Capítulo oito

_ Lil? Lil, acorda...

A voz de Christina era distante, e eu abri os olhos lentamente.

_ Já é de manhã? – balbuciei.

_ Sim...

Aos poucos, fui me levantando. Eu estava deitada em um dos sofás; no outro, Gustavo ainda dormia. Depois “da cena do armário”, eu e ele ficamos a noite inteira assistindo filmes e desenhos... E até que foi divertido.

Olhei para Christina.

Os olhos dela estavam vermelhos.

_ Chris? Você estava chorando?

Ela esfregou o rosto.

_ Ai, Lil, deu tudo errado com você-sabe-quem... Estava indo as mil maravilhas, mas daí começamos a discutir, até a briga atingir um alto potencial... Daí ele foi embora de casa, jurando que ia se vingar!

_ O quê? Chris, isso é sério! Ele é perigoso?

Ela me fitou de forma indignada.

_ Perigoso?! Lil, perigoso é pouco, e você sabe disso perfeitamente! Eu já te contei tudo! – ela tinha começado a chorar de novo. Tremendo, sentou-se ao meu lado – Eu medo! não sei o que fazer! Lil, estou morrendo de

_ Vamos falar com a polícia – eu disse, já me levantando, mas Chris me puxou de volta para o sofá.

_ Não! Você está louca?! Você sabe o que ele é capaz de fazer! Ele pode fazer alguma coisa contra eu ou você... – ela abaixou o tom da voz e olhou para Gustavo, que ainda dormia – Ou pode machucar o meu filho. Lil, eu não vou me perdoar se acontecer alguma coisa com o Gustavinho... Este homem é perigoso...

De quem a Christina está falando? Tenho medo de perguntar, pois, pelo visto, de alguma maneira, eu sei quem ele é... Oh, Deus, o que eu devo fazer?

_ Chris, vamos manter a calma... Temos que pensar em alguma coisa para preservar a sua segurança e a do Gustavo. Vamos colocar policiais vigiando a sua casa 24 horas por dia e...

_ Você até parece uma policial, falando assim...

O quê? Mas eu sou uma policial, eu sou uma detetive...

_ Chris, mesmo assim, temos que...

_ Vamos continuar com a nossa vida – ela esfregou o rosto, secando as últimas lágrimas – Não vou mudar minha rotina por causa dele... E se ele tentar alguma coisa contra nós, bem... Eu irei dar um jeito.

_ Chris...

Mas ela se levantou, me ignorando.

_ Vou acordar o Gustavo, assim ele toma o café, se troca, a gente leva ele pra escola e vai para o trabalho. Temos uma reunião importantíssima hoje, e o Jerry come a nossa alma se nos atrasarmos...

Eu e a Chris, no mesmo trabalho?

Reunião?

Jerry?

Por que será que eu não estou gostando do rumo dessa história?

_ Lilly, você está me ouvindo?

_ Sim... Er... Acorde o Gustavo, que eu... Er... Preparo alguma coisa para ele comer.


Uma hora mais tarde, eu e a Christina estávamos levando o Gustavo para a escola. Chris dirigia, eu estava no banco do passageiro, e Gustavo no banco detrás.

Íamos em silêncio.

Quem é esse homem a quem a Chris se referiu? Por que ele é tão perigoso? Ele já fez algo contra ela, ou contra o Gustavo, ou... Contra mim? Seja quem for ele, pelo jeito é muito perigoso. Nunca vi a Chris tão alterada assim... Tão... Assustada!

Preciso descobrir a identidade desse cara, e avisar o Scotty, o Nick e a Kat. Precisamos fazer alguma coisa para detê-lo.

Chris estacionou na frente da escola.

Já estava em cima da hora.

_ Tchau, mãe – Gustavo beijou o rosto dela e depois se virou para mim – Tchau, tia – e me beijou no rosto também, descendo em seguida.

Fiquei congelada por um momento. Acho que foi a primeira vez que recebi o carinho de uma criança... Uma criança que eu nem conheço... Meu sobrinho.

_ Lil, por que você está sorrindo?

