Purple Light

43 Capítulo 42


Quando chegamos em casa já eram quase cinco horas.

Pedi que Max comprasse algumas coisas no mercado e subi para arrumar as roupas de Harry no armário e tomar um banho enquanto ele ligava pra um dos meninos. Assim que sai ele já estava no quarto sentado na cama. Tirou os óculos novos e deixou na mesa de cabeceira.

—Deu certo? — perguntei me aproximando e acariciando seu cabelo

Harry fechou os olhos e sorriu aproveitando meu toque.

—Deu sim. — respondeu segurando uma de minhas mãos e beijando-a. — Achei que ia chegar a tempo de entrar com você — ele estica os braços até minha cintura sentindo que estava coberta

—Não seja por isso — soltei a toalha de meu corpo que só não caiu no chão por ficar presa nas mãos de Harry.

Ele riu deixando que finalmente caísse. Acariciou minha pele quente e em um movimento brusco me jogou na cama. Soltei um gritinho assustada com sua agilidade, mas não consegui segurar a risada quando ele mordiscou meu mamilo e beijava meu pescoço.

Infelizmente, a campainha tocou.

Harry parou de imediato soltando todo o peso de seu corpo sobre o meu sem acreditar que teríamos que parar.

—Harry... — consegui dizer em meio às risadas

—Vamos fingir que não tem ninguém — ele sussurrou

—Deve ser o Max com as compras.

—Mais um motivo pra não atendermos — ele disse rindo e eu o empurrei pro lado quando a campainha tocou mais duas vezes.

—Seu besta! — me levantei com dificuldade já que Harry se recusava a me soltar. — Toma um banho, e me encontra lá embaixo. — Dei-lhe um selinho, peguei a toalha no chão e sai correndo.

Cheguei na porta quando a impaciência de Max tocava a campainha de 5 em 5 segundos.

—Finalmente! — ele disse sem nenhuma animação.

Me entregou um cabide com minha roupa para a festa e pegou as sacolas do mercado no chão entrando direto pra cozinha.

—‘Olá’ pra você também! — disse feliz

Max colocou as compras no balcão e se virou pra mim, me olhando de cima a baixo.

—Então, vai querer que eu venha te buscar segunda cedo? Ou você acha que dá conta de chegar no escritório sozinha? — perguntou com desdém revirando os olhos como se tivesse entediado.

Joguei a roupa no sofá e fui até a ilha onde ele mantinha as mãos na cintura. Abri o sorriso mais fofo do mundo. Sabia que toda a resistência de Max era puro ciúmes de Harry, então precisava equilibrar o jogo. Precisava fazer com que ele entendesse que cada um tinha seu espaço e que nossa relação não mudaria em nada.

—Eu com certeza conseguiria chegar sozinha, mas vou gostar muito mais se você vier me pegar para irmos juntos.

Max sorriu de canto, eu sabia conquistá-lo.

—Eu venho. Mas esteja em trajes adequados — mandou enquanto eu fazia uma cara de surpresa — Sempre que te encontro com Harold você está enrolada em um lençol, ou uma tolha — ele apontou para mim com os olhos arregalados

—Vou estar de roupa, prometo — jurei de dedinho e ele sorriu — Tudo certo pra festa?

—Mais do que perfeito — Max bateu os cílios orgulhoso

—Ótimo! — sorri animada — Pensei em pedir para Kylie vir

Max serrou os olhos

—Abriria muito espaço para especulações

—Sim! — sorri animada arquitetando toda nossa estratégia de marketing

—Você é um gênio, querida! — dei de ombros

—Eu sei — rimos juntos, então mordi os lábios. Max logo percebeu meu pequeno ato de nervosismo

—Fala logo...

— Tem mais uma coisinha que eu queria que você fizesse...- vi Harry descendo as escadas devagar só de shorts e cabelo molhado, tentando sentir os degraus.

Sussurrei correndo no ouvido de Max que fez cara de tédio.

—Nix? — Harry me chamou um pouco inseguro e me apressei a chegar até ele

—Bem aqui, amor — peguei uma de suas mãos depois a outra para ajudá-lo nos últimos degraus — último! — comemorei me esticando para beijar sua bochecha

—Tudo bem, hora de sair de cena — Max suspirou irritado outra vez

—Acha que consegue? — perguntei enquanto ele passava pela porta.

Max parou por um segundo revirando os olhos entediado mais uma vez.

—Tudo o que você quiser, minha rainha.

***

Acordei no domingo com uma melodia que eu conhecia perfeitamente entrando pelo quarto. A neve caia fina lá fora e a música fazia com que os flocos parecessem dançar em seu ritmo pela parede de vidro.

Me espreguicei percebendo que Harry não estava na cama e estranhei. Encontrei minha camisola no tapete do quarto, me vesti e do pé da escada pude vê-lo.

Harry estava atrás do piano disposto em minha sala de estar. Aquele piano nunca tinha sido tocado e eu nunca tinha visto Harry tocar. Ele tocava com graça e uma afinidade que me deixava sem fôlego. Desci as escadas maravilhada. O piano, Harry com seu corpo tatuado e a neve caindo atrás casavam tão bem que poderiam ser confundidos com uma verdadeira obra de arte. Me aproximei com um sorriso largo, talvez até um pouco emocionada. Eu não sabia o que aquilo significava, mas sabia que era importante. Ele sorriu também ao perceber minha presença, mas não parou. Continuou a música até o fim e eu me deliciei com aquele raro momento tentando ao máximo guardar cada segundinho em minha memória.

Ele terminou e suspirou sorrindo satisfeito.

—Bluestone Alley — disse o nome da música despretensiosamente — É uma das minhas músicas preferidas.

—Eu sei — Harry sorriu convencido — Você cantarolou ela no banho por meses — sorri surpresa por não perceber que fazia isso.

—Sério? — ele concordou com a cabeça

—Claro que eu levei um tempo pra descobrir qual era a música já que você como cantora é uma excelente estilista. – Gargalhei me sentando ao seu lado.

—Deixo pra você toda a parte de talento musical dessa relação. — ele riu fazendo carinho em minha coxa, enquanto eu deitei minha cabeça em seu ombro. Toquei nas teclas do piano fazendo barulhos nada harmônicos.

—Nunca tinha te ouvido tocar

—Eu te devia uma música, não é? — ele sorria tranquilo — Você gostou?

