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14 Na Torre Mais Negra


Continuei o caminho pelas ruelas. Eu sabia que se minha visão ficasse pior a cada passo eu estaria indo pelo caminho certo. A fumaça negra encobria as várias torres espalhadas pelo local. Mas, como eu havia notado, tal fumaça surgia de dentro dessas torres, bem como os barulhos metálicos que ressoavam superaudíveis. Algum tipo de trabalho estava sendo feito dentro daquelas torres, uma operação incessante e de alta taxa carbônica.

– Ni, tá difícil, respirar. – Jess comentou enquanto corríamos.

– Estamos chegando.

Logo pude ver o vulto de guardas diante a entrada da torre mais negra e mais alta até então, e de onde a maior parte da fumaceira aparentemente surgira.

– É ali. Dioniese. – Eu confirmei a Reeve e Jess. – Temos que passar pelos guardas.

– Quer que eu atire neles? – Jess perguntou, colocando a metralhadora que carregava em posição de tiro.

– Ainda não. – Eu disse a Jess, fazendo sinal para que abaixasse a arma. Aquilo poderia alarmá-los. – Talvez não haja problema que membros da Corporação entrem na torre, certo?

Aproximamo-nos da entrada de Dioniese. Ao perceber nossa presença, os guardas miraram suas armas para nós. Havia dois ali e ambos usavam um capacete especial para aquele serviço. Tanto a visão e a respiração eram bem protegidas pelos aparatos que utilizavam. Num embate físico, levaríamos a pior.

– Alto. – O guarda disse. – Área restrita.

– Viemos auxiliar a missão. Temos permissão para entrar. – Reeve disse.

E então eles simplesmente voltaram a posição inicial. Passamos por eles confusos, com medo de que nos atirasse às costas, mas não aconteceu. Subimos a escadaria e nos deparamos com uma porta pesada de metal, com as seguintes inscrições:

Torre de Extração 28-906.

Empurramos a porta e entramos.

– Isso foi fácil demais. – Eu comentei.

– Sim. Mas você percebeu que há, de fato, uma missão ocorrendo nesse lugar. – Reeve comentou. – Acho que já sabem que pretendíamos vir pra cá.

– Mas como conseguiram essa informação? – Perguntei.

– Fergo, talvez? – Jess respondeu.

– Ele não nos mandaria para uma armadilha. – Eu disse. – Pelo menos, não se tivesse outra chance.

Espero que não o tenham descoberto… E nem o torturado.

– Ou isso pode ser um sinal que estamos chegando perto de onde a Corporação não queria que chegássemos. – Reeve insinuou.

Olhamos para o amplo hall circular onde nos encontrávamos. Havia correntes grossas que saíam de um vão no chão e se locomoviam na vertical, entrando por outro vão no teto. As paredes eram todas recobertas de um metal oxidado, e havia engrenagens de todos os tamanhos por toda a parte. Escondida no meio de tantos trambolhos, havia uma escada espiral que levava aos andares superiores.

– Vamos subir. – Eu disse. – Alguém nos espera lá em cima.

Jess e Reeve assentiram, e seguiram ao meu encalço pelas escadas.

***

Eu havia sido levado juntamente a equipe que se encontrava comigo no momento do sumiço da lancha, com exceção do general, que foi incumbido de mandar um relatório a distância. Enquanto seguíamos todos pela nave do Príncipe até a sede central, eu me perguntava se Niele havia entendido direito o que eu disse. Ela estava com a mente perturbada e podia não ter assimilado minhas palavras com clareza. Ainda mais “Dioniese”, que não é realmente um nome tão comum. Eu tinha esperanças de que ela se lembrasse do Conto de Dioniese, uma história antiga provinda de uma renomada mitologia. Mas pensando melhor agora, não tinha certeza se tal conto havia sido espalhado também na Ilha de Zedd.

