Notas iniciais
Ehhhhh! Bem, agora sou mesmo. Então, já posso pedir desculpas pelo atraso nos capítulos é que foi difícil elaborar explicações de forma mais... Dinâmica. Bem, então, é isso. Sem música tema nesse capítulo, por ser meio... "Sério". Bem, isso é tudo.
Enjoy!

“Ser ou não ser?”


“Acreditar ou não?” “Ter uma nova realidade?” “Ficar com a antiga?” “Enlouquecer?” “Monstros existem?” “Meu pai sabia de tudo?” “Ignorar?” “O que aquilo tudo podia significar na minha vida?” “Até que ponto eu estava envolvido naquela loucura?”.

Todas aquelas perguntas povoavam a minha mente. Era praticamente impossível pensar. Era impossível sentir qualquer outra coisa. Eu estava fechado num mundo onde nada parecia ser fixo, real. Onde eu não podia confiar em nada. Onde eu estava sozinho.

Um pouco de sol invadiu minha janela, atingindo meu rosto, que eu não precisava ver para saber que estava horrível. Eu podia sentir minhas feições caídas, as bolsas embaixo dos meus olhos, meu cabelo despenteado tomando volume me minha cabeça, e o sangue seco na minha cicatriz adiquirida ontem. E estava ainda pior com uma camiseta ¾ amassada e ceroulas, encostado num canto escuro que só tinha um fio de sol.

Mas eu não estava ligando para meu visual. Nem um pouco. Para ser sincero, eu não ligava para nada além do que estava dentro da minha mente. Uma confusão de dúvidas e idéias, da qual eu não conseguia identificar uma saída sequer. Mesmo depois de passar uma noite em claro, pensando, encostado naquele canto sem nem ao menos me mexer.

Foi nessa hora que eu trouxe uma memória dessa confusão: Jenny. Ela era a parte real dessa história. A garota que havia passado tudo aquilo comigo. E, se ela havia passado, era real. Só podia ser.

Lembrei-me do olhar de “vai ficar tudo bem” dela, ontem. Será que ela estava passando por tudo isso? Eu esperava que não. Mas, e se estivesse? Num estado deplorável, como o meu? Quem a ajudaria? Foi aí que eu percebi que eu era essa pessoa. Que a reconfortaria, e diria que iria ficar tudo bem. Mas, para ser um apoio, eu precisava estar bem firme nisso, nessa realidade.

Eu precisava acreditar.

Levantei-me do canto, meio tonto. Meu corpo ainda tremia, mas o sol presente foi motivador. Coloquei alguma roupa mais confortável e menos depressiva, acompanhando o nascer gradativo do sol. Iria ser um dia sem nuvens hoje. E aquilo me impulsionava cada vez mais.

Terminei de fechar o zíper da calça e saí do quarto, sem ligar para o fato da camisa vermelho-sangue estar justa demais, ou a calça jeans larga demais. Meu passo estava rápido, como se não houvesse nada que merecesse minha atenção. Nada que pudesse me atrapalhar.

Minha mente se focava em apenas descer lá e ouvir tudo o que meu pai tinha a dizer, sem contestar. Precisava achar uma forma de assimilar aquelas informações, pela Jenny.

Mas meu pai não estava em casa. O que havia em seu lugar era um bilhetinho amarelo, preso à geladeira:


“Tive que sair. O trabalho chama! Bem, mas sua escola não. Você passou por muita coisa ontem, está mentalmente abalado. Tire algum tempo de descanso, relaxe. Prometo voltar no almoço. Acho. Deixei algumas torradas para você no forno. Ah, não pude fazer o curativo em sua testa ontem, então... Você poderia fazê-lo?”

Eu teria estacado ali, só pelo fato de o meu pai não ter deixado eu ir à escola. Ou saído mesmo assim, só para falar com a Jenny na escola, o que era meu grande objetivo. Ou, talvez, ficado surpreso com o fato de que, em vários anos escolares, esse era o primeiro dia em que ele me deixava ficar em casa.

Mas a frase “Deixei algumas torradas para você” repercutiu muito mais, pois meu corpo pareceu perceber o quão esgotado eu estava. E isso era muito justo, considerando que passei quase 12 horas sem comer, não dormi e não descansei, além de estar com a testa doendo pra caramba.

Corri para o forno, pegando a bandeja morna sem nem ligar para o calor em que se encontrava. Depois de depositá-la na mesa, peguei o leite na geladeira. Cego de fome, eu só percebi que estava comendo leite puro com torrada, sem nenhum tipo de talher ou copo quando já estava no terceiro gole de leite.

