Quando A Caça Vira O Caçador
7 Seis - Mason
Notas iniciais
E Sam, obrigado por tudo.
By: Paula Padalecki
Não se preocupem. Haverão capítulos melhores (e menores)que esse. E, `Pah, isso não é nada mais do que um amigo poderia fazer.
Depois de contar tudo o que tinha descoberto para a Jenny, eu estava mais preocupado do que nunca.
Essa preocupação era maior do que o assombramento e a surpresa que eu senti quando comecei a ligar os fatos. E eu tinha muitas coisas para me preocupar.
Jenny, por exemplo. Será que ela iria conseguir fazer o “interrogatório” da forma mais sutil possível? Por mais que eu soubesse que não, eu gostaria de acreditar que sim.
E isso tudo por outra preocupação: Eu não tinha certeza se estava certo ou não. Mesmo que as pistas apontassem para isso, eu ainda não conseguia acreditar que meu pai pudesse ter alguma coisa a ver com essa confusão.
Mas ainda havia a preocupação derradeira: Meu pai havia escondido isso de mim? Se sim, por quê? Por mais que eu quisesse acreditar que eu tivesse errado ao juntar as pistas, aquilo parecia muito real. Ele vinha agindo estranho ultimamente, não é?
E foi nesse agir que eu estava pensando quando meu pai irrompeu pela porta do quarto, seguido por uma enfermeira visivelmente irritada. Seu rosto sereno e pálido parecia que ia explodir por seus olhos verdes, logo abaixo de fios negros de cabelo.
– Senhor, nós já lhe informamos que, pelo estado de inconsciência do seu filho, ele não pode receber visit... – A frase dela morreu quando me viu acordado no meu leito.
– Então? – Meu pai estava furioso, mas conseguiu manter a calma para falar sem ofender a enfermeira. – Já posso ver meu filho agora?!
–... Sim, eu acho. – Ela virou-se para mim. – Você está bem, querido?
– Bastante. – Aquilo era verdade, agora que eu havia parado para pensar. Eu não sabia porque, mas, apesar dos ferimentos superficiais, eu me sentia ótimo.
– Tudo bem então. – A mulher suspirou, virando-se para o meu pai com desgosto. – Você tem algum tempo.
Meu pai simplesmente sorriu. Oh, não. O sorriso irritante.
Para quem não sabe, meu pai tem a estranha mania de sorrir quando está bravo ou triste e fica sarcástico ou sério nas demais ocasiões. Ele dificilmente sorria quando estava realmente feliz.
Nesse caso, o sorriso queria dizer que ele iria ferrar aquela enfermeira quando tivesse a chance. Mas seu semblante de preocupação me disse que não seria agora.
Assim que a enfermeira saiu, fechando a porta atrás de si, meu pai praticamente correu até mim, sentando-se no banco ao lado do meu leito.
Exatamente onde Jenn havia estado.
Instantaneamente, minha mente viajou para ela. Se meu pai estava aqui, com certeza a mãe dela também estava. E aí as preocupações voltaram.
Será que ela estava fazendo as perguntas certas? Estava sendo explícita demais? Como eu não tinha certeza se tinha feito a descoberta certa, não queria que a Jenny entregasse tudo sem motivo, contando algo antes da hora...
Meu pai pigarreou, puxando-me do meu mundo mental.
– Então...? – Ele me encarou. – Menos de uma semana como “homem” e já está arrumando confusões?
– Pai, eu... – Eu ia dizer alguma coisa, uma desculpa automática, mas então eu percebi o que ele tinha dito. – O quê?
– Você acha que eu não fiquei sabendo da sua “briguinha” com o Oliver? – Um sorriso brincalhão se formou em seu rosto. – Eu sou uma autoridade nessa cidade, quase como um delegado. – Ele fez uma pausa. – As fofocas chegam na cabana da guarda-florestal quase tão rápido quanto na delegacia, para dizer a verdade. – Ele sinalizou para a sua farda de guarda-florestal, da qual só faltava o chapéu, que meu pai nunca usava. Então seu rosto se tornou sério novamente. – Vai me dizer o que aconteceu realmente ou eu devo espalhar por aí que você brigou por uma garota?
Eu riria, se não estivesse nervoso por dentro.
– Ah, mas não foi uma briga... E eu não estou tão bem assim com a Jenny. – Esclareci. – Eu apanhei por estragar um encontro, só isso.
– Ah, certo... – Ele deu o “sorriso ferrador”. – Então agora eu já tenho um motivo para prender aquele ignorante.
– O quê?!
– Como eu te disse, eu sou uma autoridade. – Ele lembrou. – Posso fazer minhas próprias investigações e prisões. Mas eu não preciso ser um guarda-florestal para saber que agressão física é crime.
– Mas isso é mesmo necessário? – Eu conhecia muitos garotos que me batiam todo dia e nunca tiveram problemas com isso. – Quer dizer, ele só me bateu!
Meu pai se levantou do banco, meio que irritado, e pegou o prontuário preso na cama.
– Duas costelas quebradas, hemorragia interna, nariz quebrado... – Ele virou-se para mim com a maior ironia que podia. – Preciso dizer mais?
Eu não respondi. Não era porque meu pai estava certo, embora estivesse. Era porque eu simplesmente não acreditava que ele estava dizendo a verdade. Num rápido movimento, agarrei o prontuário das mãos dele e li.
Eu ainda não acreditava que tinha apanhado tanto.
Quer dizer, eu não sentia absolutamente nada. Nem mesmo as feridas eram um problema. Olhei para um calendário preso na parede. Só havia se passado um dia da minha surra. E, vale ressaltar, eu me sentia novinho em folha.
