QUANDO O CORAÇÃO RECONHECE

7 CAPÍTULO 7 - A única pessoa em quem podia confiar


A primeira coisa que voltou foi a água.

Não meu nome.

Não meu rosto.

Não a empresa.

Água.

Escura, gelada, pesada.

Por alguns segundos, eu não estava deitada numa cama de hospital. Estava novamente presa dentro do carro, sentindo a água subir pelas minhas pernas enquanto tentava encontrar o ar que já não existia.

Meu corpo reagiu antes da minha mente.

Abri os olhos e tentei me levantar.

Uma dor lancinante atravessou minhas costelas.

O ar desapareceu dos meus pulmões.

— Não...

Olhei desesperadamente ao redor.

Parede branca.

Luz fraca.

Um monitor.

Uma janela.

Um suporte de soro.

Hospital.

Levei a mão à cabeça.

Por quê?

Como?

Uma imagem atravessou minha mente.

Chuva.

Faróis refletidos no asfalto.

Minhas mãos no volante.

Meu pé pressionando o freio.

Nada.

O pedal não respondia.

Fechei os olhos.

A lembrança veio com tanta força que senti náusea.

Freia.

Freia!

Eu tinha tentado.

O carro não diminuíra.

Depois uma voz.

Não.

Um nome.

Jacob.

Abri os olhos.

Meu coração disparou.

Jacob.

O rosto dele surgiu inteiro em minha memória.

Os cabelos.

O sorriso.

A maneira como franzia a testa quando estava preocupado.

Aquela expressão irritante que fazia quando eu roubava comida do prato dele e ele fingia que aquilo o incomodava.

Jake.

Uma dor completamente diferente atravessou meu peito.

Então as lembranças começaram a vir rápido demais.

Isabella.

Alice.

Paul.

Emmett.

Billy.

Black Corporation.

Meu escritório.

Planilhas.

Transferências.

VGI.

Orpheus.

Vesta.

Contas.

Contratos.

Aro.

Parei de respirar.

Aro.

A voz dele surgiu dentro da minha cabeça.

As frases estranhas.

Os avisos disfarçados.

O modo como me observava.

O pendrive.

Minha bolsa.

Eu dirigindo até Jacob.

O telefone conectado.

Minha própria voz:

Foi ele.

Aro.

Eu tenho as provas.

Depois o carro atravessando a proteção.

O impacto.

A água.

Meu grito.

A janela.

O martelo.

A correnteza.

E então nada.

Meu nome veio por último.

Sarah Swan.

Eu era Sarah Swan.

E alguém tinha tentado me matar.


A porta abriu.

Meu corpo inteiro se contraiu.

Uma enfermeira entrou.

— Você acordou.

Fiquei olhando para ela.

— Como está se sentindo?

Minha boca estava seca.

— Não sei.

Ela aproximou-se.

— Consegue me dizer se está com dor?

— Sim.

— Onde?

Quase ri.

Em qualquer outro momento, talvez tivesse respondido “em todos os lugares”.

Mas não consegui.

— Nas costelas. No ombro. Minha cabeça...

— Isso é esperado. Você sofreu muitos traumas.

Ela verificou os aparelhos.

— Consegue lembrar alguma coisa?

A pergunta me paralisou.

Sim.

Eu conseguia.

Lembrava de tudo.

Mas Aro acreditava que eu estava morta?

A polícia sabia que eu tinha sobrevivido?

Jacob sabia?

Alguém tinha me identificado?

Se eu dissesse meu nome naquele momento, onde essa informação iria parar?

Registro hospitalar?

Polícia?

Sistema?

Família?

E se Aro estivesse procurando?

Não sabia.

Não sabia de absolutamente nada.

A única vantagem que talvez tivesse era justamente ninguém saber quem eu era.

Olhei para a enfermeira.

— Não.

A mentira saiu baixa.

— Nada?

Balancei a cabeça.

— Não consigo lembrar.

Ela não pareceu desconfiar.

— Tudo bem. Não force. Você chegou sem documentos e permaneceu inconsciente por alguns dias. O médico já explicou que pode haver confusão de memória depois de um trauma dessa intensidade.

Alguns dias.

— Quanto tempo?