Mas não me importei. Eu sentia uma disposição louca se formando, como um frio na barriga, paradoxalmente à minha vontade de acreditar no que meu pai me dissera na tarde passada. Era como se tudo parecesse fazer sentido.

As coisas estranhas da minha vida, as coisas estranhas do meu pai, e as coisas estranhas que aconteciam comigo e tudo de estranho que se sobressaiu nos últimos dias, agora pareciam finalmente ter alguma razão. As minhas suposições sobre qualquer coisa sobrenatural por trás de tudo aquilo pareciam mais reais.

De repente, aquilo não era mais uma total loucura. A realidade não parecia mais tão confusa agora. Por não poderia haver outras coisas além do que conhecemos? Por que aqueles livros de mitologia não podiam ter um fundo de verdade?

Minha mente foi se suavizando. Eu podia raciocinar agora. Era possível acreditar. Era possível acreditar sem enlouquecer. Era possível.

Tudo o que precisava era uma prova.

Algo mais físico que a intuição. Algo que fosse incontestável. Algo que me lembrasse a todo o momento de que eu não estava louco. E minha mente se encarregou de procurar alguma coisa que pudesse ser enquadrada como prova. Algo que tenha deixado marcas quando aconteceu. Mas não consegui achar nada.

Levantei-me da cadeira, satisfeito. Não mentalmente, mas fisicamente. E então comecei a andar pela casa, pensando, logo depois de limpar o ferimento na testa e colocar um band-aid. Sempre penso melhor quando estou andando. Como se as idéias fluíssem mais, sei lá. Mas adianta muito.

E foi andando que eu notei, no corredor, a porta do sótão. E não era o que tinha atrás dela que me chamou a atenção. Era o fato de que não havia correntes ou cadeados nela. Estava totalmente aberta. O que havia mudado para que meu pai destrancado a porta?

Eu.

Agora eu percebia. Durante todo esse tempo, meu pai escondera aquilo de mim. Para me proteger da vida que ele levava. Para impedir que eu passasse pelo que estava passando. Mas, agora, eu sabia de tudo. Ele não tinha mais nada para esconder.

Sorri. Aquela poderia muito bem ser a prova que eu queria. Provava muita coisa. Aquela realidade não poderia ser mais real agora.

Mas minha consciência ainda precisava de algo mais físico. E aquela porta aberta era a solução para esse problema. Com muito cuidado, abri a maçaneta, ouvindo o ranger lento que se seguiu. Não havia nada além de alguns degraus e escuridão na minha frente. Passei a mão pela parede antes mesmo de começar a descer as escadas, procurando o interruptor. Achei-o um pouco abaixo da linha da minha cintura. Sorri. Era mais alto quando entrei lá pela última vez.

Os degraus abaixo de mim se multiplicaram. Era uma grande escada de madeira agora, caindo cada vez mais. Comecei a descida, escutando os rangidos ritmados que se seguiam. Meu estômago estava se embrulhando a cada passo. Depois da mais longa descida da minha vida, meus pés tocaram o chão de pedra. Havia uma fina película de poeira no chão até onde minha vista alcançava. Percebi que deveria ligar a luz, estava muito escuro apesar de o sol estar bem presente lá fora.


O que eu vi depois de a luz ligar ficou gravado na minha memória para sempre. Era um pátio enorme, chão de pedra sólida e o teto do mesmo material. Parecia um salão medieval. Havia uma série de estantes enfileiradas, todas com vários compartimentos próprios. Andei um pouco mais, deixando a poeira subir um pouco. Havia algumas pegadas no chão, que eram grandes demais para serem as minhas. Eram do meu pai.

Enquanto ia seguindo-as, descobria mais e mais do porão, coisas que eu não tinha visto antes; tapetes do tipo que se vê em castelos medievais, só que com símbolos estranhos lembrando arcos, retratos de parentes antigos e algumas outras estantes. Nessa hora eu percebi que o conteúdo dos compartimentos eram flechas. Toneladas delas, com pontas de cores diferentes. Cada compartimento poderia ter umas cem ou mais flechas. Eu não consegui identificar, mas sabia que havia um padrão ali. Mas não pude constatar qual era, pois fiquei paralisado.

Não, não foi um mostro. Ou alguma coisa que tiraria meu sono. Eram cabides presos às paredes. Eles se localizavam abaixo de pinturas retratando outros parentes que não estavam presentes na outras paredes, e estes parentes antigos tinham inscrições logo abaixo deles. Ocupavam boa parte da parede, que por sinal era a mais alta e cumprida de todas. Como se fosse exatamente para colocar retratos por um bom tempo. Mas aquela não era a parte que me deixou paralisado. E nem eram os cabides.

