A beleza do oceano carrega um encanto acirrante a distância, corrosivo em ação. A doce canção dos ventos e a dança das ondas pintadas sobre as sutis sereias de todos os contos mantendo seu poder de sedução, a ruína do bote solitário na imensidão. Ele ele corta as águas orgulhoso, lembrando a madeira fria pelas redundantes histórias carregadas sendo esculpida por um estilete, a ferramenta que por mais simplória considera seu aço nobre e exibe sua lâmina como a pena de um pavão, porém assim como a brisa, a razão do velho artesão acorrentada aos retrógrados ensinamentos às vezes desvia as direções. E as ondas lutam para alcançar os céus, aterradoras e disformes, enganando o marinheiro que apenas no baque do navio acaba por apertar as mãos com a morte. E a sua alma afunda para a escuridão, olhos negros como demônios à espreita enganam o homem pela segunda vez então, pois é quando o fluxo arrasador porém esperado agarra-o que perde o ar e torna-se a presa do que insiste em chamar de correnteza, como se ainda acreditasse em destinos e sorte, ah, abra os olhos pois sua essência nunca fora tão enorme. De volta a superfície, o sol ainda bate, e as vívidas maresias arrastam o bote que já não passa de um cadáver. Flutuando com meu nome em sua proa, sua âncora são as pessoas, que um dia se importaram com meus sonhos ridículos como os de uma criança curiosa; que se mantém o bote firme em uma hora, na seguinte trai sua forma, já irresistente ao Oceano de Tristeza. Os milhões de mares que carregam sob si todos os mistérios, uma piada contra Netuno que ergueu a cabeça ao encontrar apenas sete, junto a eles jaz meu espírito inepto, o aventureiro marinheiro que agora sequer é digno de um cemitério. Ainda espera ser arrastado para a praia, onde as ondas já devem ter apagado as palavras de amor que um dia na branca areia a alguém deixou. E o vento as tragédias se põe novamente a cantar, carregando consigo a miséria das lembranças do casco onde meu nome foi escrito. E a distância o escritor estende a mão, esperando apanhar o fim da circunferência traçada na Terra que é sua prisão.

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