—Eu amei – Minha voz saiu tão suave que eu nem reconheci. Espremi os lábios sabendo que poderia ser um erro, mas mesmo assim pedi – Pode tocar mais uma?

Harry acenou com a cabeça. Se endireitou um pouco, se concentrando. Seu sorriso sumiu dando espaço a seriedade, respirou fundo e esticou os dedos sobre as teclas. Eu reparei em cada gesto dele, em como se movia conforme a nota. Seus ombros largos e relaxados, sua pequena mecha ondulada que atravessava seu cenho franzido. Seus dedos longos de artista se movendo com delicadeza para criar a magia que era a melodia de ‘Can’t help falling in love with you’ no piano.

Eu só podia chamar de magia porque as sensações que aquele momento me trouxe não tinha explicação. A linda música invadia meus ouvidos, mas parecia entrar pela minha pele também, percorria minha carne, se tornando parte do meu ser.

Fechei os olhos por alguns segundos.

Não sabia de onde vinha aquilo tudo, mas só aumentou e foi maravilhoso. Eu não saberia dizer o que era, mas eu entendia, sentia toda e cada uma das emoções que me eram concedidas. Mal ousava respirar só para poder sentir aquilo mais afundo. Olhei para Harry mais uma vez e quase pude ver a música fluir entre nós. Se aquilo não era magia, então eu jamais poderia nomear.

Quando ele parou, quando o silêncio substituiu a música, ele soltou um suspiro quase dolorido. Palavras foram desnecessárias naqueles longos segundos, a atmosfera entre nós era quase palpável.

—Você sentiu? – Meus olhos estavam cheios d’água e eu precisei me esforçar para emitir um fraco “Uhum”. E ele sorria satisfeito – Foi por essa sensação que eu decidi que queria ser músico. – seu sorriso ficou mais discreto, de canto meio acanhado, como se estivesse me confiando um segredo. Continuei observando-o sem conseguir dizer uma palavra.

Senti uma pontada de tristeza ao pensar o quão mal Harry precisou ficar para renunciar àquilo. Então ele sorriu outra vez passando as mãos pelo piano e meu coração se encheu de esperança. Não era só uma música, era também uma promessa de dias melhores.

Toquei seu ombro com delicadeza fazendo-o se virar para mim. O puxei pela nuca até que encostasse sua testa na minha.

—Obrigada por dividir um pouco dessa magia comigo – ele sorriu erguendo a mão e enfiando-a entre meus cabelos segurando firme minha nuca e me levando até ele. Fechei meus olhos quando nossos lábios se tocaram ainda extasiada.

Nosso domingo foi calmo e preguiçoso. Harry fechou o piano e fizemos algumas panquecas, depois fomos direto para o sofá. Eu não forcei uma conversa sobre aquilo, qualquer coisa que estivesse mudando nele me parecia muito bom, então que ele fizesse em seu tempo.

***

Segunda de manhã Max me buscou como o combinado, mas logo estávamos em casa para nos prepararmos para a festa naquela noite. Chegamos no evento consideravelmente cedo. Como de costume os paparazzis estavam na frente do prédio e eu me preocupei.

Quando me virei para Harry vi sua feição alegre se tornar rígida, ele sabia. Tudo parecia um pouco caótico fora do carro. Desci primeiro e os gritos e flashes começaram, tentei sorrir, mas estava tensa. Harry veio logo atrás, desceu elegantemente, mas quando dei o primeiro passo notei que sua mão não estava em mim e seus pés não se moveram. Recuei tranquilamente em um movimento quase imperceptível e segurei sua mão.

—Tudo bem – sussurrei em seu ouvido confiante.

Ele apertou minha mão respirando fundo, assentiu e com a cabeça erguida deu o primeiro passo ao meu lado. Caminhamos com tranquilidade entre eles como se fizéssemos aquilo todos os dias, eu sorri e acenei, e quando entramos suspirei aliviada.

Max precisava checar os últimos detalhes, então fui até o salão com Harry para encontrar uma pessoa que eu sabia que já estava ali.

—Olha só, se não é meu casal preferido em todo o mundo! – Ed nos cumprimentou animado

—Ed? – Harry parou confuso

—Ed me enviou mensagem dizendo que estava na cidade e o convidei – segurei o braço de Ed um pouco culpada – Não vai ser nada muito interessante, mas estou feliz que tenha vindo.

—Não perderia a chance de ver meu amigo – Ed apertou o ombro de Harry e lhe lancei um olhar agradecido. Ele sabia que estava lá apenas para que Harry não se sentisse tão avulso. – Tudo bem, eu vou ao banheiro e encontro com vocês no bar

Eu sorri vendo-o se afastar satisfeita, tudo sairia perfeitamente bem naquela noite.

—Tem alguma coisa que você não tenha arquitetado, senhorita Scott? – Harry chamou minha atenção, e pra variar me fiz de desentendida

—Não sei do que está falando – passei meu braço pelo dele animada – Vamos até o bar!

***

—Hoje temos um cardápio de drinques especial para a N.S. gostariam de dar uma olhada? — o barman ofereceu

—Ah, por favor! – pedi animada

—E então, o que temos de interessante? — Harry perguntou e eu prontamente segurei sua mão colocando o cardápio nela

—Me diz você! – mais uma vez ele não entendeu. Então esfregou o dedo no cartão sentindo os primeiros pontilhados em relevo. Assim o apoiou no balcão e pode finalmente ler os drinques e seus ingredientes.

Eu o observava cheia de expectativas. Sabia o quão chato era ir a restaurantes que não disponibilizavam os cardápios em braile, o que era a grande maioria. Aquele simples gesto que eu havia pedido para Max a duas noites garantia uma autonomia que Harry raramente tinha.

—Você... – Harry abaixou a cabeça quando sentiu sua voz falhar. – Não acredito que fez isso.

—Não deveria ser nada extraordinário – dei de ombros

—Vem aqui – ele tateou o ar até encontrar minha mão, me puxou para si e me beijou sem pudor algum. Aquilo era uma baita demonstração pública de afeto e ele nem sequer pensou duas vezes antes de fazer. Então entendi que talvez ele não pudesse usar as palavras para me transmitir toda a emoção que meu gesto simples havia despertado.

