Quando As Folhas Caíam
4 Quatro
-Perdoem a minha demora – disse ele, após entrar no belo salão dourado.
Hanna se levanta e curva-se levemente para ele.
-Estamos honradas por nos receber em seu castelo.
Eu me levanto devagar, e tomo coragem. Olho para ele. Seus cabelos azuis estão bem arrumados e ele vestia uma roupa elegante.
Ele vem até mim. Entro em pânico. Gustavio se ajoelha e beija delicadamente a minha mão, e em seguida, olha para mim.
-É um prazer conhecê-la.
Não entre em pânico. Não consigo falar com ele. O que eu poderia dizer?
–Podemos dar uma volta no jardim?
NÃO É ISSO, SUA BABACA!
Ele apenas sorri e responde:
-Claro, minha princesa.
~
Ele me levou até um belo jardim, com lindas flores coloridas por toda parte. Avistei lírios. Os mesmos lírios do meu sonho. Eu adoro lírios. Corri até elas e observei as belas flores.
-São minhas favoritas – eu digo.
Gustavio estava atrás de mim. Ele observava as lindas flores ao meu lado. Ele pega de um pequeno canteiro a nossa esquerda uma pequena flor branca e coloca em meu cabelo, um pouco acima da orelha. Vermelha. Sim, sei que estou vermelha. Muito vermelha.
Talvez um pimentão. Ou pior.
–Quero lhe mostrar uma coisa – diz ele após se levantar e estender a mão para mim. Seguro a sua mão e o sigo.
Em momento algum ele solta a minha mão e quando me dou conta, estamos no jardim onde eu o vi treinando há pouco. Fico fascinada pelas armas que há ali.
Por que tenho que ser tão curiosa? Porque tenho que gostar de armas?
Chego perto delas e passo minha mão devagar por elas. Todas têm um belo desenho, provavelmente é o símbolo do reino. Mas o que mais me fascina é o arco e flecha. Gustavio deve ter percebido isso, pois diz:
-Gostaria que eu lhe ensinasse a manusear esta?
Balanço a cabeça, em concordância.
Ele pega o arco e o entrega a mim. O seguro de forma desajeitada. Percebo que há um alvo uns 10 metros a minha frente. Tento posicionar o arco e flecha de maneira aceitável. E então aconteceu. Gustavio, se posicionando atrás de mim, segura no arco por cima da minha mão e me ajuda a posicionar o arco na mira. Devo estar com uma cara muito estúpida porque ele disse:
-Segure a flecha e a solte quando achar que o alvo está certo.
Sim, ele percebeu que estou vermelha.
Solto a flecha. Ela acerta perfeitamente o alvo, e me vejo impressionada.
-Incrível.
-Você conseguiu. Olho para ele. A brisa bate em meu rosto.
-Você conseguiu – digo, envergonhada.
Ele sorri para mim de forma amável, e eu derreto.
~
Voltamos ao palácio depois daquilo e um serviçal nos serve uma xícara de chá e um pedaço de bolo.
Gostoso. O bolo estava gostoso. Gosto de bolo.
Depois de comermos, o príncipe se despede de nós e então somos levadas aos nossos novos aposentos. Sentamos no sofá que havia no quarto e começamos a conversar.
-Gostoso...
-Sim, o príncipe é realmente um gostosão.
-EU ME REFERI AO BOLO! O BOLO! – levanto-me bruscamente, sentindo que havia virado um pimentão.
-Ah sim. O bolo.
-O bolo, Hanna.
-Bom, temos duas horas antes do jantar. O que gostaria de fazer até lá?
-Eu não sei... Acho que lerei alguma coisa.
-E eu vou explorar por ai.
-Boa sorte.
E dizendo isso, ela sai. Ando um pouco pelo grande quarto, olhando tudo ao meu redor. Vou até a janela e foco minha atenção nas belas folhas que estavam a cair naquele momento. Ele me vem à cabeça. Ele era... Realmente gostoso...