– Pai, eu... – Naquele momento, eu percebi que não conseguiria nada se tentasse explicar aquilo. E esse pensamento me levou a outro: Eu tinha coisas para descobrir com meu pai. – Eu estava pensando... Tem visto coisas estranhas ultimamente?
Eu bati na minha testa mentalmente. Que tipo de pessoa muda de assunto assim?
– Não... – Ele disse, desconfiado. – Por que...?
– Eu tenho... – Decidi uma aproximação suave, até que eu chegasse ao ponto. – Eu tenho visto coisas estranhas ultimamente, e pensei que você...
Ele não me deixou terminar a frase.
– Não se preocupe com isso. – Ele disse, duramente. – Isso vai passar, é apenas uma sensação da adolescência. Você precisa descansar, e não se preocupar por essas coisas.
– Mas pai...
– Sem nada de mais. – Ele estava nervoso. – Descanse, tudo bem?
Naquela hora, encarando o olhar mais agressivo que meu pai tinha, eu simplesmente assenti. Mas não fazia diferença. Eu teria algum tempo com ele para conversar mais tarde.
***
Eu nunca pensei que ficaria tão feliz em ir para a escola.
Aliás, eu nunca pensei que dar saudar meu pai fosse tão legal, ou passar pelas ruas frias de Weston às sete da manhã fosse legal, ou que cantarolar músicas infantis no trajeto fosse tão divertido.
Considerando que eu tinha passado dois longos e arrastados dias na observação, qualquer coisa era legal agora.
Não, Oliver não tinha batido tão forte. O problema era que o médico responsável por mim não acreditou na minha “recuperação milagrosa”, deixando-me na observação para estudar a razão disso.
Depois de dois dias, ele desistiu e me liberou, por não achar causa aparente para a minha cura. Algo mais estranho que eu teria que responder, mas não ligava; embora entediantes, esses dois dias de descanso vieram bem a calhar.
Agora, completamente descansado, eu estava num animado caminho para a escola, ao contrário do céu nebuloso acima de mim e do aspecto cinzento e frio de tudo. Um caminho animado até eu encontrar Jenn.
A visão dela em suas roupas mescladas de líder de torcida e estudante trouxeram todos os meus problemas de volta. As coisas estranhas que estavam acontecendo, as respostas que eu não consegui...
Eu estava sendo submetido àquela realidade novamente.
Além do mais, minha animação sumiu por me lembrar dos “assuntos pendentes” que eu tinha com ela. Assuntos quase esquecidos por mim durante os dias na observação.
E eu não sabia se conseguiria tratar sobre eles agora com ela.
– Hey! – Ela saudou. – Como vai?
– Considerando que eu passei os últimos dois dias na observação... – Brinquei. Era ótimo ser irônico perto dela. Ela tinha um sorriso lindo quando brincávamos. – Muito bem!
Ele sorriu, do jeito que eu gostava de ver.
– Tanto tempo assim? – Então ela cortou a sua própria fala. – Oh... Desculpe por tocar no assunto.
– Tudo bem, Jenny. – Tranqüilizei-a. – Não foi sua culpa, tudo isso que aconteceu. Além do mais, eu não passei esse tempo todo no hospital por causa disso.
– Hã? – Ela pareceu surpresa.
– Eu tive que ficar em observação por ter uma “recuperação milagrosa”. Só mais uma coisa estranha para me preocupar. – Expliquei.
– Ah, certo... Eu acho. – Seu semblante se suavizou. – Falando em coisas estranhas, você conseguiu descobrir algo com seu pai?
Eu estava louco para não falarmos sobre isso.
– Não. – Confessei, suspirando. – Eu passei os meus dias na observação tentando descobrir algo, mas... Meu pai ficou se esquivando. – Quando percebi meu rosto escurecendo, resolvi melhorar a conversa. – Senti falta de alguém para conversar, com meu pai completamente ausente e estranho por lá. Por que não veio me visitar?
Eu só percebi o quão idiota aquela pergunta fora quando vi as bochechas de Jenny corando.
– Awnn... – Ela olhou para algum lugar da calçada. – Gastei meu tempo “tentando” com a minha mãe. Sabe, seu pai não está tão ruim perto dela.
– Você é quem está dizendo.
– Não, é sério! – Pelo tom da voz dela, eu soube que ela estava tentando me animar. – Seu pai pode até estar te evitando, mas ele tem um bom motivo para isso: procurar o Oliver. Mas a minha mãe... – Seus olhos pareceram viajar para algum lugar no passado. – Ela passou dois dias comigo, em casa, sábado e domingo, mudando de assunto loucamente. Ela não tem desculpa para estar agindo assim
Ela tinha razão. Meu pai tinha outras prioridades, como a profissão, que estavam à frente das minha perguntas sem fundamento. Pelo menos eu me sentia melhor vendo desse jeito...
Espere um pouco...
– O Oliver ainda não apareceu?
– Não. – A preocupação voltou para o rosto dela. – Ele não aparece desde... Aquele dia. Por mais que eu o odeie pelo que ele fez, o fato de ele estar desaparecido me preocupa.
– Por que?
– Porque... – Ela engoliu em seco. – Isso tudo pode ser culpa minha. Quer dizer, ele desapareceu depois daquele incidente. O incidente que diz respeito a mim...
Só de ver ela assim, se torturando por algo do qual ela não tinha culpa, eu resolvi intervir.
– Hey. – Virei o rosto dela na minha direção pelo queixo. – Fique calma, ok? Ele sumiu, só Deus sabe o porquê, mas você não teve nada a ver com isso. Talvez você tenha batido nele, mas... – Suspirei. – Foi a coisa certa a se fazer.
Por um momento, a única resposta da parte dela foi o corar de bochechas, o que me deixou sem graça. Então eu percebi a proximidade excessiva entre nossos rostos, e eu soltei o rosto dela.
