Notas iniciais
Todas a traduções estão na nota de rodapé.

"Spiritus autem manifeste dicit quia in novissimis temporibus discedent quidam a fide adtendentes spiritibus erroris et doctrinis daemoniorum"

— I Timotheus IV:I


Antônio nasceu dentro da Ordem.

Não da forma como se nasce em um mosteiro ou em uma família de soldados.

A Ordem da Benção não é algo que se escolhe apenas. Ela corre no sangue de alguns homens.

Seu pai, Antônio Claravel Ortas, foi um Abençoado. Um dos melhores. Sua mãe, Marília de Claravel Ortas, era respeitada entre os membros da Ordem como poucas mulheres jamais foram. Foi nesse ambiente que ele cresceu — entre orações, histórias de caçadas e o cheiro de pólvora.



A Ordem surgiu em 1891. O Brasil acabara de abandonar o Império e o país mergulhava em incertezas. Enquanto políticos disputavam poder e cidades cresciam sem controle, alguns homens enxergavam um perigo maior se movendo nas sombras. Eram leigos católicos, homens de fé e de armas. Inspirados pelas antigas ordens militares da cristandade — aquelas que no passado haviam empunhado espadas pela fé — decidiram criar uma nova cavalaria.

Mas os tempos haviam mudado.

A espada já não reinava nos campos de batalha. Por isso os primeiros Abençoados trouxeram da Europa cem revólveres belgas Nagant. Foram modificados. Reforçados. Adaptados.


A arma substituiu a espada.

O revólver substituiu a lança.¹


A pólvora tornou-se instrumento de juízo.



Com apoio silencioso de parte do clero — e o financiamento de um nobre que preferiu permanecer esquecido pela história — a Ordem cresceu. Nem todos dentro da Igreja aprovavam sua existência. Alguns bispos viam na irmandade uma defesa necessária contra forças do mal, que a maioria das pessoas jamais acreditaria existir. Outros a consideravam perigosa. Ainda assim, ela permaneceu, sempre nas sombras.



Com o passar dos anos, os Abençoados perceberam algo que poucos homens ousariam admitir: o mal não era apenas humano. Algumas criaturas não pertenciam a este mundo. Demônios. Potestades. Espíritos que rastejavam entre os vivos procurando carne, medo e pecado. Contra essas coisas, armas comuns nem sempre bastavam.


Eles começaram novas práticas. Munições benzidas. Relíquias sagradas. Orações que aguçavam os sentidos no campo de batalha. Gestos de proteção aprendidos em velhos manuscritos esquecidos.


Alguns membros chegaram a se aventurar por caminhos perigosos — místicas obscuras, pactos e maldições. Poucos sobreviveram a isso. A Ordem aprendeu cedo que o inferno sempre cobra seu preço.



Décadas se passaram. A Ordem continuou existindo entre catedrais, becos escuros e arquivos secretos.


Nos anos em que esta história começa, ela já tem mais de um século de existência. E Antônio é um de seus Abençoados. Não um noviço. Não um soldado comum. Mas um pistoleiro feito. Um homem que já recebeu sua Benção e está autorizado a empunhar armas santificadas contra aquilo que rasteja nas trevas.



A maioria dos Abençoados combate apenas homens. Assassinos. Estupradores. Traficantes. Criminosos que vivem nas sombras da sociedade. Mas alguns poucos são destinados a algo diferente: demônios. Esses são chamados de Aniquiladores.


Eles não são escolhidos por votação ou antiguidade. Um Aniquilador escolhe o próximo. E geralmente o faz reconhecendo algo raro no candidato: um dom. A capacidade de perceber aquilo que o mundo comum não vê. Sentir presenças. Rastrear espíritos. Manter a mente firme diante do horror. Esse dom quase sempre percorre o sangue de uma família, manifestando-se de forma hereditária.


O pai de Antônio possuía esse dom. E agora ele também.



O treinamento de um Aniquilador não é breve. Anos de pontaria. Combate corpo a corpo. Disciplina da mente. Estudo de demonologia. Oração. Jejum. Silêncio.


Quando finalmente estão prontos, participam de uma missa solene chamada Liberum Caerimonia. Ali recebem sua Benção. Um padre consagra suas armas. Um santo é designado como seu protetor. E o pistoleiro entra oficialmente em guerra contra o inferno.



Dizem que depois dessa cerimônia algo muda dentro deles. Alguns afirmam que passam a ter corpo fechado. Outros juram que podem sentir o mal à distância. Há histórias de Abençoados que sobreviveram a tiros, quedas impossíveis e batalhas contra demônios que deveriam ter matado qualquer homem. Existem até relatos de revelações do futuro. Talvez exageros. Talvez não.



Uma coisa é certa: quando um Aniquilador saca o revólver, alguma coisa no inferno treme.


E é por isso que as criaturas das trevas aprenderam a temer um nome. Antônio.



Notas finais
Tradução da citação bíblica: "o Espírito afirma claramente que nos últimos tempos alguns apostatarão da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores e a ensinos de demônios." – 1 Timóteo 4:1 Notas do Livro do Vigilante: ¹ Trecho do Codex Benedictionis – A evolução das armas reflete a mudança da era medieval para a era moderna, onde a pólvora e as armas de fogo se tornaram fundamentais na luta contra os demônios. A Ordem da Benção adaptou-se a essa mudança, incorporando armas de fogo em suas estratégias de combate. No primeiro capítulo: OPUS.