Peguei um táxi, pois não sabia onde meu carro estava. Mesmo se soubesse, teria optado pelo táxi mesmo. Não estou em condições de dirigir. Estou tremendo muito.

Como eu fui parar no apartamento da Christina?

Eu não a vejo há mais de quatro anos... Desde que ela... Desde que ela... Ela e o Scotty... Não quero pensar nisso agora. Preciso pensar em como fui parar no apartamento dela depois do ataque.

Ataque... Não era para eu estar num hospital? Ou pelo menos no Departamento? Como a Chris me achou, afinal? E que história de festa era aquela?

Eu nunca fui a nenhuma festa com a Chris, isso eu posso garantir. Talvez quando éramos bem pequenas, mas... Eu mal me lembro...

Nunca fiquei tão assustada como agora.

A Christina estava agindo da forma mais normal possível comigo, como se nada tivesse acontecido... Parecíamos até “melhores amigas”.

O táxi parou em frente ao Departamento.

Paguei a corrida e desci.

Eu preciso desesperadamente falar com o Scotty, com o Nick, com a Kat ou com o chefe... Eles devem saber o que aconteceu comigo.

Lilly Rush, mantenha a calma.

Pode ser que alguns dias tenham se passado e você foi parar na casa da sua irmã para descansar e... Ah, eu não sei o que inventar! Calma, muita calma. Eles vão te dar uma explicação sensata.

Entrei na Homicídios mais ansiosa do que pretendia. Eu estou muito nervosa, e pelo jeito o pessoal percebeu isso, pois estou olhando para os lados, a procura de alguém.

_ Posso ajudá-la? – ouço uma voz atrás de mim.

Me viro.

_ Will! – foi o que consegui dizer, após sorrir – Que bom, você já se recuperou! Estou tão feliz que você esteja bem!

Ele me olhou de um jeito estranho, como se não soubesse do que eu estava falando.

_ Você está precisando falar com alguém? Alguma informação sobre um caso? – ele perguntou, tentando mudar o assunto.

_ Will, sou eu! – repeti, ficando assustada.

_ Sinto muito, mas...

Certo, agora estou desesperada.

_ Will, sou eu, Lilly Rush!

Ele também estava assustado.

_ Vou chamar alguém para falar com você... – ele disse, se afastando.

_ Will! – chamei por ele de novo, mas ele já estava longe – Tá certo, eu espero...

Será que o tiro que o Will levou afetou sua cabeça? Ou ele estava brincando comigo? Céus, não sei mais no que pensar.

Só pode ser uma brincadeira...

È uma brincadeira.

Ou o tiro realmente o traumatizou.

Ouço duas vozes conhecidas passarem por mim. Discutindo, como sempre.

_ Nick! Kat! – eu os chamo.

Os dois olham para mim, meio bravos. Parece que eu os peguei num momento ruim muito ruim.

_ Sim? – diz Kat, irritada.

_ Kat, eu não sei o que aconteceu comigo! – comecei, aflita. Eu realmente estava aflita. – Saí daqui tarde aquele dia em que os detetives Winchesters vieram dar informações sobre o caso da Cassandra, e quando eu estava voltando para a casa, acho que fui atacada. Kat, Nick, acordei no apartamento da Chris, não sei como fui parar lá! O que aconteceu comigo?

Kat e o Nick me fitaram em dúvida.

_ Ah... – Nick abriu a boca, procurando as palavras certas – Desculpa, mas... A gente te conhece?

Olhei desesperada para eles.

_ Nós trabalhamos juntos, há mais de seis anos! E Kat, a gente trabalha juntas há três anos!

_ Ah, moça, olha... – Kat cruzou os braços, tentando não parecer indelicada – Você disse que foi atacada, não é mesmo? Não me leve a mal, mas... Acho que você sofreu algum trauma. Quer que eu ligue para alguém? Você quer dar um depoimento?

Dou alguns passos para trás, sentindo uma imensa vontade de chorar. Aquela brincadeira deles já estava passando dos limites.

_ Não!

_ Quer que eu chame alguém?

_ Não! Não! – repito, virando de costas e saindo dali.

O que está acontecendo comigo?

Por que eles estão fazendo isso comigo?

Passei a mão pelo rosto, enxugando algumas lágrimas que haviam escorrido enquanto eu falava com eles. Essa brincadeira não tem graça.

Andei pelo Departamento, chorando sem parar, quando avistei o chefe ao longe.

Ele se aproximou de mim ao ver meu estado.

_ Posso ajudá-la?

_ Você me conhece? – perguntei, deixando um soluço escapar.

Stillman balançou a cabeça, negando.

