Pérola Carmim
8 03:00
Mesmo que o ar em meus pulmões tivesse me deixado o frio glacial que tomava a sala me machucava por fora. Não queria entender a súbita mudança de temperatura, eu sabia como o ar tinha ficado pesado e gélido enquanto a biblioteca estava nas sombras.
Eu ainda estava de olhos fechados, não conseguia me mover e tinha medo de tentar, mas o que eu faria com a curiosidade que ardia dentro de mim? Abri meus olhos.A tela da televisão estava azul, falta de sinal, pensei eu. Isso justificava a ausência de qualquer som. Não ousei me levantar para desligar, ainda me limitava a apenas olhar em volta.No escuro do corredor nada via, mas era mais que óbvio que meu perseguidor estava por perto, eu sentia que o temor que pesava o ar não podia estar enganado. Algo chamou minha atenção no meio das sombras, um movimento discreto ou só uma peça que meu próprio medo tinha pregado em meus olhos?Me pus de pé, talvez por querer parecer mais forte do que eu realmente era. Logo eu, a ruiva nem alta nem baixa e definitivamente frágil. Uma brancura irrompeu do escuro que a envolvia, não me liguei a forma que tinha, tudo que consegui foi me impressionar com o branco gelo imaculado que se desprendeu do negro. Senti meu coração parar e gelar quando me dei conta da forma daquele branco celeste próximo ao chão. Era um pé descalço, logo pude ver a perna que se estendia e com outro passo vi completamente seu corpo.Foi como se eu tivesse perdido o controle de meu corpo, pois nada mais parecia querer se movimentar para sempre, até mesmo o tremor que tomava minhas mãos cessou com meu choque. Tentei abrir a boca mas as palavras me tinham fugido. Cada fibra do meu corpo queria correr, mesmo que meus músculos se recusassem a se movimentar um centímetro que fosse.Aquele corpo impressionantemente branco estava parado, o ombro encostado na parede, e os olhos de um negro anormal e medonho me fitavam de modo quase arrogante. O peito estava nu e exposto, largo e musculoso carregado em luxúria e volúpia, vestia apenas um pedaço de pano digno de um mendigo, era como se não tivesse pudor algum, como se aquele ser estivesse de fato acima de um sentimento tão bobo como a vergonha.Dei dois passos para minha direita de modo que a mesinha de centro ficasse entre nós, não sabia ao certo porque tinha feito aquilo, mas meu corpo pedia desesperadamente para manter distância daquele ser. Olhei para seu rosto. Era impossível que alguém pudesse ser tão pálido daquela forma, e mesmo que fosse possível, onde estavam as ramificações azuladas de veias que deveriam estar amostra naquele rosto de traços tão delicados?Ele pareceu se render ao me ver tomando distancia de seu ser, desviou os olhos negros de mim e andou mais alguns passos para a luz. Foi então que pude entender o que antes meus olhos não conseguiam compreender quando o tinha visto vindo em minha direção na biblioteca, aquilo que eu pensava que o seguia de perto, aquele vulto comprido a suas costas. Em contraste com sua pele impressionantemente branca, asas negras de penas brilhantes saiam de suas costas, de um negro tão profundo quanto seus olhos que me confundiam.Um tremor percorreu meu corpo. Tive que segurar o impulso de me afastar dele, aquele medo incondicional que eu sentia. Eu tinha que enfrentar aquilo, aquela loucura que me varria a sanidade, independente se aquilo fosse real ou não. De outra forma, como aquilo pararia de me seguir?- O que faz aqui? — perguntei. E minha voz saiu rouca, trêmula e insegura.Ele voltou os olhos para mim, a mesma expressão de arrogante petulância pulsando no negro profundo. Tinha um rosto lindo, mesmo que deformado em expressão insolente, era celeste. E por outro lado tinha aqueles olhos que pareciam tão naturais ao fitar-me daquele modo, olhos desprovidos de bondade. O que seria ele, com esse rosto de anjo, olhos e asas de demônio?- Vim dar-te um presente — disse ele, e sua voz veio deslizando pelo ar até chegar a mim. Tão mansa, aquela voz, tão macia e cativante, que me foi ouvir daquele anjo das asas negras suas palavras que me assustavam assim como ele mesmo o fazia.Só então notei que uma de suas mãos se encontrava atrás de si, em suas costas. Obriguei-me a desprender os olhos daquela beleza, algo em mim me dizia que toda aquela beleza era só uma armadilha, que haveria perigo se eu me deixasse envolver por aquela pele imaculada e pálida. Notei para onde estava olhando só quando os números luminosos me chamaram a atenção. O relógio digital que jazia na estante estava parado, assim como o sinal da televisão estava cortado. Os segundos estavam congelados de modo que aquele momento pertencesse apenas às 03:00 horas.- O que você é? — A pergunta me vazou dos lábios e minha voz soou boba.Ele mais uma vez não teve reação as minhas palavras. Era como se soubesse tudo que iria acontecer, ou se fosse completamente seguro de si. Tudo que vi em seu rosto foi a arrogância carregada que seus traços finos e delicados deixavam transparecer. Uma sombra de sorriso apareceu em seus lábios de cor meio arroxeada, me surpreendeu que seus dentes fossem tão afiados e seu sorriso parecesse tão hostil.
