Put your head on my shoulder
1 único
Raios de sol escapavam das cortinas azuis do quarto de Sanji, um garoto loiro de sobrancelhas enroladas, para pousarem em seu rosto. Ele acordou incomodado e resolveu se levantar, embora ainda se sentisse com sono. Mas não era como se fosse um tipo de Zoro, um amigo que gostava muito de dormir.
Abriu as cortinas e depois a janela para o ar fresco entrar. Era verão e parecia ser o mais quente que sua cidade sentia há anos, coçou seu cabelo volumoso e resolveu descer para fazer o café depois que vestiu uma roupa de sair.
Preparava a refeição no fogão, seus pais foram os primeiros a se levantarem, afinal, era sábado e provavelmente seus irmãos acordariam tarde. Portanto, só preparava comida para três pessoas, porque não gostava de desperdícios.
Os pais já estavam sentados na mesa, Sanji serviu a omelete para os dois e depois se juntou a eles.
— Vou ter que sair. — Comunicou, enquanto comia.
Seu pai ouviu e parou de comer. — Vai se encontrar com aquele bandido?
Sanji suspirou, enquanto pensava que Zoro era muito burro por ter roubado dinheiro justo da escola e, caso não, por simplesmente se meter num boato de uma cidade que gostava de fofocar.
— Pai, já disse que ele não roubou nada.
— Você deveria avaliar as pessoas melhor antes de chamá-las de amigos. — Mastigava e Sanji estava ao seu lado, comendo rápido pra dar o fora dali. — Você deveria arrumar amigos bons como os de seus irmãos.
A mãe pegou na mão do marido, a que repousava sobre a mesa de madeira. — Querido, é só um boato...
O homem soltou um grunhido de contestação. Sanji não se importou, seu pai era um velho e era difícil mudar a mente de uma pessoa que acreditava, que por ser adulta, teria razão de tudo. Mas tal pensamento só o faria rejeitar tudo que fosse novo e permaneceria com um pensamento retrógrado enquanto vivesse. Levantou-se da mesa e levou seu prato vazio até a pia, antes de sair beijou nas faces dos pais e seguiu para encontrar Zoro, vulgo marimo.
Andava de bicicleta nas ruas de seu bairro, desviando mais de crianças correndo felizes do que de carros, uma delas fez com que parasse. Era um garoto de cabelo raspado que brincava de futebol num terreno de terra batida. A cada chute que as crianças davam, subia uma poeira grossa e Sanji pensou que se ficasse ali por mais tempo, se sujaria todo, inclusive sua bike, que precisou trabalhar três meses num restaurante com um chef ranzinza para conseguir uma.
— Ei, Momonosuke!
— Se veio aqui perguntar por minha irmã, dá o fora!
— Cruzes! Onde você aprendeu a falar assim?!
O menino se aproximou de Sanji, que estava junto com os espectadores sentados num banco comprido. — O irmão Zoro disse pra eu falar assim com você.
— Quê?! — Sanji pensou que só podia ser isso, aquele idiota gostava de infernizar sua vida. — Não escute alguém com um cabelo verde!! — Sentiu uma gastura no corpo que o fez tremer todo, Momonosuke pensou que parecia uma cobra. — Eu quero perguntar exatamente sobre esse filho... quer dizer, onde ele está?
— Tá com a mana em casa.
— O quê?!
Sanji teve que voltar pra casa para buscar seu binóculo, costumava usá-lo para espiar o banheiro feminino do terraço de um dos prédios da escola, e depois apanhou algumas folhas para que servissem de disfarce. Ele e Momonosuke se passariam de arbustos, enquanto observassem o que Sanji temia de ser um casal.
— Por que estou aqui? — O garotinho perguntou na sua voz inocente, Sanji olhou pra ele e sentiu nojo do seu nariz escorrendo. Droga, odiava crianças porcas.
— Fica quieto e limpa esse nariz.
O garoto obedeceu, depois passou terra nas mãos para secar a pele mais rápido. Sanji pensou que ele conseguiu ficar mais nojento ainda e começou a acreditar que jogou mesmo pedra na cruz.
Os dois estavam num arbusto e o plano era entrar discretamente na casa de Momonosuke pra, quem sabe, ouvir o casal conversando atrás da porta. Sanji teve mais um calafrio só de imaginar os dois vendo um filme e Zoro, aos poucos, tombando o seu braço sobre os ombros da linda Hiyori. Que merda!! Pra que ensinou a ele essa tática?
— Mano Sanji... está se debatendo muito.
— Cala a boca, agora é a nossa chance de atravessar a rua. Você entra primeiro e vê se tá tudo limpo.
