Quando A Caça Vira O Caçador
21 Dezenove - Jenny
Notas iniciais
Enjoy!
Iriamos acomodar Luccas lá fora, mas a madrugada estava realmente fria, então resolvemos trazê-lo para dentro.
É claro que tinha centenas de venenos e armas mortais por perto, para que pudéssemos ataca-lo facilmente.
Megan arrumou o sofá gentilmente, colocando algumas cobertas e dois travesseiros macios. Enquanto eu a observava, sentia o lobisomem com os olhos fixos em mim. Não sei como, mas eu sentia que ele estava extremamente preocupado com alguma coisa, mas também havia indicio de surpresa ali.
Minha mãe suspirou e se voltou para Luccas, com uma de suas adagas preferidas apontando direto para o seu peito, enquanto eu aproveitava para lhe mostrar o frasquinho de veneno que eu tinha em mãos.
- Espero que não sinta frio aqui dentro. – Então ela franziu o cenho. – O que realmente não foi uma desculpa discreta para entrar aqui, mas quero ganhar um lugar no céu – disse com ironia – então vou fingir que estou acreditando que você está com frio. – Então sorriu. Aquele seu sorriso malicioso que eu adorava. Ela me lembrava das Amazonas, quando agia e falava daquele modo. – Saiba que pernoitarei aqui, para vigiá-lo. E farei isso quantas noites forem necessárias. Você não é nem um pouco confiável, lobinho.
Luccas grunhiu.
Pareceu muito com um dos rosnados que Rigle dava constantemente para mim.
- Agradeço. – Murmurou ele, desgostoso, ao se caminhar para o sofá. Porém, quando estava há cerca de cinco passos de seu destino, virou-se em minha direção de súbito, assustando-me e fazendo-me quase desabar no chão, devido a fraqueza de meu corpo. Antes que minha mãe pudesse reagir, Luccas me segurou firmemente pela cintura. – Você precisa descansar. – Olhou para minha mãe, que tinha um misto de irritação e satisfação no rosto. – Urgentemente.
Enquanto Megan corria em minha direção, Luccas se atreveu a me pegar no colo e me aninhar ~ como podia, pois eu sentia vertigens por causa da dor ~ em seu peito.
Mesmo naquela camiseta de Mason, Luccas conseguia ficar atraente. Seus músculos eram tão definidos e saltados, que começavam a me incomodar. Ele me levava como se eu tivesse o mesmo peso de uma pena, e não tirava os olhos de mim. Seus olhos eram de um azul silvestre, porém eram tão hipnotizantes quanto seus olhos amarelos e vermelhos de lobisomem.
Chegamos ao meu quarto e Luccas me deitou com extrema delicadeza em minha cama. Eu gemi e apertei um pouco forte demais sua mão, devido a dor angustiante que estava começando a sentir na região que havia sido mordida. Era como se centenas de facas estivessem penetrando em minha pele e se remexendo dentro de meu corpo, como que furando um caminho para sair.
Minha mãe se aproximou e sorriu para mim, beijou-me na testa e afagou uma de minhas bochechas.
- Fique bem, ok? – Ela tinha os olhos mais preocupados do mundo. – Eu vou estar lá em baixo, então… é só gritar, está bem?
Assenti com um pouco de dificuldade, mas minha mãe pareceu mais tranquila. Ela olhou com desprezo para Luccas e bufou.
- Pelo amor de Deus, fique alerta quanto à ela. – Disse minha mãe. Então abaixou um pouco o tom da voz, como se tivesse medo de que os Hyles da casa à frente a escutassem. – Você sabe, não é?
Eu teria franzido o cenho e esticado o corpo para ver suas expressões faciais, pois agora estavam ambos de costas para mim, mas eu mal conseguia respirar sem sentir dor, então apenas relaxei o máximo que podia e apurei os ouvidos.
