Páginas sobre a chuva
9 O mundo masculino
Margareth ficou encarando o telefone por mais alguns segundos depois que Maya desligou e suspirou por ter sido dura com ela. Depois dos traumas que essa família carregava existia um cuidado quando determinadas palavras eram ditas e uma precaução enorme quando se pensava em tocar em determinados assuntos.
Com a irmã mais velha de Margareth, Leslie, era tocar na falência repentina de sua família. Um dia eles estavam no topo do mundo e no dia seguinte, com a cabeça enfiada no barro. Rose, a irmã do meio, tinha receio todas as vezes que comentavam sobre um jogo. Qualquer atividade que envolvesse cartas lembrava seu vício em jogatina que a tinha feito perder o seu marido e metade de suas posses no divórcio. Beth, a mais nova, ainda sofria em todas as reuniões de família ao olhar para seus sobrinhos recordando-se de seu filho que tinha morrido por se envolver com as pessoas erradas.
Margareth tinha sido a sortuda. Possuía um ótimo marido e uma filha carinhosa, além de uma situação financeira estável. Não tinha do que reclamar. Ninguém compreendeu quando seu marido, Hugh, começou a beber e bater nela repetidamente. Não tinha sinais de que ele era um homem violento e nem que se entregaria ao vício da bebida.
Ninguém nunca tinha feito as contas e se dado conta que a mudança repentina aconteceu na época em que o caçula da família, Samuel, foi morar com eles após ter sido despejado e largado pela esposa. Todos apenas apontaram o dedo para Margareth quando seu marido encontrou o vício e ela expulsou seu irmão sem aviso prévio. Quem assistia de longe imaginava que essa era a fatalidade dela, mas o buraco era muito mais embaixo.
Margo – como era chamada pelas irmãs – caminhou até o escritório e abriu as janelas, deixando que o lugar fosse arejado. Ela costumava fazer isso todos os dias depois que Hugh subia para dormir apenas para que o cheiro de bebida saísse antes que Maya notasse. Atualmente ela só ia até aquele lugar quando queria pensar e se afogar em memórias distantes.
Era apenas se sentar em uma das poltronas e fechar os olhos que ela voltava no tempo. Conseguia visualizar a garota no auge dos seus quinze anos encostada à janela olhando para o quintal do vizinho esperando o garoto que morava ali aparecer e acenar na sua direção. Esse garoto que anos mais tarde viria a se tornar o seu marido.
Viver com Hugh era um conto de fadas. Ele era atencioso e amoroso, nunca ligando para as distinções e os comentários que as pessoas faziam pela rua por Margo ser negra. Hugh nunca ligou nem mesmo quando a família dele insinuou que ele poderia parar de brincar e arrumar um relacionamento sério com uma garota branca. Ele apenas fez as malas, pegou o pouco dinheiro que tinha e pediu Margo em casamento.
Maya veio poucos anos depois. Hugh tinha se estabilizado no emprego em uma fábrica enquanto Margo trabalhava em casa remendando roupas. A família ainda sofria quando a crise atingia o país e Hugh ficava para baixo por não dar o que a filha merecia, mas Maya nunca ligou para isso. Sempre foi uma garota tranquila, tanto em casa quanto na escola, e bastante criativa de acordo com os seus professores.
Margo temeu pela adolescência da família, pois após pegar relatos com as suas irmãs mais velhas, aquela era a pior fase. Para ajudar no sustento da família, Margareth tinha arrumado um trabalho de meio expediente em uma lavanderia remendando as roupas, mas temia deixar sua filha sozinha, imaginando o que os hormônios dos treze anos poderia fazer. Por isso, foi um alívio e tanto quando Samuel se mudou para lá.
Por mais que estivesse em um momento difícil – tanto pessoal quando financeiro – ele ajudava ao máximo em casa. Margo se aliviava quando via a casa brilhando de tão limpa e sua filha no quarto quieta estudando. Era quase uma rotina ver Maya sentada no canto do quarto estudando, por isso demorou para que Margareth percebesse que tinha alguma coisa errada com sua filha.
Um dia chegou um pouco mais cedo e subiu para falar com Maya. Samuel não estava a vista, mas ela presumiu que estivesse saído para comprar algo ou fazer um bico. Subiu as escadas em um profundo silêncio, algo em seu interior estava alertando que alguma coisa estava errada. Encontrou Maya chorando no banheiro, ajoelhada com as mãos no sangue que descia pelo ralo. Margo arfou ao ver a filha daquele jeito e se assustou mais ainda ao ver que tinha algo na mão dela. Era pequeno e estava coberto de sangue, mas Margo sabia exatamente o que era.
— Ele morreu — Maya sussurrou em meio aos soluços levantando o feto minúsculo na palma de sua mão. — Meu tio vai ficar triste.
