Qualquer Outro Mundo.
5 “DRACO DORMIENS NUNQUAM TITILLANDUS”.
Notas iniciais
Mariana passou por Shyo com sorriso de gato na cara e foi direto para sua barraca, ao passar por Shyo ela percebeu o olhar de raiva da vampira. Mais tarde, nesse mesmo dia, Cornélius saiu com Dragomir, pois não queria deixar ele sozinho com Mariana, para buscar mais alimento e voltariam ao entardecer. Obviamente Shyo passou a manhã inteira ofendendo diretamente Mariana, que parecia ignorar tudo, o que deixava Shyo ainda mais enfurecida. Shyo a mandou tirar o vestido que havia ganhado de Cornélius, e colocar as roupas dela. Shyo a mandou fazer trabalhos desnecessários, como buscar água em um córrego, o que levou alguns minutos. Juntar lenha, empilhar pedra envolta da lenha, até mesmo pentear o cabelo dela. Para evitar se aborrecer com as provocações de Shyo Mariana repetia mentalmente para si mesma: “Ela só quer um motivo.”. Agora, Mariana estava tentando ascender o fogo, com duas pedras úmidas, para não dizer molhadas, enquanto Shyo a observava do alto de uma árvore.
– Não sei o que Cornélius viu em você... Garota feia e sem graça. – disse Shyo com uma naturalidade como se estivesse pedindo uma receita de bolo para Mariana.
– Por mim você pode ficar com ele todo para você! – respondeu Mariana. – Querida.
– Por que você agora, se acha boa de mais para ele? – disse Shyo. – garotas como você ele usa uma vez e depois joga fora quando cansar.
– Experiência própria? – Disse Mariana.
Shyo fechou a cara e com um estrondo como o de um raio atingindo o chão, ela pulou do galho onde estava direto ao chão, ela parecia que ia avançar para cima de Mariana a qualquer momento.
– Ainda mais uma tão inútil, se eu bem me lembro, você fugiu da festa de aniversário, onde quase todo o seu vilarejo foi morto. – provocou Shyo. – Você não fica se sentindo um pouco culpada?
Mariana virou as costas, há meses que ela não se sentia culpa, e tudo o que ela menos queria agora eram as palavras “amigáveis e reconfortantes” de Shyo.
– Vai fugir de novo?
– Eu não quero, e nem vou, falar sobre esse assunto com você! – respondeu Mariana.
Nesse instante Mariana ia caminhando até sua barraca, porém Shyo como um vulto pôs-se a frente dela, Mariana desviou e antes de entrar em sua barraca Shyo tornou a falar:
– Soube também que você abandou sua mãe ferida, na floresta, mesmo sendo bruxa não foi capaz de fazer um misero feitiço para salvar a vida dela. – Mariana parou e ficou escutando o que Shyo dizia sem virar para olhar para ela. – E ainda foi burra, veio direto para onde os vampiros estavam, onde eu estava. Você falhou Mariana, Sua mãe... Sua mãe morreu em vão!
Mariana ficou parada, sem mover um musculo, imóvel como uma pedra.
– E além de fracassada, você é também uma covarde. – disse Shyo – insuportável Mariana!
– Cala a boca! CALA A BOCA. – Disse Mariana exaltando a voz e virando-se na direção de Shyo. – Você não sabe o que aconteceu, sua vaca!
– Você me chamou de que?
Shyo avançou com tudo para cima de Mariana, que parecia ver a cena toda em câmera lenta. Mariana deu um tapa em Shyo que a fez cambalear para o lado, porém ela se recuperou, e empurrou os ombros de Mariana, que caiu em cima da barraca de Dragomir, Mariana levantou-se tão rápido quanto podia, então avançou para cima de Shyo, segurou a cabeça dela e deu-lhe um soco potente, tudo isso em uma velocidade impressionante, então Shyo se segurou em Mariana e prendeu suas pernas na cintura dela, então ela se impulsionou para traz – como se fosse dar um mortal – e soltou o corpo de Mariana, que bateu com violência em um árvore e depois girou algumas vezes no chão, Shyo investiu na direção de Mariana e a segurou por suas roupas de pele de animais, e a ergueu para cima com os dois braços, e a lançou contra a árvore novamente, o que fez Mariana gemer de dor.