- Sim. – Disse Luccas. – É por isso que estou preocupado. – Ele virou a cabeça para me olhar por alguns segundos, e seus olhos faiscaram. – A lua cheia continua seu ciclo na próxima noite… — Ele pousou os olhos no local onde havia me mordido – Seria bom se ela não saísse de casa. – Voltou-se para minha mãe. – De jeito nenhum.
Observei minha mãe assentir lentamente.
- E você?
Luccas deu de ombros.
- Sou um ômega que não pode voltar à floresta. – Ele ficou algum tempo em silêncio, pensando. – Posso me controlar muito bem, visando que será o segundo dia da lua cheia. Aquele outro caçador… o que finge ser guarda-florestal, ele pode me trazer um cervo. Vivo, se possível.
Megan assentiu novamente e virou-se uma última vez para mim. Eu sabia que ela havia percebido o quão curiosa eu estava, mas seus olhos diziam “você precisa descansar primeiro, e então conversamos”.
- Ou posso passar fome. – Continuou Luccas. – Mas sou um porre com mau-humor.
- Vou trazer a porcaria do seu servo amanhã. – Disse minha mãe, já começando a ficar irritada. – Espero que consigo aguentar a fome nesse resto de madrugada, porque eu não serei boazinha com você. Você salvou minha filha, mas… devido as circunstâncias do legado de nossa família, eu não tenho muito à agradecer.
Minha mãe só podia estar fazendo aquilo de propósito. A curiosidade começava a me corroer imensamente por dentro, e já estava começando a ficar difícil de permanecer parada e relaxar.
Por sorte – ou azar – Megan pareceu perceber que eu começava a me agitar novamente.
- Vamos descer. A menininha aqui precisa de uma boa noite de sono…
- E Mason? – Perguntei. – Temos escola amanhã… E o treino das líderes... E….
- Shhhh. – Fez minha mãe, colocando o indicador em meus lábios. – Vai ficar tudo bem. Eu aviso amanhã ou, no caso, daqui à algumas horas, sobre o seu estado. Quanto as líderes, você tem uma vice, não tem?
- Debby. – Falei em tom azedo.
Minha mãe sorriu.
- Ela vai se sair bem. Agora durma. – Minha mãe pegou uma cartela de comprimidos de sua bolsinha e me deu um, apontando para o copo de agua que jazia em meu criado-mudo. Beliscão soltou um pio desanimado de sua gaiola, ele parecia estar sofrendo o mesmo tipo de dor que eu. – A ligação empática de vocês dois é muito mais real para ele do que para você. – Disse minha mãe como se estivesse lendo minha mente. – Ele sabe que está doendo, ele consegui sentir uma dimensão dessa dor.
- Beliscão… — Murmurei, sorrindo fracamente para ele. Ele me retribuiu um olhar triste e sem brilho. – Vai ficar tudo bem.
- Vai sim. – Disse Megan. – Boa noite, querida.
- Mãe?
- Sim?
Olhei para Luccas e fiz uma careta.
- Vou ficar sozinha com ele aqui amanhã?
- Francamente! – Reclamou o lobisomem. – Não vou matar ninguém. Se eu quisesse ter te matado, eu teria. Há algumas horas atrás. Quando você estava completamente indefesa na floresta!
- Exatamente. – Minha mãe deu de ombros. – Hyles não te acha tão confiável, e, bem, você não é. Mas não tem motivos para matar Jenny. – Ela sorriu para mim, me tranquilizando. – Durma, está bem? Amanhã… caso sua cabecinha ainda fervilhe com perguntas, Luccas vai saber responde-las. – Então o olhou sem emoção. – Isto é, se ele for um lobisomem de verdade.
Luccas bufou e começou a se aproximar da porta.
- É a primeira coisa que aprendemos quando nos encontram. E é bem difícil de esquecer. – Esperou que minha mãe saísse e olhou para mim. – Cuidado com o bicho papão. Ele está de baixo da cama. – E fechou a porta com um baque surdo.
