Quadra Z - Uma batalha de deuses
2 Capitulo 2 - O retorno de Zia
2* O retorno de Zia
No mundo dos mortos tudo adotava um tom cinza e depressivo. A primeira camada debaixo da terra era confinada a receber todos aqueles que cultivaram a dor e a tirania no mundo dos vivos. O espaço que parecia infinito era dividido por sete vulcões ativos que classifica os mortos por seus pecados. Zia Agnessia era mais uma dos escravos prediletos de Nerull o deus da morte, a pequena bárbara havia sido confinada a passar a eternidade pagando por seus pecados na área do sexto vulcão o mais impetuoso de todos. Tudo que se ouvia eram gritos e gemidos por todo o lugar, espíritos perambulavam desesperados e insanos, era o que acontecia com a maioria. Zia era diferente, nunca se rendeu a loucura. A nossa pequena bárbara que morrera aos dezesseis anos estava disposta a passar por tudo aquilo sem se queixar, ela agiria com a adulta fria que nunca pode ser.
O vulcão fervia o chão sob seus pés descalços, as correntes que prendiam seus braços e pernas eram apertadas e recheadas de espinhos flamejantes. Tudo naquele mundo queria causar dor. Zia Agnessia, por outro lado, já havia sofrido demais no mundo mortal, sabia que a dor eterna não era nada comparada ao se afastar de quem mais se amava; Gerard! Zia Agnessia quando viva se apaixonara e desejava despojar de um mercenário de força inimaginável! Um bárbaro conhecido por todos os mundos e procurados por todos os deuses, o famoso Gerard. Nerull o deus dos mortos caçava a fim de ceifar a vida do amado de Zia, todavia o homem era muito forte ate mesmo para os deuses, e isso era o que frustrava os planos de Nerull. Como não podia ter consigo o bárbaro no mundo dos mortos, Nerull se deu por satisfeito em receber sua amada como prêmio de consolação. Em uma noite fria o deus dos mortos transformou-se em uma serpente venenosa e picou a bárbara Zia no tornozelo enquanto ela dormia desprotegida em uma floresta. Aquilo foi o fim de tudo! Zia acordou com chicotadas já no mundo dos mortos sem saber como aquilo havia acontecido. A princípio tudo tinha sido muito difícil, porém a nossa pequena bárbara não perdia no coração a esperança que de Gerard desafiaria Nerull para resgata-la do mundo dos mortos. Tudo bem! Zia Agnessia era uma bárbara forte e independente, talvez não precisasse da ajuda de Gerard para fugir daquele lugar, mas ela já não estava mais com Vulcanos sua espada lendária e isso ia dificultar sua escapada do mundo inferior. Então por hora o plano era esperar por Gerard. Mas que outro motivo Gerard teria para demorar tanto se ela era sua amada?
Cinquenta anos se passaram naquele inferno. Zia recebia todos os dias quatrocentas chicotadas do lorde das profundezas, o responsável de punir os mortos do sexto vulcão. A bárbara apenas sorria sem derramar uma lagrima se quer.
– Trezentos e noventa e oito, trezentos e noventa e nove, Quatrocentos.
Gritava o lorde das profundezas. Naquele dia Zia estava de costas e amarrada em uma rocha vulcânica superaquecida. O lorde usou aquelas mãos gigantescas e puxou a cabeça de Zia para traz.
– Você não vai chorar minha jovem? Ou prefere que eu recomece a sentença?
Zia estava começando a ficar cansada daquilo tudo. No inicio as chicotadas do lorde das profundezas doíam em cada osso de suas costas, mas agora que se acostumara com as mãos pesada daquele dragão humanoide, flamejante de três metros; as chibatadas não lhes causavam nem mesmo cócegas.
Zia cuspiu no rosto do demônio.
– Pois que seja! Vai receber oitocentas chicotadas pela sua ousadia sua fedelha!
Quando o lorde levantou o chicote para castigar Zia uma grande explosão sacudiu o mundo dos mortos. O demônio voltou os olhos para o sétimo vulcão que entrava em uma erupção sem igual.
– Será que o mestre Nerull está bem?
Indagou o lorde das profundezas.