— Quatro dias.

Meu coração quase parou.

Quatro dias.

Jacob.

Bella.

Meu Deus.

— Encontraram mais alguém?

A enfermeira franziu a testa.

— Com você?

— Sim.

— Não. Você foi encontrada sozinha.

Engoli.

— Onde?

Ela explicou de forma geral.

Muito longe do ponto em que eu me lembrava de o carro ter caído.

A correnteza havia me levado.

Isso explicava por que talvez ninguém tivesse me ligado ao acidente.

— Eu estava com alguma coisa?

— Não. Nenhum documento, telefone ou bolsa.

Pendrive.

Minha bolsa.

O original provavelmente tinha desaparecido.

Mas a segunda cópia estava em casa.

Atrás da porta do meu quarto.

Aquela lembrança me deu um mínimo de chão.

Ainda havia prova.

Ainda havia alguma coisa.

Perto da cabeceira da minha cama, havia um telefone.

_ Se eu me lembrar de alguém, posso usar esse telefone?

_ Claro, fique a vontade.

Olhei para o telefone durante muito tempo.

Jacob.

Sabia o número dele.

Claro que sabia.

Eu poderia discá-lo sem pensar.

Poderia ouvir sua voz em menos de um minuto.

Só precisava esticar o braço.

Peguei o aparelho.

Meu coração começou a bater mais rápido.

Digitei o primeiro número.

Depois outro.

E outro.

Parei.

Imaginei Jacob atendendo.

Talvez dissesse apenas:

Alô?

E eu diria:

Jake.

Era só isso.

Ele reconheceria minha voz.

Talvez ficasse em silêncio.

Talvez achasse que estava enlouquecendo.

Então eu diria:

Sou eu.

Estou viva.

E Jacob viria.

Não importava onde estivesse.

Ele viria.

Essa certeza deveria ter me confortado.

Em vez disso, me aterrorizou.

Porque eu também sabia o que aconteceria depois.

Jacob faria perguntas.

Eu contaria sobre Aro.

Contaria que os freios não responderam.

Contaria sobre os desvios.

Sobre as ameaças.

E Jacob iria atrás dele.

Talvez não naquele segundo.

Talvez dissesse que seria cuidadoso.

Mas eu conhecia Jacob desde que éramos crianças.

Conhecia o menino que brigava quando alguém ria dos meus óculos.

O adolescente que encarava qualquer pessoa que me tratasse mal.

O homem que aparecia na minha casa se eu demorasse demais para responder uma mensagem.

O que ele faria se descobrisse que alguém tentara me matar?

Fechei os olhos.

Não.

Apaguei o número.

Imediatamente me arrependi.

Peguei o telefone outra vez.

Digitei de novo.

Dessa vez cheguei até o último número.

Meu dedo ficou sobre a tecla de chamada.

— Liga.

Falei comigo mesma.

— Liga para ele.

Eu queria.

Meu Deus, como queria.

Queria ouvir sua voz.

Queria que ele entrasse naquele quarto e dissesse que estava tudo bem.

Queria que reclamasse porque eu estava chorando.

Queria que segurasse minha mão.

Queria me sentir segura.

E, naquele instante, compreendi uma coisa dolorosa.

Jacob era exatamente a pessoa para quem eu queria correr.

E exatamente a pessoa para quem eu não podia correr.

Porque ele me protegeria.

Mesmo que isso o colocasse em perigo.

Aro tinha descoberto minha investigação.

Aro conseguira chegar ao meu carro.

Sem que eu percebesse.

Sem que Jacob percebesse.

Sem que ninguém percebesse.

Eu não sabia se ele agira sozinho.

Não sabia quem trabalhava para ele.

Não sabia se estava observando minha casa.

A empresa.

Jacob.

Bella.

Se eu ligasse...

Se alguém descobrisse...

Meu dedo continuou parado.

As lágrimas começaram a cair.

— Desculpa, Jake.

Desliguei o telefone sem completar a chamada.

Chorei em silêncio.

Não queria fazer barulho.

Não queria que a enfermeira voltasse.

Depois pensei em Isabella.

Meu coração se partiu novamente.

Bella devia estar desesperada.

Minha irmã não sabia onde eu estava.