Eu comecei a matutar imediatamente, formando centenas de perguntas que faria para Luccas de manhã. Porém, o remédio que minha mãe me dará começara a fazer efeito, deixando meus olhos pesados e me fazendo bocejar.
***
Tive um sono sem sonhos.
O que era ótimo, pois eu sabia que iria reviver mentalmente o que havia vivido ontem na floresta.
Entretanto, não me sentia descansada. Foi só eu abrir os olhos para que as engrenagens dentro de meu cérebro começassem a rodar novamente, formando perguntas cada vez mais complicadas e irrespondíveis.
Minha mãe havia deixado um bilhete ao lado de minha cama, com os dizeres “Espero que não esteja doendo mais. Cuidado com os efeitos lunares hoje. Eu te amo.” escritos nele.
Foi quando percebi que, realmente, eu não esteva sentindo dor. Surpresa, caminhei até o espelho mais próximo e levantei – com extrema cautela – a parte da blusa de Mason que estava tampando meus curativos. Depois, com ainda mais cuidado, retirei os curativos e soltei um gritinho.
Não havia sequer uma única marca ali. Era como se a mordida não houvesse acontecido.
Como eu pudera me curar tão rápido? Isso queria dizer que, de alguma maneira, eu era uma lobisomem?
Cinco segundos depois, um garoto de bermudas vermelhas e chinelos de dedo muito pequenos para seus pés apareceu ao meu lado, assustando-me. Luccas estava com os olhos de lobo, e olhava com afinco para onde antes havia a marca sangrenta de sua mordida.
Eu o olhei com um ponto de interrogação enorme desenhado na testa.
- Isso só pode querer dizer uma coisa. E infelizmente não é assim tão boa quanto vai parecer.
Eu comecei a bater o pé enquanto colocava as mãos na curvatura da cintura.
- Se eu virar uma cadela, eu vou arrancar suas tripas, cão.
Luccas começou a rir.
- Não tem graça nenhuma, idiota!
- Tudo bem. – Disse ele, extremamente risonho. – Você não vai virar uma cadela, pelo menos não totalmente.
Arregalei meus olhos.
- O que está querendo dizer?
Luccas deu de ombros, desprezando minha pergunta.
- Vamos comer alguma coisa. – Disse, arrastando-me para a cozinha.
Ao chegar na cozinha, eu não conseguia me conter. Luccas me pediu para que sentasse na cadeira à sua frente e cruzou os braços. Eu estava a ponto de pedir que ele colocasse uma blusa, quando ele pigarreou e semicerrou os olhos.
- Você quer ovos mexidos ou fritos?
Fiz uma careta e joguei as mãos para o alto da cabeça, totalmente incrédula.
- Não vou falar nada enquanto não comer alguma coisa.
Revirei os olhos para ele.
- Faça a droga dos ovos mexidos.
Luccas sorriu e começou a preparar meu café da manhã. O único problema era que ele era um lobisomem.
E geralmente lobisomens comem pessoas, e não ovos mexidos.
- Ah, deixe que eu faço isso. – Falei com amargura, retirando a panela de sua mão e ligando o fogo do jeito certo. Coloquei os ovos e os mexi com um garfo. Depois suspirei, virando-me para ele com raiva. – Pelo amor de Deus, desembucha.
Luccas suspirou.
- Acho melhor você se trocar. Está parecendo uma réplica daquele garoto esquisito… — Então piscou – bem mais bonita, é claro.
Revirei os olhos novamente. Porque ele precisava ser tão irritante?
- Luccas, eu juro que se você não começar a falar, eu vou te prender com uma coleira. – Falei, pausadamente e bufando no final. Estava ficando com raiva muito mais rápido do que o normal. E estava sentindo meus músculos se mexerem dentro de mim.
Luccas pareceu um pouco alarmado. Ele se levantou de sua cadeira e se postou diante de mim. Os olhos alterando para os olhos caninos e ferozes que ele tinha.
- Quero que se acalme. – Disse ele, olhando fixamente para meus olhos. Eu começava a sentir que eles estavam ardendo. – Quero que se acalme agora.
