Ruan estava em sua sala de estudo, mas, como sempre, os livros não eram suficientes para afastar os pensamentos que o assombravam. Desde o abraço de Suellen, ele não conseguia parar de se questionar. Seria aquilo apenas um gesto de gratidão, ou ela realmente sentia algo por ele?

Ele não sabia. O abraço dela foi tão espontâneo, tão sincero, mas ao mesmo tempo... tão confuso. Afinal, ela havia sido muito clara sobre a situação entre eles, não? Mas aquele olhar, aquele toque, tudo parecia carregar mais significado do que ele queria admitir. Ruan se pegou refletindo: talvez estivesse complicando as coisas demais. Talvez ela estivesse apenas grata, e ele estava projetando sentimentos onde não havia nada além de amizade.

Mas o que mais o perturbava era o que aconteceria se ela realmente gostasse dele. O que ele faria então? Ele sequer sabia o que queria de verdade. Uma coisa ele sabia: Suellen estava começando a ocupar mais espaço no seu coração.

Foi quando a porta de sua sala se abriu e, sem pedir permissão, Evelyn entrou, com seu sorriso quase provocante. Ela sempre sabia como aparecer nos momentos mais inesperados.

— Ei, Ruan, você tem um minuto? — perguntou Evelyn, já se sentando ao lado dele antes mesmo de ouvir a resposta.

Ruan se endireitou na cadeira, tentando esconder o desconforto. Ele não parecia saber bem como lidar com Evelyn, sempre direta e sem filtros. Mas, por algum motivo, ele não a afastou — talvez pela curiosidade do que ela diria.

— Claro, Evelyn. O que aconteceu? — respondeu, tentando manter o tom amigável.

Evelyn não perdeu tempo com rodeios. Inclinou-se um pouco para frente, como se estivesse prestes a lançar uma pergunta importante.

— Então... você e a Suellen estão juntos? — perguntou ela, com um olhar que misturava interesse e provocação.

A pergunta pegou Ruan de surpresa. Ele engasgou por um momento, sentindo um frio na barriga. Aquelas palavras pareciam sair de algum lugar sombrio da sua mente, e ele não estava preparado para elas. Evelyn estava provocando, como sempre fazia, mas agora havia algo mais nos seus olhos. Algo que parecia genuíno.

— O quê? — ele disse, tenso. A dúvida imediatamente tomou conta dele. — Não... não estamos juntos.

A resposta saiu mais ríspida do que ele gostaria. Ele não queria ser rude, mas a simples ideia de Evelyn questionando sua relação com Suellen parecia invasiva demais.

Evelyn deu um sorriso sutil, como se tivesse esperado por essa resposta. Ela estava sempre jogando com os sentimentos alheios, e Ruan não era exceção.

A pergunta foi direta, e Ruan sentiu o peso dela. Ele não sabia o que dizer. Ele tinha seus sentimentos, claro, mas será que estava pronto para admiti-los? Será que sabia realmente o que sentia? A insegurança tomou conta dele, e ele tentou manter a calma, mas era difícil.

— Eu... — Ruan começou, tentando organizar seus pensamentos. — Eu a respeito muito. Suellen é alguém muito extraordinária, e tem muito potencial pela frente, mas... eu não sei se era isso que você queria ouvir, mas é isso que penso dela. Não sei se vamos ter um vínculo como amizade, mas eu gostaria de ter. Com ela e outras pessoas.

Evelyn o observou atentamente, seu olhar mais intenso, como se estivesse analisando cada palavra que ele dizia. Ela parecia entender mais do que ele gostaria. Depois de um momento de silêncio, ela se inclinou um pouco mais para ele, os lábios curvados em um sorriso travesso.

— Então... o que você acha de mim, Ruan? — perguntou, com um tom de quem já sabia a resposta, mas queria ouvir da boca dele.

Ruan ficou em silêncio por um momento, sentindo a tensão aumentar. Ele não sabia como lidar com aquela situação. Evelyn sempre soube como fazer com que os garotos ficassem desconfortáveis, e agora parecia que ela estava se divertindo com isso.

— Eu... — Ruan começou, tentando organizar seus pensamentos. — Eu não sei, Evelyn. Às vezes, você... é difícil de entender. Você é... provocante demais, sabe?

Ele sentiu um frio na barriga ao dizer isso. Mas ao mesmo tempo, sabia que não poderia mentir. Evelyn o fazia se sentir perdido, mas a atração estava ali, latente. O sorriso de Evelyn se alargou, e ela se afastou ligeiramente, como se estivesse brincando com ele.

— Provocante? — ela riu suavemente. — Eu só estou sendo eu mesma, Ruan. E você está aqui, completamente fora de controle. Mas você me acha interessante, não é?

A pergunta ficou no ar. Ruan não sabia como responder, e a provocação de Evelyn o deixava ainda mais confuso. Ela sabia como brincar com suas inseguranças e fazer com que ele questionasse até mesmo o que sentia por Suellen. Ele tentou se recompor, mas a situação estava se tornando desconfortável demais.

Evelyn, percebendo a tensão crescente, se levantou lentamente, sorrindo como se tivesse cumprido seu objetivo.

— Bom, Ruan, você vai ter que descobrir isso sozinho. Mas não demore muito, você sabe que oportunidades como essas não ficam por aí para sempre. — Ela piscou e saiu da sala com o sorriso travesso, deixando Ruan em silêncio, absorto em seus próprios pensamentos.

Agora sozinho, Ruan se permitiu respirar fundo. Aquele encontro com Evelyn mexeu com ele de maneiras que ele não estava preparado para entender. Ele pensava em Suellen, no que ela significava para ele, e na confusão que seus sentimentos causavam.

Do outro lado da cidade, Suellen estava sentada no banco do pátio, perdida em seus próprios pensamentos. O que havia acontecido entre ela e Ruan? Ela ainda sentia o calor daquele abraço, mas ao mesmo tempo se questionava: será que ele realmente a via mais do que uma amiga? Ou ele estava apenas sendo educado, gentil demais para recusar a ajuda? Ela sabia que suas dúvidas eram normais, mas algo dentro dela não deixava de acreditar que havia mais ali.

Suênia, sua mãe, se aproximou, sentando ao lado dela com o sorriso tranquilo que Suellen tanto adorava.

— O que está acontecendo, filha? Você está muito quieta hoje — perguntou Suênia com um tom suave.

Suellen se virou para sua mãe, buscando consolo. Ela sabia que podia falar com Suênia sobre qualquer coisa.

— Eu... eu não sei o que fazer, mãe. O Ruan é... diferente. Ele sempre foi alguém especial para mim, mas agora tudo está confuso. Será que ele se lembra do que aconteceu entre a gente? Será que ele retribuiu o abraço por lembrar ? Ou foi apenas um gesto de agradecimento pelo que fizemos no trabalho?

Suênia olhou profundamente nos olhos de Suellen, sentindo o peso da dúvida da filha.

— Eu sei o que você está sentindo, filha. E, seja o que for, você tem que ser honesta com seus sentimentos. Não esconda o que está dentro de você. Mas lembre-se, sempre que for lidar com o seu pai, você precisa ter cuidado. Eu sei que ele é rígido, mas ele só quer proteger você. Mas você também tem o direito de ser feliz.

Suellen olhou para a mãe com um sorriso tímido.

— Eu só tenho medo de me machucar de novo. Mas, ao mesmo tempo, eu não quero mais viver com medo de sentir.

Suênia a abraçou com ternura, dando o apoio de sempre.

— Então, filha, talvez seja hora de você ouvir mais o seu coração.

(continua…)