Talvez estivesse esperando uma ligação.

Talvez ainda acreditasse que eu apareceria pela porta reclamando do trânsito.

Eu podia ligar.

Podia dizer apenas que estava viva.

Mas Isabella ligaria para Jacob.

Claro que ligaria.

E eu não teria coragem de pedir que ela guardasse aquilo.

Não depois de fazê-la acreditar durante quatro dias que tinha perdido a irmã.

Não.

Bella não podia ser a primeira.

Paul?

Pior ainda.

Emmett?

Impossível.

Billy?

Jacob saberia antes de eu terminar a frase.

Fechei os olhos.

Quem?

Quem conseguiria me ajudar sem correr imediatamente para Jacob?

A resposta surgiu.

Alice.

Abri os olhos.

Alice.

Meu coração acelerou.

Ela também amava Jacob.

Também amava Isabella.

Também me amava.

E provavelmente tentaria contar.

Mas Alice possuía uma coisa que ninguém mais tinha.

Um lugar.

A casa que comprara como investimento.

Aquela que praticamente ninguém conhecia.

Nem Emmett.

Ela havia me levado lá meses antes, rindo porque queria reformar tudo antes que Emmett descobrisse e desse alguma opinião arquitetônica absurda.

Alice era minha única possibilidade.

Peguei o telefone.

Digitei o número dela.

Parei.

— Por favor.

Nem sabia exatamente para quem estava pedindo.

Apertei a tecla.


— Alô?

Ouvir a voz de Alice quase acabou comigo.

Tapei a boca.

— Alô?

Não consegui responder.

— Quem está falando?

Fechei os olhos.

— Alice...

Silêncio.

— Quem é?

Minha voz saiu quebrada.

— Sou eu.

— Quem?

Chorei.

— Sarah.

O silêncio do outro lado foi tão completo que por um momento pensei que a ligação tivesse caído.

— Quem é você?

Meu peito apertou.

— Alice...

— Não faça isso.

A voz dela mudou.

— Não sei quem você é, mas não faça isso comigo.

— Sou eu.

— Sarah morreu.

A palavra me atingiu.

Morri.

Era isso que eles acreditavam.

— Não.

Minha voz falhou.

— Não morri.

— Quem é você?

— Você comprou uma casa e não contou para Emmett.

Silêncio.

— Disse que era investimento, mas passou três meses escolhendo papel de parede antes de decidir se realmente reformaria. Você me levou lá porque precisava de alguém para dizer que o banheiro era horroroso.

Ouvi a respiração dela mudar.

Continuei:

— E eu disse que o banheiro não era horroroso.

Minha voz tremeu.

— Disse que era um crime contra a humanidade.

Um soluço.

— Sarah?

Fechei os olhos.

— Sou eu.

— Meu Deus.

Alice começou a chorar.

— Meu Deus... Sarah?

Eu também chorava.

— Sou eu.

— Você está viva?

— Estou.

Ouvi alguma coisa cair do lado dela.

— Onde você está?

— Num hospital.

— Qual?

Eu disse.

— Estou indo.

— Alice, espera.

— Não.

Ouvi chaves.

— Não vou esperar nem mais um segundo. Estou indo buscar Jacob.

— Não!

Minha voz saiu alta.

Olhei imediatamente para a porta.

Baixei o tom.

— Não conta para ele.

Silêncio.

— Você enlouqueceu?

— Alice...

— Jacob está procurando você há quatro dias!

Fechei os olhos.

— Ele está bem?

A pergunta saiu antes que eu pudesse impedir.

Alice ficou em silêncio.

— Alice, por favor. Ele está vivo?

— Está vivo.

Meu corpo inteiro cedeu contra o travesseiro.

Comecei a chorar com tanta força que precisei cobrir a boca.

— Graças a Deus.

— Sarah...

— Bella?

— Está bem fisicamente.

— Paul? Emmett? Billy?

— Todos estão vivos.

Fechei os olhos.

Todos.

Estavam todos vivos.

— Obrigada.

— Não me agradece. Me explica por que eu não posso contar para eles que você está viva.

Respirei.

— Porque não foi um acidente.

Silêncio.

— O quê?

— Meu carro.