Era o que havia nos cabides.

Arcos. Logo abaixo de todos os quadros e fotografias, sobre os cabides. Longos, curtos, curvados e retilíneos. Eu pude ver todos os tipos de arcos que conhecia. E alguns que nunca tinha visto em toda a minha vida. Cordas potentes, que ainda estariam em perfeito estado, se não estivessem cortadas bem no meio, de uma forma que me pareceu proposital. Fui andando, da esquerda para a direita, lendo rapidamente cada um dos nomes e analisando seus arcos. Havia um cara, Joffrey Hyles, que , pela foto antiga (que já fugia ao padrão de pinturas à mão), estava na época da Revolução Americana. Seu arco era de uma madeira escura, mais linda do que qualquer outra, muito imponente e forte, mas sua corda estava partida. Eu realmente queria usar aquele arco.

Continuei passando, de retrato em retrato, lendo nomes e admirando arcos, até que paralisei de novo. Havia uma fotografia em tamanho gigante do meu pai, com seu nome e tudo mais, só que ele estava mais novo. Não havia um arco sobre o seu cabide. Mas o que havia logo abaixo do cabide me surpreendeu mais.


Era o meu retrato.

Uma foto que eu nunca soube em que lugar estava na casa, que eu havia tirado à força no dia do meu aniversário de quinze anos. Eu estava sem os óculos, o que deixou meu olhar meio vesgo. Meu cabelo estava numa confusão, e minhas roupas estavam meio amassadas. Uma foto horrível. Mas estava lá, como se toda a honra que os outros membros da família tinham estivesse em mim agora. E não era só isso. Havia um arco no cabide abaixo da foto, também. Era um híbrido entre um arco retilíneo e um curvado. Madeira clara, como doce de leite. Não parecia muito ameaçadora. Ou imponente. Mas era um lindo arco, de qualquer forma. Sua corda era dura e trançada de um modo mais desenvolvido que os outros. Como se fosse feita para não partir tão cedo.

Peguei o arco, com as mãos tremendo. Uma onda de arrepios se espalhou a partir da minha mão. Era ainda mais forte do que quando segurei o arco do meu pai. Uma emoção tomou conta do meu corpo, uma emoção muito forte. Uma emoção que eu havia esperado a minha vida inteira, e só agora sabia disso. Uma vontade louca de atirar algumas flechas com aquele arco se apoderou de mim.

Uma luz pareceu se ascender na minha cabeça. Por mais que eu estivesse acreditando naquilo mais e mais, eu ainda precisava de uma prova. E aquela vontade de atirar com aquele arco pareceu se associar a isso.

Eu tinha um plano formado em minha mente.

***

Depois de moldar minha mente para o que estava por vir, ajeitei o alvo na árvore, dando dez passos para trás.

Seria agora ou nunca. Uma chance de provar qual lado era o certo. Meu pai dissera que eu e ele éramos... Caçadores sobrenaturais. Bem, considerando os arcos, acho que era assim que esses caçadores deveriam caçar. E, se eu era um deles, deveria ser bom nisso.

Para ser sincero, eu me sentia um idiota. Estava a dez passos de um alvo pequeno, que eu nunca havia acertado em toda a minha vida. E estava esperando para que algo sobrenatural acontecesse. Desistir daquilo tudo não parecia tão ruim. Mas... Tudo apontava para essa realidade. E eu sabia que meu pai fazia parte dela. Eu tinha que acreditar, e agora sabia como. Não ia deixar essa chance escapar.

Fechei os olhos, sentindo mais um apelo da minha sanidade para que eu parasse com aquilo. Mas eu ignorei. Eu precisava daquilo. Não importa o quão improvável fosse. Não importava o quão idiota soasse. Imaginei meu pai, dando um tiro preciso contra um alvo. Eu podia fazer isso. Era possível.

Eu era um caçador.

Soltei a flecha. Esperei alguns segundos depois da batida forte para abrir os olhos. Perplexidade misturada com felicidade me inundou quando percebi o a flecha cravada no centro do alvo. Era real. Uma sensação estranha se espalhou pelo meu cérebro. Eu sentia a nova realidade mais forte que qualquer coisa agora. Não importava se poderia ou não ser possível. E nada poderia mudar isso. Nem mesmo minhas certezas.

