Qual outra, se não você?
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Eu a vi passando rápido por mim naquela esquina, uma beleza inconfundível, peculiar, algo que me fez arrepiar, que me fez imaginar de imediato sua boca na minha. Me lançou um olhar misterioso, ah, como eu queria me afogar naquele dilema. O sorriso, Deus, o que era aquilo? Poderia olhar para ele o dia todo... Pensei, dei mais alguns três passos antes de dar meia volta e chamá-la.
— Ei, você. — hesitei. Ela olhou para trás na mesma hora, algo me dizia que já estava esperando por meu chamado, bobo e impressionado.
— Hum? — confiante.
Disse que a tinha achado muito bonita, ela sorriu e soltou um "obrigada" envergonhado, e eu me derreti. Eu não queria parecer um babaca, não iria soltar piadinhas, cantadas, nada disso. Ela me pareceu doce, e era disso que eu precisava. Um doce. Um sorriso e uma voz que me acalmassem.
Convidei-a para tomar um café, nada de mais. Queria conhecê-la, queria desvendar o mistério do olhar, e que olhar. Não me conformava em apenas admirar sua beleza, queria mais. Eu sempre quis mais, só não sabia se ela seria ou não demais para mim. Eu não queria me apaixonar apenas por sua aparência, e ela não me pareceu fútil como as outras, algo me dizia que ela teria tudo que as outras não me deram. Diminuí minhas expectativas, não podia já estar sendo um trouxa a imaginar tanta coisa em relação à ela, talvez não fosse isso tudo, e eu me decepcionasse depois, e ora, meu coração já estava quebrado demais de outras coisas.
Nos sentamos em frente à janela de uma cafeteria da praça. Singela, ela apoiou seus braços na mesa, e, confortável, perguntou meu nome. Me impressionei, ela puxou conversa, antes do bobo aqui, isso era bom?
— James. — sorri envergonhado. Por quê? Não sabia... Eu geralmente sou tímido, mas não tanto quanto aquele dia.
— Bonito.
— Eu?
— Seu nome... — e riu — Okay, você também.
Aquilo me deu esperanças demais. Isso não era bom. Eu sou elétrico por dentro. Ansioso.
O nome dela eu consegui mais tarde: Rachel. Ela era realmente muito misteriosa, um charme a mais, desafio. Ah... Desafio, um mero gosto de perigo à frente, garota. Ela gostava de sair para jantar, dançar, e jogar em cassinos clandestinos a noite. De dia, trabalhava numa revista. Jornalista, acredita? Para mim, era espiã mesmo, com todo esse mistério bobo, para uma vida simples.
E eu? O fotógrafo nem tão renomado que adorava belezas naturais como a dela. E que nos fins de semana saía para beber e fumar com os amigos num barzinho de esquina.
Conversamos mais um pouco, pedi seu telefone. Minutos depois avisou que tinha que voltar, mas que adoraria ter outra conversa, piscou o olho para mim. Arrepiei de novo, e disse que com certeza teríamos.
Passei o resto da tarde pensando naquela mulher, o que estava acontecendo comigo? Fiquei estagnado olhando para o cartão de seu escritório. Joguei-me no sofá, liguei a TV e assisti à um romance, e o filme me lembrou ela. Okay, ela era realmente incrível, por dentro e por fora. Misteriosa e linda, quando se via, e, quando se conhecia, meiga e simpática.
No outro dia, não me aguentei, saí do trabalho às sete da noite, e, no caminho, liguei para Rachel. Chamou quatro vezes, ia desistir na quinta, que foi quando ela enfim me atendeu.
— Olha só... James. — disse surpresa.
— É, sou eu. Estou livre agora e pensei em... Sei lá, sabe, talvez irmos beber algo... — lancei a proposta.
— Tenho algo melhor... — e ela aumentou mais minha expectativa.
— Diga. — sorri baixinho do outro lado.
— Poderia vir visitar meu apartamento, e fotografar... A mim.
Ela não estava falando sério, estava? Estava. E eu aceitei, óbvio. Não estava desesperado por alguém por mais que parecesse, é só que, se você a conhecesse, entenderia meu caos. A parte boa, é que ela era também meu cais.
Apartamento moderno, típico de uma moça. Réplicas de quadros famosos, uma enorme sacada refletindo a cidade, e seus enormes prédios iluminados a noite. Nos sentamos na cozinha, ela me serviu um uísque. Colocou um disco na vitrola. Dizia que vitrolas tinham um som muito melhor. Apreciando as músicas do The Clash, conversamos mais um pouco, sobre mim, sobre ela, nossas vidas, carreira, futuro... Até que eu me perdi olhando para ela, admito que nem ouvia mais o que ela falava. Apreciei, mas ela percebeu.
— Acha que saem boas fotos daqui? — e escondeu as pernas, acho que estava me provocando.
— Ótimas... — sorri, e ela retribuiu. Não usava uma roupa indecente, ela era sedutora por si mesma, sem forçar nem um pouco, e quando forçava... Meu Deus.
Começamos as fotos. Ela não parecia inibida com minha presença, fazia poses, caras e bocas, eu estava adorando, claro, não desse jeito que você está pensando.
— Já foi modelo antes? — perguntei.
— Não, é que você me deixa confortável, fotógrafo. — riu.
Dez minutos depois e eu estava em sua cama. Me segurei, juro. Mas ela provocou até a última gota de tolerância que eu tinha. Não que eu quisesse "tolerar" aquilo... Como todo clichê, ela dormiu em meus braços depois, eu não peguei no sono. Estava feliz, não quero entrar em detalhes, tinha sido único. Eu só tinha uma certeza: eu a amava. Em dois dias e ela conseguiu me viciar, não só no seu corpo, mas em sua alma. Dois dias.
Agora eu escrevo isso, anos depois, para dizer que Mike, nosso filho de cinco anos, está aqui puxando meu paletó enquanto faço esse ponto final. Rachel, o mistério em que eu mergulhei e nunca mais saí. O amor de esquina que eu não deixei escapar, ou vice-versa.
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