Quando Mais Precisava
22 À Janela
Notas iniciais
– Como ela tá? – Dinho se apressou a perguntar.
– Dormindo. – Raquel informou. – E o melhor a se fazer agora é deixar ela como está, já foi bastante difícil acalmá-la.
– Nada que uma médica não resolva... – Lorenzo comentou irônico.
– Você sedou a Lia? – Adriano semi-acusou ao se dar conta do que eles queriam dizer.
– Foi o único jeito, Dinho, mas pode ficar tranquilo. De calmante eu entendo.
– Do oposto também. – Lorenzo brincou.
– Lorenzo! – Raquel o repreendeu divertida.
– De qualquer modo, isso nos dá mais tempo pra pensar no que você disse mais cedo, Dinho, acerca do Sal.
– O que tem aquele monstro? – Raquel cobrou, checando se Tatá ainda estava por perto.
– Ela saiu com a avó. – Dinho informou.
– A minha mãe passou por aqui?
– Ela não quis atrapalhar vocês com a Lia. Daqui a pouco elas estão de volta.
– Certo...
– Eu tô esperando. – Raquel lembrou.
– O Dinho acha que o viu.
– Não é uma certeza, foi tudo muito rápido... – O garoto tentou acalmá-la.
– Como você o viu? Meu deus, Lorenzo, vai começar tudo de novo! A Lia já sabe disso?
– A Lia acha que alucinou de novo. Bom, eu agora acho que estou alucinando junto...
– Dinho, isso é muito importante. A gente precisa ter certeza. Olha, eu vou alertar os policiais da região, vou avisar o Severino, vocês não saiam daqui.
– Lorenzo, pode ser perigoso! – Raquel alertou.
– Não me interessa, é a segurança da minha filha que está em jogo.
– Da nossa filha! Se acontecer alguma coisa com você, a situação só vai piorar!
– Não vai acontecer nada comigo, Raquel. – Assegurou-lhe.
Dinho percebeu que Lorenzo agora segurava as mãos da médica aflita e se afastou alguns passos. Seria uma boa ou má noticia para Lia, uma possível reconciliação entre seus pais? Felizmente ainda era cedo para descobrir. Lorenzo merecia estar com alguém novamente após a dolorosa perda de Marcela, porém Raquel agora namorava o diretor do Quadrante, ou não? Confuso, o garoto tentava não pensar na história que se repetia. Ter seus pais divorciados se reconciliando uma vez já havia sido bastante confuso. Com seus sogros, então... Ou ex-sogros? Futuros sogros? Se ao menos Lia estivesse acordada e tranquila para aclarar a situação...
– Olha, o Dinho pode ficar de olho. Você gosta de bungee jump, não gosta? – Chamou a atenção do garoto. — Qualquer coisa, você pula a janela. – Instruiu.
– Você tá maluco, Lorenzo? – Adriano riu. – Eu não posso simplesmente-
– Dinho...
– Entendi. Ao meu posto. – Atendeu ao pedido do médico.
Se não o fizesse, Raquel não deixaria que Lorenzo descesse. Entendeu tão rápido quanto se jamais tivesse deixado de ser próximo do médico. Não acompanhou mais a conversa na sala. Seguiu para o quarto de Lia, onde poderia manter um olho em sua bela adormecida e outro na janela. Uma guitarra solitária soava do Misturama. Conhecia a música, parecia haver pedido por ela.
Tento te encontrar
Tanto pra dizer
Meu amor, tudo bem
Viu-a se mexer. Silêncio novamente. Alucinara outra vez? Os dias sem dormir começavam a fazer efeito, não sabia mais o que era real. Estava tão confuso e perdido quanto ela. Era tão injusto... Ainda não havia superado como a reencontrara. Não só pelo sequestro. Algo mais a atormentava desde então, e sabia que tinha parte naquele sofrimento.
Sorte de nós dois
Quero te fazer feliz
Meu amor, sempre quis
E queria. Jurava que queria. No entanto... Ainda que fizesse de tudo para protegê-la de Sal, saberia protegê-la de si? Sempre a amara, sempre zelara por ela e, ainda assim, errara tão imperdoavelmente. Como podia tê-la ferido tanto? Como podia haver feito qualquer dano ao rosto angelical que dormia à sua frente? Nenhuma outra seria, em um milhão de anos, o que Lia era para ele, então por que a traíra? Jamais saberia responder. Podia apenas consertar o hoje, fazer de tudo para que não se repetisse no presente, para que nada mais lhe doesse, para que ninguém mais a ferisse. E o faria. Se Sal ousasse se aproximar novamente...
Não havia percebido que agarrara a madeira inferior da janela com tanta força até que a pequena mão o acalmasse.
– Ei. – Lia o chamou.
Recuperou aos poucos os sentidos, admirando a garota à sua frente. Segurava suas mãos no ar contra as suas, brincando com seus dedos. Abraçou-a em frente à janela.
– ...tudo bem. – Respondeu junto com a música. – Mesmo sem te ver não chegou ao fim. Seu amor, tudo em mim.
– Dinho eu...
– Shh... Deixa eu cantar a música. – Desconversou.
– Se você soubesse cantar... – Lia riu.
– Quieta, ô guitarrista.
– Idiota...
– Se não foooor...
– Dinho!
– Vem comigo. – Balançou as mãos de Lia como se estivesse em um show.
A garota gargalhou do deboche e girou por baixo de seu braço.
– Larararaaaa...
