Quando Mais Precisava
17 Proteção
Notas iniciais
– Gil? — A voz embargada chamou do banco de trás do carro. — Que foi, Gil? Você tá estranho. — Resmungou afetadamente.
O guitarrista tentou ignorar a voz alcoolizada de Lia, convencer-se de que havia sido apenas uma burrada de bêbada, que não era tão louca. Ainda assim, dava-lhe nojo saber que sua melhor amiga havia se rendido tão facilmente ao ex-namorado que a fizera sofrer tanto. Mais raiva tinha de Dinho.
– E você, hein? Mais baixo do que eu pensava! Como você pôde se aproveitar da Lia daquele jeito? É quase como estupro, sabia? — Gil acusou irritado.
– Gil! Quem você acha que o Dinho é? — Juliana cobrou chocada.
– O cara que traiu a namorada quando ela estava no seu pior momento e ainda a enrolou por semanas até fugir com a amante!
– Cala a boca, imbecil! Não sabe de nada, fica quieto, seu merda! — Dinho se defendeu, apesar de tanto se culpar pelo que havia feito.
– Aí, vocês podem brigar depois que eu parar o carro? Eu tô dirigindo aqui! — Bruno repreendeu, acalmando os ânimos.
Ainda consumidos por raiva, Dinho e Gil acataram o pedido do mais velho. Sabiam, no entanto, que não deixariam quieto. Lia, que observava tudo como se fosse uma alucinação, defendeu-se.
– Ele não fez nada que eu não quisesse. Eu respondo pelos meus atos, Gil, e sei muito bem o que aconteceu.
Pôde perceber a decepção estampada sobre o rosto do grafiteiro, e lhe doía que seu melhor amigo estivesse tão enojado, mas não podia deixar que a culpa de tudo recaísse sobre Adriano, por mais que quisesse que tivesse sido culpa do ex. Olhou pelo vidro a noite levemente chuvosa que os engolia interrompida por flashes de luz vindos dos postes. Por que não conseguia resistir? Não podia culpar o álcool, não estava tão bêbada. Havia se rendido ao que tanto queria sem desculpas, sem consequências. E se não pudesse simplesmente ignorar o acontecido e seguir adiante? O que Dinho lhe cobraria? Uma reconciliação definitiva? Um relacionamento? Pelo menos não estava mais com Vitor... Ou estava? Até sua última briga com o motoqueiro havia sido confusa. Seus sentimentos e suas ideias estavam de pernas para o ar desde o traumatizante acontecido, e conviver diariamente com o ex-namorado que ainda amava por mais que tentasse esconder em nada lhe ajudava.
–x-
– Pronto, esse é o último objeto fora do lugar. — A funkeira anunciou satisfeita.
– Valeu, Fatinha. — O nerd agradeceu ainda mexido.
– Você não fez por mal. — Tentou acalmá-lo.
– Claro que fiz, Fatinha, eu sempre estrago tudo...
– Você tá muito abalado pelo que aconteceu, e deu nisso. Eu também estou, todos estamos. E o Gil... O Gil era filho dela, né... Sei lá, parece que dói um pouco mais quando ele tá por perto, é como uma parte dela nos provocando, aqueles olhos tristes dele nos esfregando na cara que a gente ainda não chorou o suficiente. Daí ele vem e te provoca e eu sei o quanto ele te provocou sem saber, só por ser ele. Você não teve culpa, Orelha.
O nerd tentou prender as lágrimas, o nó em sua garganta o sufocando conforme tentava. Seus ombros tremeram ao receberem o toque da loira, que o abraçou forte. Algumas lágrimas escorreram de seu próprio rosto. Sentia tanta falta de Marcela que não cabia em si. Perdera uma mãe, a única que ainda não a havia deixado, que não lhe havia falhado. Marcela era seu porto seguro, assim como Dinho. Como saberia lidar com o dia-a-dia, com cada problema, com cada carência, com cada briga com Bruno sem sua professora-mãe? Era quase irônico como a partida de Marcela viera acompanhada pela chegada de Adriano. Pelo menos não estaria tão sozinha... Se pelo menos tivesse uma figura materna com a qual contar... Como choraria pela morte de Marcela sem a própria para lhe dar o ombro?