Margo botou as mãos na boca querendo que tivesse entendido errado o que a filha insinuava. Maya arregalou os seus olhos, talvez percebendo o que tinha acabado de dizer. Largou o feto no chão perto do ralo e jogou os braços ao redor de sua mãe, como se quisesse segurá-la.
— Por favor, não diz para ele que eu conte. Prometi que seria nosso segredo.
Foi nesse momento que Margo percebeu que a quietude da filha não era sinal de uma boa educação e sim medo. Ela limpou Maya e enterrou o feto no quintal – querendo ou não ainda era o seu neto – trancando-as no escritório pelo restante do dia até que Hugh chegasse. Tentou explicar o mais calmamente possível sem dizer nenhuma palavra alarmante perto de Maya, principalmente a palavra que dava realidade à situação: estupro.
Hugh nunca mais foi o mesmo depois daquele dia no escritório. A polícia foi chamada – não para fazer um corpo de delito em Maya. Eles queriam que a menina fosse poupada ao máximo. Mas por conta do barulho de tiros vindo do interior da casa. Hugh estava pronto para matar Samuel por ter tocado em sua garotinha e ele não poderia os pés naquela casa, nem vivo nem morto. E aí dele se ousasse se aproximar de Maya.
Foi nesse dia que Hugh teve seu primeiro porre e a vida de Margo decaiu para a maldição da família Kincaid. Todas as noites, quando Hugh punha Maya para dormir, ele se recordava que não conseguiu proteger a sua garotinha e descia para o escritório tendo mais uma noite de bebedeira. Margo sempre tentava acalmá-lo dizendo que eles poderiam levá-la ao psicólogo e ela ainda não tinha mostrado nenhum sinal de estar traumatizada. Hugh apenas escutava, preferindo não expor o seu desejo em matar o desgraçado.
Ele conseguiu lidar com aquela sede por vingança por longos meses, até o dia em que Margo – em mais uma das suas suaves conversas para que eles fossem dormir – derrubou uma das garrafas de uísque dele. O álcool fez com que algo simples estourasse como o fim do mundo e quando deu por si, já tinha dado o primeiro tapa em Margo. Margareth perdoou que ele estivesse bêbado e limpou o líquido, esquecendo-se da agressão.
E fez a mesma coisa na segunda e na terceira vez. Até que na quinta ou sexta vez que foi ferida no rosto, Hugh finalmente disse uma coisa que marcou sua alma para sempre:
— A culpa é toda sua que ela foi abusada! — berrou apontando o dedo para a esposa que tinha uma das mãos na lateral vermelha do rosto. — Você que colocou o estuprador do seu irmão aqui dentro e nem ao menos me deixou matá-lo. A culpa é toda sua, Margareth! — ele deu outro tapa no rosto de sua esposa que – pela primeira vez – começou a chorar. Hugh estava prestes a dar outro tapa quando um barulho na porta chamou a sua atenção.
Os olhos de Maya estavam arregalados enquanto ela estava escorada na porta vendo a discussão dos pais. Hugh ergueu a mão na direção dela como se quisesse explicar, mas Maya correu para longe.
Margareth abriu os olhos, retornando ao tempo atual ao sentir o lado esquerdo do seu peito doendo e a dor irradiando por seu braço. Respirou com rapidez sabendo que tinha poucos minutos de consciência. Pegou o telefone do escritório e discou.
— Emergência, em que posso ajudar?
— Estou tendo um infarto — ela murmurou com dificuldade. — Não me deixem morrer, por favor.
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Maya acordou inspirada e se posicionou na frente do seu computador pronta para rascunhar o seu enredo. Desde a noite passada, não conseguia tirar os olhos de Anthony da cabeça, mas não tinha sido dali que surgira a sua inspiração e, sim, da história que ele contava, assim como o modo como ele lidava. Os dois eram marcados por passados sangrentos e ela tinha achado ali o enredo que valia a pena ser contado ao mundo.
Resmungou ao escutar o barulho do telefone tocando e pensou em ignorar. Talvez fosse sua mãe querendo um segundo round ou Tony para ter notícias. Rezou para ser a segunda opção. Para a sua surpresa, era Lisa e ela parecia desesperada.
— Maya, sua mãe teve um infarto. — ela disse arfante. — Ela está internada aqui no hospital. Você tem que vir agora.
Maya saltou da cama, recolhendo o máximo de roupa que podia e enfiando na mala. Exigiu saber o hospital em que Margareth estava e o seu quadro. Chamou o táxi e foi em direção ao aeroporto sem ao menos hesitar. Deu uma última olhada para a casa de Anthony e pediu desculpas mentalmente por abandoná-lo.
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