– Nossa... Que bom que quem tem uma banda aqui sou eu.
– Quieta, marrentinha, que eu sei que você tá adorando.
– Você que pensa!
– Penso e tenho razão.
– Ah, é?
– É.
– Canta agora! – Jogou-o contra a cama, pulando sobre o garoto.
Segurou a mão contra a boca de Dinho às gargalhadas. O garoto ergueu o tronco em sua direção, forçando-a a se sentar sobre seu colo. Ainda de frente para o ex, posicionou um joelho de cada lado de suas pernas para manter-se com equilíbrio. Suas bocas, separadas por centímetros, não se mantiveram afastadas por muito tempo. Dinho aproveitou as compridas frestas laterais da blusa de Lia para enlaçar sua cintura. Como amava a sensação elétrica de tê-la em seus braços, de senti-la em seus dedos... O encontro de suas línguas lhes provocou arrepios. A roqueira levou os dedos aos cachos de Dinho, que já tão bem conhecia, porém jamais se cansando de explorá-los. E novamente estava tudo bem. Enquanto Lia estivesse nos braços do garoto que amava, estaria segura.
–x-
– Lorenzo! Ainda bem, eu tava ficando tão preocupada! – Raquel correu para abraçar o ex-marido, aliviada.
O médico se desvencilhou sem jeito, apontando para trás com a cabeça. Mathias estava parado à porta com um buquê em mãos.
– Vejo que cheguei em má hora.
– Não, diretor, você vem em ótima hora! – Lorenzo afirmou – Nós estamos muito estressados com os últimos acontecimentos, é sempre bom ter ajuda. O Mathias me ajudou a espalhar a nossa desconfiança pelo bairro e alertou o pessoal da segurança do colégio também. – Assegurou à ex.
– Muito obrigada, Mathias, eu nem sei como agradecer! – Raquel o abraçou, embora ainda constrangida.
– Eu vou deixar vocês a sós. – O médico anunciou. – A Lia já acordou?
– Eu ouvi risadas.
– Risadas? – O médico estranhou.
– O Dinho tá com ela.
– Ah. – Confirmou que entendera. — Aqueles dois juntos são incompreensíveis.
– A Lia e o Dinho voltaram? – Mathias perguntou.
– Não, não, eles estão amigos agora, eu acho. – A mãe desconversou, lembrando do que havia combinado com Lia. – Eu vou chamá-los.
– Deixa que eu vou, Raquel, afinal, o Mathias...
Antes que pudesse terminar, no entanto, a médica sumira por trás da porta agora novamente fechada do quarto de Lia.
Fez barulho com a garganta para o ardente casal. Fosse um pouco menos fria, aparentaria todos os tons possíveis de vermelho diante da cena que encontrara.
– Podia ter sido pior. – Respondeu aos olhares constrangidos de Lia e de Dinho. – Ao menos vocês ainda estão vestidos. Bom, parcialmente. Vocês não param nunca, não? Isso é hora pra esse tipo de coisa?
– Raquel! – Lia a repreendeu.
– Se você me chamar de mãe, eu baixo o tom.
– Tá bem, mãe, você pode, por favor, ao menos fingir que não viu nada demais?
– E eu não vi. Vocês são adolescentes, têm uma história, é normal. Eu só to surpresa que vocês consigam esse clima todo numa situação dessas.
– Que situação? Você não achava estranho ontem... O que mudou, Raquel? Digo, mãe.
– Nada...
Raquel observou a negação do genro. Por mais a favor da verdade que fosse, ainda precisavam ganhar tempo para contar à garota. Não podiam prever sua reação, e não valeria a pena que Lia voltasse ao estado de pânico anterior.
– Vamos, o Mathias veio fazer uma visita.
– O Mathias? – Dinho conteve o riso.
Aparentemente não era só sua vida amorosa que era complicada, às vezes até irônica.
–x-
– A gente tem sentido a sua falta. – Mathias comentou com a garota. – Aliás, dos dois. Quando você vai voltar a estudar, Adriano?
– Eu tô estudando. Digo, eu acabo estudando com a matéria que a Ju tem passado pra Lia, é alguma coisa.
– Eu tô falando sério, Adriano. Você ainda é um moleque de 18 anos, você tem que estudar! Você precisa de um diploma...
– Eu terminei o segundo ano à distância, diretor, e o terceiro eu to fazendo também...
– Isso não pode ser saudável, menino. Por que você não aproveita essa matéria e se matricula no Quadrante de novo? Eu sou o diretor, eu posso abrir essa exceção. Ou você já tem planos de voltar pros Estados Unidos?
Lia de repente voltou a prestar atenção à conversa. Era a hora da verdade, a hora de voltar à realidade do aventureiro. Era impossível que Dinho ficasse para sempre.
– Eu pretendo voltar.
– Voltar? Voltar a estudar, ou voltar para a casa dos seus pais?
– Voltar pros Estados Unidos.
A roqueira não ouviu mais nada. Sentiu seu mundo desabar novamente. Ele havia prometido. Dinho havia prometido!
– Mentiroso de merda! – Murmurou ao se levantar.
Apressou-se para o quarto. Rápido o bastante para que não vissem as primeiras lágrimas a traírem, suas passadas controladas o suficiente para que não demonstrasse seu desespero. Ele ia deixá-la. Ia deixá-la como da outra vez. Como pôde ser tão burra? Havia se entregado de corpo e alma para ele novamente, contra seu melhor juízo, para ser enganada novamente. Era uma idiota.
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