Aos poucos, a ardência nos meus olhos começou a diminuir até parecer que estavam levemente irritados. Meus músculos pararam de tremer, mas eles pareciam estar doloridos. Respirei fundo e voltei-me para o fogão, desligando o fogo e despejando os ovos mexidos em um prato qualquer da pia.
Sentei-me em frente à Luccas, e apontei para os ovos.
Ele fez uma careta.
- Já tenho o cervo de sua mãe. – Ele fungou e fez uma careta ainda mais horrenda. – E isso ai é nojento. Parece vômito.
Eu olhei desgostosa para meus ovos e, delicadamente, afastei o prato com o indicador. Olhei para Luccas e levantei uma das sobrancelhas.
Ele fingiu me ignorar por alguns segundos, mas ao ver que eu persistia em olhá-lo interrogativamente, revirou os olhos dramaticamente em minha direção.
- Ceeeeeerto. – Falou, arrastando o “e” de um modo bem teatral. – Tente imaginar a Idade Média, onde tudo começou. Onde o seu clã começou. – Ele esperou um pouco. Depois assentiu, parecendo meio nervoso. – Lobisomens existiam naquela época também, é claro. E era tudo uma verdadeira ceia natalina, até que seu… hã… tatatatatatata…. – Ele franziu o cenho. – Eu não sou bom com isso… Matemática e datas e…
- Luccas! Dane-se o número de tatas, só continue a história.
Ele deu de ombros.
- Até que seu tataravô – Ele sorriu amarelo – resolveu caçar alguma coisa na floresta. Ele queria um lobo. E, bem… foi o que ele achou. Foi ele que deu início ao seu clã, Jennyfer, ao lutar com esse lobisomem. – Luccas respirou fundo. – O grande problema é que seu tataravô, Lorien Clein, foi mordido e conseguiu escapar. – Ele riu ao ver minha expressão. – Todos os Cleins da primeira geração acharam que seu líder ia morrer, mas na manhã seguinte a primeira lua cheia… bem, não havia dor, nem cicatrizes, muito pelo contrário: ele se sentia mais vivo do que nunca. – Eu fiquei boquiaberta. – É familiar para você? – Perguntou Luccas sorrindo. Como eu nada falei, ele continuou. – Quando a lua cheia apareceu no céu, grande e brilhante, Lorien não resistiu ao impulso de ir olhá-la, e quando ele o fez…
- Quando ele o fez…? – Insisti para que ele continuasse.
- Quando ele o fez, ele sentiu que havia algo de errado em si mesmo. E é claro que havia. Seu rosto adquirira características caninas, suas orelhas estavam pontudas, e seus olhos tinham uma intensa cor de laranja amarelado, com alguns pontos de azul perto da íris… — Sufoquei um grito, tapando minha boca com ambas das mãos. Luccas não pareceu perceber que eu estava a ponto de ter um colapso nervoso ali mesmo. — Laranja, amarelo e azul. Como fogo. – Ele esticou as garras da mão esquerda e começou a cutucar os ovos mexidos. Ao perceber que eu olhava totalmente aterrorizada para aquelas unhas pontudas e ameaçadoras, ele acrescentou – Ah, ele tinha isso também.
O silêncio dominou a cozinha por completo. Luccas parecia querer ver alguma reação minha que fosse mais animadora, mas eu só conseguia tremer e me sufocar para não sair correndo dali e gritar. Eu estava prestes a virar um monstro que eu mesma estava treinando para caçar? Como iria explicar isso a Mason e seu pai?
- Obviamente sua família tentou mata-lo, e obviamente não tiveram sucesso. Eles perceberam que não era uma transformação completa… perceberam que era diferente. Que Lorien continuava Lorien, só que um pouco mais monstruoso.
- É isso que vai acontecer comigo, não é? – Perguntei com a voz falhada. Estava lutando contra as lágrimas. Um caçador virar sua própria caça… era repugnante. Eu acharia repugnante. E agora isso estava prestes a acontecer.