Agradeci imensamente quando Harry não me soltou ao separar nossos lábios, provavelmente eu cairia estatelada no chão. Aquele beijo havia me deixado com as pernas bambas.

Harry depositou um beijo delicado em meu pescoço e abriu a boca para me dizer algo, mas Max o interrompeu abruptamente:

—Pelo amor de Cleópatra, vocês dois querem um quarto?

POV Harry

—Eu ia perguntar a mesma coisa — Ed apareceu também.

Nina escondeu o rosto em meu peito provavelmente um pouco envergonhada. Eu simplesmente esqueci que estávamos no meio de um monte de gente, mas pela primeira vez não me importei.

—A gente se contenta com uma salinha — respondi Max sabendo que aquilo o deixaria mais irritado.

Ouvi o riso de Nina e Max bufando. Sabia que tinha atingido meu objetivo.

—Precisam de você para algumas fotos. – Nina suspirou em meus braços sabendo que agora era a hora de me deixar.

—Escolhe um drinque pra mim? — pediu e eu assentiu abrindo meu melhor sorriso. Talvez ela não tivesse ideia do quanto aquilo significava pra mim. Podia ser algo simples, mas ainda era algo que ninguém tinha o cuidado de fazer mesmo que estivesse na lei.

Nina me deu um selinho rápido e saiu. Suspirei feliz escutando os saltos dela estalando no chão do salão ao se afastarem.

—Sorria enquanto pode, Harold — Max chamou minha atenção outra vez. Eu nem mesmo me lembrava que ele estava ali — vamos ver até onde isso vai.

Não me atrevi a tirar meu sorriso do rosto, ele queria me tirar do sério. Max nunca gostou da ideia do que eu e Nina pudéssemos ter, nem mesmo quando não tínhamos nada. Agora devia estar se rasgando.

—Melhor você se acostumar com esse sorriso — apontei para meus dentes bem expostos — Não sei se percebeu, mas o amor é realmente cego!

Ouvi Ed tentando segurar a risada e Max saindo irritado.

—Cara! — Ed gargalhou quando só estávamos nós dois — Você é o melhor!

POV Nina

Depois das fotos, entrevistas e de recepcionar muita gente foi a vez de estreitar meu relacionamento público com Kylie. Passamos boa parte da noite conversando como super amigas intimas e quando nos era perguntado a respeito de uma futura parceria apenas desconversávamos como duas ladys.

Assim que consegui encontrei Harry e Ed rindo como duas crianças

—Quero saber a piada – brinquei sentindo Harry me abraçar pela cintura assim que me notou ao seu lado.

—E não me deixem de fora também – Kylie apareceu atrás de mim, me pagando de surpresa. Estava ali algo que eu não tinha arquitetado, o encontro entre Harry e Kylie.

—Kylie – Ed acenou com a cabeça e ela sorriu para ele

—Harry.. – ela sorriu sincera e eu prendi a respiração

—Como vai, Kylie? – Harry perguntou totalmente descontraído

—Muito bem, e você?

—Ótimo – ele sorriu discreto ainda abraçado a mim – Parabéns pelo bebê, aliás, Niall disse que ela é uma graça!

Eu amava esse Harry todo comunicativo e descontraído, mas ainda era estranho.

—Oh, Stormi! Sou suspeita para dizer, mas acredito que Niall esteja certo.

—Ela é linda mesmo – Ed completou

—Você iria adorá-la, Harry – Kylie se empolgou demonstrando toda a intimidade que tinha com ele e eu pela primeira vez me senti uma completa intrusa – Ela é tão esperta.

—Oportunidades não vão faltar para conhece-la – tentei me incluir sem parecer completamente engessada

—Com certeza! – Kylie sorriu para mim talvez até animada – Bem, foi ótimo vê-los.

—Igualmente – Ed e Harry responderam em coro

—E... – ela parou por um instante fitando o chão, mas logo voltou-se para mim – Fico feliz por vocês! – sorriu sincera e se retirou

Depois de alguns segundos de silencio Ed constatou:

—É. Vocês acabaram de receber a benção de Kylie Jenner

—Pode voltar a respirar agora – Harry sussurrou rindo para mim

Eu não sabia o que me era mais estranho, Kylie e Harry em sua super intimidade e sua positiva quanto a nós, ou a extrema tranquilidade de Harry com a situação.

***

POV Harry

Nina esperou até que todos tivessem ido embora, agradeceu mais uma vez todas as pessoas que trabalharam como apoio na festa e pediu que Max chamasse um carro pra nós. Quando chegamos em casa já eram quase três e meia da manhã. Fechei Berta assim que entramos no quarto, era o lugar onde eu mais tinha familiaridade. Caminhei até o móvel do lado da cama deixando ela e meus óculos por lá. Tirei a camisa de dentro da calça e comecei a desabotoá-la.

—Kylie foi perfeita hoje — Nina comentou animada entrando no banheiro — Todos ficaram intrigados, vamos bombar com o lançamento de abril. — senti ela se aproximar — Abre meu zíper?

—Se ela usar toda a criatividade que tem pra criar nomes — debochei esticando os braços e encontrando sua cintura. Subi as duas mãos sentindo os detalhes de seu macacão, ele tinha algumas flores em alto relevo e talvez umas pedras. Ela devia estar linda.

Ouvi o som de sua risada divertida enquanto descia o zíper devagar e acariciei sua pele nua. Senti ela se arrepiar e sorri satisfeito.

—Stormi... — pronunciou

—Pois é, Stormi... – repeti intrigado — Quem em sã consciência coloca o nome da filha de Stormi?

Ela riu outra vez e se afastou de minhas mãos

—A irmã de alguém que coloca Chicago. — Nina aumentou o tom entrando no banheiro de novo, me lembrando da proeza de Kim

—Claro! — Ri e ela me acompanhou

—Não sei o que o senhor tá falando — ela abriu a porta provavelmente me olhando — você é o tipo de pessoa que chamaria sua filha de Brooklyn apenas por um sentido poético oculto.

Sorri surpreso enquanto tirava o resto de minhas roupas com a afirmação de minha namorada, eu realmente era esse tipo de pessoa.

—Brooklyn Styles – disse em voz alta e gostei – É um bom nome!

-Pior que não ficou ruim — ela se animou comigo voltando para perto

—Sabia que você também era o tipo de pessoa que gostava de nomes exóticos — rimos juntos enquanto puxávamos o edredom da cama.