_ Então você não pode me ajudar!

E me virei, deixando-o sozinho, sem entender nada.

Eu também não estou entendendo nada.

Sozinha, perdida, sem saber o que fazer, me sentei em um dos bancos e comecei a chorar sem parar.

Por que eles estão agindo assim comigo?

O que aconteceu naquela noite?

Eu fui atacada mesmo?

Por que todos estão agindo como... Como... Como se nunca tivessem me conhecido, ou me visto antes? Por que eles tão fazendo isso comigo?

Enterrei meu rosto em minhas mãos, e chorei mais ainda. Isso não está certo. Por que essas coisas estão acontecendo comigo? O que foi que eu fiz para merecer isso? Por que eles não se lembram de mim?

_ Você está bem? – ouço uma voz aconchegante próxima de mim, e sinto uma mão quente no meu ombro.

Levantei os olhos e fitei aquele rosto conhecido.

Scotty... Por favor, Scotty... Por favor, não esteja no meio disso… É a única coisa em que consigo pensar. Você não, por favor, você não...

Ele continuava me olhando, esperando uma resposta.

_ Você sabe quem eu sou? – sussurro para ele, tentando parar de chorar.

_ Sinto muito... Eu não...

_ Já entendi – eu o cortei, antes que ele dissesse o mesmo que todos os outros.

Scotty sentou-se do meu lado; desviei o olhar.

_ O que aconteceu? – ele perguntou calmamente – Por que você está assim?

Porque nós trabalhamos juntos há mais de seis anos, e nem você nem ninguém me reconhece! Eu não sei o que está acontecendo comigo! Fui atacada e acordei na casa da minha irmã – a qual eu não vejo há mais de quatro anos – e ela veio com uma história de festa e sei mais o quê! Pela primeira vez, sinto uma vontade imensa de que você me abrace e diga que tudo isso não passou de um mal entendido, de uma brincadeirinha do Nick. Quero que você me abrace e diga que está tudo bem, que eu não preciso ficar assim. Estou assustada, e não sei o que fazer! Mas pelo jeito vocês não podem me ajudar, pois vocês NEM SABEM QUEM EU SOU!

Era o que eu queria dizer para ele, mas não tive coragem.

Então, respirei fundo e fui em frente:

_ Não estou num dia bom... As coisas estão um pouco confusas para mim... – murmurei, encostando a cabeça na parede. Por favor, não me deixa sozinha. Não agora.

_ E o que te trouxe até aqui?

_ As circunstâncias...

_ Posso fazer alguma coisa por você?

Olhei para Scotty, sentindo um desespero inexplicável de me atirar nos seus braços, e pedir para que ele me levasse dali, ou me acordasse do pesadelo.

Mesmo sem “me conhecer”, ele estava me tratando de um jeito tão... Carinhoso... Como se me conhecesse há anos...

_ Não, você não pode fazer nada... – sussurrei, pegando minha bolsa e me levantando.

Para piorar minha situação, na hora em que eu me levantei, não reparei que minha bolsa estava aberta, e várias coisas que tinham dentro dela caíram no chão.

_ Eu mereço! – reclamei.

_ Deixa que eu te ajudo... – Scotty se ofereceu.

_ Não, não precisa – eu disse, ainda com os vermelhos de tanto chorar. Guardei tudo o que caíra e olhei para Scotty – Obrigada.

Ele me olhou em dúvida, mas sorriu.

Quando nos levantamos, ele estendeu a mão.

_ Sou Scotty Valens.

Olhei para ele, sentindo um aperto terrível no peito. Aquela sensação de nostalgia era mais forte do que eu.

_ Lilly Rush – respondi, apertando a mão dele.

Como num flash, recordei do dia em que nos conhecemos de verdade. Acho que nunca vou me esquecer... O Scotty fazia de tudo para parecer confiante, mas eu percebia o quanto ele estava nervoso.

Ah, aquele sorriso, aqueles olhos, aquele aperto de mão tão significativo para mim... São coisas que nunca esquecerei. Eu não fazia idéia de que naquele dia eu havia conhecido meu melhor amigo, meu confidente, o homem que me salvaria quatro anos depois quando eu tomasse um tiro...

_ Foi um prazer conhecê-la, Lilly.

Eu assenti, forçando um sorriso.

Sem dizer mais nada, me virei e sai o mais rápido que pude da Homicídios.

Conclui que estava sozinha nisso.

Ninguém poderia me ajudar. Seja lá o que tiver acontecido comigo, terei que descobrir sozinha... E rápido.

Notas finais
Desculpem a demora para postar!
Feliz Ano Novo para todos =)