Notas iniciais
Chappie animador

Duas Semanas Depois

-Bom Johnnie... –Disse o doutor lendo o prontuário. –Eu acho que podemos te dar alta. Mas vai ficar em repouso por mais duas semanas. Depois, acho que pode começar a fazer atividades, voltar a estudar...

-Brigado doutor. –Falou o moreno sorrindo.

-Peço para não levantar muito o braço, não forçar a respiração...

-Sim...

-Bom, irei trazer os papéis, já volto. –O doutor saiu do quarto.

Johnnie deitou na cama e suspirou. Já não agüentava mais aquele lugar, as suas paredes brancas já estavam o deixando depressivo. Sem contar abstinência do álcool, seu sangue gritava por um bom whisky.

Escutou a porta se abrindo. Avistou uma pequena menina com camiseta do Ramones, All Star surrado e jeans velho. Seus cabelos eram um pouco longos, negros e lisos escorridos. Sua pele era de um bronze inconfundível.

Judy era uma menina de linda pele morena, doze anos e uma das irmãs mais novas de Johnnie e conseqüentemente a que melhor se relacionava com ele. Ela via no moreno um protetor, um herói, um Joey Ramone.

-O que tá fazendo aqui nessa hora da tarde? –Perguntou o moreno se levantando. –Judy, deveria tá na escola.

-Mas eu queria te ver! –Disse a menina com a voz grossa. –O papai não me trouxe até hoje, daí eu decidi vir!

-Judy...

-Tava com saudade sabia? –A menina o abraçou e começou a chorar na altura da barriga do outro. –O papai tá agindo estranho! Ele tá fazendo comida, não leva mais amigas pra lá...

-É?

-É! Johnnie, ele disse que nós nunca mais iríamos te ver!

-Que bobagem. –Falou o moreno acariciando os cabelos negros. -Tu sabe que ele nunca vai nos separar minha Yoko.

Os dois se abraçaram por um longo tempo. Judy não conseguia conter as lágrimas. Nem Johnnie, mesmo sentindo uma forte dor por ter que forçar um pouco o pulmão atingido.

Estava morto de saudades daquelas crianças. Morreria se não pudesse fazer algo por elas. Mesmo só contendo metade do seu sangue.

Kazu abriu a porta de leve e quando foi entrar, percebeu e cena. Sorriu de lado e deixou os dois conversarem por um longo tempo. Não gostaria de atrapalhar, não agora. Pegou os papéis com o médico e esperou do lado de fora do quarto.

Quando ambos haviam ficado quietos, entrou no cômodo e entregou os papéis para o moreno. Cumprimentou a pequena garota e começou a arrumar os pertences de Johnnie que havia levado para lá.

-Mano, ele não deveria estar na escola também? –Perguntou Judy analisando o japa. –Olha o tamanho dele em relação a ti.

-EU NÃO SOU CRIANÇA! –Kazu esperneou cruzando os braços. –Eu tenho um tamanho econômico, garotinha, não sou uma versão de primeira classe como o seu irmão.

-Nunca vi um menino tão baixinho. –Ela falou.

Johnnie estava sentado na cama rindo. Quase chorava com a discussão acirrada que ambos tinham. Pobre Kazu, seu tamanho de bolso sempre era problema.

-Tá pronto pra se trocar? –Perguntou o pequeno entregando as roupas à Johnnie.

-Desde que entrei aqui. –Falou o moreno pegando as roupas. –Barbaridade, nem imagino a hora de pegar sol.

Não demorou muito para se despedir das enfermeiras, sair do hospital e pegar um táxi até a sua casa. Demorou um pouco mais, pois ele fez questão de deixar Judy na escola e avisar ao diretor o motivo da menina ter se atrasado.

Quando chegou em casa, caiu no chão e ficou um certo tempo deitado no assoalho. Lembrava das palavras do pai, das suas também... Kazu sentou ao seu lado e sorriu bobo.

Ajeitou alguns fios do moreno e beijou a sua testa. Deitou com a cabeça no peito dele e sentiu o carinho do maior.

-A mamãe te mandou uma carta papai. –Falou o japinha entregando o envelope.

Johnnie ficou sentado e deixou o pequeno com a cabeça em seu colo. Com um pouco de rapidez, abriu o envelope e sorriu ao ver uma foto de Felipe, pequena, mas muito bonita quando ele era pequeno.