Tateei meu espaço e pude sentir o colchão se mexer quando ela deitou também. Um silêncio reconfortante tomou conta do quarto após um longo suspiro dela. Virei em sua direção, buscando sua mão embaixo das cobertas. Entrelacei nossos dedos.

—A festa foi ótima, amor. Você com certeza vai mudar o mundo – Ouvi sua risada contida – É sério, obrigada por hoje – minha voz saiu como um sussurro se contrapondo perfeitamente com o silencio.

—Acho que sou eu que tenho que agradecer. – seu tom ainda era risonho – Eu sei que você não queria ir...

Eu sabia que ela estava desviando o assunto.

—Você sabe do que eu tô falando, Nix. – Interrompi. Não queria entrar em detalhes, eu entendia o motivo de ela não querer dar a devida importância ao cardápio, mesmo assim, eu queria que ela entendesse a importância que aquilo tinha tido pra mim.

—Eu sei – ela concordou um pouco séria. Me entendia perfeitamente, sem eu precisar dizer muito.

—Eu realmente me diverti hoje – confessei e ela comemorou quase silenciosa – Convidar o Ed foi um truque de mestre – admiti

—Se consegui fazer você se divertir numa festa dessas, então o céu é o limite – dessa vez ela não se conteve ao comemorar – Agora me conta, como sabia que minha roupa era roxa?

Soltei um suspiro longo como se ela tivesse me derrotado.

—Tudo bem, você me pegou, esse lance de não enxergar é uma farsa, eu vejo tudo, mas finjo que não para impressionar as garotas

Ela gargalhou

—Engraçadinho! – Nina me empurrou de leve e logo me se debruçou sobre mim.

—Ok, você só é previsível mesmo – ela soltou um riso anasalado, então me dei por vencido – Você me disse algo sobre querer fazer da cor sua marca registrada...

—Eu disse?

—Estávamos bêbados – rimos – Sophia também me contou tem um tempo sobre sua leve obsessão pela cor.

—Contou, é?

—Foi... – pensei naquele dia, em como eu estava destroçado e em como Nina era como morfina para minha dor. Talvez nem tudo tenha mudado, mas eu não me sentia tão quebrado quando naquela época.

Pensei em cada coisa que Sophia tinha me contado, eu ainda não tocava Nina como agora, éramos apenas amigos.

Deslizei meus dedos por seu cabelo macio colocando-o para trás de seus ombros.

—Ela me contou da sua mecha escondida – puxei pra frente apenas a mecha roxa – que eu provavelmente ia descobrir

—Tô começando a acreditar que você enxerga. – eu sentia em seu tom de voz o riso em seu lábios. Daria tudo no mundo para ver aquele sorriso.

—A textura é diferente – expliquei acariciando a mecha

Nina se debruçou mais sobre mim até que nossos lábios se tocassem. Foi um beijo tranquilo, cheio de sentimentos e sem peso algum. Era tão simples e fácil que até dava medo. Mesmo assim era como se eu finalmente estivesse voltando a viver, como se os últimos meses eu só tivesse existido, esperando ela voltar e iluminar meu caminho outra vez. Então ela nos separou deitando ao meu lado com uma perna sobre a minha, um braço entrelaçado no meu e o outro sobre meu tronco sem me soltar. Nina não queria ficar longe.

O silêncio continuou por mais alguns segundos então após um longo suspiro ela sussurrou:

—Eu gosto de Maeve. Ou Louisa – levei alguns segundos para entender – Maeve Styles

Eu fechei meus olhos e sorri instantaneamente, nunca imaginei esse tipo de conversa saindo dos lábios de Nina Scott. Queria aproveitar ao máximo aquilo, mas logo ela abafou o riso no travesseiro.

—A gente namora há dois dias e eu tô colocando seu sobrenome nos meus filhos. Puta merda! – Estava tão surpresa quanto eu. Senti seus olhos em mim, e suas mãos subiram até meu rosto acariciando-o com delicadeza – O que você fez comigo, senhor Styles?

Continuei sorrindo. Eu realmente não sabia o que tinha feito, mas esperava nunca parar.

—Se chamarmos nossa filha de Louisa, Louis vai se achar super importante.

—Ah, verdade. – ela concordou já sonolenta – Não podemos dar esse gostinho a ele.

***

Os saltos de Nina estralavam pela cozinha já enérgicos, enquanto eu prestava atenção no som da chaleira esquentando a água.

—Vou tentar não demorar, vamos só resolver as últimas coisas — estava acelerada outra vez logo as 7 horas, isso porque tínhamos acabado de dormir — Qualquer coisa mando uma das meninas trazer o almoço ou dou uma escapada — fez um estralo com a boca — não, não tem como...

Senti ela se movimentando outra vez atrás de mim, me virei esticando os braços a sua procura, sabia que ela viria até mim e assim o fez. Envolvi sua cintura e tentei tranquiliza-la.

—Não precisa se preocupar comigo.

—Eu sei — ela suspirou finalmente relaxando em meus braços.

—Sawyer está aí embaixo, se precisar de alguma coisa falo com ele.

—Sawyer? Ah, o segurança. Você o conhece?

—Não, mas Louis sim, vai ficar tudo bem. — a apertei contra meu peito depositando um beijo delicado em seu pescoço. Pude ouvi-la suspirar outra vez antes de me dar um selinho longo. Logo seu celular apitou.

—Max está aí embaixo. Vou tentar não demorar, prometo.

—Não precisa se apressar – Lhe dei um sorriso tranquilo.

Ouvi a porta abrindo então ela parou por um momento.

—Ah, talvez você encontre algo interessante pra ler no escritório. — sua voz tomou um tom instigante

Tentei segurar a risada. Nina tinha um extremo cuidado com a minha deficiência, ainda assim em vários momentos ela simplesmente a deletava da cabeça. Eu adorava isso.

—Algo que eu possa ler? — debochei esperando o doce “esqueci” envergonhado. Mas pra minha surpresa ele não veio. Invés disso Nina usou um tom esperto

—Você me subestima, senhor Styles. — Soltou um leve riso — Não esqueça que eu te amo. — e a porta se fechou.