Luccas assentiu.
- E o que aconteceu depois? – Perguntei, fechando os olhos para que as lágrimas não caíssem.
- Lorien ganhou um “tchã” a mais. – Ele riu – Um poder a mais. Um poder que só se ganha quando é mordido por um lobisomem ou um vampiro. Cada clã ganharia seu poder diferente, mas era o clã Clein. Então foi o poder do fogo.
- Fogo? – Perguntei surpresa.
- Sim, fogo. Seu tataravô era capaz de controla-lo com uma destreza que impressionaria até mesmo o deus Hefesto da mitologia grega. E foi por causa dessa “tchã” que o seu clã virou o seu clã. – Ele suspirou. – Como deve saber, os dragões são atraídos pelo fogo, então é claro que Lorien começou a atraí-los. Ao fazer isso, se conectou com o líder dos Volcanos…
- Os dragões de fogo. Os guardiões dos vulcões… — Falei em transe.
- Exatamente. Ao se conectar com o líder, Lorien abriu caminho para que sua família se conectasse com os outros dragões, e foi quando o restante deles ganhou uma pequena parte do poder de fogo compartilhado por seu tataravô e seu mais novo mascote. Sendo assim, os dragões foram os primeiros mascotes do seu clã.
Beliscão, que estava no parapeito da janela, deu um pio indignado. Ele parecia bem melhor, assim como eu. Suas penas e seus olhos estavam mais brilhantes do que nunca.
Luccas fez um gesto de desdém com as mãos para Beliscão.
Posso bicar esse grande nariz empinado dele?, perguntou Beliscão em minha mente. Eu realmente adorava quando ele fazia isso, de se comunicar comigo através do nosso elo empático especial. Eu não fazia ideia se Rigle podia fazer isso. Sorri, desculpando-me, para minha grande águia e voltei a prestar atenção na história.
- Seu clã era o maioral dos clãs, e é óbvio que tanto poder ia chamar atenção. Principalmente da alcateia da qual descendia o lobisomem que mordera Lorien. E… bem, naquela época os clãs estavam começando a se juntar, o que queria dizer que eram eles por eles mesmos praticamente.
- Tipo agora. Saquei.
Luccas continuou, um pouco enfezado por minha interrupção.
- Ao mesmo tempo em que os lobisomens observavam Lorien, Lorien observava os lobisomens. Porém, enquanto os lobisomens estavam puramente curiosos, seu tataravô estava planejando uma verdadeira carnificina. – O semblante de Luccas se tornou triste. – E foi o que ele fez. Na primeira noite depois do ciclo da lua cheia, Lorien encontrou o local onde toda uma alcateia feliz estava descansando… Eles estavam dormindo, e embora tenhamos sentidos aguçados, Lorien conseguiu disfarçar seu cheiro e…
- E? – Incentivei, lutando contra o impulso de abraça-lo. Ele estava realmente triste.
- Ele matou o Alfa.
- Oh. – Foi só o que pude dizer.
- Uma alcateia sem alfa é a mesma coisa que um caçador sem suas ferramentas de caça. E foi por isso que o restante do seu clã conseguiu chegar lá e matar todos facilmente. – Luccas começava a ficar com raiva. Seus olhos estavam adquirindo as cores vermelhas e amarelas novamente. – Mataram todos. Sem exceção. Porém, seu querido tataravô foi extremamente burro ao subestimar os ômegas que viviam na região. E foram esses ômegas que se juntaram e formaram sua própria alcateia. Uma alcateia sem alfa, que foi poderosa o bastante para matar todos os dragões do seu clã.
Arregalei meus olhos. Não sabia mais o que pensar, ou o que dizer.
- E quero que se imagine sem Beliscão. Matar o mascote de um caçador, é como retirar parte de sua alma. O clã Clein perdeu totalmente seu poder, voltaram a ser caçadores normais, e o poder de fogo, que sobreviveu apenas com Lorien, começou a desaparecer ao longos dos anos. Nessa altura do campeonato, já havia outra alcateia, e essa alcateia ainda buscava por mais vingança. Matar os dragões e deixar o clã totalmente fraco não era o bastante. Eles queriam matar aquele que começara com tudo aquilo.
