Puzzle
1 Capítulo 1 - Vai & Volta.
Notas iniciais
Vai & Volta
Fazia um tempo desde que o caminhão de mudanças tinha chego e Geed estava ajudando a descarregar as coisas.
Minha casa nova era aquele tipo de lugar que te faz pensar "será que alguém já morreu aqui?". De fato ela não era feia, era alta e espaçosa, mas sem duvida era velha, tão velha quanto aquela cidade no fim da Suíça.
– Hey Crystal, já que você não vai ajudar sua mãe lá dentro, podia nos ajudar a descarregar. — Geed se esforçou para falar enquanto ajudava um homem loiro barbudo a levar o sofá pra dentro. Ele definitivamente não era o tipo de cara que carrega peso.
– Hm... — Fingi pensar no assunto sentada em uma cadeira de balanço velha na varanda. – Não, prefiro continuar aqui, te dando apoio moral. — Sorri.
Ele não tentou responder já que estavam passando o sofá pelas escadas. Seu rosto vermelho me fez sorrir, estava obvio que esse não era um trabalho pra ele, ele era extremamente talentosos em projetar casas, mas certamente era um desastre construindo-as. Mas minha mãe ficaria feliz... Então ele faria esse "pequeno" esforço por ela.
Ouvi a madeira do deck ranger antes mesmo de ver quem estava vindo e uma figura alta e morena apareceu: Tiger, o motivo de eu estar sentada observando minha vizinhança mórbida. Ele também estava ajudando a carregar os moveis, e sinceramente, era impossível acreditar que ele e o Geed eram pai e filho.
Ele passou por mim dando um sorrisinho e entrou no caminhão, saindo de lá com a mesa de centro da minha mãe sobre o ombro e desapareceu dentro da casa de novo.
Me peguei lamentando, a falta de sol naquele lugar iria acabar com o visual bronzeado do Carl, ao menos seus músculos em decorrência dos esportes seriam mantidos, e isso era um grande consolo, considerando que um pouco de gelo não poderia deixa-lo menos sexy.
– Crystal! — Minha mãe gritou de dentro da casa e com um suspiro eu me arrastei para dentro, até a cozinha. – Eu preciso terminar de arrumar as coisas por aqui, você pode ajudar o Tiger a ajeitar as coisas na sala?
– Geed não pode fazer isso? — Bufei, me jogando em uma cadeira que provavelmente tinha vindo junto com a casa.
– Não, ele está instalando os chuveiros. — Ela respondeu sem me olhar andando de um lado para o outro enquanto colocava as coisas nos armários. Revirei os olhos. — Por favor querida. — Ela parou o que fazia por um instante. — Por mim. — Ela fez uma voz melosa, piscando seus grandes olhos verdes pra mim. Argh!
– Certo. Do que precisa? — Perguntei a Tiger enquanto ele parafusava a porta da estante e me sentei na mesa de centro esticando minhas pernas.
– Não senta... — Ele começou, no exato momento em que a mesa cedia em baixo de mim e com um "ploft" foi parar no chão, levando meu orgulho junto. Ele estendeu sua mão para mim, gargalhando. — Você ta legal? — Apertei meus olhos para ele e dei um puxão em sua mão, fazendo com que ele caísse ao meu lado. – Ei a culpa não é minha por você ter caido! — Ele riu. Ótimo, mal cheguei na cidade e já tenho um motivo pra me envergonhar.
– Pare de rir de mim ou então eu conto pro seu pai da sua coleção de revistas. — Levantei uma sobrancelha para ele e vi sua boca cair aberta gradativamente, sorri. Eu havia pensado que essa informação teria utilidade, mas não tão cedo. A caixa que eu tinha encontrado no meu quarto mais cedo tinha passado de "apenas mais uma caixa" para "chantagem em espera". Não era das melhores — um garoto que tem revistas pornos, super original -, mas servia.
– Mas como... — Ele começou, e então parou. – E dai? Eu tenho 18, não preciso da permissão do meu pai pra nada, ao contrario de você. — Ele olhou pro outro lado da sala, ainda sentado ao meu lado no chão.
– Do que você precisa é de uma namorada. — Falei rindo e ele me olhou de maneira debochada. Certo, eu também não tenho um namorado — o que era ótimo, considerando que ele estaria do outro lado do mundo agora -, mas eu também não tinha uma coleção de revistas com as paginas coladas.
– Eu acho que você devia ir fazer outra coisa, já ajudou muito por aqui, hã? — Ele disse se levantando e voltou para a estante.
– Você esta me expulsando da minha própria sala?
Se você continuar aqui, nenhum de nós vai ter uma sala até o fim do dia. — Ele riu.
– Estarei no meu quarto se precisar de mim. — Pisquei. Eu com certeza gostaria se ele fosse lá me chamar.