– Levanta, vamos – disse Shyo. – Cadê aquela garota que derrotou um lobisomem.
Mariana levantou-se e correu em direção a Shyo que a ergueu segurando-a pelo pescoço e a prensou contra outra árvore, que começou a estalar e a rachar em seu tronco. Mariana então chutou com toda a sua força a barriga de Shyo, que caiu alguns passos para trás, e Mariana foi em sua direção, Shyo continuava deitada com cara de dor e com a mão sobre sua barriga, Mariana a segurou e começou e começou a dar tapas em seu rosto, com tanta força, quanto alguém podia dar. Ela podia sentir os ossos da face de Shyo rachando, e via o sangue escorrendo através dos vários machucados que se curavam quase que instantaneamente, Shyo pôs suas duas mãos envolta da garganta de Mariana e agora começava a apertar, Mariana sessou os tapas, ela agora, lutava para tirar as patas de Shyo de seu pescoço, foi então que ela lembrou-se de que Dragomir havia uma vez comentado com ela sobre a habilidade dela poder mudar sua forma física, de criar Garras, como a de um lobisomem, surgiram nos seus dedos, elas deviam medir sete centímetros cada uma, ela cravou as poderosas unhas no peito de Shyo que soltou seu pescoço imediatamente, e Mariana tirou as garras ensanguentadas de Shyo, e suas unhas voltaram ao normal, ela agora arrastava Shyo pelos cabelos e então a segurou com as duas mãos e começou a lançar Shyo para a direita e para a esquerda contra o chão, o impacto fazia um estrondo muito grande e além do som do impacto era possível ouvir os gritos de dor de Shyo, Mariana parou novamente, e quando olhou para sua mão viu os tufos de cabelos ensanguentados arrancados da cabeça da vampira.
– Quem é covarde, a fracassada, a inútil agora? – disse Mariana enquanto olhava com um olhar de vitória a vampira que se retorcia no chão. – Eu lembro que na noite do meu aniversário você perguntou como era apanhar tanto... Acho que agora você já sabe.
Mariana novamente se aproximou de Shyo e a segurou pelo pescoço, ergueu-a Shyo no ar com uma das mãos, e com a outra apontava o dedo na cara ensanguentada de Shyo, que pedia para que ela parasse.
– Nunca mais, ouse falar do que aconteceu com a minha família, nunca nem pense em minha mãe. – disse Mariana ameaçadoramente.
Mariana segurou a vampira pelos ombros a girou em 360º graus e a lançou contra uma árvore que quebrou, devida tamanha a força, e tombou violentamente contra o chão, Shyo permaneceu imóvel no chão, parecia não ter nem forças de falar. Desde o dia em que Mariana matou o lobisomem ela se sentia mais capaz, e talvez por isso derrotou uma vampira 200 anos mais velha que ela. Ao olhar a sua volta Mariana viu o tamanho e violência da luta, os locais onde ela havia atirado Shyo varias vezes contra o chão, tinham duas pequenas crateras, uma árvore estava caída, e outras duas estava tortas, pendendo para cair ao chão. E ao ouvir alguns passos ao longe e cada vez ficando mais e mais próximos, Mariana percebeu que eram Dragomir e Cornélius voltando, e em um piscar de olhos os dois estavam enfrente a ela e se depararam com a cena de Shyo meio careca, usando o vestido de Mariana e imóvel no chão, Mariana um pouco escabelada usando a roupa de Shyo, cheia de arranhões e marcas vermelhas no pescoço. Cornélius nada disse, apenas se aproximou de Shyo e a agarrou pelos poucos cabelos que ainda tinha, levantou sua cabeça e deu-lhe um pouco de sangue, logo os ferimentos dela estavam se curando, seus cabelos brotaram novamente de sua cabeça. Shyo se levantou ainda mancando seguiu Cornélius para outra parte da floresta.
– O que foi que... – Dragomir foi cortado por Mariana.
– Ela me provocou o dia inteiro, disse que eu era uma covarde, que tinha deixado meus pais para morrer quando fugi. – disse Mariana. – ai nós brigamos, eu dei uma surra nela... E vocês chegaram!
– Você bateu nela?
– Foi o que eu disse!
– Por que você não se conteve? – perguntou Dragomir.