– Obrigado. – Ela disse, depois de um longo e incômodo silêncio.
– De... De nada. – Aquilo era torturante.
Tão torturante que nós passamos o resto do caminho para a escola em silêncio. O tipo chato de silêncio, no qual nada pode parecer interessante o suficiente para quebrá-lo.
Esse momento de silêncio só acabou quando chegamos ao barulhento pátio repleto de alunos. Era o lugar no qual eu sempre evitava olhares, mas algo ali estava estranho. Ninguém ali estava me encarando. Algumas pessoas davam uma olhadinha, mas não era a de desprezo de sempre.
Então eu me lembrei que Jenny estava ao meu lado. Ninguém tiraria onda com ela, ou com quem estivesse com ela. Afinal, era essa a influência que Jenny causava nas pessoas? Eu nunca tinha visto-a desse ponto.
O ponto que me trouxe de volta à outra realidade: Jenny era a chefe das líderes de torcida, e eu o mané. Nós não éramos mais amigos. Ela pertencia a outro universo. Um universo no qual eu não fazia parte.
A cada passo que dávamos juntos, eu me sentia mais e mais envergonhado. E a chance de driblar essa vergonha apareceu quando eu vi as amiguinhas da Jenny vieram correndo até nós.
– Ah, não... – Jenny gemeu ao virar os olhos na direção para onde eu olhava.
Eu senti que não deveria estar ali.
– Hã... Você pode falar com elas, eu...
– Não, você pode ficar. Eu não estou muito a fim de falar com elas, com tudo isso acontecendo. – Ela assegurou.
– Jenn, eu... – O fato de as amigas dela estarem se aproximando fez com que eu dissesse a primeira coisa que viesse à minha mente. – Jenn, você não precisa fingir nada. Nós não somos mais amigos, se lembra? Eu não quero estragar a sua vida social.
E saí, ignorando as perguntas estridentes das amigas para Jenny e o olhar triste dela.
Eu só percebi o quão rude aquela frase tinha saído quando já estava longe demais para pedir desculpas. Eu senti que não queria ter dito aquilo.
***
O dia na escola havia sido estranho.
Não estranho do tipo “Eu vi um ghoul!”. Foi mais do tipo “estranho normal”. Durante toda a manhã, as pessoas simplesmente me ignoraram. Não do jeito desprezível de sempre. Era um ignorar cotidiano, como se eu fosse um aluno qualquer. E era bom.
Mas eu ainda não conseguia acreditar que era isso tudo por eu ter andado com a Jenny. Eu ainda não conseguia acreditar que ela causava esse tipo de influência, capaz de mudar a opinião das pessoas sobre alguém.
Mas tinha sido ela?
Foi quando eu me perguntei isso que me ocorreu que as pessoas poderiam estar me tratando assim por causa do incidente com o Oliver.
Eu finalmente senti uma pontada de culpa sobre aquilo. Quer dizer, eu fui a causa de toda essa confusão. Eu havia estragado o encontro, certo?
E foi nisso que eu pensei durante todas as aulas, ao decorrer de toda a manhã.
E, a cada suposição que eu fazia, mais coisas ruins pareciam se assimilar ao desaparecimento do Oliver. Até que eu me peguei imaginando se o desaparecimento tivesse alguma coisa a ver com as coisas estranhas que estavam acontecendo.
Um tremor se espalhou pelo meu corpo em resposta. Se isso estivesse com algum fundo de verdade, as coisas estranhas que estavam acontecendo não eram mais “estranhas”. Estavam ficando perigosas. Considerando tudo que tinha acontecido comigo, eu não descartaria essa opção.
Então eu me vi com mais uma prioridade. Eu tinha que encontrar o Oliver, antes que algum mal lhe acontecesse. Tanto um mal natural, quanto um mal...
Sobrenatural.
A sirene me despertou dos meus pensamentos subitamente, chamando-me de volta para a aula de história que tinha acabado. Àquela altura, estudar não era mais tão importante.
Mas só porque eu estava fora do mundo dos pensamentos não quer dizer que eu estivesse abandonado-o. Eu me levantei da minha mesa, já pensando em como rastrear um garoto numa floresta.
Por estar tão centrado nisso, eu nem ao menos percebi que Jenny estava no meu lado, o que me rendeu um belo susto.
– Desculpe. – Ela disse, entre risos. – Eu não sabia que estava “ocupado”.
– Eu mereci essa. – Consegui responder, enquanto voltava por completado da minha mente.
Nessa “volta”, eu percebi que nem ao menos havia deixado meus livros no armário, deixando minha mochila no limite de peso. Também percebi a ausência das roupas de líder de torcida de Jenn, o que a deixou com apenas um casaco por cima de uma blusa azul, uma saia preta e um par de All Star rosa.
Aquilo queria dizer que ela treinou muito hoje, a ponto de ter de trocar de roupa, embora não parecesse que ela tivesse feito qualquer tipo de exercício físico. Suas feições leves estavam “soltas”, como se ela não houvesse acabado de pular até ficar encharcada (como eu sabia que ficava) algora a pouco.
– Sobre o que estava pensando? – Ela perguntou.
Aquilo me surpreendeu.
– Como você sabia que eu...?
– Ah, fácil. – Eu achei mais surpreendente ainda ela saber do que eu estava falando antes de completar a frase. – Você faz um semblante legal quando pensa... É como sua assinatura facial. Eu me acostumei com ela do tempo em que éramos amigos... – Ela corou. – Você me deve uma resposta.
– Era sobre o Oliver. – Tentei agir como se aquele momento não tivesse me deixado ebaraçado. – Eu estava pensando que... Que talvez essas coisas estranhas tenham alguma coisa a ver com o desaparecimento do Oliver.
