Notas iniciais
Aproveitem, semideuses... Boa leitura.

Acho que eu nunca tinha vivenciado algo parecido. Quero dizer, minha vida sempre foi bem estranha, mas aquilo já era demais. Quando ele veio me buscar, senti um gelado na coluna e meus braços arrepiaram. Não era um sinal de medo, daqueles de quando tememos por nossa segurança, foi um medo por me sentir completa, de reconhecimento.

Tudo havia começado com tacos. Sim, aquela porcaria de tacos que eu decidi comprar para o almoço. Enquanto caminhava, tive uma leve impressão de estar sendo seguida, o que não era novidade. Às vezes, eu andava acompanhada por uma sombra. Já cheguei a pensar que era louca, como aquela vez em que uma garota mostrou uns dentes um pouco afiados demais para mim. Uma hora era uma adolescente normal, outra, ao piscar, uma criatura pálida com cabelo desgrenhado, a qual parecia estar faminta. Sua boca estava esculpida por um sorriso de escárnio, e seria mais aceitável se eu simplesmente parasse por aí, só que teve mais... Ela me devorava com seus olhos claros, semelhantes aos de uma serpente. Sabe, não é comum termos atos de canibalismo pelas ruas de Nova Iorque, mas, por via das dúvidas, ao perceber que a menina aproximava-se, eu fugi. É, quanta bravura... Sei disso.

Então, enquanto andava, não estranhei a presença de alguém. Tem uma hora em que você simplesmente para de se preocupar. O grande porém da questão é que eu deveria, sim, ter me preocupado.

Ao passar perto de um beco, fui segurada pelo capuz e levada para a rua sem saída, escura e suja. As caçambas de lixo estavam lotadas e as tampas abertas pela grande quantidade de comida podre, deixando o local com um cheiro muito desagradável.

Eu protestei e virando, deparei-me com um garoto de, no máximo, quinze anos. Visual meio dark, coturnos e a pele contrastando com o preto abaixo de seus olhos. Era bonitinho... Se você gostasse de um cara meio vampiresco. Para mim, "passável".

— Lorelai Tate?

Sua voz era um pouco rouca e, assim como eu, não parecia muito satisfeito em ter que estar ali, naquela situação, o que era, no mínimo, estranho.

Engoli em seco, tentando obrigar os resquícios de susto em meu rosto sumirem. Eu assistia a muitos filmes e séries de criminalística e o menino realmente encaixava-se ao perfil de um lunático. Ele constantemente olhava para os lados, como se visse ou premeditasse coisas. Talvez estivesse chapado, isso também era uma opção.

— Quem você pensa que é? Me deixe ir, se não eu vou gritar.

A ficha, então, caiu.

— Espera, como você sabe o meu nome?

Ele sorriu de lado. Um sorriso rasgado, como se fosse algo incomum de se fazer.

— Bom, isso responde à minha pergunta...

Permaneci em silêncio, isolada em minha própria idiotice e, por pouco, não dei um tapa em minha testa. Merecia o prêmio internacional de estupidez. É claro, prestes a ser sequestrada e eu fico de conversinha mole, só faltava convidá-lo para uns tacos e dar mais informações pessoais. Mandou bem, Lori.

— Você precisa vir comigo.

Franzi a testa, dando uns passos para trás. Em resposta, ele deu passos à frente, em minha direção, encurralando-me.

— O problema é que eu não sigo pessoas desconhecidas e com aparências um tanto questionáveis por livre e espontânea vontade.

— Ora, podemos tornar a situação mais agradável se quiser... — Estendeu a mão pálida, com seus dedos finos e o anel de caveira. — Sou Nico di Angelo.

Fitei sua mão, hesitante. Eu continuava a andar para trás e, enfim, minhas costas bateram contra a parede enegrecida do beco. Voltei o olhar ao misterioso garoto, o qual mantinha uma expressão quase confiável e passiva. E, como meu cérebro era totalmente "bugado", eu deveria com certeza vê-lo como desconfiável, potencial serial killer ou um jovem traficante de órgãos.

