Quando Mais Precisava
13 Após a Tempestade
Notas iniciais
Adriano voltou para casa após uma tarde com os melhores amigos. Lia olhava pela janela, escondida atrás da cortina. Abraçou-a por trás. A roqueira sentiu um arrepio ao sentir alguém envolver seu corpo desavisadamente.
– Tranquila, marrentinha, sou eu. — Dinho sussurrou.
– Você quer apanhar de novo? — Lia protestou se afastando da janela com Dinho a tiracolo.
– Sim. — Adriano brincou. — Vem, o jantar está servido.
O aventureiro a levou pela mão até a sala, onde a família a esperava.
– Amanhã é a sua primeira consulta com o Dr Hernandez, filha. Ele vai vir pela manhã. — Lorenzo anunciou.
– Não, não! Eu não vou receber ninguém! — Lia titubeou sob o olhar confuso de Dinho.
– Lia, você precisa de acompanhamento psicológico. O Dr Hernandez vem, sim, e você vai deixar a teimosia de lado.
– Não vou! Nenhum homem estranho entra nessa casa! — Protestou a roqueira.
– Lia, ele não é um estranho, é um amigo meu da faculdade. — Lorenzo garantiu.
– Quem garante? Hein? Ele pode estar usando um nome falso!
– Lia... — Dinho enfim entendeu a preocupação da loira. — Ele não é nenhum capanga do Sal. — Percebeu a ex tremer à menção do nome. — O Lorenzo falou com ele pessoalmente e pode garantir que é o amigo da faculdade.
– Vocês estão cegos! Cegos e ingênuos! Quando menos esperarem, aquele maluco vai vir disfarçado de psicólogo, vai me levar de volta e a culpa vai ser da minha própria família! — Lia se levantou da mesa subitamente.
– Lia! Lia, espera! — Adriano correu atrás da roqueira, que voltava para seu quarto.
Os pais da garota se entreolharam preocupados. Seria uma longa jornada.
– Calma, Lia, vai dar tudo certo. — Dinho assegurou. Sentou-se na cama com a ex, acariciando suas costas. — Eu vou ficar aqui com você, tá bom? A gente deixa uma foto com o Severino pra garantir.
– Mesmo assim, você fica comigo durante a consulta? — Lia perguntou segurando tremulamente a mão de Dinho.
– Do começo ao fim. — Adriano respondeu levando uma mecha à orelha da loira com cuidado e beijando seu rosto. — O que você acha de dormir agora, hein? Pra ficar mais tranquila.
Lia se acomodou onde estava, deitando a cabeça contra o travesseiro.
– Você fica comigo essa noite?
– Todas que você precisar. Até troco a sua roupa, se for necessário. — Dinho sorriu.
– Você não presta! — A garota riu, empurrando o ex.
– Eu sei. — Adriano respondeu com a voz triste. — Vem, vamos botar um pijama!
Dinho puxou a ex da cama, arrastando-a até o armário.
– Sai, Dinho! Eu não vou trocar de roupa com você aqui!
– Qual o problema? Até parece que eu nunca vi!
Lia riu ao se lembrar do garoto dizendo a mesma coisa durante os ensaios para a peça do colégio. Aos poucos, Dinho se aproximou da roqueira e levantou sua blusa com cuidado.
– O seu pijama é esse, não é? — Apontou para uma blusa de caveiras no topo da pilha de roupas de dormir.
Lia confirmou com um aceno de cabeça, com o rosto levemente rosado. Tirou seus shorts antes que Dinho os alcançasse e levantou os braços para ajudar o garoto a vesti-la. Beijou-o no rosto, agradecida. Com a proximidade, percebeu o estado da face de Adriano.
– Ei, me perdoa?
– Por?
– Pela briga de hoje de manhã.
– Que nada, você sabe que eu adoro apanhar de você. — Dinho respondeu piscando o olho sugestivamente.
