los por isso?
— Eu sei o que dizem pelas minhas costas.
— E o que é isso?
— Chamam minha mãe de puta.
— E?
— Minha mãe não é puta. Lorde Eddard não é o tipo de homem que dorme com putas. Sua honra...
— Não falou mais alto perante o encanto de alguma mulher, não se engane quanto a isso. Ele com certeza não te encontrou embaixo de uma folha de alface durante a Rebelião de Robert.
— Eles me chamam de Lorde Snow! De bastardo!
— E você por acaso não é um? Ande logo e avise a Lady Catelyn, ela vai se sentir bem melhor, com certeza. Lorde Snow é um bom nome, se ignorar o deboche. Não deixe que eles vejam que isso o incomoda. Se é como o chamam, adote-o como seu nome.
— Você... – Jon apoiou-se contra a parede. – Você foi o único que me avisou. Você me avisou que a Patrulha não era o mesmo de antes. Se eu... Se eu tivesse ficado em Winterfell, tudo teria sido diferente. Bem melhor. Eu poderia...
— Você poderia? – Tyrion encorajou-o a continuar, parecendo curioso em seus olhos desiguais.
— Eu poderia ter me casado. Com uma garota.
— Uma garota?
— Eileen. Podíamos ter sido felizes. Mas, ao invés disso, eu desisti. Desisti porque jamais daria a ela tudo o que ele daria. Tudo o que ela merece e...
— Bem, você tem sorte.
— Tenho sorte?
— Sim! Eu terei que me casar.
— E com quem? – Jon riu da ideia.
— Uma filha de um dos menores vassalos do meu pai. Uma Westerling. – Tyrion mexeu a mão direita, e Jon percebeu que ele queria estar segurando um copo de vinho naquele momento. – Não sei como ele conseguiu empurrar-me para ela. Gawen Westerling é mais orgulhoso do que qualquer coisa, e pensei que jamais permitiria que sua adorada Jeyne casasse-se com um monstro como eu.
— Isso explica muito. – Jon abriu um meio sorriso para o Meio Homem.
— O quê?
— Porque você decidiu vir para a Muralha. Está pensando em vestir o negro, Lannister?
— Jamais, Snow. Prostitutas de Dorne até Porto Real, passando por Rochedo Casterly, sentiriam minha falta e chorariam oceanos. Não. Não sirvo para o negro. Minha cor é o vermelho.
Tyrion virou-se para sair, enquanto Jon continuou a guardar as espadas.
— Ah, eu já ia me esquecer. Seu irmão... – Tyrion procurou um pergaminho nas peles e ergueu-o para que Jon visse. – Acordou.

***
O corvo negro pousou na janela e impediu parcialmente a visão de Bran. Eileen estava lá embaixo, correndo junto com Rickon em meio aos lobos. Vento Cinzento, Cão Felpudo e Verão corriam atrás dos dois. Onde quer que fossem, o lobo de Robb já estava lá e ameaçava lamber seus pés. Verão era mais cauteloso e menor, mas era o mais inteligente. Já havia conseguido lamber os pés de Eileen duas vezes. Ela estava desajeitada por causa do pé machucado.
Mas os pés de Rickon ainda não tinham sido lambidos: qualquer lobo que se aproximasse demais era recebido com os dentes afiados de Cão Felpudo. Agora o lobo era mais selvagem, completamente negro, e com olhos verdes como fogovivo.
Vendo o corvo, Bran irritou-se. Seus olhos começaram a arder enquanto ele via Rickon e a serva correndo lá embaixo. A garota pareceu cansar-se e desistir, voltando a entrar no castelo. Enquanto isso, Rickon continuou a gargalhar com Cão Felpudo.
— Você mentiu. Eu não voo. Nem mesmo corro.
— Corvos são todos mentirosos. – a Velha Ama concordou com sua voz frágil enquanto costurava algo em seu colo. Parecia mágica e translúcida no canto do quarto, meio na sombra e meio na luz. Ela já era a Velha Ama quando o pai de Bran era criança. – Quer que eu te conte uma história sobre um corvo mentiroso?
— Estou farto de suas histórias. Detesto-as.