“Havia este herói, chamado Dioniese, que lutou bravamente por toda a sua vida, sempre pelo bem.” Eu lembrei das palavras daquela velha senhora. “Mas ele foi capturado pelos homens que guerreavam contra sua patrulha. E então, ele foi condenado a morte. Mas Dioniese tinha tanta força de vontade, que nada o derrubava. Mil pedras lhe foram atiradas. Ele resistiu. Mil chibatadas lhe foram impostas às costas. Dioniese permanceu de pé. O machado do carrasco desceu-lhe a garganta. A lâmina sequer perfurou sua pele.”

“E o que aconteceu então, vó?” O garoto por trás de enormes óculos redondos perguntou.

“Ele morreu de velhice na prisão.”

E o pequeno Fergo olhara para sua vó decepcionado.

Um conto irônico para um apelido irônico.

Aquelas pessoas da Grande Cidade a chamavam assim, Torre de Dioniese, embora a torre seja apenas mais uma de muitas espalhadas pelas bandas baixas da Grande Cidade, apenas mais sobrecarregada do que as outras.

Acordei de meus devaneios quando o pequeno Maguine entrou no compartimento onde estávamos.

– Adivinhem só! Mamãe vai executar todos vocês! – Ele disse, enquanto gargalhava, até que percebeu que todos os guardas ali estavam caídos. – O que houve aqui?!

Merda! Não era pra você entrar aqui agora.

Parei de mexer nos fios da nave e olhei para ele, retirando minha máscara de gás do rosto. O Príncipe se virou para deixar o compartimento, mas a porta se fechou imediatamente, antes que ele pudesse passar. Ele olhou para mim, suas pupilas brilhantes fixadas em minha face.

– Mamãe sabe de você, agora. Meus olhos são os olhos dela. Não tem pra onde você escapar!

– Isso agora não faz muita diferença.

E o acertei na cabeça com a culatra da minha arma. O Príncipe caiu no chão, apagado.

Utilizei os cabos que havia alterado para reabrir a porta do compartimento. Segui até a cabine do piloto e antes que pudessem notar minha presença, impregnei neles o bom e velho veneno aracnídeo que usava como munição de minha pistola. Não matava, mas reduzia os sentidos, respiração e batimentos cardíacos a ponto da vítima se passar por morta.

Coloquei a nave em modo de pilotagem automática e tranquei os corpos no compartimento inferior, exceto o de Maguine. Voltei e me sentei na poltrona diante ao painel, olhando para os botões e alavancas de controle.

Espero que eu não esteja atrasado demais.

***

Alcançamos enfim o andar mais alto da torre. O som das máquinas funcionando abaixo estava completamente abafado. A iluminação fraca vinha somente de uma abertura relativamente grande ao lado. Uma janela por onde podia se ver a fumaça abaixo subindo. Oposta a ela, havia uma grade, que separava o local ao meio, como se fosse uma cela.

– Ni, tem alguém ali dentro. – Jess comentou, apontando pela grade. Tentei ver pela escuridão no fundo do local. Havia realmente um vulto ali. Movi-me até a porta da cela e tentei abri-la, inutilmente.

– Olá! – Chamei pela grade.

Esperei que o vulto se movesse. Não aconteceu.

– É você quem estava esperando por mim? – Perguntei. Esperei por alguns segundos. – Sou eu, Niele!

Então a sombra se moveu. Um barulho de correntes se arrastando invadiu o local enquanto o indivíduo se locomovia lentamente. Afastei-me da grade. Estive receosa demais e agora eu estava com medo. E então a figura se colocou à minha visão.

A prisioneira era uma velha senhora, com a aparência mais acabada possível. Havia correntes enroscadas em seus pulsos e tornozelos. Ela usava os mesmos trapos que as pessoas que encontramos na Grande Cidade usava. Sua expressão não tinha nenhum sinal de vida. Ela olhava em meus olhos e parecia não me ver ali. Tentei imaginar por quantas torturas ela precisou passar para se encontrar naquele estado.