Nina queria e conseguiu plantar uma instigante dúvida em minha mente. Esperei ansioso a água do chá e quando finalmente estava pronto fui em direção ao escritório querendo entender o que Nina queria dizer.

O lugar não era grande, mas eu sabia que ela tinha deixado o que quer que fosse onde eu pudesse encontrar. E foi bem em cima da escrivaninha que senti outra vez os pontilhados em braile:

“Sherlock Holmes — A liga dos cabeças vermelhas”

Nina tinha dito que arrumaria mais livros em braile, mas não achei que fosse sério. Livros em braile não são impossíveis de se achar, mas são bem incomuns. A produção é complicada e nada barata. Um livro em braile precisa ser enorme para que caibam todos os pontilhados necessários para que a história seja contada. Assim, é muito mais simples que nós cegos nos contentemos com livros em áudio. Poderia ser interessante se a maioria das vozes não me deixasse irritado.

E lá estava, um exemplar totalmente em braile para que eu me distraísse tranquilamente. Sorri ainda deslizando meus dedos pela capa do livro. Nina era uma mulher ardilosa, e eu amava isso.

Encontrei uma poltrona por lá e mergulhei no conto onde Sherlock Holmes investigava um assalto a um banco. Me perdi completamente no tempo, quanto mais eu lia, mais me envolvia na história. Nem mesmo percebi as horas passando e só fui me lembrar da vida quando ouvi a campainha. Pensei até que fosse minha imaginação me pregando peças, afinal pela lógica ninguém subiria sem ser anunciado antes. No segundo toque entendi que alguém realmente estava ali, provavelmente uma das assistentes.

Apertei meu relógio tentando me localizar.

“Duas horas e dez minutos”

Eu raramente atendia portas. Primeiro porque as pessoas simplesmente entravam em casa sem bater, segundo porque sempre tinha alguém em casa. E de repente aquilo pareceu um pouco assustador, atender a uma porta que não era minha e sem poder ver quem esperava do outro lado.

Caminhei vagarosamente até a ela, não queria esbarrar em nada por acidente, ainda estava meio cru no ambiente. Girei a maçaneta sentindo um frio entranho na boca do estomago e como imaginei, dei de cara com um silêncio angustiante.

Demorou alguns segundos para que a pessoa finalmente dissesse um fraco e baixo:

—Oi.

—Olá – sorri um pouco sem graça – Posso ajudar?

Mais alguns segundos se passaram

—Sou eu, Harry. – Ela estava envergonhada, tinha um cheiro doce, talvez doce demais. E estava nervosa, sua respiração era rápida.

—Desculpe... – eu balancei a cabeça frustrado por não conseguir reconhecê-la.

—Kenny. – Um soco teria sido menos surpreendente do que aquilo. Meu estomago se revirou e meu corpo inteiro se arrepiou, não de um jeito bom. Era estranho e frio. – Será que a gente pode conversar?

—Como você...

—Disse ao porteiro que era a nova assistente e que se ele não me deixasse subir a senhorita Scott iria matá-lo. – ela riu relaxando um pouco enquanto meus ombros só ficavam mais tensos – Não vai me convidar para entrar?

Sua voz saiu doce como seu perfume e em minha mente pude ver claramente suas expressões quando tentava me convencer a fazer algo.

—Não acho uma boa ideia – Respondi desconfortável

—Então vamos sair! Almoçar, tomar um café, talvez um chá? – ela parecia ter tomado coragem, estava segura e persistente.

—Kendall...

—Olha, eu tenho certeza de que Nina não vai gostar de me encontrar por aqui, e eu vim de Los Angeles só pra te ver, então por favor, vamos dar uma volta. – ela suplicou com a voz tremula e eu não conseguia organizar meus pensamentos, sentimentos. Só sabia que aquilo não estava certo. Eu entreabri os lábios tentando dar-lhe uma negativa, mas não consegui. Kendall e eu nunca tivemos um ponto final, e isso era tudo o que me faltava para que pudesse deixá-la pra trás de vez. Então, quando percebi já estava mandando uma mensagem para o celular de Sawyer.

Me troquei completamente no automático, como se aquilo fosse apenas um sonho estranho e assim foi até a porta do prédio.

—Senhor Styles? — a voz forte e imponente veio de encontro conosco.

—Sawyer? — estendi minha mão e ele a apertou

—O carro está bem a frente.

—Ótimo. Pode me emprestar seu braço, Sawyer? — pedir ajuda nunca era algo fácil, dessa vez foi pior por estar perto dela, mas negar minhas necessidades só tornaria tudo mais complicado.

—Com certeza, senhor. — Sawyer prontamente se posicionou a minha frente encostando seu braço em minhas mãos. Ele já havia trabalhado com deficientes visuais.

Antes que eu pudesse me dar conta estava sentado em uma confeitaria que Kendall e eu costumávamos ir. Eu ouvia as máquinas fazendo os doces na cozinha, mas não existia movimentação na loja, principalmente onde estávamos.

—O que vão querer beber? – uma voz masculina se dirigia a nós

—Vai querer chá? – Kendall perguntou e eu apenas assenti – Dois de lichia, por favor – Ela pediu o sabor que adorávamos, e a nostalgia ia me abalando aos poucos.

O cheiro de canela e açúcar do lugar me era muito familiar. Passei os dedos pelos desenhos em relevo das xicaras quando elas chegaram, eu lembrava de cada detalhe. Lembrava de nossos passeios de fim de tarde no frio quando Kendall decidiu morar sozinha. Passávamos o dia na cama e de tardezinha íamos caminhando para a confeitaria, comíamos donuts e tomávamos o delicioso chá da casa. Lembro de não precisar de mais nada no mundo.

—Eu pedi para fazerem os donuts que você gosta – ela disse desconfortável, não tínhamos dito nada no caminho.

Eu lembrava como se ainda fosse ontem das nossas caminhadas pelas ruas de pijama porque nada era suficientemente sério para nos incomodar. O vento batia em seus cabelos e seu sorriso era mais iluminado que a luzes da cidade. Ela estava radiante com a liberdade de morar sozinha.

—Está uma delícia! — ela gemeu com o donuts nos lábios — Aquele som, o cheiro, o perfume dela. Podia sentir a pressão das paredes me sufocando.

Pigarreei afastando um pouco o moletom de meu pescoço.