Engoli em seco, vendo seu rosto mudar e começar a transparecer impaciência. Com uma certa dúvida, apertei sua mão, temendo deixá-lo irritado. Imediatamente, entretanto, senti um impulso elétrico percorrendo meu braço e atingindo minha coluna, porém, tentei disfarçar, pois o garoto parecia indiferente.

Eu estava mais louca que o normal: socializando-se com um cara que queria me sequestrar e ainda pensar que tinha um quê duvidoso em um simples cumprimento.

— Eu realmente vou gritar e... — Pausei. — O que foi?

Nico olhava ao redor, alarmado. Assim, afastou-se um pouco, possibilitando que eu respirasse e bolasse um plano de fuga. Talvez um chute em sua zona sul?

— Nós não temos tempo. — O adolescente anunciou. — Precisamos ir.

— Você espera que eu caia nessa? — Tentei ganhar tempo. — Se vai me matar, faça logo! Pare de protelar com esses papinhos furados.

— Vamos.

Descaradamente, tentou agarrar meu braço, porém, desviei e fiz o que devia ter feito desde o início. Corri.

Por um momento, senti a brisa da liberdade e do efeito de passar tanto tempo assistindo filmes de ação no Netflix, mas, no fim, não consegui dar mais de cinco passos, porque um esqueleto emergiu do chão, bloqueando meu caminho. Um esqueleto vivo!

Soltei um berro agudo e, de alguma maneira, eu sabia que isso era obra do moleque atrás de mim.

— Quem é você? — Virei, encarando-o. — O que você quer?

— Eu preciso levá-la para um local seguro. Você corre perigo e vou salvá-la.

Demorei um tempo para processar.

— Espera aí... — Estreitei os olhos, cética. — Não consigo ver como comprar tacos para o almoço significa correr perigo, Príncipe Encantado.

— Isso porque você não quer ver. — Seus olhos ficaram sombrios. — Não quer acreditar. Até parece que nunca viu algo suspeito na vida, algo que não deveria existir...

Molhei os lábios, pensando em tudo de errado que eu já havia presenciado. Até aquele instante, esses fatos estavam arquivados, mas ali, voltaram à tona como um vulcão acordando: uma série de flashes de lembranças borradas e futilmente ignoradas. Eu não me daria ao luxo de acreditar nas palavras de um estranho, mesmo seu discurso sendo bem cativante.

— Eu não sei do que está falando. — Menti. — Seja lá o que for isso... — Apontei para o ser feito de ossos, o qual se mantinha em posição defensiva. — ... não era para ser para mim.

— Você mente muito mal desse jeito, nervosa como está... — Disse, impassível. — Recebi ordens superiores de levá-la em segurança até o Acampamento.

— Então é isso? Você é de alguma gangue, um subordinado que faz os papéis sujos? — Fiz minha mente trabalhar como se eu realmente entendesse do assunto. — E esse Acampamento é um novo código para matadouro? Não vai me enganar, Nico di Angelo...

— Pare de pensar que matarei você! Se pensasse mesmo que sou uma ameaça, já teria gritado há um bom tempo.

Estreitei os olhos.

— Não pense que sabe o que eu faria ou deixaria de fazer. — Tentei manter uma postura ameaçadora. — Você não me conhece!

— Não? — Ele adquiriu um semblante quase debochado. — Você é Lorelai Tate, adotada por um casal nova-iorquino, Amalia e Julian Tate. Desde recém-nascida está sob a tutela deles e, com poucos anos de idade, passou a ver coisas estranhas, fora do normal e inexplicáveis, portanto. Diagnosticada com TDAH e um pouco de dislexia, nunca entendeu o porquê de ser diferente dos outros... — Arqueou as sobrancelhas, convencido. — Estou aqui para contar a verdade sobre tudo e protegê-la do que está por vir.

