Eu estava em um apartamento, o de Dilan, percebi. Não havia móveis, pinturas irreconhecíveis coloriam as paredes com cores tristes e frias. o prédio tremia, como se estivesse num terremoto.

Corria sem sair do lugar, as luzes amarelas chiavam impacientemente. Eu estava com medo, como nunca havia sentido antes.

O pânico me fez esquecer até mesmo meu próprio nome. Meus pés estavam colados no chão, tornando impossível fugir daquela sensação repugnante.

O gosto de metal, induzido pelo medo, tomou minha boca. Lamentos indistintos ressoavam em meus ouvidos, inicialmente fracos, mas depois foram aumentando até ficarem insuportavelmente altos.

Vultos passavam diante de meus olhos. O gosto metálico só aumentou. reconheci a mim mesma em um vulto, e, de repente, não haviam mais lamentos, eu não corria mais. Ainda estava no apartamento de Dilan, mas que agora estava mobiliado, os móveis mais antigos que já havia visto, em contraste com as paredes, que pareciam mais novas.

— Meus pêsames — dizia a um desconhecido.

Eu acordei assustada e suada, como coração batendo rápido, ainda sem conseguir me livrar da sensação do pânico, e com a cabeça doendo, por tê-la batido na parede ao acordar.

Zonza, com passos trôpegos, fui ao banheiro. Lavei o rosto, o contato com a água gelada me fez acordar um pouco. Me apoiei na pia e respirei fundo, repassando mentalmente o sonho. Sequei o rosto e voltei para o quarto.

Sentei na cama, peguei meu celular, liguei-o. Nenhuma mensagem, mas já eram dez horas! Só então me lembrei do encontro com Dilan às dez e meia.

Abri o armário e peguei a primeira peça de roupa que vi, no caso um vestido azul com estampa floral. Uma rasteirinha, e pronto. Pus numa bolsa, meu celular, o fone, carteira, e as chaves do carro.

Estávamos no verão, eu e Dilan havíamos acabado de entrar em férias da faculdade, eu de jornalismo e ele de arquitetura.

Hoje era o nosso aniversário de um ano juntos, e nada estragaria isso. Nem mesmo um atraso.

o Lake's House era o restaurante favorito de Dilan, e, surpreendentemente, o meu também. Aprendi a gostar dele ao longo do ano passado. O lugar era conchegante, com suas mesas redondas, seus clientes animados, seus garçons gentis, que na maioria, já eram amigos meus.

Ao passar a maquiagem, me olhando no espelho, reparei em como as sardas realmente não combinavam comigo. Meu cabelo era preto, cortado curto havia pouco tempo, minha pele era branca como uma folha de papel, meus olhos eram cor de mel, e as sardas apareciam par estragar tudo. Não que fossem muitas, mas incomodavam.

Estava pronta, eu corri para abrir a porta, tranquei-a antes de ir apressadamente para o carro. Minha vizinha estava lavando seu quintal, acenou com a mão, e eu respondi com um sorriso antes de fechar a porta do carro.

Eu tinha mais quinze minutos, mas o trânsito não colaborou, ao entrar na avenida central, notei que não chagaria a tempo. O congestionamento ia desde a minha casa até o centro.

Tentei cortar caminho, mas cheguei dez minutos atrasada, quebrando um recorde de quatro anos de pura pontualidade.

Ao passar pelas portas de vidro do Lake's House, senti a lufada de ar frio que se mantinha ali dentro graças ao ar condicionado.

Dei uma olhada rápida e não vi Dilan, aliás, o local estava vazio demais para o costume, haviam uns poucos clientes que eu já conhecia por vista, pois sempre estavam por aqui, e mais alguns que eu não conhecia, mas aquele lugar sempre transbordava de clientes.

Fui me sentar, e esperar o Dilan na mesa o mais perto da porta possível. Fiquei olhando os clientes, um menino de camiseta azul estava sentado num canto, olhando o cardápio, duas meninas sentadas em uma mesa conversavam, comiam e riam ao mesmo tempo. Um homem de meia idade usava um terno formal demais para a ocasião, e estava me encarando.

um garçom veio me atender, esse era mais que amigo, era quase um cunhado, namorado da minha melhor amiga, seu nome era Leo, um garoto muito engraçado e totalmente desastrado. Ainda lembro-me do dia em que ele derrubou macarrão com molho vermelho em mim no seu primeiro dia de trabalho, teve sorte por não ter sido demitido.

— Olá Alice!- disse ele — E aí? Está esperando alguém? O que vai querer?

— Olá Leo! estou ótima, e você? Eu estou esperando o Dilan, mas ele não chega!

Fiz cara de chateada, mas ele estava sorrindo, e seu sorriso era o mais contagiante que eu já havia visto, então acabei sorrindo também.

Pedi um suco de manga e ele foi embora. Meia hora se passara e nenhum sinal de Dilan, meu suco chegou, tomei-o, comecei a ficar preocupada.

Estava tão distraída que não percebi quando o menino de camiseta azul se levantou e veio até o balcão atrás de mim. Ele não pagou e nem pediu a conta, ele apenas ficou observando os chaveiros.

Mais cinco minutos e eu decidi ligar. Uma vez, e ninguém atendeu. Duas vezes e ninguém atendeu. Foi apenas na terceira vez que eu liguei que alguém atendeu.

— Alô? Dilan? é você?

— Alô — não era Dilan, era uma mulher — Aqui quem fala é a detetive Taylor, do FBI, quem fala?

Ai meu deus! Uma detetive! o que Dilan aprontou?

— Aqui é Alice, a namorada de Dilan, está tudo bem?

Eu era uma pilha de nervos, ainda mais quando ela hesitou para responder, eu escutei um som parecido com um de choro do outro lado da linha, e então ela disse:

— Sinto muito, Alice, mas Dilan caiu do Décimo Terceiro andar do prédio, e faleceu.

Sua voz era quase falsa.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.