Purpose Game
1 O Jogo
Notas iniciais
Espero que gostem e de antemão espero que entendam o que está por trás do que foi escrito. Se coloquem no lugar do Jungkook.
Parcialmente baseado em fatos acontecidos com a escritora.
NÃO COPIE NADA! VOCÊ É CAPAZ DE FAZER UM BOM TRABALHO SE SE ESFORÇAR!
Boa leitura! ♥
Twitter:@fkelinha
Capa por:@Capas_Fanficss
Quando meus olhos abriram, minha vista estava escura, por um segundo pensei: “É assim estar morto? Simplesmente perder os sentidos de visão e audição? ”. Esse pensamento não durou sequer dois segundos, aos poucos, minha visão foi clareando ao mesmo tempo em que eu via tudo ao meu redor girar, como se eu tivesse brincado em uma montanha russa com grandes oscilações e depois de um tempo estivesse pisando no chão. Eu sentia meus ouvidos entupidos, ainda sim ao fundo podia ouvir um “bip” agudo, mas que parecia distante de mais para incomodar.
Eu estava confuso sobre minha realidade atual, e enquanto eu via as coisas ao meu redor entrar nos eixos eu pude sentir minha língua e garganta extremamente secos. Meus olhos então se fixaram em meus pulsos, ambos enfaixados com bandagens brancas. Aos poucos minha percepção foi aumentando, e vi á minha esquerda minha mãe e meu pai, ambos dormiam apoiados um no outro, sentados em cadeiras que pareciam terrivelmente desconfortáveis. Seus rostos pareciam abatidos. Quando mirei alto pude ver o teto branco e um saco com um líquido vermelho e uma grande etiqueta com um grande “A” sustentados por um suporte metálico, saindo do saco vermelho, havia um tubo com uma agulha na ponta colocado nas costas de minha mão esquerda.
O “bip” antes distante e quase imperceptível parecia mais alto. Com um pouco de desconforto virei meu rosto para esquerda e vi a fonte de tal barulho que do nada, não parecia tão ruim assim. O gráfico registrava as oscilações do meu coração que ainda estava batendo. Eu não estava morto como havia pensado anteriormente. Estava vivo. Perceber isso me fez abrir um pequeno sorriso e até mesmo respirar aliviado. Eu não queria morrer. Eu queria viver.
~*~
As pontas dos cadarços brancos de meus All-Star vermelhos estavam marrons, no caminho para a seção com o psicólogo Kim, eles desataram e como eu estava com preguiça de mais para me abaixar e amarrar os cadarços preferi andar de cabeça baixa, olhando para o chão, cuidando para não tropeçar. Mas isso não evitou eu pisar neles. Então eles estavam sujos e iriam continuar assim, não estava afim de lavar e muito menos de amarra-los.
—Jungkook! – A voz de Namjoon me tirou de meus devaneios.
—Ãn?
—Estou te chamando tem um tempo. Você estava falando comigo e de repente parou. No que estava pensando? — Ele pergunta de forma amigável enquanto me observa sentado de frente para mim com seu bloquinho preto de anotações em mãos.
—Eu...Bem...- Refleti um pouco. No que eu estava pensando? — Ah! Err.... Meus cadarços! Meus cadarços estão encardidos porque vim o caminho de casa até aqui pisando neles.
—Você veio para cá sozinho?
Dei uma risadinha.
—Não, claro que não. Meu irmão mais velho Jin me acompanhou. Sabe Namjoon hyung, ninguém me deixa muito tempo sozinho. Nem na escola, nem em casa.... Em lugar nenhum.
—E você imagina o porquê?
—Talvez porque tenham medo que eu faça algo...- Falei enquanto encarava meus pulsos marcados com as fundas cicatrizes recentes.
— Eles te amam muito Jungkook, não querem te perder.
—Eu sei, e sinceramente sou muito grato por isso, mas.... Eu tenho que admitir que ás vezes é um incômodo.
—Você sente que estão tirando sua privacidade? – Ele questiona sempre atento a minhas palavras.