– É sério. Eu... Eu nunca agradeci por você ter me salvado. — Percebeu.
– Você me perdoa pelo que eu fiz?
Percebendo a que Adriano se referia, Lia ficou séria.
– A manhã foi esclarecedora. — A roqueira respondeu. — Por alguma razão, durante o meu desabafo, e quando eu finalmente estava podendo descontar toda a raiva em você, eu pude perceber de fato, pela primeira vez, o que aconteceu. Não foi inteiramente sua culpa, eu entendo o porquê de você ter feito o que fez, tanto ter ficado com a Valentina, quanto ter mentido pra mim. Se eu perdôo? Sim, eu te perdôo, Dinho.
Adriano sorriu hesitante. O tom de Lia dava a entender que viria um porém.
– Eu te perdôo, mas não esqueci. Eu ainda não confio em você, pelo menos não nesse sentido. Eu confio e preciso de você como meu protetor, não como namorado. Eu sinceramente não sei se algum dia vou poder me entregar de novo a uma relação com você.
Dinho olhou para o chão, tentando esconder a decepção em seu rosto. Lutou contra algumas lágrimas, flexionando o rosto com força. Sentindo-se um pouco mais calmo, conduziu a ex até sua cama, parando antes de deitá-la. Enlaçou sua cintura delicadamente, beijando-a perto da boca. Lia empurrou um pouco o rosto contra os lábios de Adriano, sentindo sua respiração contra o contorno de sua boca. Beijou-o como estava, também quase nos lábios. Encostaram suas testas tão logo afastaram os rostos e se olharam por alguns segundos, de mãos entrelaçadas.
– Obrigada. Por tudo. — Lia agradeceu.
– Obrigado por me deixar continuar ao seu lado apesar de tudo. — Dinho sussurrou. — Eu te amo.
– Também te amo. — A roqueira respondeu beijando novamente o rosto de Adriano e deitando-se, enfim.
Dinho sentou no chão ao lado da cama, observando-a cair no sono. Quando Tatá chegou ao quarto, Adriano estava desconfortavelmente debruçado contra a lateral da cama de sua irmã mais velha.
– Ei. — Lorenzo chamou o ex-genro com a voz baixa.
Dinho se revirou onde estava, levando a mão às costas.
– Você pode dormir no sofá, se quiser, eu garanto que é mais confortável.
Sem jeito, Adriano acompanhou o ex-sogro. Na sala, Lorenzo hesitou antes de voltar para o quarto.
– Você tá me surpreendendo, moleque. — O pai de Lia confidenciou.
Comovido, Dinho apenas fez uma reverência com a cabeça. Lorenzo fez o mesmo e saiu da sala com a mão coçando a cabeça. Estava impressionado com a dedicação de Adriano.
– Dinho?
Uma voz trêmula despertou o adolescente durante a madrugada.
– Outro pesadelo? — Adriano perguntou.
A roqueira confirmou silenciosamente.
– É o psicólogo, não é? — Dinho perguntou cuidadosamente, ao que Lia acenou com a cabeça.
– Você... — Procurou as palavras. — Você dorme comigo?
Dinho sorriu de leve, apesar do cansaço, levantando-se do sofá e segurando a mão de Lia. Aproximou-se da roqueira inevitavelmente ao se erguer de onde estava, levando seus rostos a estarem separados por apenas alguns centímetros ou menos.
– É só... Só dormir, tá bom?
– Eu entendi. — Respondeu tranquilizando a garota com a voz doce.
Suas bocas quase se encostavam. A tempo, Lia se afastou e puxou o garoto para seu quarto. Deitou-se, abrindo espaço para Dinho se deitar ao seu lado. Acomodou-se nos braços de Adriano, que enlaçou seu corpo inocentemente. Assim voltaram a dormir, tranquilos nos braços um do outro, com apenas o luar de cúmplice.