Senti uma lágrima escorrer pela minha bochecha. A emoção presente era insuportável demais para ser contida. Mas, logo após isso, outra dúvida povoou minha mente. O que viria a seguir? O que aconteceria comigo agora? O que mais eu precisava saber? E então minha mente voltou com as outras perguntas que foram por mim esquecidas. Coisas que eu queria muito saber.

Era isso. Meu pai tinha as respostas que eu precisava. Tudo o que eu tinha a fazer era esperar ele voltar para o almoço, e começar a fazer perguntas. Olhei para o céu. O sol mal havia deixado a linha do horizonte. Eu tinha que arrumar um passatempo enquanto meu pai não chegava. Mas o quê poderia ser? Eu acabara de fazer uma descoberta que mudara o curso da minha vida, o que poderia me ocupar?

Foi aí que eu olhei para as flechas e o arco em minhas mãos. A madeira “incolor” brilhava sob o sol, aumentando sua beleza consideravelmente. Se eu havia acertado um alvo com precisão uma vez, o que me impedia de fazer isso novamente?

Sorri.

Esse seria um passatempo considerável.

***


Trigésimo quinto tiro, eu já estava suando.

E isso era surpreendente, considerando que a única coisa que eu fiz fora atirar flechas. Talvez o culpado fosse o sol escaldante do qual eu não estava muito acostumado. Mas eu não ligava. A sensação de acertar algo com uma flecha era... Perfeita. Tão perfeita que eu não parei durante quatro horas e meia, acertando qualquer coisa que fosse legal de acertar com uma flecha. Era meio infantil, mas eu gostava.

Agora, com o suor encharcando minha camisa, eu iria realizar um último número, para finalizar – o sol governado o céu com todo o seu esplendor me dizia que meu pai já estaria voltando para o almoço. E esse número consistia em acertar cinco garrafas de vidro consecutivamente, como naqueles filmes de velho-oeste.

Ok, eu admito. Sempre quis fazer isso.

Mirei a primeira garrafa, já com a mente na flecha que pegaria na aljava a seguir. Era incrível sentir meus pensamentos fluindo enquanto atirava. Meu cérebro parecia estar mais rápido, processando informações e comandos muito melhor. Talvez isso fizesse parte... Daquilo tudo. Eu realmente não sabia o que estava acontecendo comigo, mas estava gostando cada vez mais. Eu me sentia... Poderoso.

Acertei a primeira, a segunda e terceira garrafas em menos de cinco segundos. Eu nem ao menos olhava o mesmo alvo duas vezes. Eu tinha certeza de onde o alvo estava, quando estava e como estava. Meu braço direito puxava as flechas com a força necessária, regulada, com a base da flecha bem em cima da linha. O ângulo era perfeito, não importava a posição em que estava.

Mirei a quarta garrafa, e logo em seguida presenciei milhões de cacos de vidro se esvoaçando ao vento. Então, mirei a última. Sorri. Não era mais tão difícil quanto eu pensava que era na infância. Era quase tão fácil quanto andar. Disparei. A última garrafa estava despedaçada em uma fração de segundo. Comecei a gargalhar. Era tão bom, sentir que algo foi destruído por uma flecha minha. Quase assustador. Mas era bom, de qualquer forma.

– É muito bom, não é? – Uma voz conhecida disse atrás de mim, assustando-me.

Virei, tendo certeza de que quem estava atrás de mim. Ele estava usando sua farda de guarda-florestal, sem o chapéu. Em seu ombro estava seu arco, a madeira escura brilhando sob o sol. Sua aljava estava vazia. Era meu pai.

Corri para abraçá-lo, largando o arco e as flechas que sobraram no chão. Ele foi muito receptivo ao abraço, excluindo qualquer imagem que eu tinha dele ontem, um pai frio e insensível. Ele estava caloroso, afetivo. Ele sorria um sorriso da mais pura alegria.

– Como você está? – Perguntou, depois de um longo abraço banhado pelo calor do sol.

– Para falar a verdade... Bem. – Encarei-o. É claro que seu olhar dizia que ele queria saber de mais. – De primeira, todo o que o senhor me disse foi... Estranho demais para mim. Muito mesmo. Eu quase enlouqueci.

– Era disso que eu tinha medo. – Ele disse, com um rosto triste. – Eu não queria dizer isso a você, Mason. Era a última coisa que eu queria fazer em minha vida. Envolver você nisso tudo foi... Torturante para mim.

– Eu entendo. – Confortei-o. – Foi necessário. Quer dizer... Eu poderia enlouquecer, mesmo se não soubesse de nada. Você me protegeu mais quando me contou do que quando me escondia a verdade.