—Não! Para falar a verdade eu até gosto de meu irmão estar sempre cozinhando para mim e me ensinando algumas coisas na cozinha, é bem divertido. Gosto quando o Suga me convida para ver alguma apresentação de Rap Underground ou me ensina alguma coisa no piano...ou simplesmente se exibe para mim com sua “genialidade”.
Rio do meu próprio comentário
— Gosto quando Taehyung me apresenta algum artista que ele gosta e ele passa a tarde na minha casa escutando CD’s no meu quarto comigo e ás 5:30 da tarde Jimin aparece saindo direto de sua aula de dança contemporânea e se junta a nós para jogar vídeo game ou pra estudarmos. Gosto quando meu pai me ensina matemática ou quando minha mãe me pede para cantar para ela enquanto ela me faz cafuné.... Ah! E também gosto quando o Hoseok, namorado de minha irmã e também um grande amigo, me faz rir na hora do jantar e depois assistimos os programas musicais na TV e tentamos imitar os idols. Eu gosto de ter a companhia das pessoas.... Isso distrai minha mente de pensamentos ruins.- Concluí com o olhar distante.
—Como querer ir embora? – Querer ir embora era um código para “cometer suicídio”. Nunca me referi a minha tentativa como desejo de morte eu falava “ir embora”.
Eu não queria e nem quero morrer. Sei que parece confuso, realmente é, mas acredite quando digo que o que fiz não significou desejo de morte muito menos a vontade de chamar atenção.... Naquele momento foi minha única saída.
—É...., mas no fim do dia quando deito minha cabeça no travesseiro, eu penso em como deixo as pessoas ao redor preocupadas ou angustiadas com os passos que dou. Não quero machucar ninguém. Por melhor que sejam alguns momentos que eu tenho, seguido deles sempre tem algo que me faz desmoronar. E ás vezes eu penso que se eu não estivesse aqui as coisas seriam mais fáceis para todos ao meu redor.
Eu olhava para as minhas mãos. Eu sei que não fazia sentido o que eu falava, na verdade até eu ficava confuso.
— Namjoon hyung.... Eu sinto que sou uma grande confusão. Ás vezes eu tenho tanta vontade de viver e outras eu só quero dormir e nunca mais acordar. Ás vezes tenho pena da Bela Adormecida...Ás vezes queria ser como ela. Dormir durante cem anos.
—E a princesa Ji-eun* te acordar?
Rimos. Namjoon era mais que meu psicólogo era meu grande amigo.
—Nesse caso não. — Meu sorriso se desfez e eu voltei a encarar as minhas marcas. Provavelmente demorariam muito para saírem, ou talvez nunca saíssem.
—Jungkook, antes de você se distrair estava me falando como foi quando você acordou no hospital. –Voltei a olhar para ele – Você disse que quando viu o gráfico oscilante do eletrocardiograma você sentiu algo. O que foi?
Pensei um pouco enquanto encarava a vista da janela do consultório.
—Felicidade — Eu respondi por fim. Ainda encarando a vista por trás da janela, eu podia ver o céu azul cheio de nuvens fofas, se você as fitasse poderia ver elas se movimentando lentamente. As pequenas nuvens juntavam-se com as grandes.
Talvez mais tarde chovesse.
—E por que se sentiu assim?
Parei de olhar a vista da janela e olhei no fundo dos olhos de Namjoon, que esperava atento a minha resposta.
—Por que.... Por que... –Eu estava hesitante.
—Por que...- Namjoon me incentivou a continuar.
—Eu não .... Eu não quero... –Meu tom de voz estava baixo e minha cabeça também. Sentia que as lágrimas queriam vir. – Eu não quero.... Ir embora.
Respirei fundo e disse em voz alta e clara.
—Eu não quero ir embora.
—E o que isso significa?
—Eu.... Eu não quero.... Eu não quero morrer. Eu não quero morrer! — Meus olhos estavam cheios de lágrimas – Eu não quero morrer, eu quero parar de ter pensamentos ruins! Mas ás vezes não vejo propósito em continuar e odeio isso!