Ela mostrou um forte semblante de surpresa, mas não disse nada.
– O que você acha? – Ela perguntou, depois de um longo pedaço da caminha em um silêncio pensativo.
Aquela resposta fora como um solavanco.
– Mas... – Eu encarei os brilhantes olhos castanhos dela. – O que a minha opinião tem a ver?
Ela demorou um pouco para responder novamente, como se ela não pudesse dar uma resposta qualquer.
– Durante todo esse tempo, você tem tomado as decisões mais maduras. Decisões que eu nunca tomaria. – Ela tomou fôlego. – Eu te admiro por isso, Mason.
Enquanto eu ficava de boca aberta, meu cérebro processava melhor aquela frase que acabara de ouvir.
Eu, maduro? Não fui eu que havia jurado ódio à Jenny? Mesmo que as coisas que ela havia me dito não fossem das mais agradáveis, foi muito infantil da minha parte ficar relembrando daquilo, como uma criança. E, por mais que Jenny estivesse tentando reatar a amizade, eu continuava relutando. Aquilo não me parecia muito maduro. Era vergonhoso.
– Jenny... – Escolhi as melhores palavras, também. – Por que você ainda fala comigo depois de tudo que eu disse e fiz com você?
Ela arregalou os olhos.
– Espere um pouco. – Ela riu, atordoada. – Eu digo coisas horríveis para o único melhor amigo que eu já tive e você acha que tem algo de errado com você?
– Mas as coisas que eu disse...
– Não importam. – Ela me cortou, num ritmo que eu sabia que estava sendo rápido para que ela não chorasse enquanto falava. Jenny tinha técnicas para não chorar. – Eu tenho o dever de te pedir desculpas, independente do que você disse. Não quero te obrigar a ser meu melhor amigo novamente, mas... Que você me perdoe. – Ela parou para segurar algumas lágrimas. – Por que eu não sei se conseguiria viver a minha vida sabendo que não estamos bem.
Meu silêncio fez com que ela continuasse.
– Principalmente agora, com todas essas coisas acontecendo. – Ela pausou. – Nós precisamos ficar juntos. Mas eu não conseguiria fazer parceria com você sabendo que ainda existe ressentimento entre nós.
Eu estava, definitivamente, abismado. De um jeito bom, claro. Aquela confissão da Jenny me deu uma nova visão dela. Uma que eu não tinha antes, e que não tive hoje mais cedo. Era uma Jenny sentimental, que liga para as coisas.
Eu via algo diferente nos olhos dela agora. Parecia que havia mais sentimentos naquele olhar acastanhado do que poderia dizer ou expressar. Era uma tristeza contida que fazia do seu rosto diferente, frágil. Uma fragilidade que destruía tudo o que eu pensei sobre a Jenny.
O que eu pensei...
Eu me sentia tão envergonhado agora, por todo o que eu havia pensado sobre ela. Eu estava longe de me sentir maduro. Eu me sentia uma criança. Se havia alguém maduro ali, essa pessoa era Jenny. Ela conseguiu deixar nossas desavenças de lado para descobrir o que estava acontecendo. Isso era algo que eu nunca conseguiria fazer.
Nossos olhos se encontraram novamente, e eu me lembrei dos nossos bons tempos de amizade, mesmo com toda aquela tristeza presente. Aquela tristeza que deixava o melhor olhar castanho do mundo tão frágil. E toda aquela fragilidade estava me matando. Ela parecia que iria quebrar a qualquer instante, se eu a deixasse sozinha. Eu não consegui resistir ao impulso de abraçá-la.
Um abraço apertado, fraternal, cheio de todo o arrependimento do mundo. Ela se deu ao luxo de deixar algumas lágrimas caírem dessa vez. Naquele momento, eu soube que deveria perdoá-la. Por mais que aquele abraço estivesse dizendo tudo, eu tinha que fazê-lo. Era o mínimo que eu podia fazer.
– Jenny, eu... – Tomei fôlego. Tinha que escolher as melhores palavras para dizer aquilo, pois aquele seria o mais sincero pedido de desculpas que eu daria em toda a minha vida.
Mas, quando eu finalmente escolhi as palavras, elas não saíram
Elas ficaram entaladas na minha garganta quando uma brisa fina e cortante passou por nós, esvoaçando os fios dourados da cabeleira de Jenny. E foi olhando para essa cabeleira que eu percebi a forma escura parada logo atrás dela, do outro lado da rua. Um arrepio percorreu meu corpo enquanto eu me separava do abraço de Jenny, fazendo com que minhas roupas – um blusão azul por cima de um suéter preto, jeans escuros e um par bem fechado de tênis Converse – não parecerem tão quentes assim.
Então Jenny seguiu meu olhar amedrontado, ficando tão paralisada quanto eu. Foi nesse momento em que eu focalizei melhor, percebendo o que era aquela forma.
Era Oliver. Ou alguma coisa parecida com ele.
Suas roupas não passavam de um jeans esfarrapado e uma camiseta que em algum momento deveria ter sido branca tão danificada quanto. Ele parecia não estar se importando com o frio tanto quanto eu, embora suas roupas estivesse naquele estado. Por entre um dos furos em sua camisa, eu podia ver uma enorme cicatriz no seu abdômen. O cabelo dele estava cortado curto, diferenciando um pouco o formato de seu rosto.
O rosto... Havia algo diferente nele. E eu não estava falando da carranca em que o rosto dele se encontrava, ou das várias cicatrizes presentes. Eram os olhos. Eles estavam amarelos.