– Eu até tentei. Mas ela disse que eu abandonei minha mãe na floresta, e nem tentei ajuda-la. – Respondeu Mariana. – O que você acha que ele vai fazer agora?
– Não sei, Cornélius é imprevisível. – Dragomir sabia muito bem o que ia acontecer.
Nesse momento surge novamente a figura de Shyo, mancando com a mão em sua barriga.
– Ele quer falar com você. – disse Shyo com um pequeno, mas visível, sorriso.
Mariana, enquanto caminhava em direção a onde Cornélius estava cogitou a possibilidade de ter de ficar em sacrifício, ou ser morta. Ela ia caminhando lentamente, até ver Cornélius sentado em uma grande pedra cheia de musgo.
– Primeiro... O que ouve? – perguntou Cornélius.
Mariana pensou em mentir, porem algo nela não a deixava fazer isso, então decidiu contar tudo, do começo ao fim. Cornélius mandou ela se sentar ao lado dele, e os dois começaram a conversar.
– Bem... Ela me mandou fazer coisas inúteis o dia todo...
– E foi por isso? Apenas por isso? – perguntou Cornélius.
– Não, claro que não! – disse Mariana. – Além disso, ela me mandou tirar meu vestido, e dar ele para ela, e me mandou usar as roupas dela. Também me insultou o dia inteiro, me chamava de fraca e de covarde, mas foi quando ela disse que eu deixei todos, no dia do meu aniversário, para que morressem que eu me irritei realmente e perdi o controle.
– Mariana, você sabia que no momento em que eu olhei para você, eu soube que você seria uma grande aliada da nossa espécie. Mesmo indo contra uma de nossas leis, que proíbe um vampiro de transformar um bruxo, eu te transformei, apenas anciões podem fazer esse tipo de coisa, por estarem acima da lei, então não me decepcione novamente, não me faça estar correndo todo esse risco em vão. – Cornélius tocou com sua mão o rosto de Mariana, e inclinou-se para dar-lhe um beijo, Mariana não fez nada, para ela, Cornélius apenas estava encostando a boca dele nela, por isso ela não considerava um beijo, ela sentia tudo, raiva, medo, náuseas, menos atração por ele. Mariana não dizia nada, e não se atrevia a olhar diretamente nos olhos de Cornélius.
Mariana queria vomitar, e estava com tanto ódio, que era capaz de dar mais duas ou três surras em Shyo. Mariana se levantou e voltou em direção ao acampamento, Cornélius disse a ela que iria logo. Ao voltar Mariana viu Dragomir tentando remontar a barraca dele, e Shyo estava parada de pé ao lado de toda a lenha que havia mandado Mariana recolher. Mariana passou direto e ficou ao lado de Dragomir.
– Então como foi? – perguntou Dragomir.
Mariana não respondeu, apenas olhou de canto para Shyo.
– Estamos no mesmo barco se não percebeu. – disse Shyo.
– Bem... – disse Cornélius surgindo como um vulto. – Shyo, você vai embora!
– M-Me-mestre? – disse Shyo, não crendo no que acabou de ouvir. – O que ela mentiu?
– Eu já disse você vai embora, e não deverá nos procurar mais!
– Cornélius... Por favor, seja sensato! – começou Shyo. – Você me conhece desde minha transformação eu... eu estou a tanto tempo com você, você me conhece!
– E é por isso mesmo que eu sei que você está mentindo! – disse Cornélius, Shyo engoliu em seco. – Você se esquece de que Crias NÃO PODEM MENTIR PARA SEUS CRIADORES! – gritou Cornélius e Shyo ouviu tudo com uma cara de susto e desespero. – E Mariana não mentiu... Portanto... Quem esta mentindo é você Shyo.
– Cornélius, por favor, releve. – implorou Shyo. – Eu te amo!
– Te daremos sangue, e depois você partirá.
– NÃO! – gritou Shyo – Eu não vou embora!
– Não vai por bem. Então vai por mal.
Antes que Shyo pudesse falar algo Cornélius a apunhalou no peito com o cabo do seu punhal – era de madeira e meio pontiagudo – Shyo caiu nos braços dele.
– Eu vou deixa-la longe daqui, depois que eu voltar partiremos. – E Cornélius passou pelas árvores da floresta tão rápido quanto a luz.
– DROGA! – gritou Dragomir.
– O que foi? – perguntou confusa Mariana.
