Após o desjejum, Mina e sua mãe foram deixadas sozinhas em casa. O pai, junto ao grupo de negócios, iria à vila para explorar melhor a região, provar mais alguns sabores locais e prestigiar a paisagem. Embora a criada preferisse a casa vazia, ainda lhe sobravam tarefas e a crescente preocupação do que fariam sem galinhas e agora com poucos ovos. Esperava que chocassem logo no vizinho.

Aproveitou para fazer uma faxina geral, para em seguida avaliar os ingredientes comprados. Não tinha visto antes, mas havia também uma saca de castanhas e amêndoas, um pacote de favas de baunilha. Uma gota de suor descia de sua nuca ao pensar nisso, por mais que todo o restante do ambiente da sua casa concordasse com a fartura de tais itens. Afinal, mesmo após anos de duro trabalho, o lar preservou a beleza da decoração e limpeza. As cortinas aveludadas concordavam, as louças e a prataria também. Uma beleza talvez não tão na moda ou opulenta, mas clássica e bem cuidada — por ela própria.

Parte de si desejava subir as escadas e fazer sua viagem de exploração também, vasculhando o escritório do pai ou os pertences daqueles outros homens. Não passava na sua cabeça qualquer constrangimento ou culpa, desde que fosse cuidadosa o suficiente. E desde que não fosse pega.

Porém, imaginou que encontraria pouca coisa interessante, ou melhor, que nada se resolveria com informações novas. Ela já desprezava seu pai, não precisava de mais provas de que ele era péssimo. Precisava agir. Então, a outra metade de si jazia incerta, temerosa no que fazer, por mais que estivesse certa de que era necessária ação.

Não conversava sobre isso com sua mãe. Suas tentativas anteriores foram deprimentes. Talvez por tolice, estava disposta a tentar de novo. Seu pai estava audacioso e não era transparente com o dinheiro, apenas com suas ordens. E se a fartura era pouco compartilhada, por que a miséria sim? Aproximou-se dela, que lia em uma cadeira perto da janela. Chamaria-a de mãe? De patroa? Ela era ambas. Preferiu ir direto ao assunto:

“Onde acha que ele conseguiu o dinheiro para os ingredientes?”

Só havia um “ele” na vida delas. Sua mãe e patroa entendeu sem tirar os olhos da página.

“Querida, seu pai é um homem controlado. Deve ter poupado.”

Poupado quanto? Poupado desde quando?

“Acha que ele tem mais?”

Enfim, a outra esboçou reação: levantou os olhos e arqueou uma sobrancelha, intrigada e com ar grave.

“E que luxo você quer para fazer essas perguntas?”

Carmina pensou na palavra “luxo” e seu sangue ferveu. E ela poderia temer a mão de seu pai, mas não a língua da mãe. Não mais.

“Comer algo melhor mesmo enquanto ele não está em casa é um bom começo.”

Houve silêncio. Carmina não soube dizer se sua mãe não explodia pela falsa noção de educação que tinha, ou porque, no fundo, concordava.

“Ele é um homem honesto. Jamais…”, ela gaguejou, “Jamais esconderia dinheiro. Tenha um pouco de gratidão, ele tem se esforçado. Se o negócio com chás der certo…”

“Eu vou continuar servindo chás,” Minha a interrompeu, “Afinal, fui eu quem fiz ontem. Ouvi que eles adoraram.”

“Então o seu problema é servir chá?”

“Depois de anos servindo chá, você acha que meu problema é o chá?”

O problema era ele. As duas sabiam. Se fosse para se sustentar apenas com a Casa de Chás, muito bem. Isso seria feito. Mas não era possível investir em algo e comer, enquanto o pai seguia a vida como um rapaz em busca de sempre se reinventar, inovar, prosperar com fundos dos outros.

Mãe,” ela clamou, “Abra os olhos. As viagens. As roupas. As desculpas.”

A patroa fechou o livro e se levantou.

“Talvez você devesse então procurar algo diferente, um dinheiro que seja só seu. Vamos ao Festival esse ano para oferecer chás. Espero que esteja disponível.”

Mina ficou sozinha na sala. Não teve vontade de chorar, pois lágrimas seriam em vão. Mas sentiu seu coração apertado. Sua mãe não era burra, embora fosse estúpida. Era provável que a mesma desconfiança navegasse pelos pensamentos dela, mas se recusava a admitir ou investigar. Por quê? Porque ela já não sabia mais como a vida seria sem grilhões e pesos, mesmo que isso custasse a juventude de Mina também.

E a última recomendação de sua mãe era verdadeira, quem sabe a única coisa útil que ela tinha dito há tempos. Precisava encontrar dinheiro em outras fontes, em outros poços; se fosse o caso. O medalhão que madame Vívian lhe dera seria a última opção de enriquecimento, entretanto, era bom ter aquele segredo. O que mais ela poderia fazer? Ela riu da ironia: iria fazer um chá para si própria. Precisava de uma pausa. E então pensaria em dinheiro, como sempre.

Com um suspiro, ela caminhou pelos fundos da propriedade com o chá em mãos. Apreciava a paisagem verde, o vento que uivava aqui e ali. A chuva deixara a paisagem melancólica, com um aroma fresco. E por mais que a tempestade não tivesse arrancado nem metade das flores das árvores da região, uma lufada trouxe uma flor vermelha para dentro de sua xícara quente.

Ela sorriu. Nunca lhe ocorreu fazer chá daquela flor que decorava a estação. Pensou no chá da noite anterior, com um tom leve de vermelho. Será que aquelas pétalas…? Imaginou a cor, se seria intensa como tinta ou sangue. Se seria adocicado, venenoso.

Mas sua maior fantasia em relação ao chá não foi bebê-lo, foi ser o alvo da cobiça de ofertas e dinheiro daqueles homens tolos. Na sua cabeça, vieram cenas de riqueza, poder e vingança. Um pouco de solidão, mas uma boa solidão.

Foi nesse momento em que ela viu a raposa à distância, seu pelo fulgurante. Encarnaram-se em silêncio. Carmina não a culpava pelas galinhas, pois o animal precisava comer. Talvez a invejava pelas patas pequenas, porém potentes. Parecia que um dia foi uma garota que sabia dançar.

Mina não avisou ninguém sobre o animal rápido e carmesim.