- Lorien. – Falei com firmeza.
Luccas assentiu.
- Ao matarem Lorien, o restante do clã fugiu. Eles sabiam que seria idiotice atacar aqueles lobisomens, sabiam que não tinham mais esse direito. E por isso fugiram.
- Oh.
Luccas deu de ombros e cheirou uma pedaço de ovo mexido.
Ele não pareceu gostar muito, devolvendo-o ao prato.
- Seu clã se refugiou numa ilha qualquer do oceano Pacífico. Nessa ilha havia um ninho… de águias. E havia muitas delas por ali também. Entretanto, foi só na segunda geração do seu clã, que elas serviram para alguma coisa que não fosse comida.
Beliscão piou novamente, ele estava irritado com aquela história sobre águias servirem de comida.
- Não sei muito bem como eles se conectaram com as aves… acho que pararam de comê-las e começaram a aparecia-las, começaram a idolatrá-las. Sendo assim, elas se sentiram seguras para se aproximar daqueles humanos.
- E depois? Como voltam para a civilização?
Luccas deu de ombros.
- Fazem uma arca? Eu não sei. Eu acho que eles tinham um barco, ou era um avião? Não faço a mínima ideia. – Então cruzou os braços. – O resto da história é bem simples: voltam para cá, reencontram os clãs, ficam amiguinhos novamente, e descobrem que seu verdadeiro dom não é o fogo, e sim o combate corpo à corpo. – Luccas fechou os olhos e, ao abri-los novamente, percebi que haviam voltado ao habitual azul intenso. – Desde então se tornou terminantemente proibido mordeu um caçador, qualquer caçador, de qualquer clã, e deixa-lo viver.
- Oh. – Falei pela terceira vez. Então olhei para o local onde antes havia uma mordida. – Então… — Voltei meus olhos para o lobisomem. – que diabos você fez?
Ele sorriu.
- Não acho que você vá matar toda uma alcateia.
- Vou começar a controlar o fogo? – Perguntei esperançosa.
- Não é um poder certeiro. Você pode ou não herdá-lo… já passou muito tempo, pode nem estar mais percorrendo suas veias. A única coisa certeira, vai ser o que vai acontecer com você essa noite.
Assenti.
- E será assim toda lua cheia?
- Sim, até você aprender a controlar. Vou te ajudar nisso, e preciso de ajudar, pois você irá atrair aquela alcateia, e eles vão querer te matar. E depois me matar. E não quero morrer, então vou ajudá-la a ser uma boa… cadela.
Eu o olhei perplexa.
- Me chame de cadela mais uma vez, e vai desejar nunca ter me mordido.
Ele alargou o sorriso.
- Planeja contar aos vizinhos? Um deles deve estar bem preocupado com você. Escutei seu celular vibrar uma centena de vezes.
Resmunguei algo inteligível.
- Como se adquire esses poderes especiais? Quer dizer, a mordida deve fazer algo lá dentro.
Luccas olhou-me com desprezo.
- Eu tenho cara de Wikipedia? Eu não sei.
- Eu vou ter vontade de… você sabe, comer gente? – Perguntei com desgosto.
Luccas começou a rir tanto, que achei que ele colocaria suas tripas para fora.
- É claro que não! – Ele limpou as lágrimas dos olhos. – É uma transformação parcial. Você terá características caninas e todos os sentidos mais aguçados na época da lua cheia. Só vai poder se “transformar” durante a semana de lua cheia. – Luccas apontou para minha barriga. – Acho que é porque sua parte caçadora acha ofensivo receber uma parte lobisomem desse jeito. Então vai ser tipo uma batalha interna, como foi comigo. O lado humano versus o lado monstro. Mas… no seu caso, o lado humano vai ganhar no final, porque o lado monstro está incompleto.