Zia tentou olhar para traz para ver o vulcão, mas não conseguia ver mais que fumaça e raios que caiam naquela direção. Seja lá o que estivesse acontecendo no sétimo vulcão, estava acontecendo há muito tempo. Ali ficava o castelo de Nerull. O trono do deus da morte flutuava acima dos gazes tóxicos do sétimo vulcão em uma altura de onde ele pudesse ver todo o mundo dos mortos. Porem o trono estava vazio desde que aquelas explosões e chuvas de raios começaram.
– Ei borboleta de fogo! – Ironizou Zia. – O que esta acontecendo?
– Não é da sua conta!
Gritou ele já açoitando Zia. A pequena bárbara sentia o chicote de fogo abrir um corte onde acertava, mas não havia dor. “Já chega!” Pensou ela. Se fosse para ferir o corpo escultural de uma jovem bárbara que fizesse da maneira certa, seria melhor que deixar aquelas marcas nas suas costas. Zia sentiu uma onda de fúria invadir seu corpo, uma mistura de ódio e frustração familiar lhe deu forças o suficiente para arrebentar aquelas amarras. Ainda de costas ela segurou o chicote do lorde com as mãos no momento da chibatada.
– Escuta aqui garotão! Meu corpo é lindo e eu quero que ele continue assim para o meu Gerard. – Com um único movimento ela arrancou o chicote das mãos do lorde das profundezas. – Não vai ajudar em nada se você ficar me marcando com essas suas chicotadas de mulherzinha.
Zia partiu o lorde das profundezas ao meio usando o chicote da própria criatura.
– Você tem um chicote bonitinho!
Disse Zia admirando a relíquia. Mesmo partido de forma vertical o lorde das profundezas ainda gemia no chão.
– Você ainda vai se arrepender disso Agnessia!
– E o que você vai fazer queridinho?
Palmas ecoaram do outro lado. Zia recuou rapidamente de um velhote que surgia.
– Quem é você terceira idade?
A bárbara mostrou que estava armada chicoteando o chão com chamas.
O velho não se intimidou e foi chegando mais perto. Ele usava uma boina que cobria seus olhos de forma engraçada, porem as duas lanças que carregava nas costas mostrava que ele não estava ali para brincadeiras. O camisão de cota de malha que ele usava estava tão sujo quanto sua barba trançada.
– Senhor, eu não quero te machucar então é melhor sair daqui, estou avisando eu sou perigosa e to muito doida.
O velho sorriu. Aquele sorriso enrugado quebrou o coração de Zia, ela finalmente se deixou chorar. Ela se achou boba por não ter reconhecido as lanças, mas o sorriso era inconfundível mesmo que raro e tão velho. Zia tentou engolir o choro com um soluço.
– Gerard é... É você?
O velho tirou a boina mostrando os olhos negros e a cicatriz que carregava sobre o olho esquerdo.
– Quem mais seria louco o suficiente para vir ao mundo dos mortos a sua procura?
Zia soltou o chicote e correu para abraçar o seu amado. Ela voltou a chorar enquanto sentia seu cheiro salgado de suor e sangue (o mesmo de sempre).
– Pelos deuses Gerard, olha só como você envelheceu!
A pequena bárbara acariciava cada ruga do rosto de Gerard até chegar a seus lábios rachados.
– Você por outro lado não mudou nada, minha Zia.
Gerard enxugou gentilmente as lagrimas do rosto da garota.
– Por que demorou tanto, por que deixou cinquenta anos se passarem? Como ficou o mundo lá em cima? Como estão nossos amigos? Estou fazendo muitas perguntas?
Zia começava a sorrir, de repente o mundo dos mortos se resumia a Gerard e ela. Gerard derrubou a rocha onde Zia estava amarrada com as mãos e sentou. Segundos depois ele ascendeu um cachimbo fazendo um sinal para que Zia sentasse ao seu lado. “Gerard fumando?” Pensou Zia. “Passaram-se cinquenta anos, tudo bem, muita coisa devia ter mudado nele. Desde que ele não estivesse se aventurando com outra garota Zia podia aderir à ideia do fumo”.
Zia sentou ao seu lado e admirou seu rosto. Sim, o tempo o havia castigado, mas aquele Gerard enrugado era o mesmo bárbaro por quem ela se apaixonara há cinquenta anos, nada iria mudar aquilo.
– Sinto muito ter vindo tão tarde. Foi muito difícil achar um caminho seguro até o mundo dos mortos!