A senhora parou de andar de repente. E então começou a emitir sons incompreensíveis, como se estivesse tentando falar alguma coisa, mas não conseguisse.

– Não pode falar? – Jess perguntou com um tom de pena.

E então ouvi uma voz dentro de minha cabeça. Uma voz desgastada e rouca:

“Eu guardei forças para este momento...”

– Eu posso ouvir. – Eu respondi em voz alta. Jess e Reeve olharam para mim, sem entender. – Por favor, continue!

“Não posso romper completamente seu lacre, pois você é a chave. Dê-me sua mão.”

Entreguei a metralhadora que eu carregava para Jess e estendi minha mão direita através da grade. Como se o braço pesasse uma tonelada, a idosa levou sua mão até a minha.

“Essa mão romperá o lacre do Livro do Destino. Você deve ir para o Santuário Selado agora. Procure pelo Arco de Medeia. A outra mão deve encontrar o Epitáfio.”

– Onde?! O quê?! Onde ficam esses lugares? – Perguntei, aflita.

A senhora soltou minha mão e desviou seu olhar de mim, olhando para meu lado. Mais precisamente para Reeve. Ela ficou estática de repente e sua expressão mudou. Seus olhos pareciam brilhar de admiração. Lágrimas apareceram neles, como uma fonte que voltava a vida depois de milênios seca.

“D-deixe-me... Tocar...”

– Reeve. – Eu me virei para ele, sem questionamentos. – Aproxime-se da grade… Ela… Ela quer tocar em você.

Reeve ficou encabulado e me olhou pedindo explicações, mas se aproximou da cela ao perceber que eu também não a entendia. A senhora levou suas mãos lentamente até o rosto do garoto. Mas antes que pudesse tocá-lo, um tiro soou pelo local. A velha foi lançada para trás e desabou ao chão. Senti meu coração disparar.

– Não!! – Eu gritei, ao mesmo tempo que me virei para encarar os recém-chegados. Eram três pessoas; duas delas eram guardas da Corporação. A outra…

Eu sei quem você é.

A irritavelmente elegante mulher que apontava sua pistola para nós e havia acabado de atirar na prisioneira era estonteantemente bela. Deveria ter mais de trinta anos, mas era certo que não havia mulher com aparência mais exuberante do que aquela. Seus cabelos negros escorriam pelo seu busto, este encoberto pela túnica da corporação, com retoques exclusivos. Seus braços estavam à mostra, embora os antebraços e mãos estivessem cobertos por uma luva de tecido fino. Seus olhos de pupilas avermelhadas atraíam os meus num olhar perfurante.

– Ramona. – Eu falei.

– É um prazer. – Ela disse. – Decidi vir eu mesma já que aparentemente ninguém consegue te pegar.

Reeve e Jess apontavam suas armas na direção da Imperatriz. Jess me entregou minha arma, mas não a empunhei.

– Responda. – Eu instiguei. – O que você quer de mim?

– Primeiro, – Ela começou – Diga aos seus amigos que abaixem as armas.

– Não! – Reeve respondeu. – Abaixem vocês as armas!

Então outro tiro ressoou pelo local. Jess soltou um grito de dor e foi levada ao chão.

– Jess! – Eu corri ao seu socorro. O projétil a acertara ao ombro.

– Não vou pedir outra vez. – Ramona falou.

Eu encontrei os olhos de Jess. Estavam abertos, embora chorosos.

Por favor, permaneça acordada.

– Reeve, abaixe a arma. – Eu falei, então. – Por favor, não machuque meus amigos. Sou eu quem você quer. Eu imploro, leve-me, mas deixe-os ir.

– Muito bem. – Ramona respondeu, sem demonstrar nenhuma expressão. – Agora jogue as armas pra cá.

Peguei a minha metralhadora e a de Jess e as joguei pelo chão até os pés dos guardas. Reeve jogou a sua nos pés da Imperatriz.

Ramona sorriu.