_ Nada não...

Chris balançou a cabeça e deu partida.

_ Vamos logo, senão chegaremos atrasadas.

Será que eu devo perguntar aonde ela vai me levar? Ou melhor esperar e ver? Alguma coisa me diz que eu não vou gostar do que está por vir...


Ok, agora eu quero descobrir para que mundo eu fui enviada.

Esta não é a minha vida.

Este não é o meu trabalho.

Não, não é mesmo.

Eu sou detetive, sou detetive há muito tempo... Isto deve ser alguma brincadeira que estão fazendo comigo, só pode ser...

_ Bom dia, Lilly! Bom dia, Christina! – uma mulher de cabelos ruivos, carregando várias pastas, nos cumprimentou apressadamente – o Jerry transferiu a reunião para a sala 6.

_ Oh, obrigada por nos avisar, Emily.

_ Vocês podem levar essas pastas para mim? Tenho que fazer uma entrevista, e não posso me atrasar.

_ Não se preocupe, Emily – Christina apanhou as pastas da mão dela – Pode ir.

_ Obrigada.

Observei aquela cena atônita. Sem saber o que fazer, segui minha irmã pelos corredores e escritórios, tentando entender o porquê daquilo estar acontecendo comigo, justo comigo.

_ Lilly – um rapaz parou na minha frente, me entregando várias folhas impressas – Você pode revisar a minha matéria? Sinto muito por não tê-la enviado ontem para você, mas ocorreu um problema e...

_ Ai, Colin, desse jeito você nunca vai conseguir uma promoção – Chris o repreendeu, tirando as folhas das mãos dele e as entregando para mim – Sai do meu caminho. Estou atrasada para uma reunião. Na verdade, eu e a Lilly estamos.

_ Sinto muito, Christina...

O rapaz nos deu passagem, e continuamos o nosso caminho. Ou melhor, Chris continuou, e eu a segui.

_ Não sei por que você ainda insisti em manter o Colin aqui na revista... Está certo, as matérias dele são excelentes, mas pelo amor de Deus! Ô cara com vida complicada! O Jerry quer cortá-lo de vez da equipe. O que você acha? O Colin já desperdiçou todas as chances que demos para ele...

Sem saber o que fazer, eu assenti.

O que a gente fala numa hora dessas?

_ Ah, o Jerry vai amar sua decisão! Finalmente você pensou sem se preocupar com a vida pessoal do Colin. A vida pessoal dele já interferiu demais no nosso trabalho.

Andamos mais um pouco, até pararmos em frente a “Sala de Reunião”.

Chris empurrou a porta e entramos.

_ E, Lil, mais uma coisa – ela disse bem baixo – Mude essa expressão. Você está com cara de quem está mais perdida do que um aluno novo no primeiro dia de aula.

_ Ah...

_ Vamos para os nossos lugares.

Ela me puxou, nos levando para um canto da mesa, onde sentamos em “nossas” cadeiras.

Onde estou? Onde estou? Onde estoooooou?!

_ E aqui finalmente estão minhas editoras preferidas! – um homem nos cumprimentou com um sorriso amável – Podemos começar a reunião, enfim!

Christina sorriu, jogando o cabelo para trás.

_ Jerry, tenho uma ótima notícia. A Lil finalmente concordou em cortar o Colin da equipe. Ele atrasou mais uma matéria, e essa foi a gota d’água para ela.

O homem olhou para mim, surpreso, e em seguida esboçou um sorriso.

_ Finalmente, Lilly! – ele deu dois tapinhas no meu ombro – Eu sei, o Colin tem uma vida dura, mas esta estava interferindo no seu desempenho no trabalho... E às vezes temos que deixar nossa emoção de lado para agir de modo frio e racional, não é?

_ Er...

_ Mas fico feliz com a sua decisão. É assim que se consegue chegar ao cargo de editor-chefe da revista, como eu cheguei... – ele diminuiu o tom da voz – Ouvi uns boatos por aí que as irmãs Rush estão sendo cogitadas para serem as novas editoras-chefes do segundo departamento da revista.