– Nessas horas o Dinho faz tanta falta... — Orelha comentou como se tivesse adivinhado os pensamentos de Fatinha.
– Ele tem que ajudar a Lia, seria egoísta de nossa parte cobrar a presença dele. — A funkeira explicou não muito convicta. Suas lágrimas a traíam.
– Lia, Lia... Desde que esse namoro começou e terminou só tem afastado o Dinho de mim.
– Você tá com ciúme da Lia agora? — Fatinha riu trêmula.
– E você não? O mundo dele gira em torno dela. Ele simplesmente nos largou aqui quando eles terminaram!
Fatinha não sabia como responder. No fundo, pensava o mesmo que Orelha, mas era egoísta, mesquinho. Tampouco teria tanto tempo para Dinho namorando Bruno, tinha que entender.
– É só uma fase, Orelha. A Lia tá numa pior, foi barra o que ela passou, e ela precisa do Dinho mais que a gente.
– Quando foi que você amadureceu? — O nerd zombou secando as lágrimas.
– Eu sou um ano mais velha, esqueceu? — Fatinha lhe respondeu com um sorriso cúmplice e observou o apartamento a seu redor, pensativa. — Lia e Dinho... Sempre dando um show. Você realmente consegue ser contra esses dois?
– Impossível! — O nerd riu. — A verdade é que eu implico com isso, e a Lia é uma marrenta esquisita, mas eu adoro a minha musa do rock. É um guilty pleasure. — Confessou sorrindo.
– Álvaro Gabriel, depois de tanto julgar a Ju, desejando a namorada do melhor amigo?! — Fatinha fingiu choque.
– Não nesse sentido! — Orelha riu. — Quer dizer, acho que o Dinho sempre soube, e a verdade é que ele até acha graça. A gente chegou a se dar bem, nós três. Jogava video-game, futebol, ia à praia junto... A Lia é maneira. E eles não eram sempre grudados, tinha dias em que ela passava as tardes com a Ju e o Dinho comigo, com a gente... Sei lá, é que... Acho que eu só tô bolado, mesmo, que ele foi embora e depois quando voltou nem quis saber da gente.
– Não é que ele não queira saber da gente, é que ele não tem como deixar a Lia sozinha, ela tá mal.
– É, eu sei...
– A gente pode passar lá amanha, que tal? Pelo que eu vi hoje, a marrentinha vai estar bem distraída com uma ressaca monstra! — Fatinha gargalhou. — Ah, como eu amo esses dois!
– Ama porque não foi a sua cama que eles usaram!
– Opa! Agora eu quero saber os detalhes sórdidos! Conta aí, Orelha, o que você sabe?
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– Você não pode estacionar mais perto, não? — Lia pediu nervosa.
– A rua tá vazia, Lia, relaxa. — Ju assegurou. — E você tem o disfarce, ainda. Mesmo que tivesse alguém, não te reconheceria.
– Você tem certeza? — Perguntou com a voz trêmula.
– Vem, Lia. — Dinho a abraçou antes de tirá-la do carro escondida entre seus braços.
Gil rapidamente se uniu à dupla, embora ainda incômodo, e Ju e Bruno fecharam o cerco. Um barulho de lata, um vulto irreconhecível. Ju percebeu o pânico da amiga no centro do grupo e acelerou o passo com os outros três. Bruno observava o vulto de longe, preocupado. Não parecia ser conhecido, apenas mais um pedestre voltando para casa. Convencê-la, no entanto, seria impossível. A roqueira apertou o botão do elevador com urgência, seu braço tremendo. Dinho desenhou círculos em suas costas tentando acalmá-la, sem resultado. Observou-a bater algumas vezes contra a porta do ascensor. E se tivesse razão? Bateu junto, como se assim pudesse puxar o elevador para o térreo. Recebeu o olhar repreensor do zelador, mas ignorou. Lia precisava estar em seu quarto o quanto antes.