Minha mão começou a tremer.

— Os freios não funcionaram.

— Sarah...

— Eu estava indo encontrar Jacob. Eu tinha provas comigo.

— Provas de quê?

Olhei para a porta.

— Não pelo telefone.

— Está bem.

Alice respirou.

— Então só me responde uma coisa. Você acha que alguém fez isso?

— Sim.

— Quem?

Fechei os olhos.

— Aro.

Dessa vez, o silêncio demorou.

— Aro Volturi?

— Sim.

— Sarah...

A voz dela ficou estranha.

— Ele está perto de Jacob.

Meu sangue gelou.

— O quê?

— Desde que você desapareceu. Ele está ajudando nas buscas. Está com Billy. Está ajudando Jacob com investigadores, contatos, tudo.

Senti o estômago revirar.

— Não.

— É por isso que precisamos contar.

— Não! Alice, escuta o que você acabou de dizer. Se ele está perto de Jacob, eu não sei por quê. Não sei se está tentando descobrir o que Jacob sabe. Não sei se está esperando que eu apareça. Não sei se ele sabe que sobrevivi.

— Então você vai continuar desaparecida?

Comecei a chorar.

— Eu não sei.

Foi a única resposta possível.

— Eu não sei o que vou fazer amanhã. Não sei o que vou fazer daqui a uma hora. Só sei que, se eu ligar para Jacob agora, ele vem até mim.

— Claro que vem!

— Exatamente!

Minha voz falhou.

— Ele vem. Depois eu conto que Aro tentou me matar. E você acha que Jacob vai simplesmente voltar para casa e esperar?

Alice não respondeu.

— Você conhece ele.

— Conheço.

— Então sabe.

Respirei fundo.

— Eu não posso deixar Aro fazer alguma coisa com ele.

— Sarah, você não pode controlar tudo.

— Não estou tentando controlar tudo!

As lágrimas caíam sem parar.

— Estou tentando manter ele vivo!

Silêncio.

— Eu quero Jacob aqui, Alice.

Minha voz saiu quase como um sussurro.

— Eu queria ter ligado para ele primeiro. Digitei o número duas vezes.

Alice chorava.

— Então liga.

— Não posso.

— Pode.

— Não enquanto eu não souber com quem estamos lidando.

Encostei a cabeça no travesseiro.

— Se eu ligar para ele, vou colocar meu medo nas mãos dele. E Jacob vai fazer o que sempre fez desde que éramos crianças: vai tentar resolver.

— Ele ama você.

Meu coração apertou.

Alice pareceu perceber a frase.

— Quero dizer... ele ama você como...

— Eu sei o que você quis dizer.

Não sabia.

Ou talvez não quisesse saber.

Naquele momento, não importava.

— Vem sozinha.

— Sarah...

— Por favor.

Ficamos em silêncio.

Então Alice respondeu:

— Eu vou sozinha.

Fechei os olhos.

— Obrigada.

— Mas não estou prometendo guardar isso.

— Eu sei.

— Vou chegar aí, olhar para você, ouvir tudo e depois decidir se vou te ajudar nessa loucura.

Uma risada pequena escapou entre minhas lágrimas.

— Justo.

— E não sai daí.

Olhei para meu corpo machucado.

— Não acho que eu conseguiria.

— Não faz piada.

— Desculpa.

A voz dela quebrou.

— Eu achei que nunca mais ia ouvir você fazendo piada.

Fechei os olhos.

— Alice...

— Eu estou indo.

A ligação terminou.


A hora seguinte pareceu durar um dia inteiro.

Toda vez que alguém passava pelo corredor, meu corpo ficava tenso.

Quando uma enfermeira abriu a porta sem bater, quase pulei da cama.

— Desculpe.

Ela me olhou preocupada.

— Está tudo bem?

— Sim.

Mentira.

Nada estava bem.

Mas meu nome continuava sendo um segredo.

Para aquele hospital, eu ainda era a mulher sem documentos encontrada perto do rio.

Sarah Swan continuava desaparecida.

Talvez morta.

E, por enquanto, precisava continuar assim.


Quando Alice apareceu na porta, eu quase não a reconheci.

Não porque estivesse diferente.