No momento em que vi aqueles olhos amarelos, milhares de perguntas voaram pela minha cabeça. Perguntas que eu já havia feito para mim mesmo, e outras que estavam surgindo tão rápido que eu me assustei com a velocidade da minha mente. Por que ele estava aqui? Por que estava aparecendo exclusivamente para nós? Por que não havia contatado às autoridades locais sobre sua volta? E, principalmente, por que ele tinha olhos amarelos? Eu realmente não sabia se seres humanos podiam ter olhos daquela cor tão vívida, ou que os olhos de Oliver fossem assim antes de ele desaparecer.
Minha mente voou para todas as coisas estranhas que estavam acontecendo novamente. Eu gostaria de esclarecer aquilo, pelo menos. Fazer algumas perguntas à Oliver. Saber se alguma coisa estranha havia acontecido durante o desaparecimento. Mas, algo me dizia que ele não queria conversar. Para ser sincero, os olhos dele espalhavam tanto medo em mim que eu realmente não conseguia me mexer. Ele parecia irritado.
E aqueles olhos irritados estavam travados em Jenny. E ela, ao contrário de mim, não estava assustada com aquilo. Ela nem ao menos estava paralisada. Seu rosto matinha certa expressão de surpresa, mas não passava disso. Era quase como se o olhar gélido de Oliver não fizesse efeito nela. Foi então que eu me lembrei da culpa que ela sentia. Será que ela estava feliz em vê-lo? Será que ela não via a ameaça?
Eu não sabia como, mas eu sentia que aquela coisa estática do outro lado da rua não poderia ser o Oliver. Era inumana.
Jenny parecia não ver aquilo. Ela deu um passo à frente, distanciando-se de mim, ficando à um passo do asfalto. Eu tomei de volta aquela imagem frágil de Jenny. Por alguma razão, eu sentia como se tivesse que protegê-la. Como se ela pudesse se machucar ali. Mas meu corpo ainda estava paralisado, e eu não tive reação alguma enquanto ela dava mais alguns passos em direção à Oliver.
– Oliver? – Ela perguntou, sua voz ficando eufórica. – É você?
Não houve resposta, o que me fez focar mais naquela coisa parecida com o Oliver. Sob a luz cinzenta daquela tarde fria, ele parecia mais escuro, mas sombrio, e seus olhos mais amarelos do que antes. Eles pareciam brilhar. E aquilo pareceu me alertar ainda mais, libertando-me da minha trava corporal. Mas eu ainda não sabia o que fazer.
– Ah, meu Deus! – Ela exclamou quando estava mais perto de Oliver. – É você! Onde esteve? Por que sumiu? O que aconteceu?
Mas Oliver nem se dava ao trabalho de prestar a atenção. Seus olhos pareciam perdidos em Jenny, como se ele estivesse tendo lembranças de algo enquanto fitava-a. Por alguma razão, aquele silêncio estava me incomodando. Era um silêncio... Mortal. O tipo que se escuta quando alguém está planejando te bater mas não sabe como. Então eu tive certeza que Jenny corria perigo agora. Oliver iria machucá-la.
– Jenny! Sai daí! – Gritei enquanto me aproximava dela. Eu nem ao menos me importei com a mochila caindo dos meus braços enquanto corria. Eu simplesmente tinha que tirá-la dali.
Mas, quando eu já estava perto o suficiente para puxá-la dali, uma mão de ferro agarrou meu ombro, jogando-me no chão. Eu só percebi que havia sido Oliver quando minha testa já tinha ido de encontro com o asfalto frio. Mas ele estava na calçada há um segundo atrás, não entre mim e Jenny. Como ele havia se movido tão rápido?
– Oliver? – Jenny pareceu perceber o que estava acontecendo, finalmente. – O que você...?
Ela parou quando viu o chute que Oliver acertou na minha barriga, fazendo dar alguns giros no chão até estar quase do lado da rua onde eu havia saído.
– Pare! – Ela correu até estar entre Oliver e mim. – O que você está fazendo? Deveria estar procurando alguém para avisar que você voltou, não batendo no Mason!
O garoto de olhos amarelos deu um passo à frente, ignorando o que Jenny havia acabado de dizer. E aquilo já fora o suficiente para que ela saísse do sério. Jenny colocou a palma da mão no peito de Oliver, sinalizando para que ele parasse com aquilo. Mas a resposta de Oliver fora anormal.
Ele fechou a mão direita no pulso de Jenny, e girou com força. O gemido de Jenny foi audível de onde eu estava. Foi a hora em que Oliver resolveu falar.
– Você não vai me humilhar novamente, Clein. – Sua voz era rouca, sinistra. – Nunca mais. Agora eu tenho poder, um poder maior que o seu. Você vai pagar pelo que me fez passar.
– Do que você está falando, seu louco?! – Jenny gritou, claramente tentando se libertar da mão segura de Oliver, mas sem sucesso.
A resposta de Oliver fora girar ainda mais o pulso de Jenny, obrigando-a a gritar de dor. E aquilo já foi realmente o limite para mim. Eu me levantei o mais rápido que o meu corpo permitiu, num solavanco forte. Então eu corri até eles, ignorando toda aquela inumanidade presente em Oliver. Eu não iria deixar ele machucá-la novamente.
Então Oliver virou aquele olhar para mim, e eu senti todos os membros do meu corpo paralisando. Era como se o gelo presente no olhar dele estivesse fazendo efeito no meu corpo, e no meu subconsciente. Era como se cada célula do meu corpo estivesse percebendo o perigo que estava ali, na minha frente, e estivesse com medo de prosseguir. Não que eu tivesse uma opinião contrária agora.
