Quando A Caça Vira Caçador
1 PRÓLOGO — A Flauta que Chamou as Trevas
Estava frio.
Uma figura sombria estava sentada em uma pedra no centro de uma clareira. Suas vestes não passavam de panos negros e rasgados, como se feitos de sombras. Sua pele alva era vista apenas em seu rosto e em seus braços, refletindo a forte luz do luar. Seus olhos estavam fechados, apreciando a melodia proveniente da flauta que tocava.
De repente, outros sons irromperam na noite, abafando o belo som do instrumento. Galhos se quebrando, ganidos, piados… e um resfolegar sinistro. Segundos depois, várias criaturas saíram das sombras projetadas das árvores.
Um lobo cinzento de tamanho avantajado. Um homem extremamente pálido. Uma águia gigante pousada sobre o galho de um carvalho. Uma forma escura, quase translúcida, pairava acima do chão, segurando uma pequena foice. E esses foram só os primeiros.
Alguns segundos depois, outros seres, talvez ainda mais assustadores, surgiram — sombras vivas, um homem com cabeça de touro, e vários outros mais, indescritíveis sob as sombras. Foi nessa hora que o homem parou de tocar.
Seus olhos se abriram, revelando as belas íris verdes.
— Criaturas da noite! — ele bradou, se levantando sobre a rocha. — Peço-lhes um pouco de atenção!
Todas as criaturas se viraram para ele, como quem aprecia um espetáculo. O lobo cinzento deu alguns passos à frente, sendo seguido pelo homem pálido. Havia alguma intriga entre os dois. Antiga.
— Não pude deixar de perceber, durante todo o tempo em que aqui fiquei, o quão acuadas vocês são. Por que não conquistam de volta a terra que lhes pertence?
O lobo deu mais um passo, se transformando em um homem moreno logo depois. Ninguém pareceu se importar com o fato de ele estar desnudo.
— Não temos escolha — o homem recém-transformado disse. — Os caçadores nos aprisionaram.
A águia pousou no chão, revelando-se uma mulher de longos cabelos dourados.
— O lobo tem razão — ela disse, como se concordar com aquele homem fosse um castigo. — Já faz trezentos anos. Eles nos sitiaram aqui. Não há mais tentativas a se fazer.
— Tentativas? — o homem sobre a pedra parecia curioso. Ou fingia parecer.
— Os lobisomens tentaram. Os vampiros tentaram. Até mesmo os ghouls tentaram — a mulher-águia olhou para a forma translúcida, e ela acenou sua foice em resposta. — Até mesmo nós, os transmorfos, tentamos. Mas é impossível. Os cinco clãs ainda estão firmes lá fora.
— Não. — O flautista disse, sombriamente. — Não estão mais. Houve uma guerra. Só dois restaram. — Ele deu uma pausa. — Não foi uma guerra bonita. Foi guerra de clã contra clã também. E quando eles começaram a se rasgar por dentro, os monstros só fizeram o que monstros fazem: nós entraram pela fresta. Hushclaw, Ironknot e Silvertongue viraram história contada em sussurros. Arrow e Blade quase foram junto… até aqui. Até Weston. Até Mighan. Até a magia da floresta virar esconderijo e prisão ao mesmo tempo.
Boa parte das criaturas se entreolhou, mas os quatro primeiros — o homem pálido, o lobisomem, a transmorfa e o ghoul — se contiveram rígidos. A tensão aumentava a cada segundo, como se uma decisão precipitada pudesse causar o caos. Novamente.
— Mesmo que isso fosse verdade — o homem pálido disse, exibindo presas longas enquanto o fazia — estamos quase extintos. Não existe força maior agora. Nenhum de nós tem poder suficiente.
— Talvez. — O músico tinha um sorriso brilhante. — Mas, juntos, seremos imbatíveis.
Um mar de conversas paralelas inundou toda a clareira, enquanto o homem se preocupava em limpar sua flauta, como se aquilo fosse o mais importante no mundo. Finalmente, a conversa cessou, com o levantar da foice da forma translúcida.
— Juntos? — o ghoul disse; sua voz rouca era perturbadora como o som de aço raspando. — Mesmo que essa união seja um caminho a se tomar, e que suas informações estejam certas, o que você tem a oferecer?
— Oh, claro. — O flautista sorriu. — Eu sei como derrotá-los. Não existe tempo mais vulnerável para um caçador do que a Transição. Devemos destruí-los agora. Eu sei todos os pontos fracos deles. E vocês podem usá-los.
Ele esperou, até que todos os murmúrios cessassem.
— Além do mais, eu quero ajudá-los. A Era das Trevas foi a melhor que já existiu, quando vocês dominavam os humanos. Caos controlado. — Seu sorriso se iluminou ainda mais. — Só precisamos destruir os únicos que possam nos deter, ou seja, os caçadores. Traremos as Trevas de volta… o que me dizem?
Por um momento, o silêncio se fez presente.
Depois, uma horda de vivas ecoou por toda a floresta.
Naquele instante, os Quatro Grandes — o vampiro, o lobisomem, a transmorfa e o ghoul — se curvaram perante o flautista, depois de uma rápida troca de olhares.
— Nos guie para a vitória — todos os quatro disseram, quase em uníssono. — Nosso novo rei.
— Vocês terão sua vitória — o homem respondeu.
E, enquanto os aplausos monopolizavam toda a clareira, ninguém pôde ouvir quando ele continuou, silenciosamente, enquanto acariciava a branca cicatriz que lhe descia da testa até o queixo:
— E eu terei minha vingança. — A forma tremeluziu um pouco, da figura sombria com vestes negras e rasgadas para um homem alto, forte e moreno que usava vestes de linho branco.
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