‘Johnnie,

Eu deveria parar de me iludir quando olho pra janela. Quando percebo, te imagino aqui, embaixo dos pés de laranja do quintal, sorrindo e se divertindo com a minha família.

Gostaria de ter mais tempo pra ti, gostaria de te ver, mas meu pai me proibiu até de sair à noite. Sei que deveria fugir para vê-lo, mas não tenho como. Sei que se sair de casa hoje não terei um lugar para voltar amanhã.

Não gostaria de viver as suas custas, sem contar que o dinheiro que guardo não é suficiente para morar sozinho.

Portanto estou preso.

Prometo vê-lo o mais rápido o possível, te abraçar e sentir a sua proteção.

Pareço tão bobo escrevendo isso... Mas é a conseqüência de pensar em ti.

Falar de ti deveria ser considerado apologia, pois tu é a droga que me deixa viver.

Perdão por tudo o que fiz.

Felipe.’

Johnnie botou o papel dentro do envelope e o segurou com força, o amassando. Acariciou o rosto do japinha e sorriu.

-O pai dele tirou até o notebook. –Falou Kazu. –A mãe dele só vai voltar no mês que vem... Sendo assim, ele vai ficar lá até ela voltar e dar a sentença final.

-Brigado por trazer isso Kazu. –Agradeceu Johnnie. –Deve estar morrendo de saudade dele.

-Hai... Mas não tanto quanto você.

O moreno se levantou, foi até o calendário da cozinha onde se eram marcados os compromissos importantes da família. Pegou uma caneta e circulou a data que marcaria dois meses sem Felipe.

‘Jantar com Fritz’, escreveu abaixo do dia. Se olhou no espelho e percebeu o quanto estava debilitado e magrinho. Prometeu para si mesmo que iria melhorar e ficar perfeito até para um briga.

Se o alemão quissesse resolver tudo no braço, estaria pronto.

-Kazu... –Chamou o moreno.

-Sim...

-Tenho uma entrega pra mamãe. E um convite. Vai ir até lá na semana que vem?

-Sim.

-Ótimo.

Charqueadas

Felipe estava lavando os pratos do almoço. Pensava no que havia escrito para o maior e se foi certo fazer isso. Estava tão confuso com tudo.

-Felipe! –Gritou o pai. –Visita.

Ambos não se falavam muito, apenas o necessário.

Mas quem estaria ali para vê-lo? Não tinha nenhum amigo do peito na cidade que possuísse uma intimidade suficiente para ir a sua casa sem um aviso prévio. Abriu a porta e se deparou com o último menino que gostaria de ver.

-Rodrigo? –Perguntou reconhecendo o tom ruivo das mechas. –O que tá fazendo aqui?

-Seu pai me convidou pro almoço, eu me mudei pra cá de novo. –Falou Rodrigo com um sorriso. –Posso entrar?

-Já almocei. –Disse o loiro. –E não tenho mais nada pra falar contigo.

-Mas... Eu achei que poderíamos conversar sabe... Nunca deixei as coisas claras entre o que aconteceu com nós e...

-Rodrigo, vai embora! Não vai adicionar nada tu se explicar! Eu não era tão criança assim pra não entender o que houve!

-Mas tu tá sozinho... Precisa de alguém... –O ruivo botou a mão no rosto de Felipe.

O loiro estava se preparando para derreter, mas não sentiu nada naquele toque. Nada além de raiva e desmerecimento. Sentiu mais saudade ainda do seu moreno, mas raiva do pai e não pensou duas vezes ao socar o rosto do ruivo.

-SEU FILHO DA PUTA! –Gritou Rodrigo com dor.

-Minha mãe é uma mulher muito honrada. –Falou o loiro. –Saí da minha frente e da minha vida antes que eu faça o golpe que o Kazu me ensino.

Ele fechou a porta com tudo não se importando com o barulho. Voltou para a cozinha e viu que o pai o encarava na pia.

-Ele é um bom rapaz. –Falou o alemão. –Porque não ele?

-A esposa que o vovô te arrumou também era uma boa mulher, porque a mamãe ao invés dela? –Perguntou Felipe indo para o quarto.

Ele sentou no chão e ficou abraçado aos joelhos.

Não queria falar com o pai daquela forma, mas não iria admitir isso!

-Johnnie... Melhora logo... Por favor.

Notas finais
É, contagem regressiva!
Mas três e acabou...