– Essa não foi a única proteção em que eu estava pensando. – Ele completou, sua voz ainda emocionada. – Você corria perigo real, Mason. Do tipo mortal. Você corre perigo desde o dia do seu aniversário. Foi por isso que eu relutei em te contar. Em te colocar nesse mundo novo. Não é algo que eu quisesse que acontecesse. Ser um caçador é uma maldição. Mas... Eu assumi esse risco. Só queria que... Que você me desculpasse por isso.

De repente, o sol não estava mais tão quente. Aquela declaração do meu pai, com todo aquele arrependimento... Era triste. Ele se remoia por dentro, eu podia sentir. O mínimo que eu podia fazer era desculpá-lo, embora eu não soubesse pelo quê.

– Pai, está tudo bem. – Abracei-o mais uma vez. – Eu... Eu te desculpo. Não sei muito bem o porquê, o senhor não me fez nada de mal. Mas isso não importa. Tudo para deixar o senhor bem.

Aquilo tinha saído da forma mais verdadeira possível, e eu me impressionei com o resultado. Meu pai também.

– Infelizmente, – Ele disse, depois de um longo abraço. – você vai descobrir em breve. Só queria que você soubesse que não foi a minha intenção. Que eu não queria passar esse fardo para você. Mas... Isso está acima do meu poder.

– Eu entendo. – Disse, mais por obrigação do que por verdade. Eu não estava entendendo nada.

Meu pai sorriu, abraçando-me mais uma vez. Depois do ato de afeto, ele me olhou pensativamente. O mesmo olhar que ele me deu antes de me contar “a verdade”, ontem. Senti um frio na barriga. Mais verdades estavam por vir.

– Existem muitas coisas que você não entende ainda, Mason. – Ele disse, sua voz ficando sombria. – E entendê-las também é necessário para a sua proteção. Está pronto para mais uma conversa?

Engoli em seco. Meu cérebro nem ao menos havia digerido as últimas informações direito! Mas eu precisava saber mais. Responder às minhas perguntas. Às outras perguntas, as que eu tinha antes daquilo tudo. Elas pareciam vir com toda a força, agora que eu havia parado para pensar.

– Sim. – Respondi, preparando-me emocional e psicologicamente com um suspiro.

– Tudo bem. – Ele disse, começando a andar para a cozinha. – Me siga. As coisas que eu estou para te dizer... Precisam de um local apropriado.

De certa forma, eu entendi. Ele precisava de um lugar mais propício a tudo isso. Um local onde toda aquela realidade não pudesse soar tão louca, que não me confundisse muito. Que me fizesse aprender e entender mais rápido.

Acho que foi por isso que ele nos levou até o porão, ou o que quer que aquele lugar fosse. Talvez um QG ou coisa parecida. Mas, pelo menos, aumentou minha curiosidade. As perguntas haviam voltado a fluir. Talvez as perguntas que eu não pudera fazer quando estive aqui, mais cedo, e várias outras que eu me fizera antes. Meu pai acertara em cheio me trazendo pra cá.

– Bem, eu realmente ensaiei isso. – Ele disse, sua voz ecoando no salão. – Trazer você aqui, um lugar bem inspirador, te explicar umas coisas e... Te dar o seu arco.

Ruborizei com esse comentário. Meu pai não estava frustrado nem nada, mas o modo como ele disse, com ligeiro sarcasmo, me arrancou um sorriso. Meu pai estava de volta.

– Mas, tudo bem, senhor Apressadinho. – Ele riu. – Talvez uma etapa a menos no meu plano, mas está tudo bem. Vejo que o arco te fez bem, e é isso que importa.

Segurei o arco com mais força. Ele me passava uma sensação de realidade, de confiança. Era a melhor parte naquilo tudo. Eu me sentia bem com ele, aquela nova realidade mais acreditável. Eu precisava dele ali, agora, para o que estava por vir.

– Eu só queria que você entendesse a razão por trás do arco, antes de dá-lo a você. – Ele continuou. – Sabe, começar pelo começo. Não imaginei que você fosse sair daquele quarto tão cedo, ou perceber que eu destranquei a porta. Ou sequer entrar lá. Mas você o fez, e de certa forma melhorou as coisas pra mim.

Quando ele terminou de dizer isso, formulei a primeira pergunta do dia. Não que eu estivesse com um branco mental, mas eu não havia processado nada ainda. Até esse momento.

– Eu... Já posso fazer as perguntas? – Questionei, timidamente. Eu sabia que aquela pergunta não seria relacionada ao que meu pai queria falar, mas talvez eu pudesse desenvolver as próximas perguntas a partir dessa.