_ Sério? – Christina sorriu, me dando um cutucão – Mas isso é uma ótima notícia, Jerry!

_ Shhh... É segredo, vocês não sabem de nada...

Christina encostou os dedos nos lábios, e sorriu, prometendo guardar segredo.

Jerry foi para o centro da mesa, chamando a atenção de todos. Ele começou a falar a respeito de umas matérias, de não sei o que, disso, daquilo... Eu me desliguei completamente daquela reunião.

Alguma alma caridosa pode me responder o que eu, Lilly Rush, detetive do Departamento de Homicídios, que trabalha com casos arquivados, está fazendo em uma sala de reunião com a Christina, sendo que essa reunião é para os editores e os editores-chefes de UMA REVISTA?

Como eu cheguei a essa situação?

Vou fechar os olhos, sim, isso que eu vou fazer. Devo estar sonhando, só pode ser isso! Vou fechar bem os meus olhos e, quando eu abrir, estarei na minha cama, e nada disso nunca terá acontecido.

_ Lilly! – Christina me deu um cutucão – O que é isso? Você está dormindo no meio da reunião?

_ Eu...

_ Pare de agir, você tá tão estranha! Tente agir como uma pessoa normal! Você não ouviu o que o Jerry disse? Nossos nomes estão sendo citados quando se trata dos novos cargos de editores-chefes! E...

Antes que Christina continuasse, Colin entrou furioso na sala de reunião.

_ Como assim? – ele gritou, esmurrando a mesa – Como vocês podem me demitir?! Eu não fiz nada! Qual é o problema?

_ Esse é o problema, Colin. Você não faz nada. – Jerry bufou – Você sempre atrasa a matéria, e tentamos ser compreensíveis com você, mas nem a Lilly agüenta mais esses seus atrasos.

Colin me fitou, indignado.

_ Mas você prometeu, Lilly! Você falou que eu não seria cortado da equipe! Você me traiu!

_ Ora, Colin, cresça e apareça – Chris o cortou – Até a paciência da minha irmã tem limite!

Colin esmurrou a mesa mais uma vez.

_ Não é justo! Isso não vai ficar assim! – ele olhou para mim, para Chris e para o Jerry – Vocês três, fiquem avisados! ISSO NÃO FICARÁ ASSIM!

Dois seguranças entraram na sala e começaram a arrastar o Colin para fora.

_ Isso não vai ficar assim!

Christina suspirou.

_ Pobre rapaz. – ela consultou o relógio de pulso – Nossa, já é essa hora? Tenho que buscar a roupa na lavanderia, e também buscar o Gustavo. Eu passo aqui para te buscar depois, certo?

Eu assenti, confusa.

Em que mundo eu estou?

Christina se levantou e saiu. Pelo jeito, após o barraco que o Colin armou, a reunião havia sido cancelada.


Fui até uma sala de descanso para tomar um café.

Preciso parar e pensar. O que está acontecendo? Como assim, eu sou editora de uma revista? Não tenho vocação nenhuma para escrever. Sou detetive, essa é a minha verdadeira profissão.

Por que, com tantas pessoas no mundo, isso está acontecendo justamente comigo?

_ Fiquei sabendo que você tirou o Colin da equipe – Emily entrou na sala, e começou a preparar um café para ela – Fiquei surpresa com a sua decisão, Lilly, já que você o protege tanto... Mas já estava na hora de tirar esse rapaz daqui.

Eu apenas assenti. O que mais posso fazer?

_ E aí, novidades?

_ Er... Acho que não...

_ Também não tenho nada novo... Vida amorosa, xiii, mais parada do que nunca.

_ Lil! – Christina entrou correndo na sala. Seus olhos estavam mais vermelhos do que nunca.

_ O que aconteceu, Chris?

_ Lil... Lil... – ela tremia muito, que Emily precisou fazer com que ela se sentasse.

_ Chris, o que foi?

_ O Gustavo... – Christina levou a mão à boca, abafando o soluço – Ele... Ele... Seqüestraram o meu filho!