Quais as cores do programa?
6 Era uma vez...
Notas iniciais
"As melhores histórias não começam com "Era uma vez", “Há muito tempo..." ou em um começo de dia normal. Elas começam do nada, no meio de uma ação, quando a merda já está jogada no ventilador.
Não desmerecendo os grandes clássicos, mas eu acho que o autor conquista os leitores nas primeiras linhas, bom, pelo menos aqueles que não leem as orelhas ou capa dos livros. Assim como eu. É só um ou outro que eu leio."
Essas foram as palavras que acarretaram uma longa discussão entre mim e os meus dois melhores amigos. Estávamos em casa, na varanda, discutindo sobre literatura. Regado a vinho, cigarros e lounge music. Era bom relaxar depois de ontem e a discussão com Julia.
—Que cara é essa Lu? — Disse Mariana.
Mariana é uma linda mulata, de dreads com pontas roxas. Nós conhecemos na faculdade de artes e viramos melhores amigas logo nas primeiras frases que trocamos, nós descobrimos éramos opostos complementares. Isso nos permitia saber o que a outra gostava apenas por suposição, se eu gostava de algo era só somar os gostos dela e eu descobriria se ela iria amar também.
—Hã? — Respondi distraída. — Nada, só... Estou prestando a atenção na conversa. — Ela estreitou os olhos me encarando enquanto tragava um pouco do cigarro e afagava a cabeça de Lara.
—Eu sei que não é nada. — falou soltando a fumaça. — Diz ai.
Suspirei e contei sobre a discussão sem pé nem cabeça que eu e Julia tivemos. Meus amigos ficaram quietos até eu terminar, e quando eu terminei Mari deu de ombros e começou a rir me acalmou dizendo que discussão é super normal.
—Que é normal eu sei, mas foi tão... — Gesticulei com a mão esquerda, já que a direita estava segurando a taça de vinho.
—Relaxa... — Disse Matheus. — Vocês logo estão se dando bem.
Matheus é a pessoa mais positiva que eu conheço, diz ele que o segredo é o yoga e a meditação diária, mas eu não sei não. Ele é o típico cara do yoga, magro meio musculoso, cabeludo e com barba rala. Ele sempre vê o lado positivo de algo, não importa o quão terrível fosse a situação. Nós nos conhecemos através de um ex-namorado meu, que é o melhor amigo dele. E desde nosso primeiro encontro, não nos separamos mais, por conta disso, ele acabou conhecendo a Mari e, hoje, eles estão em uma união estável.
Depois de uns minutos, a nossa conversa migrou da minha briga para o meu casamento. E eu lhes contei como nós duas dividimos as tarefas do casamento:
—Eu fiquei com a decoração, os convites, as cores, as mesas e cadeiras. Já que a Julia é péssima com tudo isso. — Dei uma risada lembrando das milhares de vezes que ela não só ressaltou isso como mostrou, ao usar roupas com cores que não combinavam nem um pouco.
—Julia — Continuei — Vai ficar com o DJ, fotógrafos, a playlist e a documentação do cartório.
—E onde vai ser o casório? — Mari perguntou.
—Na chácara da minha família. — Respondi servindo mais vinho.
—E que dia vai ser?
—Ainda estamos vendo... Estamos entre dia 16 e dia 23.
Eles acenaram com a cabeça. Apesar de serem poucas as coisas a se resolver, pareciam muitas, e pior, as coisas que temos divididas acordamos em passar pelo consentimento da outra para então riscar a tarefa da lista. O tempo apertado as vezes me causava certa ansiedade.
Olhei para o céu, já deviam ser mais ou menos 7 — 8 horas, o azul claro se tornava rosa e laranja. Era uma linda visão.
Os dois ficaram até mais ou menos 9 horas. Enquanto esperava a chegada de Julia, recolhi as taças e garrafa de vinho, lavei-as e as deixei no escorredor. Coloquei comida para a Lara, sentei no sofá e liguei a TV.
Estava passando um filme, que muito provavelmente Julia iria amar, se já não tivesse visto. Era uns dos clássicos de ficção cientifica de caras que vivem no espaço e travam guerras, não sei qual e nem a diferença entre eles. Devia estar no meio do filme, mas mesmo que estivesse começando eu não entenderia nada e me entediaria facilmente. O que não é dificil se tratando desses filmes, eu amo filmes de comédia, como... "Meninas Malvadas" ou "A Escolha Perfeita". E esses filmes, eu tenho quase certeza que a Julia ficaria entediada.
—Ah! Eu amo esse filme! — Falando no diabo...
Mirei uma Julia sorridente na porta, seus olhos fixados na TV, brilhando. Seus cabelos estavam presos em um coque frouxo, os óculos escorregavam para a ponta do nariz por conta do suor, por isso, ela empurrava-o de volta ao lugar a cada dois segundos. Ela vestia uma camisa de quadribol com o símbolo da Grifinória, calça jeans preta e tênis também preto.
Ela fechou a porta, jogou a bolsa do lado da porta e sentou ao meu lado no sofá.
—E qual que é? — Perguntei encostando a cabeça no encosto do sofá.