Porque nunca a tinha visto daquele jeito.

Sem maquiagem.

Cabelos presos de qualquer maneira.

Olhos inchados.

Respiração curta.

Ela parou na entrada.

Olhou para mim.

Para os curativos.

Para meu braço.

Para os hematomas.

Para os cortes.

Seu rosto se desfez.

— Meu Deus.

Tentei sorrir.

— Já estive melhor.

Alice começou a chorar.

— Não.

Atravessou o quarto.

— Não brinca. Por favor.

Eu também comecei a chorar.

— Desculpa.

Ela parou ao lado da cama.

Por um instante, pareceu ter medo de me tocar.

Então segurou minha mão.

— É você.

— É.

— Meu Deus, Sarah...

Alice se inclinou cuidadosamente e me abraçou.

A dor veio.

Mas não me importei.

Enterrei o rosto no ombro dela.

E desabei.

Não foi um choro bonito.

Não consegui controlar.

Meu corpo inteiro tremia.

Alice apenas me segurou.

— Eu estou aqui.

Chorei ainda mais.

— Eu achei que ia morrer.

— Eu sei.

— Eu achei que nunca mais ia ver vocês.

— Mas está vendo.

— Alice...

Afastei-me o suficiente para olhar para ela.

— Jacob está mesmo bem?

Os olhos dela se encheram outra vez.

— Está vivo.

— Tem certeza?

— Tenho.

— Aro não fez nada com ele?

— Não.

Respirei.

— E Bella?

— Está viva. Está com Charlie e comigo quase todos os dias.

— Ela está sofrendo?

Alice não mentiu.

— Muito.

Fechei os olhos.

— Meu Deus.

— Sarah...

— Eu preciso voltar.

Alice apertou minha mão.

— Então volta.

Olhei para ela.

— Não posso.

— Você acabou de dizer que precisa.

— Precisar e poder são coisas diferentes.

Alice ficou em silêncio.

Contei tudo.

Dessa vez sem telefone entre nós.

Contei sobre os pagamentos.

Sobre as empresas.

Sobre o que eu começara a descobrir.

Sobre as frases de Aro.

Sobre a noite em que decidi levar o pendrive para Jacob.

Contei sobre os freios.

Sobre o telefone.

— Eu liguei para ele.

Alice ficou imóvel.

— Durante o acidente?

Assenti.

— Ele ouviu?

— Não sei quanto.

Engoli.

— Eu disse que tinha sido Aro. Disse que tinha as provas.

Alice fechou os olhos.

— Então Jacob sabe.

— Ou suspeita.

— Sarah, ele contou para a polícia que você disse o nome de Aro.

Meu coração disparou.

— Meu Deus.

— Aro sabe que Jacob pode suspeitar.

— Então ele está perto dele por isso.

— Não sabemos.

— É exatamente o problema. Não sabemos.

Levantei os olhos.

— Se eu aparecer agora, Aro vai saber que falhou. E se ele perceber que Jacob sabe onde eu estou...

Não consegui terminar.

Alice entendeu.

— Você acha que ele pode usar Jacob para chegar até você.

— Ou me usar para chegar até Jacob.

— E Isabella.

Assenti.

— E você. Emmett. Paul. Billy.

Minha voz ficou baixa.

— Eu não sei quem está seguro.

Alice ficou muito tempo em silêncio.

Então perguntou:

— Existe prova?

— O pendrive que estava comigo provavelmente desapareceu no rio.

— Então não temos nada?

— Temos.

Ela olhou.

— Fiz uma segunda cópia.

— Onde?

— No meu quarto.

Expliquei o esconderijo.

Alice imediatamente respondeu:

— Eu busco.

— Não.

— Sarah...

— Não sabemos se estão observando a casa.

Ela parou.

— Certo.

— Precisamos esperar.

— Quanto?

— Não sei.

Alice passou a mão pelo rosto.

— Você percebe que seu plano inteiro neste momento é “não sei”?

Uma risada fraca escapou.

— É um plano muito ruim.

— Horrível.

— Eu quase morri. Tenho direito a algumas horas de planejamento ruim.

Alice riu chorando.

— Idiota.

— Eu senti sua falta.