– Você não entende...
– Fala de uma vez! – disse Mariana começando a ficar preocupada.
– Shyo! – disse Dragomir. – Ela era a única coisa que impedia ele de chegar perto de você.
Shyo havia tramado um plano para provocar uma briga com Mariana, e assim acusar ela de ser a responsável pela briga, sendo assim devendo ser punida por Cornélius, mas ela se esqueceu do detalhe de que crias não podem mentir para seu criador, mesmo se tentar, e o tiro saiu pela culatra. Mas então, como Shyo mentiu? Era o que Mariana se perguntava naquele momento.
– Shyo... Como ela conseguiu mentir para Cornélius? – perguntou ela.
– O que? – disse Dragomir, com cara de espanto pela tranquilidade de Mariana. – Hmm, ela foi libertada por ele, logo depois que ele me transformou, ele disse que ela era livre se quisesse ir. Mas ela decidiu ficar.
– Isso explica muita coisa.
– Você não esta preocupada? – perguntou Dragomir espantado.
– Bem...
– Você não vê? – disse ele, agora meio irritado. – Agora ele pode fazer o que quiser com você, e você não esta nem ai!
Mariana ficou com medo e repugnância ao pensar no que Cornélius faria.
– Só de pensar nele te... – disse Dragomir.
Mariana pôde observar as unhas de Dragomir crescendo em sua mão, ele definitivamente não queria pensar naquilo. Mariana nunca tinha visto Dragomir tão nervoso e com tanta raiva, durante os quase oito meses que se conheciam, quanto agora.
– Você não acha, que... Meu deus. – A cabeça de Mariana estava girando, só de pensar em outro contato físico com aquele homem, o beijo já havia sido uma tortura, se acontecesse algo mais... Só de pensar ela já sentia repulsa.
Enquanto Mariana mergulhava em seus pensamentos, tentando não imaginar o que aconteceria, Cornélius voltou tão rápido e silencioso quanto partiu. As roupas de Cornélius estavam encharcadas de água.
– Vamos. – disse Cornélius. – Não vai demorar muito até que ela se recupere, temos de ir agora.
– Mas e as nossas coisa? As barracas e... – Dragomir foi cortado por Cornélius.
– Deixe tudo ai, levaremos apenas o sangue das bolsas. Se quiserem levar algo mais, se apressem – disse o vampiro – vamos pelo riacho que tem ali atrás, ela não poderá nos rastrear pela água.
Mariana estava usando a roupa de Shyo, que para ela era meio desconfortável. Constituíam-se apenas em calças que pareciam ser calças masculinas de um rapaz franzino, suspensórios remendados rusticamente a calça e algo que parecia ser feito de um couro macio de algum animal, que ficava amarrado em X nas suas costas e preso ao pescoço como se fosse um colar. Porem Mariana havia levado seu vestido do baile que, agora lavado e diminuído, cortado na altura dos joelhos e sem aquela saia de baixo – não sei o nome, só sei que fica embaixo dando o volume ao vestido. – estava bem melhor. Eles partiram novamente para outro “acampamento”, se é que se podia chamar assim já que não tinham mais as barracas, foram descendo junto com o riacho até se distanciarem bem do antigo acampamento. Eles encontraram uma estrada e decidiram segui-la, e ao anoitecer encontraram uma estalagem, onde uma jovem com o rosto cheio de espinhas os recebeu, Cornélius a matou assim que pôs os dois pés para dentro, e na cozinha acharam uma mulher fazendo uma sopa, e logo chegou o seu possível marido, ele usou um machado para tentar apunhalar Mariana, Mariana torceu o pescoço dele na segunda vez que ele investiu nela. Mariana parecia estar mais acostumada a ver a morte, por pior que pareça, mesmo assim ela não gostava de fazê-lo. Nenhum dos três falou uma palavra, durante e depois da viagem. Cornélius foi para um quarto, para fazer sabe-se lá oque, Mariana e Dragomir não falaram uma palavra, apenas trocavam olhares, até por que, Cornélius poderia ouvi-los. Mariana estava desconfortável com isso tudo, a questão de Dragomir estar quase explodindo de nervoso, Cornélius olhar para ela com um jeito de cobiça, e tudo por que ela não conseguiu segurar a raiva diante de algumas ofensas. Ao menos alguma coisa havia valido a pena, ela tinha dado uma surra em Shyo, podia até ter sido um teatro de Shyo, mas da parte de Mariana, ela tinha com certeza batido com vontade, e a dor que Shyo sentiu durante e depois da briga foi real. E então com o chamado de Dragomir Mariana emergiu de seus pensamentos.