—Star Wars — A ameaça Fantasma. — Respondeu me olhando. — Não sabia que se interessava por Star Wars. — Serrou o Cenho.
—E não me interesso. — Dei de ombros. — Acho chato.
Ela se manteve séria, e aos poucos um sorriso ia se formando até terminar em uma risada fraca.
—Então — Ela levantou do sofá e se virou para mim. — Se você vai ser a minha esposa, eu, Julia Cardoso, me sinto na obrigação de te levar para o lado nerd da força.
Sorri.
—E como pretende fazer isso?
—No final de semana, vamos maratona a franquia que você escolher. — Esticou a mão. — Feito?
—Só se você assistir os meus filmes favoritos também. — Apertei sua mão.
—Filmes favoritos? — Ela tombou a cabeça para o lado, como uma criança confusa.
—Meninas Malvadas, A Proposta, Uma linda mulher... — Comecei a listar e sua cabeça foi para trás em tédio. — Se você não topar, eu não topo.
Ela suspirou, tombou a cabeça para os lados, fez bico. Eu conseguia ver ela vendo os prós e contras, as engrenagens rodando na sua cabeça.
—Tudo bem — Apertou a minha mão mais firmemente.
Ela largou a minha mão pouco depois, se virou e foi indo para o seu quarto. Só quando ela estava no quarto lembrei que ela ja podia dar uma olhada na organização e talvez aprovar.
—Ju — Chamei levantando do sofá e indo na mesma direção que ela foi.
—Oi — Falou através da porta.
—Preciso da sua opinião sobre a organização. — Respondi a porta.
—Ah... Que bom que você me lembrou. — A porta se abriu. Ela tinha trocado de roupa e tirado os óculos. — Separei algumas músicas e eu quero que você veja.
[***]
E lá estávamos nós, ouvindo a pequena playlist que a Julia fez e ela avaliando toda a decoração logo após o banho dela. Eu explicava com desenhos como as peças que foram escolhidas separadamente ficariam juntas. Julia apenas concordava e opinava entre garfadas da sua janta. Ambas aprovaram as escolhas da outra e iniciamos uma pré-lista de convidados, começando com os nossos pais, obviamente, irmãos, tios e tias e primos de primeiro grau.
—E como tá o seu pai? — Perguntou Julia enquanto anotava os nomes.
—Na mesma — Respondi comprimindo os lábios.
—Você já foi visita ele?
—Não desde que me mudei pra cá, estou sem coragem. — Continuei sem mira-la.
Ela segurou a minha mão.
—Eu vou com você, se você quiser. — Olhei para ela e ela tinha um sorriso torto, quase que triste.
Sorri de volta.
—Até porque eu tenho que conhece o meu... "querido" sogrão — Ela fez as aspas com os dedos. E lá se foi a tensão do momento, com a minha risada fraca e sua gargalhada.
Ao fundo, o cara cantava alguma coisa sobre proteger a pessoa amada, perguntando se pode ser a pessoa que ela fala nas histórias dela. Enquanto eu prestava a atenção na música, eu olhava para um ponto fixo no chão, por isso, eu não percebi que a Ju estava com os olhos fixos na playlist com o cenho franzido.
—Meu Deus, que música triste. — Ela comentou novamente com um sorriso torto.
—Eu gostei. Qual o nome? — Olhei o seu celular por cima do seu ombro.
—Can i be him. — Respondeu. — Sério mesmo que você gostou? Você vai querer essa música na nossa festa? — Ela ajeitou os óculos.
—Gostei — Dei de ombro — É bonita.
—Os convidados ao invés de dançarem, vão chorar. — Ela rio.
—Podemos usar como nossa primeira dança.
Ela desviou os olhos dos meus, olhou para baixo. E pensou por alguns segundos.
—É mesmo, temos que ter uma primeira dança... — Ela mirou os meus olhos. E aqui se inicializou uma longa discussão sobre quais músicas seriam melhores, e o quanto essa era muito desanimada e etc.
Enquanto discutíamos, as músicas continuaram a tocar sem que prestássemos a atenção. A discussão só parou pois Julia levantou o dedo e disse que amava a música que começara a tocar. Ela subiu na mesa de centro e começou a rimar com o cantor, a dançar e a interpretar:
—Ela vai te enlouquecer – “Ela já está” pensei – Te mostrar o que é capas – “De me fazer brigar num dia por comida e no dia seguinte rir dela e com ela”. – Te fazer compra uma casa lá em Minas Gerais – “Minas? Será que ela gostaria de morar lá?”.
Pequenas partes me faziam parar pra pensar se ela se isso podia descreve-la, mas outras eu tinha certeza. Como que ela é única, verdade, Julia é a única pessoa que já conseguiu com que eu brigasse por nada e não parasse de falar comigo, já que não é nada mesmo.
—Eu quero essa música na nossa festa e eu não aceito um não como resposta — Disse quando a música acabou.
Rindo eu concordei, eu não a perderia cantando e dançando assim na frente dos convidados nem morta. Ela mirou as horas e se foi dizendo que amanhã tem trabalho, que nem tudo infelizmente era festa. Eu também fui me deitar depois do meu banho, e só quando eu estava relaxando na minha cama eu percebi algo que provavelmente ia me deixar louca.
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