—Ótimo Jungkook. Você quer viver então deve lutar por isso! Você passou por coisas ruins no passado, passa no presente e vai passar no futuro mas tem que se agarrar a essa vontade de viver que você tem!
—Eu.... Eu não sei como. – Falei cabisbaixo.
Ele se ajeitou em sua cadeira enquanto me observava.
—Que tal um jogo? — Sugeriu por fim com um sorriso nos lábios, deixando suas covinhas aparentes.
—Que tipo de jogo? — Questionei.
—Faça uma lista das coisas que te deixam feliz, que você ainda quer fazer. Não se importe se são coisas pequenas ou grandes apenas foque nelas e aproveite a sua vida. Nada é ruim para sempre. Não esqueça disso. Quando você achar que não há propósito, jogue.
~*~
Quando meu “encontro” semanal com Namjoon acabou eu voltei para casa sentado no banco de trás do carro de Hoseok, que dirigia com minha irmã do seu lado. O caminho inteiro fiquei em silêncio observando o céu ter o seu azul cada vez mais escondidos pelas nuvens brancas. Quando chegamos em casa fui direto pro meu quarto, sem falar com ninguém, batendo com força a porta atrás de mim e me jogando na cama. Bufei.
É muito fácil falar coisas bonitas, poesias e frases Tumblr. Indicar músicas inspiradoras ou até mesmo um jogo estúpido com a intenção de ajudar pessoas com pensamentos suicidas. Entendo que a intenção seja boa, porém não é o suficiente. Levantei da cama rápido e sai do quarto e lentamente atravessei os corredores de casa abrindo e em seguida fechando a porta com o mínimo de barulho possível. Levantei o capuz do moletom que eu vestia e saí correndo pro ponto de ônibus mais próximo, chegando a tempo de entrar no ônibus e sentar em um banco na janela, fileira do meio.
Abri a janela e pude sentir o vento batendo em meu rosto e sorri com aquela sensação. Dava para entender porque os cachorros amavam pôr a cabeça na janela. Não percebi quando uma mulher com uma menina no colo sentou ao meu lado até a menina sacudir um pouco a barra do meu moletom.
Olhei pra ela.
—É muito perigoso ficar com a cabeça do lado de fora da janela.- Falou com um biquinho nos lábios e o cenho franzido. Que fofa!
—Ohh...Desculpe. Como você sabe disso?
—Eu prestei atenção na aula sobre trânsito. — Ela deu um sorriso que fez os seus olhos se fecharem em duas meias luas. Sorri também – Ei! Você me lembra o Tibúrcio!
—Tibúrcio? Quem é ele?
—Meu coelhinho! Você é tem os dentinhos iguais aos dele e é muito fofo como ele!- Ela respondeu dando uma risadinha.
Fiquei conversando com a garotinha desconhecida até ela ir embora com a mãe me dando tchauzinho. Continuei no ônibus com um sorriso nos lábios enquanto lembrava da menininha de sorriso fofo. Ouvir a risadinha dela aqueceu meu coração. Percebi ser o único no ônibus quando passávamos pelo calçadão da praia. Desci ali.
Aquela praia não era muito movimentada. Tirei meus tênis e comecei a andar descalço na areia branca. Era algo refrescante. A brisa marítima havia empurrado meu capuz e bagunçava meus cabelos pretos. Era uma sensação maravilhosa. Sentei na areia e fiquei observando a paisagem por um longo tempo. Não sei dizer quanto. Voltei a pensar no que Namjoon tinha dito. Não tinha porque eu ficar bravo ele só estava fazendo seu trabalho, e se quer havia tentado me obrigar a fazer esse jogo idiota.
Isso seria decisão minha. Mas se...Somente se eu decidisse fazer aquele jogo, o risinho daquela criança, o vento na janela de um automóvel em movimento, pisar na areia e sentir a brisa do mar, seriam pequenas coisas que já estariam nessa lista.
Senti alguém sentar ao meu lado. Era Jimin. O encarei enquanto ele simplesmente fitava o horizonte.