– Oh, claro! – Oliver girou o pulso de Jenny até obrigá-la e cair no chão, e então ele veio ao meu encontro deixando uma Jenny agonizante no asfalto. Parecia que ela estava sentindo mais dor do que poderia aguentar. – O garoto responsável pela minha humilhação! Eu estava quase me esquecendo de você, sabia? Agora, espere aí... – Ele deu mais um olhar gelado e eu senti como se não tivesse braços, pernas, ou qualquer outra parte do corpo. – Enquanto eu termino outros assuntos ali.
Então ele riu maquiavelicamente, virando-se para Jenny caída no chão. Tudo bem, eu não vou negar. Eu estava louco do mais puro medo. Mas a forma como ele falou de Jenny, como se ela fosse algo desprezível como um inseto, foi uma afronta. Sem falar que ele pretendia machucá-la ainda mais. Só de olhar para os olhos cheios de dor de Jenny, eu já me sentia revoltado. Eu não iria permitir mais disso.
Sem pensar muito nas consequências, eu corri até Oliver, acabando com o transe temporário em que meu corpo estava. Juntado toda a força que meu corpo pode acumular, eu o empurrei, fazendo-o cair de cara no meio-fio. Então eu arrastei Jenny para o lado da calçada onde estávamos quando vimos Oliver, que era o ponto mais seguro agora.
– Você está bem? – Perguntei, ignorando o Oliver furioso se recuperando da queda do outro lado da rua.
– Hmmm... – Ela gemeu. – Meu pulso...
Eu olhei imediatamente para o lugar onde Oliver havia tocado. O pulso dela estava numa vermelhidão anormal, e eu me perguntei se estava quebrado. Era como se houvesse lixas na pele de Oliver. Mas, antes que eu pudesse analisar melhor o ferimento, Oliver já estava vindo em nossa direção. Ele vinha calmamente, triunfantemente, como um caçador faria. Seu olhar era uma mistura de raiva com poder. E todos nós sabíamos que esse olhar tinha fundamento.
Eu não tinha reação nenhuma agora, já que Jenny já estava segura. Nenhum plano parecia querer se formar no pânico em que minha mente se encontrava. Eu sentia a morte se aproximando. Mas não para Jenny. Quando Oliver estava a uns dois metros de distância, eu estava decidido a pular nele e deixar um tempo para a Jenny fugir. Eu não sabia se haveria chance, mas era uma tentativa.
– Jenny, você pode me ouvir? – Perguntei baixo.
Ela gemeu em resposta.
– Quando eu pular no Oliver, você corre o mais rápido que puder e procura ajudar, ok?
Ela ficou tão aturdida que resolveu falar.
– Não, Mason! – Ela usou toda a sua força para ficar de pé, usando-me como a apoio – Eu comecei isso, se lembra? Ou você se esqueceu de quem foi que teve de ir para o hospital por causa disso? Se alguém aqui tiver que correr, esse alguém aqui é você.
Ela ficou de pé sem o meu apoio agora, tentando parecer durona ou confiante. Mas ela não estava conseguindo. Suas pernas tremiam por falta de apoio, e os braços dela estavam arranhados por ter caído agora a pouco, sem falar na deficiência em que seu pulso esquerdo estava. Eu choraria por ela estar fazendo isso para mim, mas eu acabei sorrindo. Era muito engraçado vê-la tentando bancar a durona agora.
E eu riria também, se a proximidade de Oliver não fosse mortal agora. E se Jenny não tivesse caído, apoiando-se nos meus ombros. Ela não podia fazer a pose de durona dela agora, mas eu podia. Mesmo com uma garota dolorida apoiada nos meus ombros, totalmente impossibilitada de lutar, eu ainda poderia manter o "plano".
Ok. A quem eu estou enganando? Estávamos mortos. Mas então algo mudou o rumo daquela derrota. Um som, para ser exato.
Enquanto Oliver estava a apenas alguns centímetros de nós, um cantar de pneus irrompeu da esquina, chamando a atenção de todos – inclusive do garoto enfurecido à minha frente. Instintivamente, eu olhei para onde o som estava vindo. Era um Camaro com a pintura toda suja e arranhada. Mas havia algo familiar nele. Eu me lembrava de ter ido num desses para uma excursão pela floresta com Jenny...
Aquele era o carro da mãe de Jenny?
Eu não tive tempo para responder àquela pergunta. O Camaro avançou com tudo na nossa direção, tão rápido que eu tive dificuldades para ver quem estava dirigindo. Mas de uma coisa eu tinha certeza. Ele estava avançando na direção de Oliver agora.
Então, antes que o garoto pudesse ter qualquer reação, o carro o atingiu com tudo, arremessando-o a alguns metros de distância. Eu ficaria horrorizado com a cena, se não tivesse ficado tão grato por aquele atropelamento. Logo após a parada do carro, a porta do carona se abriu, com meu pai saindo por ela com o olhar furioso.
Ele tirou uma das flechas da aljava que carregava nas costas e encaixou no arco, mirando no corpo inanimado de Oliver. Então ele pareceu perceber a nossa presença ali.
– Entrem no carro! – Ele ordenou, fúria e preocupação na sua voz. – Agora!
Eu não contestei, embora estivesse muito confuso. Qualquer lugar longe de Oliver estaria bom para mim. Eu ajudei Jenny a entrar primeiro e, assim que tive certeza de que ela estava bem acomodada no banco de couro furado, entrei ao seu lado. Pela porta aberta eu pude ver meu pai recuar lentamente de costas até finalmente sentar no banco da frente.
Foi só aí que eu percebi quem era o motorista. Era a mãe de Jenny, Megan. Ela estava com os dedos fixos no volante, respiração tensa, olhar concentrado. Ela ligou o carro assim que meu pai fechou a porta lateral do carona, mas não avançou. Ela parecia esperar alguma coisa. E eu tentaria descobrir o que era se não estivesse com a mente tão confusa. Ou se meu pai não tivesse sentado com o arco e a flecha em mãos, que ele não largou nem mesmo quando virou-se para falar conosco.