Despediram-se de Ju e de Bruno na porta. Gil havia recebido as instruções de ficar no apartamento, que Lorenzo não voltaria ao casarão até o dia seguinte. O sofá estava arrumado e um dos dois dormiria no antigo quarto de dona Paulina. Como um castigo calado a Dinho pelo acontecido, Gil correu para o quarto sem mais palavras. Estava cansado demais para brigar. Restaram na sala uma Lia ainda nervosa e Adriano, que já se dirigia ao banheiro para trocar de roupa quando ouviu a voz frágil da ex.
– Fica comigo, por favor.
– Que? — Aproximou-se novamente de Lia.
– Eu... O Sal, ele... Era ele, eu sei que era. Por favor.
– Não era o Sal, Lia, era só um vizinho.
– O vizinho pode contar pra ele, eu sei que vai. — Respondeu nervosa. — Eu não posso dormir sozinha. Fica comigo, por favor.
Segurou com as mãos trêmulas a gola da camisa de Dinho, implorando-lhe quase em lágrimas.
– Ele vai me pegar.
– Ele não... — Abraçou-a, sem palavras, e a envolveu em seus braços até senti-la mais calma. — Vem.
Levou-a pela mão até o banheiro, onde a ajudou a tirar a maquiagem.
– Eu obviamente não entendo disso. — Dinho riu com o algodão entre os dedos.
– Nem eu! — Lia correspondeu ao humor.
– Vem cá, se você começar a rir eu vou borrar tudo, daí sim vai ficar legal.
– Dinho, você não aprendeu nada com a Ju?
– E você? Eu fiquei com ela por muito menos tempo que vocês são amigas!
– Ok, vamos pular esse assunto, que não acaba bem. Me dá isso aqui.
Lia esfregou os locais ainda pintados por uma última vez, exausta. Mais um motivo para odiar maquiagem.
– Pronta?
– Pronta.
– Agora a parte que eu gosto. — Sorriu ao fixar o olhar na roupa de Lia.
– Você não presta!
– Ok, eu tiro primeiro se você prefere assim.
Dinho simulou um curto strip tease gargalhando, ao que Lia rapidamente reagiu com mais risadas. Antes que pudesse imitá-lo, no entanto, Adriano já havia aproveitado sua distração para tirar parte da roupa da roqueira e cobri-la com a camiseta de caveiras da qual a garota gostava tanto.
– Tá vendo? Eu não faço tudo querendo me aproveitar de você.
– Acho bom. — Lia debochou. — Vem.
Bagunçou os cachos de Dinho e o puxou para o quarto. Como da outra vez, Adriano a abraçou por trás de maneira protetora e ao mesmo tempo carente. Se pudesse dormir daquele jeito com Lia todas as noites seria o adolescente mais feliz do mundo.
– Mais tranquila? — Sussurrou-lhe com a voz cansada.
Lia segurou a mão de Adriano em resposta, apertando-a levemente. "Sim". Um antigo código que não se perdera com os meses de distância. Por um momento, era como se nada tivesse mudado, como se tudo e nada os assombrasse ao mesmo tempo. Beijou seu ombro, ao que Lia respondeu virando o corpo para encará-lo. O olhar frágil o encarou confuso. Dinho aproximou o rosto talvez mais do que podia, ainda que não mais lhe importasse. Beijou-a calmamente, sem receios. Era apenas um "boa noite", repetia para si. Para sua surpresa, a garota correspondeu, envolvendo os braços por volta de seu pescoço e intensificando o beijo. Deitados como estavam, totalmente envolvidos sob as cobertas, demoraram a recuperar o controle e se afastarem. Se o sono não os tivesse vencido, talvez não se separassem a tempo de respeitar a presença de Tatá na cama ao lado. Exaustos, dormiram como estavam, abraçados um ao outro como se qualquer distância os pudesse separar para sempre.
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