Quando Nossos Caminhos se Cruzaram
2 Olhos Que Já Me Conheciam
Notas iniciais
O som dos alunos pelo pátio era como um coral caótico: risadas, conversas apressadas, passos apressados nos corredores. O uniforme azul marinho da escola Nóbrega dava um ar elegante a todos os estudantes, mas alguns se destacavam — e não era pelo uniforme.
O Colégio Nóbrega era diferente de qualquer outro. Localizado em um dos bairros mais nobres da cidade, ele não era apenas uma escola — era um símbolo de status. Frequentado pelas famílias mais influentes, era conhecido como o colégio elite da elite. Sua estrutura era digna de universidade: salas de aula climatizadas, laboratórios de ponta, quadras poliesportivas cobertas, piscina aquecida, auditórios com tecnologia de cinema e até uma biblioteca que mais parecia uma livraria de shopping. O ensino médio ali durava quatro anos, não três como na maioria das escolas, pois ofereciam um “ano zero” de imersão preparatória que misturava reforço escolar com matérias de base universitária e desenvolvimento pessoal.
Era início de manhã, e o movimento estava intenso. A escola fervilhava de vida. Eu caminhava em direção ao setor de tecnologia, onde começariam os primeiros ajustes no sistema da escola. Tablet em mãos, crachá no peito e uma leve ansiedade batendo no fundo do peito. Sabia que teria bastante trabalho pela frente, mas não imaginava que a verdadeira surpresa estava prestes a acontecer.
De repente, como em câmera lenta, as portas do bloco principal se abriram, e um grupo de meninas atravessou o corredor. Era como uma cena de filme adolescente — passos sincronizados, risadas contidas, olhares curiosos. Liderando o grupo, ela apareceu.
Suellen…
Ela passou por mim como se eu fosse apenas mais um técnico. Altiva, segura, o queixo erguido como se olhasse sempre de cima. Ela era deslumbrante de uma forma única. O olhar dela era firme, o andar confiante. Seus lindos cabelos cacheados balançavam com leveza enquanto ela conversava com um grupo de amigas que claramente pertenciam à elite da escola. Seus olhos castanhos brilhavam e o sorriso, mesmo contido, carregava o mesmo encanto de o mais belo jardim de rosas, ou como a imensidão de luzes que enfeitavam e maravilhavam o universo…
Ela não me olhou diretamente. Mas hesitou por um segundo. Apenas um. Como se algo dentro dela tivesse acendido por um instante. E então seguiu. Orgulhosa. Distante. Como se quisesse fingir que não sentia nada.
Ao seu lado, quatro meninas caminhavam como se estivessem em uma passarela.
Luiza, sua prima, era a mais alta do grupo. Tinha um corpo muito desenvolvido para a idade, chamava atenção por onde passava. Apesar do jeito meio bobo e chato, não parecia ser o tipo de pessoa que agiria de má fé. No fundo, parecia até disposta a todas as possibilidades.
Camila, de óculos, com livros sempre à mão, era o tipo nerd e briguenta. O olhar dela era sempre desconfiado, como se estivesse pronta para defender Suellen com unhas e dentes. Mas também parecia carregar um certo pessimismo sobre tudo.
Bianca andava mais próxima de Suellen, como sua sombra protetora. Tímida, reservada, era claramente a melhor amiga dela. Quieta, mas leal. Observava tudo com atenção, e mesmo calada, parecia entender tudo o que se passava ao redor.
Emily… bem, Emily era outra história. Desinibida, cheia de si, gostava de curtir, namorar, trocar de namorado como quem troca de roupa. Era o tipo que sempre tinha alguma história picante pra contar e andava como quem queria ser o centro das atenções.
Fiquei fascinado. Não me lembrava dela de imediato, mas havia algo naquele rosto… algo que me deixava inquieto, como se o tempo estivesse tentando me lembrar de algo que ainda não voltara à tona.