— Eu sei uma de um garoto que detestava histórias.
Nesse momento a porta abriu-se com um rangido suave e quem entrou foi Eileen. Usava uma trança nos cabelos longos, mas esta já estava se desfazendo em madeixas soltas. O vestido novo era mais grosso agora, e nunca colorido. Era apenas cinza. Ainda assim lá estava a rosa azulada em seus cabelos.
— O que houve agora? – ela perguntou ao ver a expressão de Bran. Então riu, ofegante devido a brincadeira com Rickon. Quando sorriu, as cicatrizes que atravessavam seu rosto se contorceram como os arabescos do sonho de Bran.
— Ele não quer ouvir nenhuma de minhas histórias. – a Velha Ama reclamou. – Nem mesmo a de Bran, o Construtor, que é a sua favorita.
— Essa não é a minha favorita. Eu gosto é das assustadoras.
— Das assustadoras? Como aquelas dos Caminhantes Brancos?
— Oh, minha amada criança do verão. – Ellie pareceu muito mais velha quando disse isso a Bran, tirando uma mecha de cabelo do garoto de cima dos olhos. – O que você sabe do medo? Não sabe o que é frio. Gelo.
— Conte-me, então. – Bran gostava de ouvir histórias de Eileen. Ela contava as melhores, as que ouviu da mãe selvagem.
— Há muito tempo atrás, houve uma noite que durou muitas gerações. Homens nasciam e morriam sem ver o sol. E as mães sufocavam os bebês para não vê-los morrerem de fome. As feiticeiras do inverno davam crianças aos deuses frios em busca de paz. Faziam suas magias de sangue e não conseguiam prever o fim da noite. Nesse frio sem fim, os deuses frios atacaram os homens e todos morreram. Mesmo os que estavam dentro de seus castelos de pedras. Os deuses frios não discernem ricos de pobres, fidalgos de camponeses. Eles veem sangue, e calor, e odeiam-nos por isso. Pois apenas o fogo queima a noite e ilumina os mortos. Apenas o fogo.
Bran já tinha os olhos arregalados por causa da história, e nesse momento Ellie parou.
— Eu posso cantar uma canção, o que acha? – ela aproximou-se dele, mudando de assunto repentinamente e beijou-lhe a bochecha. – “Eu sou o último dos gigantes”? Ou melhor, “Bael, o Bardo”?
— Essa eu nunca ouvi.
— Ah, não. – Ellie pareceu ter se dado conta do que falara. – Eu não posso cantar essa. Tenho que ter cuidado com o que canto no lar dos Stark. Quer ir para a cama? Dormir um pouco durante a tarde?
— Gostaria de ouvir “Canção de Inverno”.
— Ótimo. – ela sorriu por agradar Bran, como sempre fazia. – Vou chamar Walder para leva-lo até a cama.
Por Walder, ela queria dizer Hodor. O cavalariço simplório agora era o responsável por locomover Bran de um lado a outro. Seu nome na verdade é Walder, mas apenas Ellie e a Velha Ama chamam-no assim. Hodor é o que ele fica murmurando o tempo todo.
A serva abriu a porta e estava prestes a gritar quando viu Robb subindo as escadas. Sorriu para ele e fez uma reverência afetada.
— Senhor. Se me der licença, tenho que achar Hodor.
— Eu ponho-o na cama. – Robb sorriu para o irmão e levou-o até o colchão. Depois de coloca-lo lá, virou-se para a Velha Ama. – Pode ir almoçar agora.
A idosa saiu e Ellie fez menção a sair também, mas Robb impediu-a.
— Você pode ficar. – ela sentou-se ao lado de Bran, e Robb também o fez. – Como está?
— Estou bem. – ele disse. “Vou ficar bem”.

Notas finais
Então. Duas coisas: primeiro, acho que os capítulos do Jon vão diminuir um bocado agora... Sabe como é, né? É que agora é aquele momento em que ele treina na Muralha, e conhece o Sam, e todos sabemos o que acontece. Segundo, vou tentar postar com mais frequência porque eu quero andar mais com a história. Ainda tem muita coisa pra acontecer! kk
Comentários, please?
Beijos! :*