Declarou Gerard.
– E você realmente encontrou um caminho?
Quis saber Zia. Gerard assentiu. Zia então lembrou que não se podia duvidar de Gerard, o bárbaro era dimensionalmente conhecido por suas façanhas.
– Nerull... O que você fez com o meu mestre seu bárbaro desprezível?
Gemeu o lorde das profundezas. Parece que demônio se recusava a morrer.
– Você devia ter visto! Seu mestre parecia um para-raios.
A lança de raios de Gerard ainda faiscava.
– Você lutou contra Nerull? Você derrotou o deus da morte?
Perguntou o lorde das profundezas incrédulo. Gerard sorriu.
– Eu não chamaria aquilo de luta. Pareceu mais um treino para mim. Nunca enfrentei um deus tão fraco!
Zia sorriu. Cinquentas anos se passaram para Gerard, mesmo assim sua velhice não o impedia de lutar contra um deus.
Gerard levantou-se da rocha e esmagou a cabeça do lorde das profundezas com o pé.
– Demônios! Eu os odeio.
O corpo do lorde das profundezas transformou-se em cinzas vulcânicas e se espalharam pelo ar.
– Finalmente ele morreu!
Zia suspirou aliviada.
Gerard voltou a sentar na rocha e ofereceu a água de um cantil para Zia que não hesitou em beber. Zia perguntou sobre seus amigos, se as sete chaves do purgatório foram encontradas e se o mundo estava a salvo. Gerard contou a ela toda historia. Zia ouvia atentamente enquanto saboreava as rações de viagem e a carne seca que Gerard trouxe.
– Então o ser extradimensional que vinha para destruir o mundo mortal fez as pazes com vocês? – Concluiu Zia. – E ela ficou com um guerreiro que usou as sete chaves do purgatório para liberta-la e não destruí-la?
Gerard assentiu.
– Quem diria que a missão terminaria de uma forma tão diplomática.
Zia se deu por satisfeita com o resultado da missão. Recolher as sete chaves do purgatório era uma tarefa extremamente perigosa. Que bom que o fim foi mais pacifico que a missão em um todo.
Um estrondo ecoou pelo mundo dos mortos, o primeiro vulcão rugia.
– Nerulll foi derrotado. O mundo dos mortos precisa de um novo deus agora.
Disse Gerard cheio de tristeza. Demorou um pouco para Zia entender a situação. Quando compreendeu o que Gerard queria fazer não ficou nada feliz.
– Gerard... Você não...
Gerard olhou no fundo dos olhos de Zia com um pesar notável.
– Eu vou ficar aqui com você! – Decidiu ela segurando a mão de seu amado. – Seremos os deuses dos mortos. Você e eu juntos para sempre!
– Zia isso não pode acontecer!
– Por que não?
– A morte é só uma Zia, assim deve ser seu deus, apenas um.
Zia notou que algo estava errado. Gerard estava diferente, estava lhe faltando algo e não era a juventude.
– Gerard, onde está a sua espada excalibur?
– As três espadas lendárias não tem permissão para entrar no mundo dos mortos. Eu abdiquei a posse dela.
Zia ficou chateada, estava tendo sua primeira crise de relacionamento em cinquenta anos.
– Você fez o que? Gerard você está ficando maluco? Já pensou o que pode acontecer se essa espada cair nas mãos de gente perigosa?
– Eu sou uma pessoa perigosa Zia. – Gerard alterou o timbre da voz. – Tudo o que eu fiz foi para te salvar, você não pode julgar minhas ações.
Zia sentiu-se intimidada. Gerard nunca havia gritado daquela forma.
– Eu não queria que sacrificasse tanto por mim. – Disse ela em um tom solene. – O que vai acontecer agora?
– Você deve ir embora e eu devo me tornar o deus dos mortos.
A pequena bárbara serrou os dentes, ela não choraria outra vez.
– Eu esperei cinquenta anos para te ver outra vez! E você quer se livrar de mim em menos de uma hora?
– Zia escute. – Gerard se aproximou. – Tudo que eu fiz, o tempo que eu esperei foi necessário para que o seu retorno ao mundo humano fosse nesse momento.
– Por quê?
Zia estava intrigada.
