Notas iniciais
Desculpe a demora! >.< Aqui é a Meell! :3

A Cor da Fome

“Quem está com fome fica surdo até mesmo à voz de Deus” – Érico Veríssimo

Luccina Astrolov

Olhou uma última vez por cima do ombro para o estábulo. Sentiria saudades daquele lugar. Enquanto se esgueirava por entre as sombras daquele final de dia, tentava não sentir o cheiro do final do verão chegando. Era terrível ter neve em pleno verão. Rússia nunca a tinha agradado, mas lá o verão era uma espécie de inverno menos rigoroso. Ou pelo menos estava sendo nos últimos cinco meses. Quando acordou naquela manhã, sentiu o corpo doer e arquear de uma dor causada pelo frio que entrava da janela aberta. Quem deixara aberta, ela não sabia, mas lembrava de tê-la fechado antes de dormir. Talvez Gloss, que estava dormindo no mesmo quarto que ela tivesse acordado mais cedo e... Ah, é verdade, Gloss não tinha aparecido para dormir.

Deslizou suavemente pela neve, sem levantar suspeitas. Não queria acordar os animais, ou mesmo o inverno. Caso o fizesse, estaria perdida. Não conseguia mais contar os dias que faltavam para voltar para a Carolina do Norte. Seus amigos... Ou melhor, Zeus, estava esperando por ela. Ele tinha voltado para o Instituto assim que fora descartado. Mas como eles estariam lá no Instituto da Carolina? Talvez um pouco confusos, afinal somente Madame Gláucia e Ariel estavam lá para cuidar dos novatos. Lembrou-se vagamente de que Clevence também poderia ajudar, além de Rafael e de outros veteranos, mas nenhum deles tão fortes quanto a Resistência. Notou que tremia.

Os dentes batiam e seus ossos rangiam, como se fosse uma velha porta. Queria correr para perto de uma lareira, mas não poderia, não agora. Enquanto mantinha as mãos frias dentro dos bolsos do casaco e tentava ao máximo grudar a lã em seu peito, o mais quente que conseguiu foi um breve suspiro dentro do cachecol. Com a touca escondendo os olhos, parecia uma menina fugindo de casa. A mochila estava pesada nas costas, porém não era agora que reclamaria. Segurou firmemente a mão da pequena menina, enquanto tentava reorganizar os pensamentos. Tinha acordado com frio, confere. Anya estava esperando por ela no pé da cama, confere. Ela queria ir até uma loja de conveniências próximo ao Instituto, porém seu mentor não permitiu, confere. Luci tocou levemente a testa com a outra mão. O que tinha dado nela? Como de uma hora para outra aceitava fazer aquilo... Ela não era uma babá! Mas... Anya parecia tão... Fraca.

– Gosto tanto desse frio. – ela disse, de repente.

Luccina não compreendeu onde Anya poderia ver algo bom para gostar dentro daquele inverno de verão (vá entender...), mas não questionou. Permaneceu em silêncio, afinal sabia que caso abrisse a boca logo sua língua estaria congelada. Mantinha os olhos semicerrados, mordendo os lábios e abrindo feridas feias, mas sem notar, afinal o frio tinha tirado qualquer sensação que pudesse ter. era como se aquele vento frio a estivesse cortando em pedaços de carne, separado e depois enviando para um açougue. Podia sentir o sangue correndo quente nas veias, rápido para aquecer. Embora não conseguisse controlar a temperatura do corpo, tinha aprendido truques de como se aquecer.

– Por que você quer ir lá? – perguntou, por fim, temendo que Anya estivesse congelada, de tão quieta que estava. A menina apenas virou a cabeça para ela, deixando os cabelos louros escaparem do gorro que estava usando. Sorriu e esticou os olhos azuis num lindo bater de cílios, longos e curvilíneos.

– Quero sorvete.

Luci parou, ainda segurando a mão da menina. Sorvete... Pensou seriamente e depois balançou a cabeça violentamente. O que Anya tinha na cabeça? Sorvete naquele tempo... Quem ainda estaria com as portas abertas? Quem tomaria sorvete no inverno de verão da Rússia? Quem em sã consciência iria se congelar tomando sorvete? Respirou fundo, sentindo o frio do ar entrando e saindo.

– Anya, sorvete não vai dar. Não está no clima para isso.