—Tá bem quieto por aqui

—Eu paguei pra que fechassem quando chegássemos — ela confessou num tom envergonhado — Sei que você prefere lugares com mais privacidade.

Tomei um gole do chá.

—Sinto falta dessa cidade. – eu era capaz de ver seu sorriso de canto através de suas palavras – Tenho ficado muito em LA, não o suficiente pra minha mãe me enlouquecer de vez, você sabe – soltou uma risada nervosa – Ela continua a mesma, um pouco mais ranzinza. – Apenas ouvia esperando para ver aonde ela queria chegar. Me sentia totalmente na defensiva e mesmo assim algo nela me tocava. – Estive na Itália um tempo atrás, naquela ilha. Só conseguia pensar em você e em seus shorts fluorescentes – ela riu mas a tristeza era nítida em sua voz. – e em como todas as cores pareciam se encaixar... como tudo parecia se encaixar.

Aquilo doía em mim também. Era horrível pensar em todo o tempo feliz que passamos juntos, em todos os momentos, planos e sonhos. E depois ter tudo interrompido de uma forma tão drástica. Queria que ela não tivesse significado nada. Queria não ter que lidar com ela ali porque aquilo me deixava atordoado, confuso. E me sentir tocado por suas palavras parecia quase perigoso.

Foi então que pensei em Nina e no quanto estávamos felizes nos últimos dias, meu coração pareceu crescer com os sentimentos que ela me proporcionava. Eu era completo com ela, forte. Me dei conta de que não tinha nada a fazer ali.

—O que você quer, Kendall? – fui tão direto que talvez a tenha assustado.

—Eu já disse, conversar – franzi a testa – Eu... – fez uma pausa – Sinto falta de conversar com alguém que me entenda. Ou que se importe o suficiente pra tentar entender. – Um longo momento de silêncio se fez. –Sabe, estive em muitos lugares nos últimos anos, conheci muitas pessoas, provei todos os tipos de coisas, e tudo o que eu consegui foi me sentir vazia.

Engoli em seco. Tinha esperado por aquela conversa por dois anos. Me torturei ao longo deles por não ser o suficiente para ela, e de repente eu parecia interessante outra vez.

—Não sei o que você espera que eu diga.

Ela soltou um longo e dolorido suspiro.

—Quero que diga que sentiu minha falta, como eu senti a sua. – meu coração falhou uma batida e de novo aquele frio tomou conta de meu estômago – Sinto sua falta todos os dias. — ficamos em silêncio outra vez. Ela não tinha usado muitas palavras, mas havia criado um abismo de dúvidas. Então tomou coragem de continuar — Eu devia ter ficado, Harry. Devia ter lutado por você, por nós. Não teve um só dia nesses dois anos que eu não tenha pensado em você, não teve um só dia que a culpa não tenha me corroído.

Ela não queria um ponto final, não queria ser deixada pra trás, muito pelo contrário, esperava que eu esquecesse tudo o que tinha me feito sofrer.

De tudo que eu pudesse imaginar, aquilo estava anos luz na frente.

Eu me lembrava dos dias mais sombrios, lembrava que a falta dela quase me matava, a dor de não tê-la comigo era quase física. Levei um bom tempo para aceitar que ela não voltaria, para conviver com a mágoa e a saudade. Não sei dizer ao certo quando deixei de sentir sua falta, ou mesmo se deixei...

Afastei os pensamentos confusos lembrando que tudo era passado, ela tinha sido importante, mas hoje não passava de uma estranha. Meu presente era tão mais doce e leve. A risada de Nina invadiu minha mente e a lembrança de seu perfume fez com que meu coração se acalmasse.

—Isso já não importa. – respondi o mais tranquilo possível – Seguimos nossos caminhos e acabou sendo o melhor.

—Imagino que pra você sim. – ela firmou a voz mesmo emocionada – Vi suas fotos com Nina.

O ciúme foi nítido e aquilo sim me irritou

—O que você queria, Kendall? Que eu esperasse naquela cama até você voltar atrás?

—É claro que não, eu só... – ouvi seus soluços desesperados sem realmente me comover – Sinto sua falta. Eu fui tão estúpida, era nova e idiota...Eu fui até hospital, Harry, mas fiquei tão assustada, eu...

—Foi ao hospital?

—Fui – ela chorou e eu senti o coração apertar, estava sendo verdadeira – Você tinha acabado de acordar, já havia alguns boatos. Entrei no quarto quando sua mãe e Gemma tinham saído. E vi você deitado naquela cama com um monte de fios e... estava abatido, com os olhos fixos e vazios, eu não te reconheci. Fiquei apavorada e fugi. Eu achei que não tivesse forças, fui tão estupida...não conseguia entender que nada mudaria.

Cada palavra fazia o amargor em minha boca se prolongar. Meus olhos continuavam fixos e vazios e continuariam assim pra sempre, junto com todas as minhas limitações e provavelmente algumas inseguranças. A verdade é que o cara naquela cama de hospital não era o namorado de Kendall, e ela tinha razão em ficar apavorada, nada tinha sido igual a partir dali. E mais uma vez eu tinha uma pessoa na minha frente chorando por alguém que não existia mais. Eu sabia que não tinha obrigação nenhuma de lidar com seus arrependimentos, mas algo dentro de mim dizia que aquilo era mais sobre mim do que sobre ela.

Estiquei minha mão para que ela a segurasse e não me surpreendi quando meu coração acelerou com seu toque.

—Tudo mudou, Kenny. – Minha voz foi calma e serena, eu tinha segurança e talvez até estivesse em paz com aquilo – Eu não sou a pessoa de quem você sente falta.

— Eu não acredito nisso. – Ela contestou – Quando nos encontramos no desfile, eu vi que ainda era você. Só o seu sorriso, ou um simples toque – disse acariciando minha mão – Ainda faz as borboletas voarem em meu estomago. – ela suspirou – Eu dormi com meio mundo e ninguém me fez sentir o que eu sentia com você.

Não sei por que aquilo me incomodou e recolhi minha mão desconfortável.

—Ainda tem raiva de mim, não é?

—Não é raiva...

—Então por que tem que agir assim, Harry? Por que não pode me dar mais uma chance?

—Mais uma chance? – ri sarcástico – Só pode estar brincando

—Acha engraçado eu me humilhar assim? Praticamente implorando para nos dar mais uma chance? – notei a cadeira se arrastar e sua voz se elevou, estava de pé em minha frente exaltada – Podemos voltar a ser o que éramos!

