Q.I.- Fanfic Interativa
9 A Resistência
Notas iniciais
Rose Annebelle Danvers
"Infeliz daquele que não é dado chorar; só o pranto afoga a dor que a vontade não vence destruir" — Aluísio Azevedo
Ela jogou as costas contra a parede do alojamento. Sozinha, novamente em meio a beliches enfileiradas. Aquele lugar lhe dava arrepios. “Seu novo lar”, tinham dito, mas Rose jamais aceitaria aqui como um lar. Sentiu as lágrimas quentes rolando pelo rosto. Abaixou a cabeça até as mãos, tocando o rosto com elas. Os dedos miúdos e finos tremiam enquanto Rose soluçava num quase-silêncio. O alojamento estava vazio, nenhum outro aluno estava nele. Todos tinham ido jantar, mas Rose não tivera apetite. Como poderia ter? Aquilo lhe trazia lembranças ruins. Tudo o que trazia para ela era ruim. E Rose gostava de coisas ruins somente com os outros, não com ela.
Sentiu os ombros tremerem enquanto se agachava numa posição de aconchego nos próprios braços. Os joelhos, dobrados, batiam em seu queixo enquanto ela soluçava em agonia. Após dez minutos, parou. Lágrimas secas nas bochechas. Escutou a porta do alojamento se abrindo para a luz do corredor e limpou o rosto rapidamente.
– Tem certeza que não tem ninguém aqui? – perguntou um dos garotos.
– Claro, os novatos estão jantando. Venha, eu vou te mostrar – ele subiu em uma das beliches e pulou em direção ao teto, fixando-se nele como se fosse uma lagartixa. Rose se espantou com aquilo, mas permaneceu encolhida, em silêncio. Estavam do outro lado do quarto, por sorte a cama dela era uma das últimas.
– Cuidado, Rafael! – sussurrou o amigo, supervisionando a porta do alojamento. Rafael engatinhava no forro do alojamento com facilidade. Parecia que tinha cola nos sapatos e na mão. Por fim, chegou até a lâmpada do quarto e a tirou, enfiando-a no bolso e colocando outra no lugar. – Acha que os novatos vão gostar?
– São as nossas boas vidas – Rafael sorriu, jogando-se para a beliche mais próxima, que infelizmente ficava a duas beliches e distância de Rose.
O outro menino gritou algo como “cuidado” e se jogou nas sombras do quarto, camuflando-se tão bem que nem mesmo Rose soube dizer onde ele estava. Será que era isso o que aprendiam naquele lugar? Camuflar-se nas sombras ou andar sobre o forro do alojamento dos novatos? Patético, ela pensou. O “cuidado” veio por causa de outra pessoa que passou pela porta sem parar. Depois de alguns segundos, voltou dando ré e olhou para dentro do quarto. Abriu a porta e observou o local, sem nem perceber as sombras movendo-se em direção a ele. Com a mão estendida, o menino que acabara de entrar no quarto acendeu as luzes, que piscando como uma discoteca começaram a dançar entre os beliches. Ele suspirou alto e pesadamente.
– Rafael, o que foi isso? – o menino perguntou, com irritação.
Rafael começou a gargalhar e desceu de cima da beliche em que estava. Tinha ficado em um silêncio tão profundo que Rose nunca teria desconfiado de que estava ali.
– Boas vindas do clube de dança! É claro.
– Anualmente – completou o garoto nas sombras, saindo delas e com um sorriso. – Boa noite para você também, Edgar.
– Boa noite, Tomas – Edgar fez uma reverência sarcástica. – Saíam do quarto dos novatos, não foi dito que é proibido invasão?
– Nós só estamos fazendo uma discoteca pra eles – Rafael sorriu, seus dentes brilhando enquanto as luzes rodavam.
– Troque – exigiu Edgar.
– Mas eu acabei de pagar oitenta dólares só pela lâmpada! Quero ver a cara deles!
– Troque. – ele repetiu da mesma maneira calma de sempre – Agora. – acrescentou.
Rafael fez as mesmas coisas que tinha feito para colocar a lâmpada do clube de música, subiu a beliche, grudou-se no teto, engatinhou até o prato e trocou a lâmpada, mas dessa vez ela era uma simples luz amarela e doentia, sem calor, sem vida. Edgar fez um movimento para que eles saíssem do quarto. Rafael, relutante, pegou o braço de seu ajudante e os dois saíram apressados do alojamento. Porém o menino de cabelos louros e curtos continuou na porta do quarto, passando os olhos por cada extremidade, até pará-los em Rose. Ela estremeceu. Edgar, entretanto, ergueu as sobrancelhas em surpresa. Não tinha visto-a ainda.