– Fala alguma coisa! – disse Dragomir.
– Eu vou até um dos quartos, trocar essa roupa. – disse Mariana. – Tá molhada, e é desconfortável.
Dragomir não disse nada apenas balançou a cabeça positivamente, e Mariana saiu da sala de estar e foi em direção ao corredor. Ela achou um quarto, tinha uma cama de solteiro, tinha apenas uma pequena janela, com uma cortina velha e um pouco remendada, o tapete parecia ser pele de Alce, e tinha um espelho velho e cheio de manchas pendurado na parede sobre um criado mudo. Mariana tirou o seu velho vestido que trazia dentro de uma bolsa improvisada, feita com o tecido da barraca dela, e colocou encima da cama, tirou a roupa desconfortável que um dia pertenceu a Shyo e a deixou no chão. Mariana agora, nua, se olhava no espelho, pensando que seu corpo jamais mudaria, jamais envelheceria, não naturalmente. Do nada a porta do quarto se abre rapidamente e quem estava nela? Cornélius ficou parado na porta olhando Mariana, nua, Mariana rapidamente cobriu seu corpo com o lençol que estava sobre a cama, e como um vulto foi até a porta e a deixou entreaberta, fazendo com que Cornélius ficasse para fora.
– O que você quer? – perguntou Mariana segurando a porta.
– Conversar!
– Ér. Espere-me na lá na sala. – disse Mariana. – Daqui a pouco eu desço.
– Mas eu...
– Não. Não se preocupe eu não vou demorar muito!
E Mariana, sutilmente, fechou a porta na cara de Cornélius, e deu uma volta na chave. – como se isso fosse impedir um vampiro de arrombar a porta. – Então, mesmo não precisando, ela suspirou fundo como se tivesse escapado de um feitiço mortal por pouco, e voltou até a cama onde vestiu o seu vestido, juntou a roupa que estava no chão e a colocou em sua bolsa, e saiu do quarto onde estava. Ao descer a escada Mariana pôde ver Dragomir sentado em uma poltrona e ao lado dele de frente para a lareira estava Cornélius. Mariana puxou uma cadeira que estava junto a uma mesa ao lado da porta da cozinha, e sentou-se entre os dois. Ela ficou olhando para Cornélius porem ele nada dizia, apenas olhava para as cinzas na lareira.
– E então? – disse Mariana quebrando o silencio.
– Desculpe? – perguntaram Cornélius e Dragomir em uni som.
– Cornélius o que você queria conversar? – perguntou Mariana, olhando para Cornélius.
– Ah sim, claro – disse Cornélius meio confuso. – Agora que Shyo foi embora, as coisas mudarão um pouco...
Mariana pôde ver o rosto de Dragomir ficar vermelho.
– As caçadas serão com todo o grupo, sempre! – disse Cornélius olhando para os dois. – E é isso!
Mariana que estava olhando atenciosamente o que Cornélius tinha para dizer, no quarto dela ele fez parecer que era uma coisa urgente, agora estava de cabeça baixa olhando para os seus pés tentando entender o que havia acontecido.
– Hm, é isso? – perguntou Mariana.
– Sim! – falou Cornélius levando um cálice de prata contendo sangue, a boca.
– É que pareceu ser um assunto urgente quando você falou comigo lá no quarto. – nesse momento Dragomir levantou de sua poltrona e foi em direção à porta.
– Acho que eu ouvi algum barulho, vou ver o... O que é. – disse Dragomir completamente vermelho.
Cornélius olhou para Mariana e deu um sorriso maldoso, enquanto um pouco de sangue escorria no canto da sua boca, e Mariana sentiu um arrepio sombrio percorrer sua coluna e ir direto para o seu pescoço. Mariana estava incrivelmente desconfortável em estar pela primeira vez, realmente sozinha com Cornélius, ele a olhava como um lobo olha sua presa, era tenebroso.
– Eu Vou... Ver se Vincent não esta precisando... Da... Da minha ajuda. – Disse mariana se levantando rapidamente e indo até a porta.