Nico estava exaltado. Talvez não fosse sua intenção, mas arregalei os olhos com indícios de medo, o que não passou despercebido pelo jovem, que ficou arrependido por mostrar impaciência ante todas as minhas dúvidas.

— Olha... — Travou o maxilar, tentando acalmar-se. — Eu preciso levá-la em segurança. Vidas dependem disso...

Sua voz ficara calma e comedida e eu estava prestes a concordar quando um estrondo soou no final do beco.

Virei, assim como ele, e fitei seres horrendos feitos de terra e barro, além de alguns galhos com folhas que se projetavam pelas costas disformes das criaturas, as quais saiam do chão, formando crateras e rachaduras conforme surgiam.

— Filha do trovão, do mar e da morte... — Disseram em uníssono com tom grave e sinistro. — Renda-se às forças da Mãe Terra!

Por alguma razão, sem contar a parte deles clamarem por uma "filha", congelei completamente a par de ser o alvo dos monstros. Nada bom...

— Não temos tempo. — Nico pegou meu braço, o que não protestei. — Respire fundo, não vai demorar muito...

— O que quer dizer com...

Assim que uma mão grotesca tentou me alcançar, perto o suficiente para eu sentir o ar movimentando-se, o adolescente puxou-me para um buraco totalmente negro e gélido, o qual aparecera ali de alguma forma.

A sensação era quase indescritível. Sentia-me cortando um líquido denso demais, como se atravessar aquele local fosse difícil, cansativo. Ouvi lamentos e sussurros, além de murmúrios chorosos. Simplesmente depressivo...

Conforme passávamos por entre a escuridão, minhas forças pareciam ser drenadas pouco a pouco e dormir era a única coisa que latejava em minha cabeça.

Eu mal conseguia ver o garoto, apenas a sombra do seu corpo, onde deveria estar pelo menos, porém, eu sentia sua presença. Uma presença quase fúnebre. Mesmo consciente de sua mão firmemente agarrada ao meu braço, tudo era confuso e... Nossa, eu queria tanto fechar os olhos e...

De repente, uma claridade cegou-me momentaneamente. Estávamos em meio a um campo com árvores meio fechadas, conferindo um ambiente quase aconchegante, se não fosse meu estômago quicando dentro de mim. A parada abrupta não fez Nico passar mal, mas toda minha vontade de descansar esvaiu-se e tornei o corpo à frente, vomitando meu café-da-manhã.

— Logo o mal-estar passará. — Comentou um pouco afastado de mim e com uma expressão culpada. — Precisamos ir logo.

Quase olhei para ele e falei "Dá licença? Nem posso vomitar em paz agora?", só que contive minha áurea irritada. Afinal, apesar de tudo, di Angelo havia salvado minha vida de monstros de terra e isso eu nunca poderia negar.

— Por que eu deveria acreditar em você? Aparentemente, você é maluco! — Berrei. — Eu quero ir para casa! Eu só fui comprar tacos... — Choraminguei. — Tacos!

Nico suspirou em sua estranha palidez e acenou.

— Vamos... Vou levá-la para casa.

Franzi a testa, desconfiada, e comecei a segui-lo, pois não tinha outra opção a não ser ficar largada no mato. Subimos uma colina um pouco íngreme e inteiramente gramada e, ao longe, avistei perto de um lindo e vistoso pinheiro, duas colunas apoiando uma enorme placa escrita...

Demorei um pouquinho para ler, graças à dislexia. Juntando as letras confusas e fazendo uma careta desconfortável, ao finalmente entender, o garoto anunciou:

— Bem-vinda à sua nova casa, Lorelai Tate... — Falou com uma voz sombria. — Bem-vinda ao Acampamento Meio-Sangue.

Notas finais
Gente, eu citei o Netflix, mas não possuo direitos sobre ele. ~me sinto obrigada a falar essas coisas óbvias~ O que acharam, semideuses? Comentem e até o próximo capítulo! Xxxxx