Começou uma calma caminhada em direção a ela, e quando chegou no corredor entre as duas beliches em que Rose estava, agachou alguns centímetros mais longe, com os braços apoiados nos joelhos e as mãos unidas com os dedos. Ele ainda tinha as sobrancelhas levantadas, o que provocou uma risada em Rose, mesmo que seus olhos ainda estivessem inchados e queimando de tanto chorar.
– Olá, pequenina – ele disse, em tom gentil. – O que está fazendo aqui? Não quis jantar?
– Perguntas demais – Rose fechou o sorriso, em sua carranca que arrastava por todos os lugares em que ia. – Eu não quis jantar, é verdade. Também não quis estar aqui, é verdade.
– E andou chorando, é verdade?
– É. – ela respondeu, ríspida.
Edgar a avaliou com o olhar e então assentiu consigo mesmo.
– Avaliando assim, você é muito boa em se esconder, não?
– Como?
– Ninguém notou sua presença, ou ninguém que estivesse examinando tudo. É isso que você faz sempre, se esconde das pessoas, ou foge delas?
– Eu mato elas – Rose o cortou – Convenço-as de se jogarem em lagos, de pularem de um prédio de quinze andares. Coisas do tipo.
– Persuasão de fato é uma habilidade bastante invejável. – ele assentiu consigo mesmo – Mas esse é o seu jeito de se livrar das pessoas? Matando elas? Não foi a coisa mais inteligente que já ouvi hoje.
– E o que foi? – ela o surpreendeu com essa pergunta.
Edgar colocou um leve sorriso nos lábios, quase com ironia.
– “Eu mato as pessoas”.
– Não foi bem isso que eu disse.
– Quando foi que falei que você tinha dito a coisa mais inteligente que ouvi hoje? Essa foi Ariel reclamando que eu me recuso a combater com ela. É óbvio que não irei, ela vai acabar se machucando e eu prefiro não atrair problemas para o meu lado – Edgar soltou o ar que prendia – Enfim, o que você estava fazendo ao chorar?
– Derramando lágrimas. – ela notou.
– Certo, certo, percebi que com você não tem gentileza... Me diga o que a fez chorar.
– É uma ordem?
– É. – ele a pressionou com os olhos azuis faiscantes. – Uma ordem do Chefe dos Veteranos.
Rose engoliu em seco.
– Eu odeio esse lugar.
– Ah, só isso?
– Como só isso? Eu queria estar em casa!
– Que casa? – Edgar gargalhou com sarcasmo, jogando a cabeça para trás e fazendo as sobrancelhas se arquearem. – Não há outra casa para você senão esta! E além disso você parece uma criança mimada chorando desse jeito por causa das suas preferências.
Rose mostrou a língua para ele, ignorando seu comentário. Edgar riu fraco e se levantou, enquanto caminhava para o corredor do quarto. Parou na porta, virando o pescoço.
– Boa noite, pequenina.
– Meu nome é Rose.
– Boa noite, Rose.
– Boa noite, Edgar.
º º º
Enquanto corria em direção ao breu, ela sentia as trevas sugando seus sapatos e seus pés afundando cada vez mais. A relva era densa e negra na luz da lua. As árvores grandes e formando um estranho corredor, impedia que a luz pálida atravessasse os galhos. Rose engoliu em seco, enquanto corria entre elas, ouvindo seus pés rasgando as folhas caídas. Ela odiava aquele barulho, mas não podia parar. Aquilo a estava seguindo desde a cada da fazenda, mamãe disse para correr, disse que precisava chegar ao lago. Mas... Onde aquele lago tinha ido parar? Ele era tão perto de casa, poderia chegar lá somente saltitando. Mas agora ele tinha corrido também. O lago corria dela e ela corria daquilo. Aquela coisa negra e humanóide que a perseguia em todos seus pesadelos.
Acordou exasperada, sentindo o suor escorrer por entre os seios e debaixo das pernas. Com os olhos arregalados, sentiu a luz cegá-la por alguns segundos, até se acostumar. Os outros também estavam acordados e todas as cabeças erguidas em direção ao beliche de Rose. Ela tinha o sangue fervendo dentro das veias e o rosto queimava em vermelho. Logo uma garota apareceu na porta do alojamento correndo, ela vestia um pijama vinho e pantufas verdes-musgo. Os cabelos em desanimo, embaraçados, como se ela tivesse acabado de sair da cama. Seus olhos pequenos e sonolentos mostravam que ela ainda precisava dormir muito. Mas a menina não parou de correr até chegar na cama de Rose. Ela subiu até a cama de cima com facilidade, os braços eram fortes, pegou um tecido de dentro da sacola que trazia e o colocou na testa de Rose.