– Vocês estão bem? – Ele inquiriu.
– Meu pulso. – Jenny respondeu imediatamente. – Alguém pode me dizer o que está acontecendo aqui?! Por que vocês atropelaram o Oliver? Por que...
– Fique calma, querida. – Megan falou do banco da frente, sem mover os olhos para nós. – Quando for a hora, eu vou dizer tudo o que você quiser saber, mas você poderia esperar só um pouco?
Jenny pareceu relutar internamente, mas ficou calada. Eu já estava puxando ar para falar, mas a mãe de Jenny emendou:
– Isso serve para você também, Mason.
Eu resolvi seguir o exemplo de Jenny, para variar. E meu pai aproveitou esse silêncio para continuar examinando Jenny.
– Não está tão ruim. Nada que gelo e repouso não resolvam. – Ele disse, só de olhar para a vermelhidão no pulso de Jenny. – Nada mais, tirando os arranhões? – Quando Jenny assentiu, ele virou-se para mim. – E você...?
Ele parou a frase quando focou a minha testa. E Jenny também estava olhando. Foi quando eu passei a mão num ponto logo abaixo dos meus fios de cabelo de descobri que a minha testa estava sangrando. Eu havia batido a cabeça no chão, mas não fora para tanto. Pelo menos eu não havia sentido nada. Até agora.
– Você precisa de um curativo antes que isso aí piore. – Meu pai disse, e eu senti o pânico nas voz dele. – Você tem bandagens aqui, Clein?
– No porta-luvas. – A mãe de Jenny disse, mas sua voz estava trêmula. – Mas eu acho que isso vai ter que esperar.
Ela não precisou dizer mais nada. Na nossa frente, o corpo até então inerte de Oliver se levantou, sem nem ao menos um arranhão. Ele parecia mais furioso que antes.
– Pisa... Fundo... – Meu pai disse, virando-se para a frente enquanto agarrava o arco com mais firmeza.
A mãe de Jenny obedeceu imediatamente, então o carro acertou Oliver mais uma vez, arremessando-o para algum lugar à nossa direita. Como se nada tivesse acontecido, a senhora Clein continuou dirigindo até a esquina, onde acelerou de vez.
– Mãe! – Jenny gritou.
– Agora não, querida! – Ela respondeu sem nem ao menos desviar os olhos da pista.
Considerando que ela estava acima dos cem por hora, em plenas curvas, eu fiquei feliz por ela estar se concentrando. Meu pai não tirava os olhos do retrovisor, focando minha testa. Ele estava claramente nervoso, mas não era apenas por meu machucado. Eu iria começar uma sessão de perguntas só por causa disso, mas a forma como os olhos dele focaram outra coisa no retrovisor me assustaram. Eu demorei muito para perceber que ele estava focando algo atrás de mim, então eu me virei.
Era a coisa mais assustadora que eu já tinha visto até então.
Um lobo. Escuro como uma sombra. Olhos amarelos, brilhantes e famintos. E isso já seria assustador o suficiente se ele não tivesse o tamanho do carro em que estávamos. E ele estava vindo na nossa direção numa velocidade assustadora. Naquela hora, eu não pude suprimir um grito. E, quando Jenny olhou para a mesma direção para onde eu focava, ela também não.
– Alguém pode me dizer o que está acontecendo aí atrás?! – A mãe de Jenny perguntou, ainda concentrada na estrada.
Eu estava aturdido demais para responder, mas Jenny não.
– Tem um lobo gigante atrás de nós! – Ela gritou a plenos pulmões.
– Você está me assustando! – Foi a resposta da mãe de Jenny. Havia algum sarcasmo na sua voz.
– Apenas dirija, ok? – Meu pai abriu o vidro lateral o máximo que pôde e pôs o tronco inteiro para fora, levando o arco consigo.
Eu soube que ele iria atirar no lobo antes mesmo que ele desse o primeiro disparo. Mas não houve efeito algum, pois o lobo se esquivou como se estivesse deslizando pelo asfalto. E o tiro só fez com que ele ficasse mais obstinado em nos pegar.
– Flecha! – Meu pai gritou.
Como resposta, a mãe de Jenny tirou uma flecha de ponta prateada da aljava que se encontrava no banco do carona e entregou para o meu pai, que deu mais um tiro. E, dessa vez, ele teve sucesso.
A flecha acertou o lobo em algum lugar na lateral das suas costas. Eu não esperava que uma flechada daquelas pudesse fazer com que o lobo caísse de vez, rolando no chão, mas foi isso que aconteceu.
Eu podia ouvir os ganidos colossais mesmo quando já estávamos a metros de distância. E, depois de mais alguns metros em silêncio, com meu pai já sentado no banco, eu resolvi fazer algumas perguntas, já que Jenny estava em um pânico que a impedia de fazê-las. Não que eu também não estivesse, mas minha mente estava a mil.
– O que... – Tomei fôlego. – O que era aquela coisa?
– Um lobo. – A mãe de Jenny respondeu calmamente.
– Não, não era um lobo. – Retruquei.
– Por que não poderia ser um lobo normal? – Ela respondeu. Então ela trocou um olhar divertido com meu pai. – Além do tamanho avantajado e da velocidade sobrenatural?
– Era o Oliver. – Meu pai matou a brincadeira que a mãe de Jenny estava fazendo comigo.
Por um momento, eu iria achar aquilo ridículo. Mas então o olhar amarelado dele e do lobo pareceram se comparar na minha mente. Eram iguais. Realmente iguais.