– Uau! Você está animado, hein! – Ele brincou. – Isso é bom. E a propósito, pode fazer, sim.

– É que... – Formulei a pergunta de novo mentalmente. – Por que você destrancou a porta? Quer dizer, você nunca me deixou entrar lá, e tudo mais... Alguma razão especial para isso?

– Oh, sim. – Ele respondeu, prontamente. – Eu trancava aquela porta antes porque você ainda não precisava saber disso tudo. Ainda não era a hora. – Ele pausou, por um momento. – Mas agora é diferente. A hora finalmente chegou. E você finalmente está fazendo parte disso tudo. Portas trancadas não eram mais necessárias.

Parei para refletir; por um lado, estava absorvendo as palavras de meu pai. Por outro, estava formando perguntas. Mas minha mente ainda achava o que meu pai dissera mais importante. Ele não iria esconder mais nada de mim. E aquilo me deixou feliz.

Então minha mente sentiu algo diferente no que ele disse. “Disso”. Eu estava “fazendo parte disso tudo”. A pergunta se formou instantaneamente.

– Eu estou fazendo parte do que, exatamente? – Fiz a pergunta, completando logo em seguida: – Quer dizer... Você falou sobre os caçadores, monstros e tudo mais. Mas você não me explicou nada, praticamente. O que nós... Quero dizer, os caçadores fazem?

Soltei aquela pergunta com certo esforço. Eu ainda estava achando aquilo tudo uma loucura. Dizer aquilo... Foi como atuar numa peça da escola, me forçando a crer internamente naquilo tudo. Mas minha curiosidade superava aquela incômoda sensação. E minha vontade também. Eu queria estar dentro daquilo. Queria ser alguém naquilo tudo. Como se aquela fosse a minha oportunidade de fazer algo realmente útil, algo que fizesse a diferença. E, para conseguir, eu tinha que acreditar.

– Bem... – Meu pai disse, usando uma quantidade assustadora de drama na voz. – Era essa a pergunta que eu queria que você fizesse.

Aspirei, sentindo-me mais leve. Meu pai deixava as coisas mais fáceis para acreditar para mim. Ele não fazia idéias de o quanto ele estava me ajudando.

– Nós... – Ele limpou a garganta. – Bem, é redundante, mas os caçadores caçam. – Um sorriso traspassou seus lábios, e eu sorri de volta. A tensão estava se aliviando cada vez mais, mesmo que o assunto estivesse ficando sério. – Nada mais que isso. O que nos destaca dos demais caçadores está no que caçamos.

– Monstros. – Completei, de forma mais natural do que pensei.

– Exatamente. – Ele replicou, feliz por eu ter respondido.

Ele não passou disso, matando minhas expectativas de mais respostas. Por alguma razão, eu não fiquei contente com aquilo. Eu sabia que aquela resposta não era tudo. Eu queria mais.

– Hã... Ok, nós caçamos. – Fiz essa última palavra soar de forma sarcástica, não sabia certo o porquê. – Mas... Caçamos o quê?

Ele sorriu.

– De tudo. – Meu pai explicou. – Qualquer coisa não-humana, ou sobrenatural, que seja agressiva à humanidade, para ser exato. Lobisomens, vampiros, mutantes... Como eu disse, de tudo.

Ok. Aquilo estava começando a fazer sentindo. O ghoul, o Oliver... Bem, não eram humanos. Eu tinha certeza disso. E essa certeza deu mais fundamento ao que meu pai disse. Monstros existem. Certo, isso estava sendo digerido. Mas não era essa a única pergunta que eu tinha.

– Certo... Caçadores de monstros. Processando. – Falei, de certa forma brincando. Eu já estava aceitando tudo aquilo muito bem. – Mas o que a Jenny e eu temos a ver com isso?

– Hmmm... – Ele gemeu. – Essa é uma parte complicada. Talvez você não entenda...

– Vou tentar. – Cortei, o mais rápido que pude. Estava cansado de ter respostas privadas.

– Certo... – Ele me olhou, desconfiado. Provavelmente estava pensando se eu estava psicologicamente bem. – Os caçadores existem desde o início da Idade Média. Surgiram com a necessidade básica de sobreviver. As criaturas sobrenaturais... Elas não permitiam que a humanidade avançasse. Crescesse. Foi nessa época em que os caçadores nasceram.

Ele pausou, o que pareceu uma eternidade para mim.

– Nós éramos aqueles que não se submetiam às regras impostas pelos monstros. Que sabiam suas fraquezas. Que sabiam lutar contra elas. – Sua voz ficou emocionada. – Os heróis.