- Oh.
Luccas se levantou e se espreguiçou.
- Acho que você vai ser uma boa nerd e vai pesquisar respostas para as suas dúvidas… e nem pense em me pergunta alguma coisa, só de contar toda essa história eu já fiquei com enxaqueca. – Ele franziu o cenho. – E, pelo amor de Deus, ligue para aquele garoto.
***
- Ah, Jenny! Finalmente! Estou extremamente preocupado com você! Não que eu achasse que você iria vir para a escola, é claro, mas... Como está? Melhorou? – Mason estava eufórico do outro lado da linha.
Suspirei.
- Melhorei.
Eu não sabia como explicar para ele que, ao cair da noite, eu iria ser metade lobisomem. Mason não parecia ser muito receptível à isso, muito menos seu pai. Por isso lá estava eu, no galpão, lendo dezenas e mais dezenas de livros sobre “Transformações de lobisomens incompletas” enquanto dava respostas secas e ignorava meu melhor amigo de propósito.
- Ah… — Mason pareceu desanimado. – Que… que bom, Jenny. Eu estou saindo da escola agora, vou passar ai para ver como voc…
- NÃO! – Foi um pouco mais alto do que eu esperava, e senti que Mason havia prendido a respiração. – É que… bem, eu ainda não estou apta para ver pessoas. Pelo menos… pelo menos não sem a minha mãe.
- Tudo bem. – Ele disse, mas eu sabia que ele estava ressentido. – E quanto ao lobisomem nojento? Ele não tentou de matar ou coisa do tipo, tentou? Porque…
- Não, Mason. Ele não é mau. Ele me salvou. Ele… ele não tem motivos para me matar, entende?
- Eu não sei, Jen… ele não é confiável. Você sabe disso.
- Certo. Mason, tenho coisas importantes para fazer. A gente se fala depois, tchau. – E desliguei.
Talvez eu estivesse sendo rude, mas eu não sabia mais o que fazer.
- Ah, achei! – Falei, feliz, ao alisar a página de um livro vermelho e começar a lê-la em voz alta. – A causa de poderes especiais é rara, mas não impossível. Isso acontece devido ao fato do sangue do caçador se fundir com o da sua caça. Não é algo comum, e coisas que não são comuns nos fazem ganhar coisas especiais, que os outros não tem. Não há muitos registros sobre esse fenômeno, mas muitos dizem que o DNA de alguém que ganha esse tipo de poder, é totalmente modificado e danificado. O caçador (a) nunca mais será o mesmo. Isso pode, muitas vezes, tende-lo para o mal.
Suspirei novamente e deixei o livro de lado. Estava com dor de cabeça, e precisava comer alguma coisa.
Quando cheguei na cozinha, minha mãe estava cochichando com Luccas. Ao me ver, ambos se afastaram de súbito, o espeço que agora havia entre os dois me deixava ver um grande cervo desacordado.
- E você acha ovos mexidos nojentos, ham. – Comentei, olhando com desgosto para o animal. – Faça sua refeição o mais longe de mim, obrigada.
- Eu me recuso a responder. – Murmurou Luccas enquanto pegava seu cervo desmaiado e o levava para o quintal.
Eu e Megan nos encaramos durante algum tempo.
- E então? – Perguntou ela.
- Eu ainda não assimilei o fato de ser metade cadela, mãe, se é isso que quer saber.
Ele riu.
- Na verdade, estou falando sobre sua lição de casa da semana passada.
- O quê?
- É sério, Jenny. Você pode ter dons e lutar contra o sobrenatural, mas ainda sim precisa passar pelo ensino médio.
- Fala sério?
Minha mãe fez uma careta.
- Obviamente.
Subi, incrédula, para meu quarto e não faço ideia de quando dormi.
Sonhei que eu estava me transformando um poodle de 10 metros de altura, e que destruía a cidade porque haviam me oferecido ovos mexidos.
Fale com o autor