Ela segurou minha mão com mais força.

— Foram quatro dias.

— Pareceram mais.

— Para nós também.

Meu sorriso desapareceu.

— Jacob está muito mal?

Alice hesitou.

Não precisava responder.

— Está.

Fechei os olhos.

— Não me conta.

— Você perguntou.

— Eu sei. Mas não me conta detalhes.

— Por quê?

Olhei para ela.

— Porque se você me contar que ele está sofrendo, eu vou ligar.

Minha voz se quebrou.

— E se eu ouvir a voz dele, acabou. Eu não vou conseguir continuar escondida.

Alice me observou.

— Você ama ele.

Dessa vez não tentou corrigir.

Eu também não.

— Desde os quinze anos.

Alice fechou os olhos.

— Meu Deus, vocês são dois idiotas.

Apesar de tudo, ri.

— Por que dois?

Ela abriu os olhos.

— Nada.

— Alice.

— Não é hora.

— O que você sabe?

— Sarah, você quase morreu há quatro dias. Não vou discutir sua vida amorosa agora.

— Você começou.

— E estou encerrando.

Quase insisti.

Não tinha forças.

— Eu amo ele — repeti. — É por isso que não posso chamar.

Alice olhou para mim.

— Isso vai machucar muito vocês dois.

— Eu sei.

— E talvez ele nunca entenda.

Uma lágrima desceu.

— Eu sei.

— Talvez fique com raiva.

— Eu espero que fique.

Ela franziu a testa.

— Por quê?

Respirei.

— Porque para ficar com raiva de mim, ele precisa me encontrar viva.

Alice começou a chorar novamente.

Apertei a mão dela.

— Eu prefiro que Jacob me odeie viva algum dia do que que morra tentando me proteger agora.

Alice fechou os olhos.

Ficamos em silêncio.

Longo.

Pesado.

Finalmente ela perguntou:

— O que você precisa de mim?

— Um lugar seguro.

Ela já sabia.

— A casa.

— Ninguém conhece.

— Nem Emmett.

— É por isso.

Alice respirou fundo.

— E depois?

Olhei para a janela.

— Depois eu me recupero.

— E depois?

— Descobrimos como pegar o pendrive.

— E depois?

Não respondi.

Alice percebeu.

— Você não sabe.

— Não.

Ela assentiu.

— Então não vamos decidir hoje.

Olhei para ela.

— O quê?

— Hoje você sobrevive.

A voz dela ficou firme.

— Você não vai decidir hoje quanto tempo vai ficar escondida, como vai provar o que Aro fez ou quando vai voltar. Você mal acordou. Está machucada. Está assustada.

Segurou meu rosto com cuidado.

— Hoje você só precisa sobreviver.

Comecei a chorar.

— E amanhã?

Alice sorriu tristemente.

— Amanhã nós descobrimos.


Depois que Alice saiu para organizar discretamente o que pudesse, fiquei novamente sozinha.

O quarto estava escuro.

O telefone continuava ao lado da cama.

Olhei para ele.

Não toquei.

Já sabia que, se pegasse, ligaria para Jacob.

Então fiquei apenas olhando.

Imaginei seu rosto.

Imaginei sua voz.

Imaginei ele perguntando onde eu estava.

Imaginei responder.

Queria tanto.

— Me perdoa, Jake.

Falei para o quarto vazio.

— Eu não estou fazendo isso porque não preciso de você.

As lágrimas voltaram.

— Estou fazendo porque preciso demais.

Fechei os olhos.

— Só fica vivo.

Naquela noite, não havia Emma Taylor.

Não havia plano de mudar meu rosto, meu corpo, minha vida ou meu nome.

Não havia estratégia brilhante.

Havia apenas uma mulher machucada numa cama de hospital, escondendo o próprio nome porque estava aterrorizada demais para saber em quem podia confiar.

Eu era Sarah Swan.

Estava viva.

Jacob não sabia.

Bella não sabia.

Aro provavelmente também não.

E, por enquanto, a única pessoa no mundo que conhecia as duas verdades — que Sarah Swan havia sobrevivido e que Aro Volturi tentara matá-la — era Alice.

Era pouco.

Mas naquela noite...

precisava ser suficiente.