Me levantei também sem paciência para aquele tipo de comportamento, ela não gostava de não conseguir o que queria.

—Você está dois anos atrasada.

Kendall agarrou meus braços desesperada

—Eu estou aqui agora, posso ser melhor!

—Não, não pode!

—Tudo bem, tudo bem, me desculpa – ela me soltou tentando voltar a si – Eu não tenho o direito de te colocar nessa situação, me perdoa. — Ouvia sua respiração descompassada, sabia que ela estava tentando se manter calma. Kendall podia ser mimada, mas também era consciente. Ela sabia os erros que tinha cometido e eu tinha certeza de que seu desespero era por entender que aquilo nunca poderia ser reparado. – Vamos terminar o chá, por favor.

Me sentei outra vez escutando-a se acalmar aos poucos, enquanto eu fazia o mesmo. Massageei minhas têmporas pensando em como odiava coisas mal resolvidas. Não queria ser grosseiro, e por mais que um dia ela tivesse me feito sofrer, não queria que ela sofresse por mim. Aquilo me angustiava tanto que até me faltava ar.

— Você a ama? – ela perguntou com um tom que pareceria suave a ouvidos comuns, mas eu a conhecia, teria percebido de longe a mágoa que estava sentindo.

Apertei a bengala com força entre as mãos. Tinha perdido as contas de quantas pessoas tinham me feito essa pergunta na última semana.

—Sim.

Kendall soltou um som estranho que parecia um algo entre uma risada e um gemido. Eu sabia que estava chorando outra vez, e mais uma vez me senti mexido. Não pelo sentimento que ela dizia sentir, não sabia se acreditava nela. Mas por ela estar tão perdida a ponto de achar que precisava de mim. Terminamos o chá em silêncio e assim continuamos todo o caminho até seu apartamento.

Quando o carro parou em frente ao prédio de Kendall eu disse sem poder esperar mais:

— Obrigada pelo chá – ouvi seu riso anasalado

—Continua sendo um cavalheiro, não é? – ela suspirou – Não precisa agradecer. Na verdade, acho que te devo desculpas. A lista de motivos é grande, mas dessa vez é pelo chá. – Franzi a testa sem entender – Eu não devia ter vindo. Quando vi as fotos... – a voz de Kendall falhou – Eu precisava tentar.

Suspirei fundo. Sim, ela precisava, se não tentasse não seria a Kenny. Coloquei minha mão em sua perna com o coração tranquilo pela primeira vez em anos.

—Está tudo bem.

Pude ouvir ela fungando mais uma vez enquanto o vento gelado entrava pela porta. Ela desceu e eu finalmente pude respirar. O que quer que precisássemos resolver continuava emaranhado, mas dentro de mim tudo fazia sentido.

Parte de mim sempre a amaria, talvez fosse os últimos resquícios do velho Harry, mas o fato era que nosso tempo tinha passado, e eu ansiava por um futuro onde ela não tinha espaço.

Suspirei exaustou, e esperançoso.

—Tudo bem, Senhor Styles?

—Pode me chamar de Harry, Sawyer. — respondi massageando as têmporas — Você é daqui de Nova York?

—Sim, senhor.

—Então sabe onde encontrar manjericão fresco?

Um breve silêncio foi feito

—Em dezembro? — ele parecia me achar um louco e eu apenas sorri — Não vai ser o manjericão mais barato que o senhor já viu.

—Acho que a ocasião merece algo especial.

***

POV Nina

Senti um cheiro incrível logo que o elevador abriu no meu andar. Entrei em casa encabulada dando de cara com o breu da noite.

—Que casa escura! – gritei ouvindo barulhos e um silencioso murmúrio animado. Acendi as luzes correndo, encontrando Harry na cozinha

—Não ia gastar luz à toa – ele respondeu parecendo divertido enquanto mexia uma panela. Mais uma vez... aquilo era novo.

Larguei a bolsa, tirei os sapatos e o casaco logo na entrada. Me debrucei sobre a ilha ainda o observando.

—Como foi seu dia? — ele me perguntou

—Muito bom

—Perfeito! — bateu palmas animado — Mas agora vai ficar ainda melhor, vai experimentar meu extraordinário pesto! — Eu ri de toda aquela energia — Onde você está? — Harry largou tudo no balcão e estendeu as mãos — Por que está tão longe?

Me joguei em seus braços e ele mergulhou o nariz em meus cabelos, então beijou meu pescoço e continuou com vários beijinhos por todo meu rosto, não pude deixar de rir.

—Amor... — ele se afastou sorrindo pra mim, estava satisfeito

—Eu amo tanto a sua risada — eu ri outra vez, beijei-lhe a bochecha e ele me soltou

—Como foi o seu dia? — perguntei desconfiada

—Bizarro! — ele respondeu divertido — E durante um lampejo esperançoso pensei que nunca tinha feito meu pesto fantástico pra você. Por sorte, Sawyer é nova-iorquino e sabia onde achar manjericão fresco. A massa está quase no ponto.

—O que aconteceu de tão bizarro, e por que está tão animado?

Ele me abraçou pela cintura outra vez e suspirou. Pude sentir a energia por um segundo abaixando e um sorriso de canto menos confiante apareceu.

—Kendall veio me ver. Fomos tomar chá e ela disse que sentia muito, algo sobre querer uma segunda chance — o tom ansioso de sua voz fez com que a energia aumentasse outra vez, ele me soltou rápido demais eu mal tinha conseguido assimilar tudo. Tentei respirar fundo e parecer tranquila, mas sentia um aperto no peito, um sentimento esquisito.

—E você me diz isso assim?

—Achei que era melhor dizer de uma vez. Não é algo que precise se preocupar, está tudo bem.

Ele voltou sua atenção para a massa e eu apenas o observava um pouco sem acreditar.

—Quer dizer que não sentiu nada? — meu tom podia quase passar por tranquilo, se não fossem os cutucões de um ciúme avassalador me incomodando

Ele parou por um segundo

—Defina sentir...

—Harry... — fechei os olhos com toda força, tentando conter minha irritação

Harry escorreu a massa em silêncio e finalmente se virou pra mim sem toda a animação de alguns minutos.