Ao sair Mariana, pôde sentir o ar gelado da madrugada, uma coruja cantava em uma árvore alta do outro lado da estrada, Mariana procurou Dragomir por toda a parte, porém não o avistou, foi então que Mariana ouviu um uivo vindo da Floresta, ela decidiu seguir a origem do som. Ela andou até uma parte um pouco remota da floresta, então avistou um grande lobo em cima de uma rocha, inicialmente ela achou que aquela criatura fosse um lobisomem, mas depois de chegar um pouco mais perto concluiu que era realmente um lobo, bem maior que os lobos comuns, mas ainda assim um lobo. Ao perceber a presença de Mariana o grande lobo virou seu focinho em sua direção, saiu correndo na direção oposta com uma grande velocidade, maior até de que a de um lobisomem. Mariana pensou em segui-lo, mas decidiu voltar para a estalagem. Ao virar-se na direção ela sentiu uma mão tocar seu ombro direito, instintivamente ela pegou a mão que a segurava e atirou a pessoa contra uma árvore que estava perto dela.
– Vincent? – disse Mariana ao chegar mais perto e ver que era Dragomir. – Ah meu Deus! Desculpa... Eu pensei que... Que fosse... Desculpe-me!
– Não, está tudo bem! – disse Dragomir aos poucos se levantando. – Eu não devia ter chegado de surpresa.
– Você esta bem? – perguntou Mariana com cara de preocupada.
– Bem eu acho que você quebrou meu braço quando torceu ele, mas vai ficar tudo bem!
– Tem certeza?
– Sim. – disse Dragomir. – Eu só preciso coloca-lo no lugar, para que ele se cure sozinho. Afinal, eu sou um vampiro.
– Ah, é! – disse Mariana. – Vincent, havia uma criatura, agora a pouco...
– Era eu!
– Em?!? – disse Mariana com cara da confusa. – quero dizer... O que?
– Era eu, o lobo. – disse Dragomir. – Lembra, das habilidades do clã rural?
– Então, porque você saiu correndo?
– Bom se você quiser me ver pelado, eu posso tirar a roupa agora. – Disse Dragomir com um sorriso. – Eu tirei minhas roupas, se você não percebeu aquele lobo era bem grande, eu não queria rasga-las.
Mariana estava um pouco brava com Dragomir por ele não ter se revelado a ela, mas depois de pensar um pouco, seria bem engraçada a cena de Dragomir pelado na frente dela, então Mariana permitiu-se sorrir.
– Olha... Mudando de assunto. – começou Mariana. – Sobre a história da conversa minha com Cornélius, no meu quarto. Foi só uma conversa mesmo! Eu jamais... Jamais teria algo com aquele monstro! – Dragomir sorriu.
Então os dois voltaram para a estalagem. Cornélius possivelmente estava em um dos quartos, Mariana sentou-se na poltrona em que antes Dragomir estava, e Dragomir dirigiu-se a cozinha. Mariana olhava sem piscar para a lareira, como se ali tivesse um fogo quente a aconchegante, porem ali só tinha uma lasca de madeira tendo metade virada em carvão cercada por cinzas. Mariana estava se perguntando agora, é raro um bruxo poder fazer magia, conjurar feitiços, sem a varinha, poucos nascem com esse dom, será que ela agora com seus poderes bem mais ampliados não conseguiria fazer magia sem uma varinha? Mariana então decidiu tentar fazer fogo. Ela se concentrou na lasca de madeira que estava na lareira e pensou em fogo, nada aconteceu, depois de vinte tentativas, Mariana já estava ficando com raiva, novamente Mariana estava tentando.
– Vamos lá! – sussurrou Mariana. – Arg.
A tora de madeira veio direto na cara de Mariana, espalhando cinza pelo cômodo em uma nuvem negra.
– O que houve? – perguntou Dragomir. – Porque esta tentando se camuflar? E alias tem formas mais eficientes de fazer isso. – Disse Dragomir com um grande sorriso de deboche, quando as cinzas baixaram deixando o rosto cinza de Mariana visível.
– Nem pense em rir! – disse Mariana, com uma incompreensível expressão debaixo de tanta cinza.