-NO QUE ESTOU PENSANDO?! – grito.
Coloco nas mãos na boca, num sinal de desespero, pensando se alguém me ouviu. Olho em volta. Não havia ninguém naquele quarto, além de mim.
-Hanna... Como pôde me deixar sozinha...
Vou até a cama enorme e sento-me. Respiro fundo e repasso tudo em minha cabeça. Meu nome é Alexandra Hell. Princesa herdeira. Tenho 21 anos. Vou me casar. Meu noivo é gostoso.
Retiro essa última frase.
Dirijo-me ao banheiro, retiro minhas roupas rapidamente e abro a torneira. Espero a banheira encher. Coloco espuma.
Sim. Espuma. É tudo o que eu preciso.
Entro na banheira e permaneço lá até ter certeza que havia pensado em tudo. Brinco com a espuma a minha volta. E então, escuto um barulho na porta. Provavelmente era Hanna.
-Alexandra? – ela grita por mim.
-Aqui, Hanna. No banheiro.
-Aha! Achei-te. Vamos tomar banho juntas.
-Isso é realmente necessário?
-Vai ser como nos velhos tempos! – e então ela entra na espaçosa banheira.
-O que você descobriu?
-Nada de mais. Encontrei com o príncipe no caminho. Ele deixou um recado para você.
-PARA MIM?
Ela ri.
-Por que esta nervosa? Você nunca foi assim.
-Não sei exatamente.
-Ele deu-me uma linda caixa, e pediu que você usasse o que tem dentro hoje a noite.
Fico vermelha. Volto a brincar com a espuma.
-Que seja...
Tento relaxar. Não deu certo. Tento novamente. Ainda não deu certo.
Saio da banheira e me enxugo. Vou ate o quarto, onde há uma bela caixa azul com um laço na cama. Eu abro e retiro seu conteúdo. Levanto o belo vestido e o admiro. Possui apenas uma alça, é branco e servirá perfeitamente em mim.
-Deixe-me ver! – diz Hanna atrás de mim, usando apenas uma toalha.
Estendo o vestido para ela.
-É realmente lindo. Seu marido tem bom gosto.
-Ele não é meu marido!
-Ainda!
~
Um tempo depois, somos chamadas por um serviçal. Ele nos acompanha pelos longos corredores. Estou vestindo o belo vestido que me foi dado, e dessa vez, resolvi prender meu cabelo. Um rabo de cavalo. Não gosto do meu cabelo preso. Devo ficar estranha assim. Mas por que eu me importo?
Entramos num salão que me era estranho e ele estava a minha espera. Ele estendeu a mão para mim e eu a peguei. Em seguida ele beija carinhosamente minha mão.
-Você está linda.
-Obrigado – disse eu, nervosa.
Ele me leva até onde irei me sentar: ao seu lado.
Vergonhoso. Sim. Muito vergonhoso.
O jantar se passa rapidamente e Gustavio me convida para um passeio. Aceito timidamente, e ele me leva para um cômodo que eu nunca havia percebido que existia: uma cocheira.
-Sabe montar? – ele pergunta.
-Não muito bem.
-Venha, eu vou lhe ensinar.
E com isso, ele me pega pela cintura e me senta sob um lindo cavalo negro, e então, sobe num cavalo branco. Parecem aqueles contos de fadas.
Cinderela essa historia é sua? Não. É minha. Estranho.
Caminhamos sob a bela lua crescente que preenchia o céu sem nenhuma nuvem ou estrela. Ele andava lentamente ao meu lado, segurando a rédea do meu cavalo.
Ele deve achar que sou uma amadora. Sim.
–Quer mesmo isso? – ele pergunta.
-Isso o que? – fiquei surpresa por não gaguejar.
-Casar-se comigo.
Olho para ele, e percebo que ele me encarava.
-Sim – respondo, voltando a olhar para frente.
-Então se torne a minha guerreira.
Olho para ele por um instante e balanço a cabeça em concordância.
Eu devia ter feito isso?
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