– Algo maior a aguarda, uma missão muito perigosa, algo muito maior que um trono no mundo dos mortos.
A verdade era que Zia já estava cansada de missões perigosas, em dezesseis anos que passou viva ela nunca teve descanso, sempre estava impedindo que algo a destruísse ou destruísse o mundo.
– Se é assim que você, então assim vai ser. Onde fica a porta de saída do mundo dos mortos?
Outro estrondo sacudiu tudo, o vulcão parecia irritado.
– Seu trono o aguarda Gerard deus dos mortos. – Disse Zia tentando parecer feliz com a ideia. – E eu devo partir!
Zia apanhou o chicote do lorde das profundezas do chão, a final de contas, ela precisava de uma arma. O chicote em si não passava de um osso de dragão bem modelado como o cabo de uma espada, mas quando ativado liberava chamas de sua base formando o chicote de fogo. Sem duvidas era um item interessante.
– Espero que não tenha problemas eu levar essa relíquia do mundo dos mortos comigo.
Disse Zia ativando o chicote e dando chibatadas no ar.
– Não ha problema algum.
Afirmou Gerard. Os dois se olharam por um tempo, tempo suficiente para o vulcão rugir outra vez.
– Zia eu devo abrir um portal para que você saia desse mundo. – Zia assentiu relutante. – Mas preciso que leve alguém daqui com você.
– Alguém?
Zia estava muito confusa, quem no mundo dos mortos Gerard queria enviar em sua companhia? Ao longe uma silueta se formava. Alguém estava a caminho. Tinha um jeito de andar seguro e delicado. Uma figura masculina se mostrou. Para a surpresa de Zia, aquela pessoa tinha o rosto como o de Gerard a cinquenta atrás, no entanto não tinha o jeito musculoso do bárbaro e nem a famosa cicatriz em cima do olho.
– Olá!
Disse o homem todo jeitoso. Os olhos de Zia ganharam irá, ela agora reconhecia aquela pessoa.
– Gerard, não... Eu não vou viajar com seu irmão gêmeo do mal.
– Meu nome é Zeref!
Protestou o irmão gêmeo de Gerard.
– Eu sei qual o seu nome engomadinho.
– Engomadinho?
Repetiram os irmãos em uníssono.
– Parem de falar juntos! Vão acabar me deixando maluca.
Zia colocou as mãos na cabeça, dois Gerards eram demais. Na verdade a pequena bárbara lembrava exatamente a confusão de andar com os dois juntos antigamente. Zeref não tinha o mesmo poste físico do irmão, mas a semelhança compensava no rosto e na voz. Era uma copia exata de Gerard, só que uma copia malvada e vingativa que não envelheceu. Zeref assim como Zia também tinha morrido há cinquenta anos. Para ela era assim que ele devia continuar: Morto. Ela não podia se permitir andar com o gêmeo patife de Gerard.
– Zia eu compreendo suas magoas! – Começou Gerard. – Pode ter certeza de que sofri mais que você com as mentiras de Zeref, mas eu consegui perdoa-lo. Agora vocês dois tem que se entender e sair daqui juntos.
A cabeça de Zia estava prestes a explodir.
– Eu tenho que fazer isso, eu tenho que fazer aquilo. Desde que você chegou aqui só tem me dito o que fazer. Seria melhor se você nem tivesse vindo!
Aquilo devia ter atingido Gerard como um raio. Ele escondeu os olhos com a boina e ficou de costas. Tudo ficou silencioso de repente. Zia percebeu o quanto foi tola.
– Gerard, me desculpe.
Zia estava arrependida, mais que isso, ela estava se odiando.
Gerard ergueu uma de suas lanças e bateu com força no chão. Um portal imenso foi aberto atrás de Zia. A pequena bárbara olhou para a passagem multicolorida que girava como um redemoinho. Era hora do adeus.
– Vocês dois precisam ir juntos. – Declarou Gerard. – Não por que eu quero, mas é porque tem que ser assim!
Zia foi ate Gerard que ainda estava de costas.
– Obrigada!
Zia abraçou Gerard como nunca antes. Era muito difícil partir pela segunda vez. Depois do longo abraço ela atirou-se no portal. Zeref foi logo em seguida. Assim os dois estavam a caminho do mundo humano deixando para traz Gerard e seu novo trono.
Fale com o autor