– Mas eu quero – ela continuou, doce como sempre – E você vai me levar.

Luci piscou, inquieta. De repente notou que estava pensando que não era uma idéia tão má assim, e logo já estava andando novamente, com os pés deslizando na neve branca. Anya realmente tinha um poder de persuasão avassalador.

º º º

Brandon Samartin

Tocou suavemente a testa. Apertou até que sentisse alívio. Este era seu jeito de tirar a tensão dos ombros. Enquanto sentia as bochechas frias e vermelhas, não poderia ter certeza se o nariz ainda estava lá. Seu queixo batia, enquanto mantinha o corpo dentro dos cobertores. Espirrou novamente, enquanto se engasgava com a própria saliva.

– Tome cuidado – disse Rose – Não gaste sua garganta. Sua sopa. – ela entregou o prato nas mãos de Bran.

– Obrigado – ergueu os braços para pegá-la, porém recuou rapidamente quando seus dedos roçaram nos de Rose. Ela ruborizou. Soltou um longo suspiro e voltou a pegar o prato, com mais cuidado agora. Não entendia porquê de todo aquele clima tenso, mas sabia que era por causa do beijo.

Desde que tinha acordado com gripe, começara a ter um tratamento especial de Rose. Queria acreditar que era apenas gentileza. Enquanto mantinha os olhos baixos, tentou não olhar para ela enquanto arrumava seu cobertor ou abria as janelas do quarto, deixando a fraca luz do dia entrar. Algum tempo atrás tinha sentido uma vontade tremenda de comer sorvete e pedira a Anya que fosse comprar. Para quê? Só percebeu na idiotice que tinha feito quando a menina já tinha saído do quarto. A única loja de conveniências próxima do Instituto ficava á muito de caminhada. E estava frio, muito frio. E sorvete não era a melhor coisa para se comer enquanto estava gripado. Bran resmungou um xingamento para si mesmo.

– Você deveria se deitar. – ela disse, sentando-se ao seu lado na cama – Pode deixar que eu te dou sopa.

– Não, obrigado – Bran recuou, nervoso. Manteve, porém, o rosto num neutro tom pálido. Sabia controlar seu rubor.

Rose pareceu decepcionada, mesmo assim não desistiu, pegou o prato de sopa das mãos dele e enfiou a colher goela abaixo. Bran só teve tempo de sentir aquela sopa descendo e queimando sua garganta, e então buscou ar. Rose apenas mergulhou a colher novamente no prato e a levantou, pronta para lhe dar mais um pouco.

– Pelo menos deixe esfriar – ele pediu, quando se recuperou. Rose corou violentamente, abaixando a colher e assoprando a sopa, fazendo pequenas ondinhas se levantarem do líquido e derramarem no cobertor de Bran.

– Desculpe-me... – abaixou os olhos. Ela parecia tremer de nervosismo, com as bochechas coradas.

– Rose.

– Sim?

– Por favor, me deixe sozinho.

– Mas você está gripado! Tenho de cuidar de você.

– Não tem. – ele disse, firme. – Não quero você aqui. Eu me acostumei em ser solitário. É mais confortável.

Ela piscou, até entender. Embora estivesse relutante, abandonou o quarto, levando junto a sopa. Ele soltou outro suspiro. Pressionou a testa novamente, mas desta vez nada aconteceu.

Logo Anya chegaria dizendo que não tinha conseguido comprar o sorvete, ótimo. Ela já tinha saído fazia tempo e talvez ainda estivesse implorando para Petor deixar, o que ele jamais concordaria. E depois, provavelmente, ela pediria para algum dos outros visitantes do Instituto. A maioria das vezes em que Anya queria alguma coisa que Petor não tinha deixado ela recorria á John, mas agora o menino estava morto, e Anya nunca tinha conseguido persuadir a Bran. Se sentia orgulhoso disso, é verdade. Mas ninguém em sã consciência iria se aventurar na neve e naquele frio para ir comprar um pote de sorvete para uma garotinha de seis meses... Ele soltou outro suspiro. Sabia que qualquer um iria. Anya tinha o dom de conseguir qualquer coisa que quisesse.

Não estava entendendo porque só conseguia pensar nela.

Notas finais
Boa noite, dia ou tarde! Espero que tenham gostado. Beijos na Nuca.