- Um anjo — respondeu ele simplesmente. — Que foi expulso do céu.A lembrança de William me acertou em cheio naquele momento. Lembrei-me de suas palavras, de sua história que antes me foi tão complicada de engolir. E tremi. Minha incerteza virou certeza e entendi porque meu corpo via tanta ameaça naquele ser. Recuei mais um passo sem saber realmente o que fazia e ele pareceu se ofender com isso, suas sobrancelhas tão claras quanto seus cabelos se uniram por um momento.Eu queria ter forças para fazer alguma chama de fé se acender em mim assim como tinha acontecido naquele mesmo dia e expulsar aquele anjo da minha casa, estava disposta a fazer qualquer coisa para ver aquela figura ameaçadoramente perfeita longe de mim.- Já não são horas para pensamentos puros — disse-me ele como se pudesse saber de meus pensamentos apenas por olhar em meu rosto.Olhei para meu pulso, para o relógio prateado que ali havia e encontrei o ponteiro que indicava a contagem de segundos parado e o horário correspondente ao do relógio na estante.- O que tinha a me oferecer? — questionei antes que meu medo me impedisse de falar.Um sorriso se abriu em seu belo rosto. Os lábios de cor funesta se repuxaram sobre os dentes pontudos e finos. Aquele sorriso me fez tremer e senti mais que nunca o impulso de virar as costas e correr dali, mas eu sabia que ele não me deixaria assim tão facilmente.Vi com olhos aterrorizados uma gota rubra cair e se juntar com uma pequena poça de um líquido viscoso e vermelho escuro que se encontrava no chão. Seja lá o que ele escondia a suas costas era a origem daquele líquido que se juntava no chão.- Vim presentear-te — dizia ele, e sua voz mesmo que doce, estava carregada de um prazer cruel que eu não compreendia. — Com a loucura.O impacto que aquelas palavras tiveram sobre mim foi indescritível. Aquele frio que ele parecia compartilhar com o ar a sua volta me envolveu e me tomou o corpo. Meu medo me deixou tonta, eu tinha atingido meu limite tentando lutar comigo mesma para enfrentar meu pavor.Ele pareceu esperar o efeito de suas palavras me atingir para depois estender o braço.Um terror tomou minha garganta e um grito que fez minha própria pele se arrepiar saiu de minha boca. Em suas mãos pálidas ele segurava os cabelos loiros manchados de sangue da cabeça que trazia nas mãos. Reconheci naquele rosto os traços que eu tanto amava, vi em seus olhos vidrados pela morte os olhos daquele que eu tanto adorava em vida.Era a cabeça decaptada de meu pai que ele segurava pelos cabelos. O sangue que tinha caído no meu chão era o sangue que ainda pingava de seu pescoço que parecia ter sido brutalmente arrancado do corpo pelo formato da pele que pendia arroxeada.Senti o chão fugindo de minha percepção, minha vista tornando-se cada vez mais escura. Mas antes que minha visão mergulhasse nas trevas eu ainda tive tempo de ver aquela mão soltar a cabeça morta de meu pai e ouvir o som seco da colisão com o chão.Senti braços gelados me segurarem antes que eu caísse no chão, meu corpo já não tinha forças e eu sabia que eu perderia os sentidos logo, sabia que iria desmaiar.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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