—Eu saí da aula e vi no meu celular umas duzentas ligações de sua mãe querendo saber onde você está. Você é um cabeção mesmo! Saiu sem dizer pra onde ia. Ela ficou louca!
— O que você disse?
—Que você estava comigo.
—Mas eu não estava.
—Está agora é o que importa, certo? – Respondeu dando de ombros, ainda fitando o horizonte.
—Como sabia onde me encontrar?
—Você passou a semana falando em como estava com saudades do mar, e já que eu achei que quisesse ficar só, pensei que teria vindo para uma praia menos movimentada. Tive um pouco de sorte e acertei.
Assenti. Continuamos olhando o horizonte.
—Sabe que sempre que precisar estamos todos aqui né?
Suspirei. Lá estava eu preocupando as pessoas de novo.
—Eu sei. Existem coisas que só eu posso resolver.
—Tá. Não sei o que está sentindo porra, mas saiba que tem coisas que só você pode fazer, coisas que só irá conseguir quando parar de sentir pena de si mesmo e levantar a cabeça pra seguir a vida. Porra Jungkook! Você também tem que se ajudar.
Eu nada respondi. Voltamos para casa de ônibus e em total silêncio, enquanto eu pensava nas palavras de Jimin, misturadas com as de Namjoon, misturadas com meus próprios pensamentos e convicções. Quando chegamos fui sufocado por abraços e entupido de lasanha, meu prato estrangeiro favorito.
A mesa como sempre estava lotada de pessoas sentadas, comendo e conversando animadas. O cheiro de chuva inundou minhas narinas e eu corri para a janela. O céu estava branco, e uma chuva grossa despencava do céu, Taehyung estava ao meu lado encarando a vista sorrindo. Fazia meses que não chovia, estava tudo seco e abafado. A vegetação antes meio marrom finalmente voltava a ser verde. Lembrei de histórias onde os antigos veneravam a chuva em razão dela trazer vida pra toda uma civilização.
Sai correndo, descalço mesmo, pro quintal. Logo já estava encharcado pela chuva, mas não me importei, a sensação na realidade era maravilhosa. Abri meus braços e fiquei correndo com a grama macia sob meus pés. Logo estava acompanhado de meus amigos que haviam trazido pistolas de agua e as enchiam de agua na torneira ali próximo, para logo iniciar uma guerra nada justa onde eu era o alvo. Eu estava molhado até a alma e amava isso. A família toda havia se juntado a nós, minha mãe fez pouco caso das roupas no varal. Tínhamos voltado a ser crianças. Ainda que mais tarde ficássemos com gripe, não nos preocupamos. Não nos preocupamos com porra nenhuma.
Desfrutamos o momento como há muito tempo não fazíamos. E eu esqueci, todo meu passado sofrido, meu presente e suas questões a serem resolvidas e todo meu futuro desconhecido. Merda nenhuma importava, só aquele momento era suficiente. Nunca fui tão grato pela tentativa falha de sangrar até a morte. Com meu sangue nas veias, pude sentir a grama, a areia sob meus pés. Pude ver o céu azul e branco. Pude ouvir o riso e uma repreensão. Pude estar com meu coração batendo. E assim ele ficaria, até que por vontade própria quisesse parar.
Notas finais
*Eu não disse a razão pela qual o protagonista quis cometer o suicídio, para que você pensasse o que quisesse. Se você já quis cometer , pode colocar o seus motivos.
Gostaram? Espero que tenha de alguma forma ter ajudado você que pensa em suicido. Eu devo dizer que faço esse jogo sempre que necessário e me ajuda muito! É algo idiota mas me faz perceber como a vida é boa. De fato não perfeita, mas com toda certeza é boa.Então é isso. Talvez as pessoas esperassem mais, talvez não tenham entendido. Mas não me arrependo do que escrevi. Essa ideia tava dentro de mim há tempos implorando pra sair. Hoje ela saiu! rs'
Por favor deem muito amor a ela, indiquem para os amigos.
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