Pérola Carmim
6 O mais saudável a se fazer
- Você está chorando?
Não tinha notado, mas enquanto encarava pasma o cigarro em minha mão meus olhos estavam de fato toldados por lágrimas que se recusavam a cair. Demorei um tempo para me sentir preparada para falar, demorei um tempo para notar que ele tinha deixado a grade da varanda para envolver seus braços em mim.
- Era de uma pessoa especial? — perguntou ele, as mãos passando por meu rosto como fazia antigamente quando me via triste.
Eu não achei outra saída além de concordar com a cabeça. Deixei o cigarro cair dos meus dedos e me concentrei somente no abraço que meu irmão me dava. Pude sentir o desespero dele quando viu que agora eu chorava livremente, ele me apertou contra seu peito e isso me ajudou a me sentir mais segura.
Ele fez de tudo para não me deixar sozinha nas semanas seguintes a aquele abraço. E isso foi a demonstração de preocupação mais forte que alguém já me fez. Eu não saberia o que fazer sozinha naquela casa, acho que ficaria louca.
- Isso é completamente normal, não sabe quantas pessoas passam por aqui dizendo que viram coisas e que podiam provar isso.
Eu estava deitada em um divã preto em uma sala bem decorada de um psicólogo que não parava de anotar tudo que eu dizia em um bloco.
Ele se sentava em um pequeno sofá vermelho de frente para mim, os olhos me devorando desde que eu entrara na sala.
- Mas precisa haver uma explicação para aquele cigarro — falei, mesmo que ele já tivesse me dito um bilhão de vezes para que eu me esquecesse daquilo.
- Meu anjo — Ah, se ele soubesse o quanto essa intimidade forçada me irritou. — Você disse que saiu aquela noite, disse que o porteiro confirmou, sabe se bebeu algo alcoólico?
- Bebi.
- Quanto? — insistiu ele.
- Nada mais que um drink.
Ele me olhou por cima das lentes finas do óculos moderno, levantou uma sobrancelha e voltou a fazer uma anotação no bloco que estava equilibrado em seu joelho.
- Digamos que você tenha bebido mais que esse drink e que Andressa fora realmente para sua casa depois disso. Não acha que o resto fora consequência da bebida excessiva? Ela pode ter realmente deixado o cigarro cair no chão da sua casa, essa é a explicação mais realista que vejo.
- É...
Sai do consultório pior do que antes, com os pensamentos embolados. Fazia sentido mentir para mim mesma. Seria de fato mais saudável que eu acreditasse (ou fizesse de tudo para isso) que aquilo realmente não tinha acontecido. Levei minha vida como se nada tivesse acontecido, nem senti necessidade de voltar a falar com o piscólogo. E aos poucos as visitas de Josh foram ficando cada vez mais raras.
Eu me via sem medo outra vez. Tinha arranjado um trabalho em uma bibliotéca, eu simplesmente não aguentaria ficar sem nada para fazer enquanto meu escritório passava pelas últimas obras. Escritório... Sentia-me tão orgulhosa de mim mesma por ter meu próprio escritório e ser uma das advogadas mais novas por lá.
Acordei em um dia qualquer com o despertador berrando sobre a mesinha ao lado da minha cama, como sempre acontecia. Tomei meu café da manhã enquanto via o jornal que passava na televisão, tudo em perfeito estado, as mortes, as tragédias, acidentes de carro, covardias a crianças e idosos... Tudo como sempre.
O tempo voou até as três horas da tarde. Eu nem tinha prestado atenção no caminho até a biblioteca, só sabia que lá estava eu organizando os livros de acordo com os autores em ordem alfabética. E fiz isso até o anoitecer, parando de vez em quando para fumar um de meus cigarros ou para dar informações para leitores desnorteados.
- Isabelle — chamou Jessica, uma colega de trabalho com a qual eu pegava o mesmo ônibus para ir para casa. — Já está pronta?
Olhei para ela do alto da escada em que eu estava empoleirada a organizar uns livros velhos. — Pode ir sem mim, Jess. Vou ficar um pouco mais até terminar de arrumar esses aqui.
Ela murmurou algo que não pude ouvir, tomei aquilo como uma despedida, e virou-se até sumir do corredor que as estantes que iam até o teto formavam. Um livro em especial me chamou a atenção. Estava distante demais para que meu braço o alcançasse, mas mesmo assim me empenhei para pegá-lo. Não tive sucesso, tudo que consegui foi encostar de leve a ponta dos dedos em sua capa vermelha fosca pelo tempo e sem inscrições.
Meus pés vacilaram com o susto que tomei e quase caí.A luz tinha piscado e meus olhos ficaram confusos com a mudança na iluminação. Aconteceu novamente, dessa vez a lâmpada demorou mais para voltar a iluminar o corredor estreito. Segurei com as duas mãos a escada e com passos cautelosos comecei a descer mais devagar do que eu realmente queria. Senti o medo crescer dentro de mim novamente. O medo que eu tinha me empenhado tanto em deixar de lado estava me tomando mais uma vez.
Eu podia lembrar perfeitamente dos olhos amarelos de Andressa correndo atrás de mim, e o silêncio da bibliotéca vazia só fazia com que eu esperasse ouvir aquele chiado a qualquer instante.
Minha bolha frágil de confiança e coragem tinha se explodido.
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