—O tempo todo que estávamos juntos eu só conseguia pensar em como as coisas estavam desorganizadas dentro de mim, em como aquilo era incômodo e como meus sentimentos estavam confusos. — ele esticou as mãos me procurando, acariciou meus braços e sorriu tranquilo — A única coisa que me dava um foco, que me reorganizava era lembrar da sua risada.

Em uma rapidez inesperada fui invadida por lágrimas, as palavras de Harry me trouxeram um alívio que eu nem sabia que precisava. Acariciei seu rosto com delicadeza mais uma vez lutando para conter a emoção que me dominava. Joguei meus braços em volta dele apertando o quanto podia. Ele me apertou de volta e eu me senti tão aquecida e segura que não aguentei segurar as lágrimas.

—Amor... — Harry me afastou segurando meu rosto em uma das mãos — Tá chorando mesmo?

—Ah Harry...

—Nix, pelo amor de Deus...

—Eu já tava imaginando vocês dois com 3 filhos e 2 cães guias em uma mansão na Califórnia.

-Puta merda, Nina! Você não ouviu nada do que eu disse nos últimos meses? — mordi o lábio inferior emocionada

—Não. Sou idiota. — ele riu de mim balançando a cabeça

Desceu uma das mãos até minha cintura e a outra até minha nuca.

—É com você que eu quero uma mansão na Califórnia, 3 filhos... — tombou a cabeça por alguns segundos com um sorriso de canto fazendo um adendo — e apesar de não entender o sentido, topo 2 dois cães guias também — rimos da minha loucura, então ele umedeceu os lábios piscando algumas vezes — Você é a mulher da minha vida.

Me puxou pela nuca e me beijou fazendo com que toda sua energia vibrante me invadisse. Nossos lábios seguiam o mesmo ritmo e embora fosse um beijo cheio de urgência havia toda a calma de Harry que se misturava bem com meu alívio. Eu queria ser muitas coisas na vida, e naquele momento percebi que ser a mulher da vida de Harry estava entre as primeiras.

Ele mergulhou os dedos em meus cabelos enquanto ia tirando minha blusa desajeitadamente com a outra mão. Puxei sua camiseta pra cima e separei nosso beijo para arrancá-la. Pela cintura com facilidade me colocou em cima da ilha. Conseguiu se desfazer de minha blusa beijando meu pescoço e seguindo até encontrar minha boca outra vez. Harry mordeu meu lábio lentamente, encostou nossas testas e sorriu.

—E o pesto? — perguntei ofegante de desejo

—Ele pode vir também — rimos juntos antes de nossos lábios voltassem a se encontrar.

***

POV OFF

As malas haviam sido despachadas, Harry e Nina esperavam para se despedirem de Max e voar de volta a Londres.

—Tudo bem. — ele suspirou chegando até o casal — Meu voo é exatamente na mesma hora do de vocês

—Tem certeza que não vai com a gente? — Nina perguntou a Max

—Passar o natal numa sensação de -11? — ele riu — Tem um homem lindo com Margaritas me esperando em St. Barth. — ele puxou Nina levemente para o lado — Cá entre nós, ainda dá pra trocar sua passagem

Harry soltou uma risada cínica e Nina revirou os olhos dando um beijo no amigo.

—Não faça nada que eu não faria. — Harry riu outra vez, mas Nina só o ignorou

Max a abraçou forte então a segurou pelos dois braços.

—Vá comprar uma água, agora vou falar com o Harold.

—Comigo?

Max virou-se sério ainda segurando Nina

—Se Nina não tem a maturidade de lidar com a própria carreira preciso que você faça isso por ela.

—Max!! — protestou

—Querida, sempre que eu te deixo com esse... — ele olhou Harry de cima a baixo — homem perverso — tossiu tentando esconder suas palavras — você some por dias e acaba com todo nosso planejamento. Não podemos nos dar esse luxo agora.

Ele virou Nina e a empurrou levemente para longe. Ela olhou para traz incomodada, mas fez o que ele pediu.

—Harold...

—Harry. — corrigiu

—Nina PRECISA entrar no avião de volta no dia cinco de fevereiro. — Max foi categórico — Ela tem trabalhado tanto, é o sonho dela, não a deixe estragar isso por você. — Harry abriu a boca mas nada saiu — Você sabe que ela faria...se você precisasse.

Ele engoliu em seco ignorando o veneno de Max. Por alguns dias tinha se esquecido completamente daquela sensação de merda de ser constantemente um fardo.

—Ela vai entrar no avião.

***

Nina observava da fila da lanchonete mais próxima a conversinha de Max e Harry. Aquilo a incomodava, se sentia totalmente capaz de lidar com suas responsabilidades, mas uma voz em sua cabeça fazia questão de lembrá-la o quão irresponsável poderia se tornar. Os pensamentos que a incomodavam simplesmente sumiram quando pegou as águas e ao se virar deu de cara com Kendall a observando.

—Nina. — ela se aproximou com um sorriso irritante nos rosto

—Kendall. — Nina sentiu o impulso de olhar na direção de Harry, mas estava determinada a não fazer.

—Kylie está tão animada para o lançamento — sorriu mais falso do que antes — Vai ser um grande sucesso.

—Espero que sim. — sorriu também dissimulada — Está indo passar o natal em casa?

—Ah sim, vou para LA, e depois planejei férias — Kendall fez uma cara cínica de quem havia percebido a coincidência no exato momento — Ah, vou passar uma temporada em Londres, talvez possamos tomar um café.

Nina sentiu uma onda de raiva e resolveu que a politica da boa vizinhança já não cabia mais ali.

—O que você quer, Kendall? – Kendall estreitou os olhos e cruzou os braços tentando não parecer surpresa com a repentina sinceridade de Nina

—Eu quero ele. – aquilo foi um baque. Nina esperava mais cinismo, uma troca de hostilidade talvez, mas não a verdade escancarada daquele jeito.

Ela apertou as águas em suas mãos se surpreendendo outra vez ao perceber que o que sentia não era raiva. Suspirou e sorriu pela primeira vez sincera.

— Eu sinto muito por você. — deu-lhe as costas sem se importar se ela veria Harry ou não.

Eles estavam juntos agora, pra valer, e nada e nem ninguém estragaria aquilo.

Pelo menos, era o que ela pensava.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.