Momonosuke estava amando o Sanji daquele dia, ainda era mandão, mas mandava fazer coisas legais. O menino se sentia como num filme em que os policiais se escoravam na parede e passavam os olhos em volta pra ver se havia algum bandido. E foi isso que Momonosuke fez — até fingia que segurava uma arma — ao entrar em casa, depois foi até Sanji, que estava ainda na porta, e disse que não havia ninguém.
— Se eles não estão no andar de baixo, então... — Mais uma vez se estremeceu todo, pois Sanji constatou que no andar de cima só havia os quartos e que Zoro poderia estar no quarto dela.
Marimo no quarto da Hiyori.
Abriu a boca ao saber que uma donzela corria um grande risco. Subiu correndo as escadas desesperado, enquanto pensava que a salvaria das garras de um tarado nojento que pagava de inocente, quando na verdade era um sem vergonha por entrar no quarto de uma garota. Como pode? Como nunca desconfiou? Aquele idiota evitava falar de garotas pra esconder sua verdadeira natureza. Era um gênio! Oh, como o invejava!
Sanji chutou a porta e deu um berro “Hiyori, eu estou aqui!”, mas a garota estava trocando de roupa e deu um tabefe na cara dele. Retornou para o corredor sem entender nada, Zoro não estava ali. Ele olhou em volta depois que viu a cor da calcinha dela.
De repente, ouviu uma risada que ficava mais alta com os ecos da casa, era uma risada maléfica e era de Momonosuke, que ria de Sanji por ser um grande idiota. O rapaz entendeu que caiu num plano maquiavélico dele e entendeu também que precisava tratar melhor os pirralhos a fim de não render mais situações semelhantes.
Sanji estava sentado no meio fio de uma calçada qualquer e algumas pessoas paravam para observar seu rosto inchado, alguns até mesmo jogavam moedas com um aperto no coração. E ele juntava sim as moedas, enquanto pensava que Momonosuke que era o gênio por fazê-lo se sentir usado, se não queria que se envolvesse com a sua irmã, era só falar e não precisaria arquitetar um plano minucioso. Com certeza queria estar em outra cidade quando o pirralho estivesse maior. Zoro passava de bike por ali e parou quando viu um Sanji tristonho na calçada.
Já era noite, o marimo colocou a bicicleta no chão e se sentou ao lado de Sanji.
— Onde você estava?
— Te procurando!!! Por que você se perde assim!!!
— Quê?! Mas eu tava em casa te esperando, foi assim que combinamos.
Sanji suspirou, isso era verdade.
— Só pude sair de casa quando anoiteceu, parece que tem um tarado rondando na cidade e minha mãe ficou com medo de ficar sozinha. Tive que esperar meu pai fechar a oficina.
— Sério que já tá rolando na cidade? — Sanji estava perplexo do quanto aquele lugar era fofoqueiro.
— Como assim? Sabe de algo?
— Nada...
Ficou quieto, Zoro ao seu lado perguntou o porquê de seu rosto estar inchado, mas Sanji se lembrou do que seu pai disse sobre ele mais cedo.
— Você roubou aquele dinheiro?
Zoro fechou a cara por Sanji mais uma vez fazer essa pergunta, era uma merda quando nem seu melhor amigo acreditava em si. Aliás, Zoro disse aos seus pais que Sanji nunca seria o tarado rondando o bairro daquele sábado.
— Desculpa, mas é porque pode ter acontecido um engano, como aconteceu comigo... Eu sou o tal tarado, mas acredite, eu não tinha segundas intenções!! — Sanji pensou se restava alguma dignidade nele, mas via que não por estar lidando com a cara enojada do marimo. Ah, como odiava aquele olhar... aquele olhar fazia com que desejasse nascer de novo.
— Eu te protegi das acusações dos meus pais!!
Então, Sanji não conseguiu segurar o riso, às vezes se sentia feliz e seguro quando tinha alguém pra colocar as mãos no fogo por ele. E essa pessoa era justamente o bandido do Zoro. — Mas sinto que há algo faltando nessa história — Continuou. —, porque quando falamos disso você fica sentido. E eu sei que você não se estressa atoa.
— Sim, há. — Confessou Zoro. — Eu realmente roubei o dinheiro, mas resolvi devolver e dei pra professora que prometeu a mim que devolveria. Só que parece que ela não devolveu, porque no dia seguinte vieram tirar satisfação comigo e depois de uns dias, eu vi que ela comprou uma bolsa nova.
— Tá me dizendo que ela foi quem roubou?
— Acho que sim.
Sanji percebeu que seu amigo estava inibido e se aproximou mais dele para pegar na sua mão, ele a apertou forte, sentindo todos os seus nós e a espessura nada macia de sua pele. Zoro lhe parecia frágil, sendo que sempre fora grande aos seus olhos, e ele entendeu por que estava ali, por que nasceu e desceu no mundo.
— Eu te amo, marimo. Nunca vou te largar.
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