–x-
Ao acordar, Tatá teve uma feliz surpresa. A sua frente estavam a irmã e o ex-namorado abraçados sob as cobertas, com um ar tranquilo nos rostos. Os cachos de Dinho encontravam a maçã do rosto de Lia, que deitava a cabeça contra o braço do garoto. Travessa, Constância tirou uma foto e sorriu. Precisava ter uma prova de que não estava sonhando. Retirou-se para a sala de estar, onde ligou a TV para assistir a desenhos. Deixaria o ex-casal à vontade.
–x-
No intervalo das aulas, na manhã seguinte, o terceiro ano do colégio Quadrante discutia a situação de Lia.
– Aí, galera, a gente tem que animar a Lia de algum jeito. Sabem o que eu acho? Que a volta do meu melhor amigo merece uma festa de comemoração! Assim a gente dá uma melhorada no espírito e, de quebra, tira a Lia daquele apartamento por uma noite.
– Ela tem muito medo de sair de lá, Orelha, talvez não seja a melhor ideia. — Ju lembrou.
– Mais um motivo pra gente armar uma festinha! A Lia tem que esquecer o que aconteceu por uma noite, pelo menos, ou ela vai ficar mais pirada do que já é! — O nerd apontou.
– Aí, eu concordo com o Orelha! É nosso dever, como amigos, ajudar a marrentinha a sair dessa.
– Não sei não, gente. A Lia tá mal, mesmo, não é uma brincadeira. A gente tem que respeitar o desconforto dela.
– Trancada naquela casa sozinha que ela não vai melhorar! — Pilha argumentou. — Aí, na moral, nada melhor que uma comemoração com os amigos regada a muito funk!
– Os meninos têm razão, Ju. A minha mãe sempre fala que a música é o melhor remédio. — Morgana acrescentou.
– A Lia ficou bem mais tranquila naquela noite, lembra, Ju? E mais: eu também tô precisando espairecer. — Gil concordou.
– Então partiu! Resta saber onde e combinar com a Lia e com o Dinho! — Pilha comemorou.
– Aí, os meus pais estão viajando, pode ser na minha casa! — Anunciou Orelha.
Vitor observou de longe os amigos acertarem os detalhes do evento. Não sabia se iria, não depois da última discussão com Lia. Nem tinha estômago para encará-la com Dinho depois do que Ju lhe havia dito. Fatinha percebeu o afastamento do motoqueiro.
– Ei, vem com a gente.
– Não tô nem um pouco afim, Fatinha.
– Por causa da Lia? Vocês brigaram? Ou é porque o Dinho vai estar lá?
– Os dois.
– Sabe o que eu acho? Que você tem que se jogar, que nem eles. Todos aqui perderam uma pessoa muito querida e tiveram que encarar a tensão de ter uma amiga sequestrada. É uma reunião, acima de tudo, pra melhorar o astral da galera. Principalmente da Lia e do Gil, mas eu acho que pra você também, afinal, foi o seu irmão, né? Deve ser mó barra. Vem, o melhor que você tem a fazer é encher a cara e se esquecer de Sal, de Lia, de Dinho... Eu garanto. Nós somos seus amigos também, lembra?
– Tem certeza? Ontem tudo que eu ouvi foi vocês insistirem em como a Lia era muito mais feliz com o Dinho e em como eu tô por fora.
– Não é isso. A gente te adora, Vitor! É que a Lia e o Dinho são um casal que a gente acompanhou por anos, sabe? É natural que a gente se apegue mais a eles. Olha, vem com a gente, e talvez você até, sei lá, encontre alguém, dê uns beijinhos... Vai toda a galera.
O motoqueiro tentou decifrar a funkeira. Fatinha parecia sincera. Era bom saber que não havia sido tão facilmente deixado de lado. Talvez fosse melhor ir à festa, mesmo. Não por Lia, nem para esquecê-la, mas para aceitar o abraço coletivo simbólico de seus novos amigos.
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