Tiger e eu não costumávamos nos falar muito, apenas jantares em família que nossos pais insistiam em fazer pra nos aproximarmos, e as vezes quando saiamos com nossos amigos nos trombávamos, o que era muito raro já que nossos grupos eram bem diferentes. Ele era calmo e sossegado, mas tinha o costume de ser diferente comigo, talvez eu despertasse o pior dele, mas isso era bem comum, não era difícil as pessoas agirem fora do normal comigo vai ver era o meu humor que sempre afetava o delas.
Me joguei sobre colchão no chão e analisei o meu dread mal feito em meio ao meu cabelo cor de palha, ideia da idiota da Zoey num dia de tédio. Argh! Eu ia sentir falta daquela chapada. Sorri ao me lembrar de como a minha mãe reagiu ao ver a minha mecha de dread, ela achava que era algo para me compensar pelo meu pai ausente, outra coisa comum, tudo para ela tinha algo a ver com o meu pai e a falta de atenção. Sinceramente, fazia muito tempo que eu deixei de me importar, mas aquele dread me custou seis meses indo à psicóloga toda semana, eu imaginava o que aconteceria se ela soubesse do pircing no meu mamilo ou da tatuagem dos pássaros na minha cintura, talvez ela me internasse.
Eu tinha deixado todos os meus amigos, assim como o meu pai, e até o presente momento a minha ficha não tinha caído. Eu deixei toda a minha vida na Califórnia pra vir pra essa cidadezinha de merda por causa da maldita instabilidade emocional da minha mãe. Ela simplesmente se entedia fácil e entra em uma depressão profunda se nada muda, ela já fez aulas de mecânica até academia e administração para donas de casa, apesar de ela ser arquiteta. Mudamos para três cidades diferentes nos últimos cinco anos, e eu não poderia dizer quantas vezes mudamos de casa. Fazia um pouco mais de um ano desde que Geed apareceu, sorrindo e dizendo sim pra todas as vontades dela, inclusive vindo pra Suíça, longe de sua família, e arrastando seu filho junto, que até onde eu sabia, não tinha se oposto a isso. Pode ser que esse tenha sido o problema com o meu pai, ele não era o tipo de cara que dizia sim pra tudo, a não ser que você tivesse maconha, ai era outro assunto. Mas ele pulou fora há alguns anos e não é como se ele parecesse muito interessado em mim, ou vice-versa.
Eu acho que acabei dormindo enquanto pensava em quanto ia sentir falta do sol e do mar porque a próxima coisa que eu vi foi um par de botas pretas Everlast.
- Sério cara, não é legal ficar olhando pra alguém enquanto ele dorme. — Falei para Carl que tinha um sorriso me encarando dos seus 1.80 de altura.
- Sua mãe ta te chamando pra jantar "sis". — E com um ultimo sorriso e saiu do meu quarto.
Olhei em volta tentando acordar. Deus. Aquele lugar precisava de uma reforma, ou no mínimo, dos meus pôsteres, mas provavelmente tinha muito mais coisas pra eu fazer antes de poder cola-los. Como jantar.
Encontrei minha mãe e Geed na cozinha. Ele parecia não ter terminado os reparos e fazia alguma coisa com a torneira e ela tirava seu suflê especial do forno. Merda. Ela ia chorar. Toda vez que ela fazia esse maldito suflê especial, ela chorava, era como prever o futuro.
Minha mãe suspirou sentada á mesa e Geed segurou sua mão.
- Vocês não fazem ideia a minha felicidade por estarmos todos juntos. Essa nova cidade irá nos unir muito, vocês vão ver... Eu nunca imaginei que poderia ser tão feliz assim. — Ela deu um sorriso emocionado. – Quando você nasceu filha, tão pequenininha... Oh! — Pronto! Estava feito, ela começou a chorar. – Saiba que eu sempre irei fazer o melhor para você. — Ela fungou me dando um olhar carinhoso e segurou minha mão sobre a mesa. – E agora para você também Carl. Eu sei que faz pouco tempo que nos conhecemos. Mas eu prometo te ajudar em tudo o que precisar.
Carl deu um sorrisinho envergonhado e assentiu.
- À nossa família. — Geed levantou sua taça como um brinde e minha mãe lhe deu um beijo depois de unir sua própria taça à dele.
Eu gostava do Geed, ele fazia a minha mãe feliz, e parecia ser exatamente o cara que ela precisava, calmo, compreensivo e atencioso e bem, ele era hilário. Não sei ao certo se eram sua falta de cabelo formando entradas em sua testa como um pré-calvície, ou a maneira desajeitada com que ele fazia tudo, mas ele parecia extremamente amigável para um padrasto. Sem falar da parte que ele não me julgava e não tinha corrido quando soube da minha “personalidade”, pelo contrario, ele parecia me ver como a menininha que eu não me sentia há algum tempo. Mas não importava o quão legal ele era, muito tinha ficado pra trás.
Virei todo o conteúdo do meu copo, como se o champanhe sem álcool lá dentro pudesse me levar de volta pra Califórnia. Mas é claro que ele não podia.
Notas finais
Obrigada por leeeer!
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