Enquanto elas passavam, ouvia fragmentos de conversas de alunos e professores pelos corredores. Desta forma ouve seus nomes e pequenos relatos de suas personalidades. Muitos falavam de Suellen como se ela fosse uma celebridade da escola. E não era só ela. Aqueles nomes… Luiza, Camila, Bianca, Emily… todos pareciam ter uma reputação forte ali dentro, seja por beleza, inteligência ou personalidade marcante. Aquilo reforçava ainda mais a sensação de que eu estava entrando em um mundo à parte.
Elas passaram e desapareceram em uma das salas do andar superior. Respirei fundo e voltei ao meu caminho. Precisava focar no trabalho.
Comecei a visitar as salas onde iria atuar. O setor de informática ficava em uma área reservada no segundo andar. Algumas salas estavam equipadas com computadores modernos, outras com equipamentos ainda em fase de atualização. Era meu trabalho garantir que tudo estivesse funcionando com perfeição. Enquanto caminhava, fui apresentado ao coordenador de tecnologia, o senhor Arnaldo — um homem sério, mas simpático. Mostrou-me os espaços, falou sobre os projetos da escola e deixou claro que havia muito trabalho pela frente.
Conforme avançava nos corredores, fui conhecendo também parte da equipe pedagógica e administrativa. Gente boa, acessível, o tipo de ambiente profissional que tornava a rotina mais leve. Entre apresentações e explicações, fui me sentindo mais confortável. Talvez aqueles meses ali fossem mais interessantes do que eu imaginava.
Foi quando entrei em uma das salas do laboratório de informática e vi um garoto sentado em frente ao computador, digitando com entusiasmo. Ele devia ter por volta de 16 anos. Assim que me viu, os olhos brilharam.
— Oi! Você é o técnico novo, né? — perguntou com animação.
— Sou sim. Pode me chamar de Ruan. E você?
— Igor! Eu amo programação! Tava tentando fazer um joguinho em Python aqui… olha só! — disse, empolgado, virando o monitor para me mostrar.
O código estava simples, mas com boas ideias. Ele tinha futuro.
— Poxa, tá mandando bem. Quem te ensinou isso tudo?
— Ah, eu aprendo vendo vídeo, fuçando... ninguém aqui gosta muito disso, mas eu amo. E agora com você por aqui, talvez eu aprenda mais — disse, com um sorriso genuíno.
Conversamos por alguns minutos. Igor me fez várias perguntas sobre sistemas, linguagem de programação, redes, e parecia ter sede por conhecimento. Era bom ver alguém tão jovem já tão envolvido com tecnologia. Me senti inspirado.
“Talvez eu tenha vindo até aqui por mais do que só o trabalho…”
O restante da manhã passou rápido. O som do sinal ecoou pelos corredores, anunciando o intervalo para o almoço. Alunos apressados se dirigiam ao refeitório, alguns se reuniam embaixo das árvores do pátio. O clima era leve, mas minha cabeça estava longe dali. Ainda pensava nela.
Depois do almoço, Suellen e as garotas foram ao banheiro antes de voltarem para as aulas. Mas Suellen se atrasou.
Sozinha no corredor, ela caminhava rapidamente, com os passos apressados e o olhar atento ao celular. Virei o corredor no mesmo instante. Foi tudo muito rápido.
— PÁ!
Nos esbarramos de frente. Ela tropeçou um pouco, e instintivamente, a segurei pelos braços.
— Desculpa! — dissemos os dois ao mesmo tempo.
Foi então que nossos olhos se encontraram. Ficamos ali, paralisados por segundos que pareceram minutos. Os olhos castanhos dela me prenderam como um laço. Havia algo ali. Algo que gritava do passado. E ao mesmo tempo... era como se tudo começasse de novo.
“Aquele olhar… eu já o conhecia.”
E naquele breve instante, foi como se o tempo parasse ao nosso redor. A escola, os passos no corredor, as vozes ao fundo — tudo desapareceu. Só restava nós dois.
(continua...)
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