Era gaze molhado e gelo, Rose percebeu. Logo um arrepio invadiu seu corpo quente. A garota parecia desesperada, tocou o queixo de Rose nas mãos e abriu sua boca com as mãos finas. Ela tinha unhas grandes, por isso machucou um pouco a boca de Rose. Enfiou goela abaixo uma colherada de algo que queimou a garganta de Rose. Ela se sufocou, tossindo e procurando por algo para beber. Tocou o saco de gelo das mãos da garota e colocou o dos cubos na boca, sugando-o.
– É bom vê-la de volta, Rose – ela sorriu, com alívio. A tensão saiu de seus ombros. – Espero que não tenha sonhado com algo tão terrível.
Rose foi levada em direção ao quarto dos novatos. Enquanto isso, a menina ao seu lado tinha dito que seu nome era Luccina, mas que Rose poderia chamá-la de Luci. Luci era alta e muito bonita, com longos cabelos pretos que balançavam um pouco abaixo dos seios (que deveria estar em falta), os olhos verde petróleo agora escuros com as sombras fantasmagóricas que o Instituto á luz da Lua lançava sobre elas. A mão de Luci a acompanhava o tempo todo em suas costas, o que irritou Rose. Mas ela não disse nada. Assim que terminou de engolir o líquido ardente sentiu uma sensação de segurança e teve domínio sobre a realidade, sabia que aquilo tinha sido apenas um sonho.
Virou no corredor que no começo do dia tinham identificado como o lado dos dormitórios masculinos. A luz de um dos primeiros quartos estava acesa, enquanto alguns adolescentes a rodeavam. Eles pareciam estar tendo uma discussão. Chegando mais perto Rose conseguiu ouvir algo como:
– ...no meu quarto?
– É o mais organizado – revidou a menina que possuía cabelos cacheados até a altura dos seios.
– Mas o meu quarto? – garoto movia as sobrancelhas de modo descontrolado.
Luci limpou a garganta, chamando a atenção deles. A garota de cabelos cacheados mudou o semblante na hora e logo pôs um sorriso nos lábios grossos, vindo cumprimentar Rose com um abraço esmagador. Rose se irritou levemente com isso, não era muito fã de abraços, mas um ou outro de vez em quando era bom. Na verdade Rose era carente, nunca deixava alguém se aproximar dela com seu mau-humor constante. Assim, ela tinha necessidade de contado físico. Às vezes esbarrava ou batia nas pessoas, apenas para tocar nelas.
– Olá, pequenina.
– Qual é a de vocês de insistirem em me chamar de pequenina? – ela perguntou, em tom de irritação. – Meu nome é Rose.
– Desculpe-me, Rose. Sou Ariel, Chefe dos Veteranos.
– Chefe? Mas pensei que Edgar era o chefe. – Rose olhou para o garoto louro parado na porta de seu quarto, com as sobrancelhas ainda se erguendo e abaixando.
Ariel soltou uma risada contida, chamando a atenção de Rose. A risada dela não era sarcástica, nem irônica, era normal. Uma risada verdadeira. Com as sobrancelhas grossas, Ariel parecia uma boneca. O nariz levemente arrebitado e os lábios grossos entreabertos. O corpo proporcional ao seu tamanho (ela era baixinha assim como Rose), mas as pernas compensavam, eram grossas e pareciam resistentes. Ariel notou o olhar interessado de Rose.
– São boas para chutes violentos – explicou ela, não com orgulho, mas simplesmente explicando.
– Entendo – concordou Rose, tentando não ruborizar. Nunca tinha visto alguém encarando suas pernas e com certeza deveria ser vergonhoso fazê-lo. Ao se redor, os outros se aproximaram. Luci, ao seu lado, ainda mantinha a mão em suas costas, mas Rose nem percebia. Ariel estava a sua frente, com um sorriso de lábios macios. Edgar, logo atrás dela, mantinha as sobrancelhas no alto da testa, com um sorriso travesso. O outro garoto, de cabelos escuros e óculos grande também tinham uma expressão de alegria e contentamento.
– Bem vinda á Resistência. – disseram em voz uníssona.

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