Dragomir que estava segurando duas taças com sangue sentou-se para não cair no chão de tanto rir. Mariana com raiva mandou a lasca de madeira e o resto da cinza que estava na lareira em Dragomir.
– Vem vamos limpar essa sujeira toda. – Disse Dragomir voltando para cozinha, acompanhado de Mariana.
Eles molharam dois guardanapos com um jarro de agua que tinha encima de uma mesa, Mariana começou a limpar seus braços. Enquanto limpava sua pele Mariana pensava se o que havia feito era realmente magia, definitivamente era magia.
– Você não me falou que conseguia usar Telecinese. – Disse Dragomir.
Então um estalo, só podia ser Telecinese, ao mesmo tempo, Mariana lembrou-se de que quando era criança sua mãe mencionou que sua bisavó havia aprendido a levitar objetos com a força mental. Lembrou-se dos vários livros que leu que mencionavam que vários bruxos dominavam a Telecinese: Circe, Herpo, Ezequiel... Todos bruxos muito poderosos e experientes. Então o bombardeio de pensamentos sessou, e ela se viu novamente na cozinha e agora limpava o seu rosto e pescoço.
– Como você sabe o que é Telecinese? – perguntou Mariana agora ficando de frente para Dragomir.
– Eu conheci muitos bruxos! – disse Dragomir. – Tem uma sujeirinha aqui – Falou limpando carinhosamente a bochecha de Mariana.
– Eu devo estar ridícula, toda cheia de cinzas. – disse Mariana agora batendo em sua roupa.
– Você é linda de qualquer jeito! – disse Dragomir segurando o rosto de Mariana com as duas mão, de um jeito terno. – É divina!
– Há... Eu to longe de ser divina – disse Mariana com um sorriso constrangido.
– Segurei seu rosto muito forte? – perguntou Dragomir.
– Por quê?
– Você ficou corada. – Falou Dragomir com pequeno sorriso.
– Não! Não, é... É que Telecinese exige muito esforço, e... – disse Mariana ficando mais vermelha ainda. – O que eu ia dizer? Ah, sim. Que bom isso!
– O que?
– O jeito como conversamos, o jeito como nos comunicamos, como amigos. – falou Mariana com um sorriso desajeitado. – Sim, por que somos amigos.
Mariana esperava alguma reação negativa de Dragomir, descordando da afirmação dela, porem.
– É. Amigos. – disse Dragomir estendo a mão para cumprimentar Mariana.
– É. Hm... Tchau! – disse Mariana apertando a mão de Dragomir, e saindo da cozinha desengonçadamente.
“Sua idiota, ‘Tchau’, não acredito que disse isso” Mariana estava brava consigo mesmo, por não ter tido desenvoltura para falar o que ela queria. Talvez ela tivesse ficado com medo de falar o que realmente sente, e ser rejeitada, ou simplesmente não achou as palavras corretas para se expressar. Mariana foi direto para o quarto onde algumas horas atrás tinha trocado de roupa, durante toda a semana Mariana ficou levitando os objetos da velha hospedaria, em uma manhã chuvosa um mensageiro de um reino distante bateu a porta da estalagem, pedindo um quarto para ficar, Cornélius depois de fazer varias e varias perguntas sobre a qual rei o mensageiro servia, quantos dias de distancia estava o reino, por fim o matou e aproveitou cada gota de sangue do homem. Mais tarde Cornélius anunciou que assumiria a forma do homem e entregaria a carta ao rei, e que ficariam no reino, disfarçados.
– Dragomir ensine-a a se transfigurar! – disse Cornélius, Dragomir apenas acenou positivamente com a cabeça. – Partiremos amanhã, estejam preparados será uma viagem longa, e de vários dias!
Notas finais
*TELECINESE: Habilidade bruxa de levitar objetos, somente bruxos experientes conseguem dominar parcialmente, poucos bruxos dominaram esta habilidade totalmente.
*ANCIÕES: Vampiros transformados, pela própria Lilith.
*CIRCE: Circe era uma grega antiga que viveu na ilha de Aeaea e era uma especialista em transformar marinheiros perdidos em porcos. Também foi a primeira bruxa a desenvolver habilidades telecinéticas.
* EZEQUIEL: Foi um bruxo muito poderoso e influente, foi o primeiro Mestre do Conselho, e criou muitas das leis existentes no Conselho dos Bruxos.
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