Mais uma pausa. Ele parecia estar chegado a algo importante.

– Mas, conforme o tempo foi passando, a caça a esses seres foi se tornando mais difícil. Quer dizer, não havia só vampiros e lobisomens. Havia os humanóides, os sombrios... Muitos tipos diferentes para se manter num só modo de caçar. Os caçadores se separam.

– O quê? – Perguntei. Estava ficando difícil ficar calado.

– É, se separaram. – Ele repetiu. – Por dois motivos. O já citado, que são os diferentes tipos de monstros, e por divergências. Nem todos usavam as mesmas táticas de caça. E isso matava as estratégias, de vez em quando. Então, como solução, separaram os métodos em cinco, que eram os principais – arco e flecha, luta corporal, armadilhas, persuasão e emboscadas. Quem quisesse usar qualquer um desses métodos, se uniria a um desses grupos.

– E quem quisesse usar um método diferente? – Perguntei em mais um acesso de curiosidade.

– Não sobreviveria. – Ele disse, friamente. – Você precisava de um grupo para caçar monstros. Poucos conseguiam caçar com perfeição sozinhos. E, como criar um grupo do zero era difícil, eles precisavam se unir a um que fizesse seu tipo. Além dos mais, essas táticas que foram separadas de acordo com as que haviam na época. Ninguém sabia de um jeito melhor para se caçar.

– Faz sentido. – Disse, sem pensar muito no que saiu por meus lábios. Depois que disse, comecei a rir involuntariamente. – Faz muito sentido.

Aquilo era realmente estava começando a se assimilar em minha mente. Era como se meu corpo estivesse preparado para aquelas notícias, em parte. Minha mente processava tudo muito bem, sem levar em conta minha incredulidade. E isso me ajudava muito.

– É. – Meu pai riu, contagiado por mim. – Faz sentido.

– Mas... – Aquele momento era tão bom que eu realmente não queria interrompê-lo com mais uma pergunta; eu e meu pai, rindo juntos... Se não fosse o contexto, seria como eu estava sonhando nesses últimos dias. Mas eu tinha quase enlouquecido tentando pensar em alguma explicação. E eu a tinha, agora. Por mais que fosse duvidosa. E eu tinha que conseguir o máximo de informações que pudesse. – Qual é a ligação entre isso tudo e eu? Quero dizer... Você ainda não chegou nessa parte.

– Ah, é. – Ele sorriu. – Muito bem observado. Só queria que você soubesse a razão de algumas coisas. Tipo... “Começar pelo começo”, sabe? Então, agora que passamos da parte The History Channel, vamos para a parte divertida. – Ele sorriu maleficamente. – A parte legal.

– “Legal”? – Perguntei. – Pensei que isso fosse “uma maldição” e tudo mais...

– E é. – Seu rosto pareceu ficar mais sério. – Caçar monstros é abrir mão de tudo e todos por uma causa que talvez nunca ganhemos. A solidão desse negócio é assustadora. – Então ele suspirou. – Mas, sim, tem uma parte legal. Temos super poderes.

A saliva que eu estava para engolir ficou presa em minha garganta. Fiquei paralisado. Dentre todas as coisas que ele tinha dito, dentre tudo que desafiou minha mente, aquilo era o mais absurdo. Quer dizer, super poderes?! Isso era completamente idiota e... Espera. Eu tive super poderes. É. Minha mente havia resgatado aquele momento. A vez em que eu ouvi o motor falho do Camaro da mãe de Jenny. Sem que ela nem estivesse na rua. Se bobear, nem na quadra estava.

Mas assumir aquilo ia mais além de simplesmente “acreditar”. Aquilo seria viver. Queria dizer que eu, eu, tinha super poderes. Como um super-herói, o que era algo que eu nunca tinha me comparado. Ou acreditado. Do outro lado da minha mente, estavam os sons que escutei. Sons que pareciam sair da minha cabeça. Que parecia loucura. Mas eu descobri que não estava louco. E que o sobrenatural existia.

Enquanto minha mente entreva em outro conflito, meu pai apenas assistia, sem falar nada. Talvez ele estivesse esperando eu assimilar aquilo. Mas, depois de cinco longos minutos, ele desistiu de esperar.

– Tudo bem, tudo bem. – Ele disse. – Talvez eu tenha dito isso cedo demais. Ou da forma errada. Se isso... Confunde você, vamos chamar de habilidades especiais ao invés de poderes, ok?

– Ok... – Foi o que consegui dizer.