– Mate-os. – Ela ordenou.

– Não! – Eu gritei, desesperada. Mas outra voz havia gritado comigo. Olhamos para a janela que havia ali.

Fergo segurava um menino nos braços como refém, com uma pistola em sua cabeça. A criança trajava vestes requintadas da Corporação Celestia e seus olhos eram vermelhos e seus cabelos negros como os da mulher na minha frente.

– Niele, a nave está planando aqui fora. – Fergo disse a mim. – Venham os três e entrem.

– O traidor. – Ramona disse.

– Cale-se, maldita! – Fergo disse, enfurecido. – Ou explodo isso que seu filho chama de cérebro.

Então Fergo se virou para Reeve:

– Reeve, pegue o controle da nave. Esteja pronto para partir. Já está programada para isso, use a alavanca esquerda.

Reeve foi a nossa frente e pulou pela janela para dentro da sinistra aeronave que planava ali fora.

– Venha você agora, Niele. – Fergo ordenou.

Olhei para Ramona. Ela sorria. Então desviei meu olhar e carreguei Jess no ombro até a abertura da torre. Ajudei a garota a saltar para dentro dela, Reeve a segurando de dentro da nave. E então foi minha vez.

– Eu posso ver através dos olhos de Maguine. – Pude ouvir Ramona dizendo a Fergo. – Se o levá-lo consigo eu saberei aonde estão. Você está apenas adiando o inevitável.

Fergo então empurrou o garoto em direção a mãe e rapidamente saltou para aeronave.

– Derrubem-nos. – Ramona ordenou para seus guardas, que avançaram até a abertura da torre.

Segurei nas laterais do veículo para não cair devido ao impulso que a saída rápida causou. Tiros podiam ser ouvidos logo abaixo, ricocheteando na carcaça do veículo.

Fergo substituiu Reeve no piloto e, durante essa troca, um rojão nos atingiu. A nave tombou para o lado e todos nós voamos de encontro ao portão da nave, que ainda estava aberto. Fergo se agarrou a tempo ao banco. Reeve segurou-se a uma das laterais do compartimento. Eu e Jess fomos lançadas para fora, mas consegui me agarrar a tempo a um pedaço da porta aberta e segurei Jess com a outra mão. Parecia que eu estava sendo rasgada pela metade. Não sabia de onde havia tirado tanta força para segurar a mim e a Jess dependuradas no ar, contra a gravidade, mas eu estava suportando. Reparei que eu segurava no braço de Jess cujo ombro estava machucado.

Droga!

Mais tiros ricochetearam em nós, um deles acertando meu braço. Soltei um grito de dor e soltei Jess por um instante, voltando-a agarrá-la pela mão. Reeve então veio ao meu socorro e segurou meu pulso. Eu sangrava abundantemente e sentia meus sentidos quererem me deixar. Olhei para Jess.

Ela sorria.

Não, Jess! – Eu gritei, lágrimas brotando dos meus olhos ao perceber a intenção da garota. – Jess, eu aguento!

Outro tiro ricochetou perto de nós.

– Não solta, Jess! Eu aguento nós duas! – E então me desesperei. – JESS, EU JURO QUE EU AGUENTO!

– Perdão, Ni. – Ela disse enfim, sem retirar o sorriso do resto, e deixou que seus dedos escorregassem pela minha mão.

Eu olhei aterrorizada seu corpo cair vários metros abaixo e se perder entre a névoa…

– NÃO!! – Eu gritei como nunca havia gritado antes. Reeve se esforçou para me segurar e me puxar, enquanto eu me debatia descontroladamente. Ele finalmente conseguiu me trazer de volta a nave e me abraçou.

A dor em meu braço não era nada comparada a aflição que eu me tomara conta. Eu gritava e me esperneava e batia em Reeve, totalmente sem noção de meus atos. E então meus ferimentos me venceram, fazendo com que tudo que eu enxergasse virasse um borrão e então, escuridão.