Passamos o resto da viagem em silêncio, até chegarmos na garagem da casa da Jenny. Como se tivesse chegado de um dia normal de trabalho, a mãe da minha amiga saiu do carro assobiando. Meu pai, por outro lado, abriu a porta com toda a violência que pode e depois fechou-a com a mesma intensidade. Eu e Jenny saímos do carro, nossas pernas tremendo pelo modo aterrorizante como a mãe de Jenny dirigiu.
Então os pais seguiram lado a lado por um corredor que dava da garagem para o quintal traseiro. Eles caminhavam, apesar de tudo. Eu estava começando a achar que eles estavam acostumados com aquilo que havia acontecido. Nós os seguimos, tão confusos que era meio difícil elaborar alguma pergunta.
Até que nós chegamos ao lado do galpão vermelho onde eu e Jenny descobrimos os livros, o vento remoendo a grama e nossos cabelos. A mãe de Jenny tirou a jaqueta de couro marrom que usava, apoiando-a no pedaço de madeira que servia de tranca para a porta dupla do galpão, revelando uma camiseta rosa e duas adagas prateadas pesas ao cinto. Com os jeans e as botas de couro, ela parecia uma espécie de caçadora de recompensas do velho-oeste.
Meu pai já não tinha uma aparência divertida. Ele estava longe de qualquer diversão agora, aliás. Suas roupas se resumiam a uma calça jeans, uma camisa de botões azul-celeste e um par de botas de caminhada. Não havia nada de extravagante ou estiloso ali, tirando a aljava pesa às suas costas. Seu olhar era tão duro quanto o céu nebuloso que se estendia acima de nós, só que azul cinzento. Ele parecia esperar por algo.
Foi nesse momento em que eu percebi que ele ainda estava com o arco na mão esquerda, os tendões da mão dele praticamente dobrando de tamanho enquanto segurava-o. Aquilo já estava confuso demais para mim antes mesmo de Jenny explodir ao meu lado.
– Alguém pode me dizer o que diabos está acontecendo aqui?! – Ela gritou. – Eu estou tentando ser paciente, mas assim é impossível com todo esse silêncio, mãe! Seria demais pedir alguma resposta, conversa, qualquer coisa?!
– Claro, filha. – A mãe de Jenny disse, com toda a calma do mundo. Ela havia saído de perto das portas do galpão agora, indo em direção à filha. – O que você quiser saber.
Aquela reposta deixou Jenny confusa, porém mais calma. Eu percebi que a mãe de Jenny estava tentando se acalmar e fazer o mesmo com a filha. Ela não parecia muito animada para responder perguntas, mas o seu olhar dizia que ela teria de fazê-lo. Eu gostaria que o olhar do meu pai também estivesse assim.
Mas as duas esferas azuis dele estavam travadas em alguma lugar do horizonte. Ele não estava procurando nada agora. Ele simplesmente não queria olhar nos meus olhos. E aquilo fez com que aquele pôr-do-sol ficasse mais frio do que já estava para mim.
– Você deveria fazer o mesmo, Rob. – A mãe de Jenny disse, depois de um longo abraço com a filha. Jenny estava sorridente agora. A certeza de respostas estava presente em seus olhos.
Meu pai se virou para mim, e eu senti como se ele estivesse odiando aquela situação. Pior. Eu senti como se ele estivesse me odiando.
– Tudo bem. – Ele disse, depois de um longo suspiro. – Eu vou contar. Mas não aqui. Quer dizer, as explicações são mais elaboradas de um para um, não é?
Eu sapatearia por aquela frase, se ela não estivesse sendo dita para a mãe de Jenny. Eu tive certeza naquela hora que ele não queria olhar para mim, tampouco para os meus olhos. Ele estava me evitando mais do que em qualquer outra vez.
– Tudo bem, então. – A mãe de Jenny sorriu. – Boa sorte.
Então meu pai atravessou o gramado, comigo aos seus calcanhares. Eu estava realmente nervoso agora. Nervoso por tudo aquilo que tinha acontecido, por tudo que estava acontecendo e por meu pai estar me tratando assim. Mas havia uma ansiedade presente agora. Uma ansiedade por respostas.
Antes de entrarmos pelo corredor para sairmos da casa, um grito irrompeu no silêncio desconfortável.
– Bom trabalho, Hyles! – A mãe de Jenny gritou do alto da colina.
Meu pai de virou, um pequeno sorriso no rosto.
– Você também não dirige tão mal assim, Clein. – Meu pai devolveu, tão ironicamente quanto.
Enquanto eu observava o sorriso que a mãe de Jenny dava como resposta, algo na própria Jenny me chamou a atenção. Seu olhar. Estava travado em mim, passando uma calmaria descomunal. Era como se ela estivesse dizendo "tudo vai ficar bem, May". E eu agarrei aquela frase com todas as minhas forças.
Eu e meu pai atravessamos a rua deserta. O céu já estava escuro, embora houvesse uma pequena tonalidade de cinza-claro presente. Isso queria dizer que ainda havia um restolho de sol, que seria visível se não fossem as densas nuvens. Estava muito frio.
Meu pai dispensou entrar pela porta da frente; entrou pela porta da garagem, indo para o quintal traseiro. A grama estava molhada, e fazia sons estranhos quando eu me movia sobre ela. Meu pai largou a aljava na grama, tal como o arco. Ele desabotoou um botão de sua camisa e virou-se para me encarar.
Pela primeira vez depois daquele dia estranho, eu foquei seus olhos. Não estavam cheios de ódio ou desprezo, como eu pensei. Estavam preocupados, como eles vinham estando nos últimos dias, só que acima da média. Era como se o que ele fosse me dizer pudesse me machucar.
Mas aquilo não importava agora.
Eu finalmente teria minhas respostas.
Fale com o autor