– Bem, como você ainda está... Desligado, vou responder uma pergunta que você pode estar se fazendo agora. “De onde eles vieram, se os caçadores são humanos?”, deve ser uma delas. – Ele pausou. – E a verdade é que ninguém sabe. O que sabemos oficialmente é que essas... Habilidades apareceram algumas gerações depois da divisão dos clãs. E, desde então, começaram várias teorias: De que o próprio Deus nos abençoou com poderes para continuar nossa jornada, ou que alguns caçadores se envolveram com suas presas e tiveram como resultado filhos poderosos... Mas é só especulação. – Ele baixou seu tom de voz. – Mas eu, pessoalmente, acredito na primeira. Quer dizer, o que fazemos é importante. Talvez Deus também ache isso.

Silêncio da minha parte.

– Ah, qual é! – Seu rosto assumiu indignação cômica. – Não é tão difícil assim. Eu criei você com tantas histórias, livros de ficção... Não pode ser que você não tenha tido qualquer fantasia! Você tem que acreditar!

– Mas eu acredito. – Respondi. Pela primeira vez, eu estava convicto daquilo. – Eu senti. Minha audição, meu corpo. Estavam diferentes. Tudo isso que está acontecendo... É real. E, além do mais... – Suspirei. – O senhor é meu pai. O homem em quem eu confio.

Silêncio da parte dele.

– Então... Apenas continue. Me explique.

Ele tomou aquela frase como uma declaração de amor. E era, de certa forma.

– Muito bem, Mason. – Ele sorriu. O sorriso mais legal que ele já tinha me dado. – Agora, onde eu tinha parado...

– As habilidades especiais?

– É. Bem lembrado. – Ele continuou sorrindo. – A única coisa que sabemos sobre esses poderes é que o ato de caçarmos os adaptaram às nossas necessidades. Durante gerações eles foram se modificando até finalmente chegar à sua forma mais desenvolvida, a sua.

– O quê?

– Certo, chegamos à parte que você queria. – Ele chegou mais perto. – Os poderes são passados de pai para filho, assim que o filho assume a idade corporal certa. Sim, os quinze anos. Quando os poderes vão se adaptar ao seu corpo corretamente. Ou seja: A Transição.

Aquela palavra parecia ter acertado meu estômago em cheio. Como se eu já tivesse ouvido-a antes. Mas a verdade era que essa palavra, ou melhor, seu sentido era completamente desconhecido para mim. Pelo menos até agora.

– Então... A razão pela qual eu tenho essas – Eu ia usar o termo “habilidades especiais”, mas, se eu ia enfrentar aquilo tudo, não tinha motivo para fugir delas. – Esses poderes é que... Eu, simples e absolutamente, sou seu filho?

Naquele momento, eu entendi o que meu pai quis dizer, hoje ao meio-dia. E, de quebra, eu não tinha mais problemas para acreditar naquilo tudo; de repente, era tudo verdade. Mas o principal fora saber que meu pai nunca quis aquilo para mim. E, a julgar pela sua voz quando me falou aquilo mais cedo, ele estava sofrendo por fazer isso. Mas era necessário. Pelo que entendi, os poderes era “transitados”. Não estavam mais nele, e sim em mim. Ele não tinha escolha.

– Injusto, eu sei, mas não totalmente. Recebemos um dom, Mason. – Ele tentava soar conformado com aquilo tudo. – E, só ter esse dom já é bom o suficiente. Não precisamos... Mantê-lo. É... “A Missão Hereditária”. – Ele sorriu.

– Entendi. – Disse, depois de um longo momento de silêncio.

– Sério? – Meu pai disse. – Já estava preparando as minhas repetições!

– Não precisa. – Rebati tão sarcástico quanto ele foi. – Eu sou bom de memória. – Depois de ver o semblante duvidoso em seu rosto, continuei. – Sério, pai. Eu... Consegui. Sem abalos mentais ou coisas do tipo. Foi difícil, mas eu acredito no senhor. E, de bônus, nessa loucura toda.

Ele fez cara de surpresa, mas depois veio seu sorriso. Ele estava realmente feliz.

– Estou orgulhoso de você, filho. – Ele disse. – Muito.

Senti meus olhos arderem.

– E eu te amo, pai.

Nos abraçamos, e foi nessa hora que eu percebi o calor que eu sentia, a poeira no meu nariz, minhas pernas bambas por ficar tanto tempo de pé. Mas isso era um bom sinal. Queria dizer que as coisas ao meu redor estavam se normalizando. Que aquela realidade ao meu redor já fazia parte de mim.

Que eu fazia parte dela, também.


Notas finais
Até o próximo capítulo, caros leitores! Reviews??